2025-01-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 3º Domingo do Tempo Comum, 26 de janeiro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. [gravação não disponível]

 


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Evangelho (1,1-4.4,14-21) 

Já que muitos empreenderam narrar os factos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram os que, desde o início, foram testemunhas oculares e ministros da palavra, também eu resolvi, depois de ter investigado cuidadosamente tudo desde as origens, escrevê-las para ti, ilustre Teófilo, para que tenhas conhecimento seguro do que te foi ensinado.
Naquele tempo, Jesus voltou da Galileia, com a força do Espírito, e a sua fama propagou-se por toda a região.
Ensinava nas sinagogas e era elogiado por todos.
Foi então a Nazaré, onde Se tinha criado. Segundo o seu costume, entrou na sinagoga a um sábado e levantou-Se para fazer a leitura.
Entregaram-Lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito:
«O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Enviou-me a proclamar a redenção aos cativos e a vista aos cegos, a restituir a liberdade aos oprimidos, a proclamar o ano da graça do Senhor».
Depois, enrolou o livro, entregou-o ao ajudante e sentou-Se. Estavam fixos em Jesus os olhos de toda a sinagoga.
Começou, então, a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir».

 

DIÁLOGO

Jesus escolheu o contexto de uma liturgia de sábado, na sinagoga, para se apresentar a si próprio e dar a conhecer a sua missão aos habitantes da sua cidade natal, Nazaré. 

O Evangelho de Lucas apresenta este acontecimento, depois de Jesus ter começado a sua vida pública. 

Afastando-se da sua família, com que tinha vivido até cerca dos 30 anos, tinha sido batizado por João Baptista no rio Jordão, tinha passado algum tempo no deserto em meditação, tinha escolhido alguns discípulos para o acompanharem, e estava a ganhar reputação na Galileia como pregador e poderoso curador de doentes. 

O evangelista Lucas, com este episódio na sinagoga de Nazaré, pretende situar o ministério público de Jesus e anunciar desde o começo qual é a sua missão.

A parte principal do seu Evangelho é apresentada como uma subida simbólica, a partir da Galileia ( onde se situa Nazaré) em direção à cidade santa, Jerusalém, passando pela Samaria. 

Quando Jesus abre o livro na sinagoga, Ele lê uma passagem muito importante, que descreve antecipadamente a sua missão com as palavras do profeta Isaías: 

«O Espírito do Senhor está sobre mim porque o Senhor me ungiu. 

Ele enviou-me para levar a Boa Nova aos pobres, 

para proclamar a libertação aos cativos, 

e aos cegos, que devem ver, 

para libertar os oprimidos, 

para proclamar um ano favorável do Senhor 

O texto de Isaías, aplicava-se perfeitamente a Jesus.

É fácil de imaginar a emoção que Ele deve ter sentido quando proferiu estas palavras. 

Jesus está agora muito consciente da sua missão. Porquê levar a Boa Nova especialmente aos pobres? 

O termo «pobre» na Bíblia refere-se não à situação económica das pessoas, mas à posição social e sobretudo a situação diante de Deus. 

Os «pobres» são as pessoas sem influência social e sem recursos para se poderem defender das injustiças e dos abusos que sofrem da parte dos que têm poder para os explorar como querem. 

Os «pobres» incluem também as viúvas e os órfãos por terem a situação social de serem completamente dependentes dos outros para o seu sustento. 

Também incluem os assalariados e os trabalhadores estrangeiros, que a cada dia, nas praças públicas, esperam ser contratados. 

Assim como os cegos e os estropiados são obrigados a mendigar, para sobreviverem. 

Estas pessoas são as preferidas por Deus, não porque tenham méritos especiais que merecem uma maior atenção da parte de Deus, mas porque Deus se apresenta como o Defensor dos mais fracos e desprotegidos da sociedade. 

A preocupação preferencial pelos pobres passa a ser um atributo de Deus e torna-se um dever para os que têm de governar e orientar os vários níveis da sociedade.

 Essa missão de «levar a Boa Nova aos pobres» da parte de Deus, foi traduzida em grego por «evangelizar». 

A missão de Jesus é a de transmitir e de pôr em prática esse Amor de Deus, cheio de solicitude pelos mais frágeis e mais desprotegidos. 

Jesus apresenta-se como o que dá um testemunho exemplar desta predileção divina pelos que são desprezados ou   ignorados, como se não existissem. 

O anúncio de Jesus, embora muito curto, dá-nos a «chave» para interpretarmos o resto da sua vida. 

A primeira frase: "O Espírito do Senhor está sobre mim", indica que cada uma das ações e decisões de Jesus fluiu do que Ele acreditava que o Espírito Santo O estava a levar a fazer. 

Devemos notar que Jesus não diz simplesmente que foi ungido, mas que foi ungido com o propósito de «levar boas notícias aos pobres». 

Jesus escolheu esta passagem de Isaías para explicar o que para Ele significava ser o Messias. 

Ele iria realizar a sua vocação de Messias nas relações com pessoas de todos os estratos da sociedade, curando, pregando, perdoando, ensinando e chamando outros a segui-lo. 

Ele não exigia que todos os seus seguidores se tornassem pregadores desprendidos de todos os bens, ou com uma vida itinerante. 

Jesus exigia que os seus seguidores colocassem os outros em primeiro lugar, que deixassem de lutar pelo primeiro lugar para si e que servissem as pessoas mais desprotegidas com amor criativo, que gera as mais variadas formas de o fazer. 

O Evangelho de hoje convida-nos, primeiro, a contemplar Jesus no seu próprio discernimento e na aceitação da sua vocação. 

Depois, conscientes de que cada vocação cresce e evolui, somos convidados a pedir ao Espírito Santo que continue a revelar-nos os nossos caminhos para sermos aquelas e aqueles que podemos  ser no presente e o que podemos vir a ser no futuro, se nos deixarmos transformar pelo Espírito de Deus. 

Cada um de nós que quer seguir Jesus, é convidado a viver  de modo realista e verdadeiro que "O Espírito do Senhor está sobre mim e ungiu-me para trazer boas-novas aos pobres". 

Que estas passagens, na Escritura aberta diante de nós, em Isaías e em Lucas, sejam um estímulo para nos deixarmos evangelizar e anunciarmos a Boa Nova de Jesus!

 frei Eugénio, op (22.01.2022)

2025-01-19

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do II Domingo do Tempo Comum, 19 de janeiro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 


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Evangelho (Jo. 2, 1-11) 

Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia e estava lá a Mãe de Jesus.
Jesus e os seus discípulos foram também convidados para o casamento.
A certa altura faltou o vinho. Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho».
Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso? Ainda não chegou a minha hora».
Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser».
Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, e cada uma levava duas ou três medidas.
Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água».
Eles encheram-nas até acima. Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa».
E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho — ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam —, chamou o noivo e disse-lhe: «Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres. Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram nele.

 

DIÁLOGO

Acabámos de ler o relato do primeiro dos milagres de Jesus, que o evangelista João chama de “sinais”, porque Jesus não os fez para suscitar o espanto e a admiração com as suas maravilhas, mas para revelar o Amor de Deus Pai. 

O “sinal” teve lugar numa boda normal dum casamento. 

Nada nos é dito sobre o ritual da cerimónia, nem sobre o vestido da noiva, nem sobre as roupas dos convidados, nem sobre a música e as danças que alegravam a festa. 

Se o relato fosse publicado num jornal, não seria certamente na secção dos “Eventos sociais”, provavelmente iria na secção "Acredite ou não", sobre a água transformada em vinho. 

As bodas de Caná são muito mais que o simples relato do primeiro milagre de Jesus.   

Imagino que os noivos estariam a desfrutar um dos dias mais marcantes e felizes da sua vida, juntamente com todos os seus familiares e amigos. 

Em dado momento deixa de haver vinho. 

Se a água é necessária para viver, o vinho é central para que haja alegria numa festa. 

Na Palestina, nessa época e ainda hoje, os casamentos duram vários dias. É necessária muita comida e bebida para satisfazer a fome e sede de todos os convidados. 

Por muito que se preveja e se armazene, pode acontecer, infelizmente, como neste caso em Caná, que se acabe a bebida ou a comida. 

Numa festa de bodas na qual falta o vinho, que vergonha para os recém-casados! 

Podemos imaginar-nos, nós-próprios, entre os convidados, juntamente com Jesus com a sua mãe e os seus discípulos. 

Que sentiríamos se tivéssemos de passar uma boa parte da festa, obrigados a beber água ou chá? 

Que vergonha para os noivos! 

Mas Maria não se limitou a estar sentada a assistir à festa, no meio da alegria geral, ela estava atenta ao que se estava a passar e, por isso, reparou que o vinho estava a faltar e teve a iniciativa de comunicar a sua preocupação ao seu filho: "Eles não têm vinho". 

A resposta ríspida de Jesus, pode causar-nos grande espanto: «Mulher, que temos nós com isso? A minha hora ainda não chegou". 

Apesar desta resposta de Jesus, nesse tom distante, Maria tem grande confiança no seu Filho e espera que Ele ouça o seu pedido. 

Dirigiu-se aos serventes e disse-lhes: “Façam o que Ele vos disser”. 

Estas palavras de Maria, segundo os quatro Evangelhos, são as últimas palavras que ela pronunciou e que ficaram registadas. 

Podem ser consideradas como uma herança, que Maria, a Mãe de Jesus nos entrega a nós. 

A partir de Caná, também hoje Nossa Senhora diz a todos nós: “Façam o que Ele vos disser”. 

Ela sabe que quando isso acontece, tudo estará bem. 

Em Caná, as palavras que Ela disse aos serventes “fazei o que Ele vos disser” torna-se um modelo da oração para os cristãos. 

O relato de João não diz como é que a água foi transformada em vinho, nem um gesto, nem uma palavra de Jesus. 

Não diz sequer que é um milagre, por mais surpreendente que isso possa parecer. 

Em Caná, os serventes obedeceram, seguindo o conselho de Maria.  

Jesus disse-lhes: “Enchei essas talhas de água”. 

Eles encheram-nas até à borda. 

Em vez dos jarros de barro onde o vinho era guardado, e que estavam vazios, Jesus usou os recipientes de pedra, que levavam cerca de 40 litros de água e que eram usados à entrada da sala da refeição, para as purificações, segundo o ritual judaico, com lavagem de pés, mãos e objetos. 

Depois Jesus disse-lhes que pegassem nas talhas e que as levassem ao mestre de cerimónias, que dirigia o banquete. 

E eles levaram. 

Imaginem que estavam numa boda, e que alguém próximo dos noivos lhes pedia para fazerem o grande favor de pegarem nuns baldes com água destinada às lavagens da casa e os levassem até ao meio das mesas onde estavam os principais convidados! 

Quem teria coragem de o fazer? 

Foi algo de semelhante que Jesus disse aos serventes. 

O Evangelho de João, não tem relatos de ensinos de Jesus sobre a oração, como têm os Evangelhos de Mateus, de Marcos e de Lucas. 

Aqui em Caná, podemos ver em Maria, como sendo uma imagem da viúva persistente de Lucas, e também do amigo que vem à noite bater à porta, ou da mulher sirofenícia dos Evangelhos de Marcos e Mateus.

Também ela é como que um eco dos salmistas que apelam: "Por amor do Teu nome, ouve o meu grito"! 

É neste terreno de fé que somos convidados a caminhar, a partir deste primeiro “sinal” que Jesus fez em Caná. 

Uma fé em constante progressão, aberta ao imprevisto e ao questionamento. 

Pois, como escreveu São Tomás de Aquino na sua Suma Teológica (II-II, q.2 a.1), a fé é uma adesão que não exclui o questionamento. É a famosa expressão "Assensus cum cogitatione"! 

A recomendação simples, mas essencial, da Mãe de Jesus “Fazei tudo o que Ele vos disser” é um programa de vida para os cristãos. 

Para cada um de nós, encher as talhas de água, equivale a confiarmo-nos à Palavra de Deus para experimentarmos a sua eficácia na vida

      frei Eugénio, op (15.01.2022)

2025-01-12

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Batismo do Senhor, 12 de janeiro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 


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Evangelho (Lc. 15, 21-22)

Naquele tempo, o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias.
João tomou a palavra e disse-lhes: «Eu batizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo».
Quando todo o povo recebeu o batismo, Jesus também foi batizado; e, enquanto rezava, o céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corporal, como uma pomba. E do céu fez-se ouvir uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado: em Ti pus todo o meu agrado».

DIÁLOGO

O evangelista Lucas não conta nada sobre os cerca de trinta anos que Jesus passou com Maria e José em Nazaré. 

O tempo ia passando, mas Jesus não decidia nada por si-mesmo. Ele esperava um sinal de Deus, Seu Pai. 

Um dia, enfim, chegou um sinal. Chegou a Nazaré um rumor de que tinha aparecido um profeta de nome João, que exortava à conversão e batizava no rio Jordão, já perto do Mar Morto. 

Jesus pôs-Se a caminho e a sua vida vai mudar completamente.

 "O povo estava em grande expectativa".  

Foi assim que o evangelista Lucas descreveu a excitação que se tinha gerado em torno de João Batista. 

Quando é que nós experimentamos esse tipo de emoção religiosa ou espiritual e a manifestamos em público e não apenas em privado?

 Habitualmente é mais fácil unirmo-nos em torno de acontecimentos negativos, do que de situações positivas! 

A condenação de acontecimentos maus e escandalosos não nos pede o compromisso e o empenho que são exigidos pela aprovação, ou aclamação, de atitudes boas e louváveis. 

É por isso, que muitas vezes evitamos mostrar entusiasmo em público por acontecimentos e por pessoas que merecem a nossa admiração e apoio. 

À exceção do desporto, onde manifestamos facilmente e, até com exuberância, o nosso entusiasmo. 

O que é que a celebração do Baptismo de Jesus no Jordão nos pode trazer de importante 

Em primeiro lugar, podemos celebrar, na fé, a realidade de que o nosso batismo nos une intimamente a Jesus e a todos que nos precederam na fé n’Ele. 

Numa época que é a nossa, em que os documentos legais se tornaram tão importantes para indicar o nosso estatuto, podemos considerar a nossa certidão de batismo como um cartão de identidade muito importante. Porquê? 

Porque a certidão de batismo indica a quem pertencemos - a Jesus - e ao que somos chamados a viver – o modo de viver de Jesus. 

Além disso, quando lemos o Evangelho de hoje, temos uma imagem de Jesus descobrindo a sua vocação de Filho e servidor de Deus, Seu Pai. 

A descida do Espírito Santo sobre Ele e a mensagem de Deus Pai juntaram-se para dizer a Jesus que Ele foi chamado para uma missão, muito mais importante que aquela que João Batista tinha. 

O facto de os quatro Evangelhos registarem esta revelação que vem de Deus e do Espírito-Santo, significa que Jesus, como qualquer outro ser humano, teve de procurar a Vontade de Deus na sua vida.

 A identidade e a missão de Jesus brotam da sua relação com Deus que O chamou de «Filho muito amado». 

Jesus dedicou-se a fazer a Vontade do Pai em todos os momentos e situações. 

Observando com atenção o que se passou com Jesus quando foi batizado por João no Jordão, podemos descobrir que o batismo que recebemos, em criança, jovem ou adulto, não nos dá um estatuto cristão, mas sim uma missão: seguir em tudo o modo de viver de Jesus.

 Para discernir essa missão que é a nossa, também nós temos de ler as Escrituras e rezar em todas as circunstâncias, como Jesus o fez. 

Como seus seguidores, somos convidados a viver seguindo o seu exemplo. 

Ritualizar o nosso compromisso com o batismo é apenas um pequeno passo. 

Mas viver como batizado, é entrar numa vida de oração e de ação, uma vida de descoberta e aprofundamento do grande amor de Deus Pai por toda a humanidade, em todos os tempos e lugares e ter o empenho de o comunicar de todas as formas possíveis. 

Que queiramos viver com empenho e alegria essa vocação.  

    frei Eugénio, OP (09.01.2022)


2024-12-14

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 3º Domingo do Advento, 15 de Dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 

 

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Evangelho (Lucas 3, 10-18) 

Naquele tempo, as multidões perguntavam a João Batista: «Que devemos fazer?».
Ele respondia-lhes: «Quem tiver duas túnicas reparta com quem não tem nenhuma; e quem tiver mantimentos faça o mesmo».
Vieram também alguns publicanos para serem batizados e disseram: «Mestre, que devemos fazer?».
João respondeu-lhes: «Não exijais nada além do que vos foi prescrito».
Perguntavam-lhe também os soldados: «E nós, que devemos fazer?». Ele respondeu-lhes: «Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso soldo».
Como o povo estava na expectativa e todos pensavam em seus corações se João não seria o Messias, João tomou a palavra e disse-lhes: «Eu batizo-vos com água, mas está a chegar quem é mais forte do que eu, e eu não sou digno de desatar as correias das suas sandálias. Ele batizar-vos-á com o Espírito Santo e com o fogo.
Tem na mão a pá para limpar a sua eira e recolherá o trigo no seu celeiro; a palha, porém, queimá-la-á num fogo que não se apaga».
Assim, com estas e muitas outras exortações, João anunciava ao povo a boa nova.

 

DIÁLOGO

O evangelista começa por nos dizer quem eram as pessoas que iam ouvir a pregação de João Batista.
A primeira referência são as multidões, constituídas pelas pessoas das classes mais baixas da sociedade. 

Em seguida, indica os publicanos, que eram os cobradores de impostos que trabalhavam para o ocupante romano e que tinham o direito de ficar com uma parte para si próprios. 

Por fim, refere os soldados, que constituíam o exército de ocupação, composto por mercenários romanos ou oriundos de outros povos e que não deviam conviver, com proximidade, com os judeus. 

Todos eles perguntavam a João Batista, com humildade: «E nós que devemos fazer?»  (Lc 3,10.12.14). João Batista responde de modo diferente a cada tipo de pessoas, tendo em conta as suas principais ocupações e modos de vida. 

Às multidões diz-lhes que partilhem com grande generosidade. A partilha que ele propõe é muito exigente. Não é apenas uma partilha do que não lhes faz falta, do que lhes sobrava. O supérfluo deixa a vida intacta. 

Ele propõe que se dê mesmo do que é necessário. É o dom de si mesmo que transforma a vida para sempre.

Aos publicanos propõem-lhes que não se apropriem duma percentagem exagerada dos impostos recebidos e que não exijam aos mais modestos quantias que eles não conseguem pagar.

Por sua vez, com os soldados-mercenários é muito exigente quanto ao que devem mudar, para não oprimirem as populações que controlam. 

Em todas estas propostas de conversão à Vontade de Deus, que João Batista proclama, havia sempre uma referência aos comportamentos para com o próximo. 

Na pregação de João Batista ficava claro que a conversão, isto é, o voltarmo-nos para Deus, passava sempre pela mudança dos gestos e atitudes para com o próximo, «Amai o próximo nas circunstâncias concretas das vossas vidas!». 

E se nós fizéssemos um jogo com um amigo ou num pequeno grupo de amigos ou em família? 

«Que devemos fazer?» perguntaríamos nós e o parceiro ou parceiros do jogo responderiam, no estilo de João Batista, sugerindo-nos ao menos uma proposta concreta de mudança na família ou no trabalho. 

E os «Joões Batistas» iam rodando. 

Se este jogo não vos seduzir ou não vos for possível de realizar, podemos imaginar o que é que João Batista nos iria propor quando lhe perguntássemos «Que devemos fazer?» 

Teríamos assim um bom tema para um tempo de oração. 

João Batista, na sua pregação e nos batismos que realizava, anunciava a chegada d’Aquele-Que-Vem e diz que nem sequer é digno de desatar as correias das suas sandálias. 

Desatar as correias das sandálias, descalçar e lavar os pés de quem chegava a casa era uma tarefa tão humilhante, que nem sequer os escravos israelitas a deviam fazer, mas apenas os escravos pagãos. 

João Batista anuncia que há uma Presença nova entre eles, é a Presença d'Aquele-Que-Vem, trazendo o Espírito que dá a Vida verdadeira e eterna, plena de Amor.

Com essa Presença tão próxima, devemos «Alegrar-nos sempre no Senhor!» como escreve, cheio de entusiasmo, o apóstolo Paulo aos cristãos de Filipos (FL 4,4-7).

A liturgia procura fazer-nos reviver este entusiasmo! 

É por tudo isto, e não é pouco, que este Domingo III do Advento é chamado «Domingo laetare››, o «Domingo da alegria». 

Que esta alegria esteja de verdade nos nossos corações.

frei Eugénio, op (12-12-2021)

2024-12-01

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 1º Domingo do Advento, 1 de Dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 

 

 

Evangelho (Lc. 21, 25-36)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas e, na Terra, angústia entre as nações, aterradas com o rugido e a agitação do mar.
Os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai suceder ao universo, pois as forças celestes serão abaladas.
Então hão de ver o Filho do homem vir numa nuvem, com grande poder e glória.
Quando estas coisas começarem a acontecer, erguei-vos e levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima.
Tende cuidado convosco, não suceda que os vossos corações se tornem pesados pela intemperança, a embriaguez e as preocupações da vida, e esse dia não vos surpreenda subitamente como uma armadilha, pois ele atingirá todos os que habitam a face da Terra.
Portanto, vigiai e orai em todo o tempo, para que possais livrar-vos de tudo o que vai acontecer e comparecer diante do Filho do homem».

 

DIÁLOGO

A página do Evangelho deste Primeiro Domingo do Advento lança-nos um desafio: estaremos dispostos a olhar o que se passa à nossa volta, tanto os fenómenos naturais como os acontecimentos, interpretando-os à luz do que Jesus nos veio ensinar?

Mesmo sendo pessoas que se interessam com o que se passa à nossa volta e no mundo, talvez precisemos de ouvir bem esta recomendação de Jesus: "Cuidado! Não deixem que os vossos corações fiquem sonolentos!"

Jesus tinha proclamado uma mensagem, assegurando aos discípulos que o tempo da tribulação poderia ser também o tempo da sua salvação. 

Podemos perguntar, porque é que no início deste tempo do Advento, destinado a preparar-nos para o Natal de Jesus, num clima de alegria e boa disposição, a liturgia nos apresenta estes terríveis fenómenos e as catástrofes que eles provocam.

A resposta é que Lucas não pretende prever os acontecimentos futuros com  uma precisão de cientista.

Ele tem outro objetivo, que é o de estimular as comunidades cristãs a deixarem-se habitar pela presença de Jesus Salvador no local e no momento que estão a viver.

Com estas imagens, Lucas, em primeiro lugar, encoraja os cristãos a estarem bem acordados e a permanecerem atentos ao que se passa na criação.

Os cataclismos anunciados aparecem como uma porta de entrada para um novo mundo, que há de chegar quando Jesus Ressuscitado voltar, como Ele promete. 

O evangelista Lucas quer livrar os discípulos de Jesus da apatia, da indiferença e do cansaço que podem acontecer e desenvolver-se nas comunidades de cristãos.

As imagens tão poderosas convidam-nos a acordar, a estarmos levantados, a vivermos na expectativa do que Jesus Ressuscitado traz ao mundo e que Ele levará a bom termo no seu Regresso em glória.

Era comum entre os primeiros cristãos esperarem ver o regresso do Messias Libertador e Salvador durante a sua vida.

Só mais tarde compreenderam que este Regresso era um mistério que só será revelado no final dos tempos.

Assim sendo, entraram no essencial de toda a vida cristã: viver com Jesus Ressuscitado, no local e no momento que estão a viver.

A nossa expectativa do Regresso de Jesus ressuscitado é vivida na fé. 

Não sabemos nem a hora nem o momento.

Neste tempo de Advento somos convidados a termos presente três vindas de Jesus.

Uma, é o seu nascimento em Belém, a sua vinda à vida no meio de nós, dum modo modesto e discreto, há um pouco mais de 2021 anos.

Outra, será a vinda no fim dos tempos, como o Libertador e Salvador, com grande poder e glória.

E entre estas duas vindas celebramos uma terceira, que é a vinda dentro de cada um de nós, assumindo a nossa responsabilidade em gestos de amor ao próximo e pela nossa oração como Jesus nos pede: “vigiai e orai em todo o tempo”.

E estas três vindas completam-se umas às outras.

 frei Eugénio, op (27-11-2021)

2024-11-17

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXXIII Domingo do Tempo Comum, 17 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em Outubro de 2021)

 

 

Evangelho (Marcos 13, 24-32)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Naqueles dias, depois de uma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade;
as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas.
Então, hão-de ver o Filho do homem vir sobre as nuvens, com grande poder e glória.
Ele mandará os Anjos, para reunir os seus eleitos dos quatro pontos cardeais, da extremidade da terra à extremidade do céu.
Aprendei a parábola da figueira: quando os seus ramos ficam tenros e brotam as folhas, sabeis que o Verão está próximo.
Assim também, quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do homem está perto, está mesmo à porta.
Em verdade vos digo: Não passará esta geração sem que tudo isto aconteça.
Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.

DIÁLOGO

Hoje em dia, os jovens, e também os menos jovens gostam de ver vídeos ou filmes que contem histórias cheias de aventuras com efeitos fantásticos. 

Porque é que gostamos de os ver? 

Para sentir grandes emoções, para sair da rotina quotidiana, para experimentar coisas novas ou desconhecidas! 

As imagens que Jesus utiliza são poderosas: «Depois duma grande aflição, o sol escurecerá e a lua não dará a sua claridade; as estrelas cairão do céu e as forças que há nos céus serão abaladas.» O mundo estará em transformação, será o final do mundo tal como o conhecemos.  

Depois, quando Jesus falou sobre estes sinais temíveis e terríveis, explicou: «quando virdes acontecer estas coisas, sabei que o Filho do Homem está perto, está mesmo à porta.» 

Aquele que renova completamente o mundo fará a sua aparição. O Filho do Homem, Jesus, o Messias, virá «nas nuvens com grande poder e glória». Neste diálogo, Jesus utiliza uma linguagem chamada «apocalíptica», que tem origem na palavra grega apokálupsis que significa 'revelação'.  

Este género literário é utilizado para descrever os segredos divinos que se referem ao final dos tempos e que utilizam imagens fantásticas e cenas cheias de emoções. 

Neste nosso tempo, encontramo-nos numa situação de calamidade climática, com necessidade urgente de se reduzirem as emissões de CO2. 

Os meios de comunicação social dão-nos uma imensidade incontrolável de informações, demasiadas vezes contraditórias, ou sem provas de veracidade, o que dificulta muitíssimo fazer discernimentos convenientes. 

As igrejas sentem a perda da religiosidade tradicional, enquanto novas e variadas espiritualidades e visões da nossa humanidade entram em contradição com as nossas antigas categorias de género, raça, classe, nacionalidade, etc. As palavras que Jesus dirigiu aos seus discípulos não pretendiam criar angústia motivada pela chegada próxima dum «fim do mundo».  

Jesus insistiu com os discípulos para que «vejam bem», «estai atentos» e «prestai atenção». Disse-lhes que deviam ter uma atitude de vigilância: «estai acordados» e «vigiai» 

No entanto, esta grande crise é apresentada no Evangelho como uma Boa Noticia. 

A história a que pertence não é meramente humana, mas uma história divino-humana que nos leva a partilhar na nossa própria vida uma missão que se centra na pessoa do Homem-Deus, Jesus, o Messias. 

De facto, tudo o que Jesus disse sobre a grande crise pode resumir-se na pergunta que os discípulos Lhe tinham posto: «Quando é que tudo se vai cumprir?» 

A grande crise não é o momento da devastação, mas sim a realização plena da missão de Jesus, com a vinda definitiva do Filho do Homem. 

Os discípulos deveriam colocar toda a sua confiança na Palavra de Deus, uma Palavra que nunca deixa de cumprir o que é proclamado, que é sempre vista como criativa e nunca destrutiva. 

É o que Jesus diz: «Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.» 

Os cristãos aguardam o regresso de Jesus Ressuscitado na esperança de que o Amor terá a última palavra, porque Jesus o disse. 

  frei Eugénio, op (14.11.2021)

Nota: 

Este Domingo, antes da festa de Cristo Rei, celebra-se o Dia Mundial dos Pobres, este ano com o tema: A oração do pobre eleva-se até Deus (cf. Sir 21, 5)

 

2024-11-10

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXXII Domingo do Tempo Comum, 10 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em Outubro de 2021)

 

 

EVANGELHO   (Mc 12, 38-44)

Naquele tempo, Jesus sentou-Se em frente da arca do Tesouro do Templo a observar como a multidão deitava o dinheiro no cofre das ofertas.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».
 

DIÁLOGO

Na passagem do Evangelho que lemos, Jesus estava no átrio do Templo de Jerusalém, sentado em frente do sítio no qual estava o cofre, onde os peregrinos iam deitar as suas ofertas.

Em dada altura, Jesus viu uma pobre viúva que deitou no cofre duas moedinhas. 

Entre tantos peregrinos, Jesus reparou naquela pobre viúva, porque o seu olhar era cheio de amor e estava sempre atento a cada pessoa, nas situações e nos acontecimentos em que se encontravam.
O que vê Jesus naquela pobre viúva, de quem nem mesmo sabemos o nome? 

Certamente vê uma mulher com uma vida muito difícil, como a das viúvas pobres, completamente dependentes de quem lhes dava guarida e alimentos, mas Jesus vê sobretudo o que é muito mais importante: que a viúva deu como oferta tudo o que tinha. 

Jesus vê a viúva oferecer a Deus tudo o que tinha e declara que ela, aos olhos de Deus, deu mais do que os outros peregrinos, que davam do que lhes sobrava. 

Quando Jesus chamou a atenção dos discípulos para a atitude da viúva no Templo, apresentou o valor da sua oferta, usando uma escala diferente daquela que era a habitual, que se centrava na quantidade de dinheiro entregue em donativos. 

A viúva dará da sua pobreza, e Deus será «tocado» pela humildade daquela pobre mulher, que se confia totalmente ao Amor e à Misericórdia de Deus. 

Jesus chamou a atenção para o gesto dela, para ensinar aos seus discípulos, que no Reino de Deus, há um modo bem diferente de valorizar as ações das pessoas. 

As «balanças» de Deus são diferentes das nossas. Ele «pesa» as pessoas e as suas ações de forma diferente. Deus não «pesa» a quantidade, mas a qualidade, Ele examina o coração, Ele olha para a retidão das intenções. 

A viúva no Templo é uma imagem do próprio Jesus.    
Tal como Ele, ela recebeu pouca atenção das pessoas que eram importantes. 

Tal como Ele, ela era suficientemente livre para dar tudo o que tinha, quer fosse ou não bem apreciado pelos outros.Deus vê a nossa humildade como um Pai misericordioso.   

Tal como Jesus, os discípulos aprendem a dar-se completamente, apesar das dificuldades, hesitações e sofrimentos que esse modo de viver pode acarretar. 

Também a nós, Deus dá generosamente a sua graça e os seus dons.
 Ele salvou-nos gratuitamente. E nós próprios devemos fazer as coisas como uma expressão de gratuidade. 

Quando somos tentados pelo desejo de contabilizar os nossos actos de altruísmo e de solidariedade, quando estamos interessados em que as pessoas valorizem o bem que fazemos aos outros, pensemos nesta viúva. Vai fazer-nos bem!Acreditar que Jesus ressuscitado também nos olha pessoalmente com amor, a cada um de nós, é um grande reconforto e estímulo.   

Com Jesus, podemos aprender a dar e a dar-nos: dar tempo, dar atenção, dar ajudas, dar alegria, dar apoio, dar coragem, e tantos outros modos de dar, valorizando os outros.
Jesus olhou, e viu o melhor daquela pobre viúva! 

Jesus ressuscitado olha-nos e vê o que podemos dar de melhor de nós mesmos, em cada ocasião. 

frei Eugénio, op (07.11.2021)

 

2024-11-03

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXXI Domingo do Tempo Comum, 3 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em Outubro de 2021)

 

 

EVANGELHO   (Mc 12, 28-34)

Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?».
Jesus respondeu: «O primeiro é este: "Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor.
Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças".
O segundo é este: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo". Não há nenhum mandamento maior que estes».
Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além dele.
Amá-lo com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios».
Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-lo.
 

DIÁLOGO

Certamente que teríamos uma grande alegria se ouvíssemos Jesus dizer-nos: «Não estás longe do Reino de Deus».
Foi o que Jesus disse a este escriba que foi ter com Ele, pedindo-lhe uma orientação segura para a sua vida.

Também nós procuramos relacionar-nos com o Deus Verdadeiro e Vivo.
A nossa busca de Deus, tal como a do escriba, deve basear-se em alicerces firmes.

Jesus dá-nos estes alicerces quando diz: “Amarás o Senhor teu Deus e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 
De facto, o chamado "primeiro mandamento" não é propriamente um mandamento, é um apelo, pois diz: «Escuta Israel. Eu sou Iahweh, vosso Deus, que vos tirei do Egito, da casa da servidão" (Dt 5,6).
E se Deus é Aquele que, no Seu Amor, toma a iniciativa de nos libertar, é normal que Ele nos convide a amá-Lo livremente. 
«Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.»

Não é apenas um «mandamento», é uma convicção vivida pessoalmente, com todas as nossas energias: «Estas palavras que vos dou hoje permanecerão no vosso coração».
Jesus, não criou estes mandamentos, pois já estavam presentes no Antigo Testamento, na Lei da Aliança que Deus tinha feito com o povo, por intermédio de Moisés. 
O que Jesus fez foi unir intimamente os dois mandamentos entre si. 
À pergunta: «Qual é o maior mandamento?» 
Jesus responde que não é um só, mas que são dois, inseparáveis entre si. 

Não há amor a Deus sem amor ao próximo e não há amor ao próximo sem amor a Deus. O evangelista João di-lo, duma forma muito clara, numa das suas cartas: «Se alguém diz: 'Eu amo Deus', mas odeia o seu irmão, ele é um mentiroso. 
Pois aquele que não ama o seu irmão, que ele vê, é incapaz de amar a Deus, que ele não vê.» (I João 4, 20)

Num encontro de formação de jovens para o Crisma, queria criar-se um símbolo que representasse a união e a complementaridade destes amores. E, assim surgiu a ESTRELA DO AMOR (com 5 pontas como as estrelas-do-mar).

Numa ponta: o amor A DEUS. 
Noutra, o amor AO PRÓXIMO.
E numa terceira, o amor A SI-MESMO

Mas quais serão os outros dois amores que faltam na estrela? 
Para que estes três amores possam ser vividos por nós, há dois que são os mais fundamentais e quase sempre os mais esquecidos.

Quais serão eles?

É o AMOR DO PRÓXIMO e o AMOR DE DEUS.
No nosso desenvolvimento e crescimento num amor saudável a Nós-Mesmos, para nos podermos tornar Pessoas bem humanas, dependemos de muitas pessoas e de circunstâncias que elas nos proporcionam.

Assim, o AMOR DO PRÓXIMO é essencial nas nossas vidas.
Mas para amar a Deus, que não vemos, nem podemos ver neste mundo e também para termos confiança na sua Bondade, quando conhecemos as histórias de tantas pessoas e dos variados povos da Humanidade, não nos podemos apoiar em argumentações que só convencem quem já está convencido.

Precisamos, sim, de descobrir que Deus tem Amor por mim, por cada um de nós, por todas as pessoas que vêm a este mundo. Precisamos descobrir o AMOR DE DEUS.

É uma graça muito grande experimentarmos que vale a pena por toda a nossa confiança nesse AMOR DE DEUS.
Para nós cristãos, no centro da Estrela do Amor está Jesus de Nazaré, o Filho de Deus e nosso irmão, que é a ponte que unifica estes 5 amores.

Que esta Estrela dos 5 amores: 
Amor De Deus, Amor A Deus, Amor Do Próximo, Amor Ao Próximo e Amor A Nós-mesmos, nos acompanhe sempre. 

    frei Eugénio, op (30.10.2021)