2021-02-13

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho deste Domingo,  14 de fevereiro, 6º Domingo do tempo comum, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 

 
 

Evangelho (Mc. 1,40-45)

Naquele tempo, veio ter com Jesus um leproso. 

Prostrou-se de joelhos e suplicou-Lhe: «Se quiseres, podes curar-me».

Jesus, compadecido, estendeu a mão, tocou-lhe e disse: «Quero, fica limpo». 
No mesmo instante o deixou a lepra e ele ficou limpo.
Advertindo-o severamente, despediu-o com esta ordem:
«Não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua cura o que Moisés ordenou, para lhes servir de testemunho».
Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar e a divulgar o que acontecera, e assim, Jesus já não podia entrar abertamente em nenhuma cidade. Ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte.
 
DIÁLOGO
 
Para podermos ter consciência do grande significado que teve este pedido do leproso e o modo como Jesus lhe respondeu, devemos saber o que representava ser leproso no mundo judeu dessa época.

O termo «lepra» incluía variadas doenças da pele que a medicina moderna distingue entre elas.

As regras estabelecidas impunham aos leprosos o isolamento e a distância, quer de Deus (não podiam entrar nem no Templo, em Jerusalém, nem nas sinagogas), quer de todas as pessoas, pois não podiam entrar nas povoações.

E quando tinham de se deslocar, deviam ir a gritar «impuro» «impuro», para que as pessoas, ao ouvirem o grito deles, se distanciassem o mais possível.

Como vemos, os leprosos levavam uma vida muito triste.

Aquele leproso não se resignou com sua doença, nem com as disposições religiosas que faziam dele um excluído.

Para alcançar Jesus, não teve medo de violar a lei e entrar na cidade, mesmo sendo-lhe proibido e quando O encontrou, «lançou-se com o rosto por terra, suplicando-lhe: Senhor, se quiseres, podes purificar-me!» (v. 12).

Tudo o que este homem considerado impuro, fez e disse, foi expressão de uma grande fé!

Ele reconhece a força de Jesus, convicto do Seu poder para o curar e que tudo depende do Seu querer.

Esta fé foi a força que lhe permitiu violar todas as leis e procurar encontrar-se com Jesus e ajoelhar-se diante d'Ele, reconhecendo-O como o Messias anunciado.

A súplica do leproso mostra que, quando nos apresentamos a Jesus com os nossos pedidos, não é necessário fazer longas orações e considerações. São suficientes poucas palavras, contanto que sejam acompanhadas pela plena confiança no Seu poder de salvar e na Sua bondade.

Quando a lepra não é tratada logo quando aparecem os primeiros sintomas, com o passar do tempo, a pessoa torna-se cada vez mais deformada, quer no rosto, quer no corpo. Provoca uma repulsa instintiva a quem com ela contacta.

Tudo isto contribuía naquela altura e durante muito tempo, para que fosse considerada uma imagem bem nítida da impureza  moral e religiosa.

Assim, os leprosos na Palestina, além de serem doentes que se deviam evitar, por se considerar que a lepra era contagiosa pela proximidade, o que a ciência médica mais tarde veio provar que era errado, eram também consideradas pessoas impuras diante de Deus e dos homens.

Pior ainda, eram fonte de impureza para quem tivesse que lhes tocar por qualquer motivo. Essa pessoa  ficava também impura e, segundo a Lei de Moisés, também excluída.

Podemos avaliar a enorme confiança que manifestou a oração tão simples e directa, que este leproso fez a Jesus: «Se quiseres, podes curar-me».

Supõe que aquele pobre infeliz, vitima da lepra, reconheceu Jesus como sendo o Messias salvador em pessoa, com um poder que só Deus tinha.

O Evangelho de Marcos realça que «Jesus se compadeceu dele»,  e lhe respondeu «Quero: fica limpo».

Sendo Jesus o Messias, a sua simples vontade era suficiente para purificar o leproso. A palavra de Jesus, com o seu poder divino, teria bastado para lhe expulsar a lepra.

Mas Jesus quis tocar naquele que era um «intocável».

Tocando-lhe, segundo a Lei de Moisés, Jesus contraiu a impureza do leproso.

O testemunho que este homem foi dar, não podia ser mais claro:

"Eu estava impuro, excluído e doente e Ele tocou-me e tornou-me uma pessoa novamente pura diante de Deus e dos homens."

O mensageiro passou a tornar-se, ele próprio, a mensagem  pelo testemunho que dava, cheio duma grande alegria tão comunicativa.

Em relação a este encontro do leproso com Jesus, permitam-me que partilhe convosco um segredo pessoal que o Papa Francisco deu a conhecer numa audiência geral em Roma, em Junho de 2016, já lá vão quase cinco anos.

O que o Papa Francisco disse nessa audiência, eu irei traduzir com alguma liberdade:

«Também eu vos irei contar um segredo pessoal. 
À noite, antes de ir para a cama, ajoelho-me e rezo esta breve oração: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me!». 
E rezo cinco vezes o «Pai-Nosso», um por cada chaga de Jesus, porque Jesus nos purificou com as suas chagas [*nas mãos, nos pés e no coração]
Mas se eu o faço, também vós o podeis fazer, em casa, dizendo: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me!» e, pensando nas chagas de Jesus, recitai um «Pai-Nosso» por cada uma delas. 
Jesus ouve-nos sempre! 
Pensemos em nós, nas nossas misérias... Cada um tem as suas! Pensemos com sinceridade e em verdade connosco mesmos. 
É precisamente nesse final de cada dia,  que é necessário que fiquemos sozinhos, que nos ajoelhemos diante de Deus e rezemos: «Senhor, se quiseres, podes purificar-me!». 
Fazei-o, fazei-o antes de ir dormir, todas as noites. 
E agora recitemos juntos esta bonita oração: 
«Senhor, se quiseres, podes purificar-me!».

 

frei Eugénio

2021-02-06

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho deste Domingo,  7 de fevereiro, 5º Domingo do tempo comum, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.




 
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Evangelho (Mc. 1,29-39)

Naquele tempo, Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André.
A sogra de Simão estava de cama com febre e logo Lhe falaram dela.
Jesus aproximou-Se, tomou-a pela mão e levantou-a. 
A febre deixou-a e ela começou a servi-los.
Ao cair da tarde, já depois do sol posto, trouxeram-Lhe todos os doentes e possessos e a cidade inteira ficou reunida diante da porta.
Jesus curou muitas pessoas, que eram atormentadas por várias doenças, e expulsou muitos demónios. 
Mas não deixava que os demónios falassem, porque sabiam quem Ele era.
De manhã, muito cedo, levantou-Se e saiu. Retirou-Se para um sítio ermo e aí começou a orar.
Simão e os companheiros foram à procura dele e, quando O encontraram, disseram-Lhe: «Todos Te procuram».
Ele respondeu-lhes: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar aí também, porque foi para isso que Eu vim».
E foi por toda a Galileia, pregando nas sinagogas e expulsando os demónios.
 
DIÁLOGO 
Quando gostamos de séries de televisão ou de rádio, é sempre com expectativa que aguardamos um novo episódio.

O que irá acontecer?

O evangelista Marcos, que é um bom narrador, depois de nos ter falado de Jesus a ensinar e expulsar um «espírito maligno» na sinagoga de Cafarnaum, na passagem de hoje, começa a descrever o resto do dia no qual «Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, a casa de Simão e André.»

Simão Pedro morava em Cafarnaum e a sua casa ficava perto da sinagoga. Mal entraram em casa, foram logo dizer a Jesus que a mãe da mulher de Pedro, estava doente.

Não sabemos se a senhora chorava, se estava a delirar com febre, ou se estava simplesmente deitada, quando Pedro voltou para casa com os amigos.

Quando pensamos nas pessoas curadas por Jesus, a sogra de Pedro raramente é a primeira a vir-nos à memória.

Infelizmente, nem o nome dela sabemos!

Parece ser uma pessoa sem grande importância - apenas uma senhora já de certa idade, com febre - até que Marcos vai contar o que se passou com ela.

Quando disseram a Jesus que ela estava doente, toda a sua atenção se voltou para ela.

«Jesus tomou-a pela mão e levantou-a.»

As palavras «tomou-a pela mão» são as mesmas que são usadas no Antigo Testamento, como sendo o gesto protetor com que Deus protege os que rezam e também o povo com quem fez Aliança.

O gesto de Jesus de a segurar pela mão e de a erguer, tem um significado imenso para todas e todos aqueles que rezam a Jesus e Lhe estendem as mãos, acreditando que Ele as segura e lhes levanta a Esperança de serem salvos.

Mas Marcos, não fica por aqui e acrescenta que, assim que a febre partiu, a sogra de Pedro, começou a servi-los.

Para indicar o serviço que ela vai fazer, usa a palavra grega «diakoneo», que tem a mesma fonte que a nossa palavra «diácono».

Embora o cargo de diácono ainda não estivesse estabelecido na Igreja dos primeiros cristãos, a sogra de Pedro é a primeira pessoa neste Evangelho a exercer essa função.

A importância do serviço que ela faz, é posta em relevo no Evangelho de Marcos, pois a palavra «diakoneo» é somente usada quando se refere ao serviço exercido por Jesus (Mc. 10, 45) e também por aquelas mulheres que o seguiam e serviam (Mc. 15, 41)

Se para o serviço que a sogra de Pedro vai realizar, Marcos emprega a palavra «diakoneo», é porque não se tratava somente daquilo a que hoje chamamos «serviços domésticos», que os homens nessa altura não faziam.

Era a colaboração que davam a Jesus na sua missão de anunciar que o Reino de Deus está já presente.

Esse anúncio, feito à maneira de Jesus, englobava palavras, e sobretudo todo o tipo de atitudes concretas, tornando essas colaboradoras próximas do seu próximo e indo em seu auxílio, como Jesus fazia.

A sogra de Pedro, mostra-nos como quando, na fé, temos um encontro com Jesus somos levados a servir os outros com um amor semelhante ao d’Ele, colaborando assim para que este nosso mundo seja mais humano e fraterno.

 

frei Eugénio

 

 

2021-02-04

Fraternidade Humana, Cerimónia de Prémios 2021

Hoje, dia 4 de fevereiro foi efetuada a entrega do prémio durante o encontro on-line do primeiro Dia Internacional da Fraternidade Humana, com a presença do Papa Francisco e do Xeque de Al-Azhar.
 
Os premiados foram António Guterres e Latifah Ibn Ziaten.
 
Aqui fica o vídeo desta cerimónia que vale a pena ver.


Hoje, 13h30: Dia Internacional da Fraternidade Humana

Todos podemos participar online hoje, às 13h30 (hora de Portugal continental), com o Papa Francisco, o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad Al-Tayyeb, e o Secretário Geral das ONU, António Guterres, no encontro que celebra o 1º dia internacional da Fraternidade Humana.

Este dia internacional vem na sequência do documento conjunto assinado pelo Papa e o Grande Imã há precisamente 2 anos, em Abu Dhabi.
 
Será  pela primeira vez atribuído o Prêmio Zayed para a Fraternidade Humana, prémio inspirado na encíclica "Fratelli Tutti".
 
O encontro pode ser acompanhado aqui.


2021-01-30

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho deste Domingo,  31 de janeiro, 4º Domingo do tempo comum, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.



 
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Evangelho (Mc. 1,21-28)

Jesus chegou a Cafarnaum
e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga
e começou a ensinar,
todos se maravilhavam com a sua doutrina,
porque os ensinava com autoridade e não como os escribas.
Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro,
que começou a gritar:
«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?
Vieste para nos perder? Sei quem Tu és: o Santo de Deus».
Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem».
O espírito impuro, agitando-o violentamente, soltou um forte grito e saiu dele.
Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros:
«Que vem a ser isto?
Uma nova doutrina, com tal autoridade,
que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!»
E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte, em toda a região da Galileia.



DIÁLOGO

A história que este relato do Evangelho nos  conta sobre um homem com um «espírito impuro», também chamado um «espírito maligno», é uma, entre outras, onde aparecem «espíritos demoníacos» que  tomam posse de pessoas.
 
Estes espíritos provocam gritos, atitudes e convulsões horriveis.
 
O que nós consideramos demoníaco e maligno é para outras pessoas pura ignorância científica sobre as doenças que afetam o sistema nervoso humano. Alguém se lembra ainda do filme «O exorcista» que levantou grandes discussões há uns quinze anos?
 
Na mentalidade da época de Jesus, quer entre judeus, quer entre os que seguiam os cultos gregos e romanos, quase todas as doenças e enfermidades eram vistas como sendo provocadas por espíritos com poderes para desencadear o mal nas pessoas e por isso era necessário, além de certos cuidados médicos, fazer  exorcismos para os expulsar.
 
As pessoas de Cafarnaum sabiam, por isso, o que eram os exorcismos e como eram feitos.

Os procedimentos eram demorados, cheios de fórmulas próprias  para afastar esses espíritos e eram acompanhados de ritos que só certas pessoas, com poderes especiais, os podiam realizar para que produzissem efeito. No relato que lemos, em perfeito contraste com esses exorcismos, Jesus  diz apenas  duas frases: «cala-te» e «sai desse homem» sem precisar de fazer qualquer ritual.

As simples palavras de Jesus fizeram sair do homem o «espirito fazedor de mal».
 
Por outro lado, de modo muito surpreendente é precisamente o «espírito maligno» que vai dizer que sabe quem é Jesus.
Diz que Jesus «é o Santo de Deus», isto é o Deus Único, o Completamente Diferente de todas as criaturas.
Jesus  aparece como Aquele, que apenas com a sua presença, já enchia de pânico os «espíritos malignos».
 
A admiração e o espanto que Jesus provocou nas pessoas, em Cafarnaum, não eram apenas fruto do poder de expulsar espíritos, mas também do modo como ensinava.
 
Jesus «ensinava com autoridade e não como os escribas».
Os escribas eram os que copiavam os textos da Bíblia, mas também os que a estudavam e a ensinavam a ler e a interpretar.
Eram os guardiões da tradição bíblica, o que os fazia repetir  o mais exatamente possível as interpretações  das passagens  da Lei judaica recebida  por Moisés.
Por sua vez Jesus não é um guardião da Tradição, mas o anunciador duma novidade vinda de Deus.
 
De onde vinha então a autoridade de Jesus ?
 
Não tinha currículo, nem diplomas de escriba ou doutor da Lei, nem estatuto religioso por ser um fiel judeu comum, sem ser sacerdote, nem pertencia a nenhuma confraria como os fariseus  ou partido como os saduceus.

A sua autoridade começava no seu dizer unido ao seu fazer.
A sua autoridade saía dos seus lábios e das suas mãos.
A sua autoridade vinha-lhe da sua completa união a Deus Pai, de quem era o porta-voz e o mensageiro.

O Amor de Deus-Pai é  sua fonte.
Jesus, o Filho de Deus,  é a perfeita transparência de Deus Pai e por isso pode, com toda a verdade, dizer ao apóstolo Filipe: «Filipe quem me vê, vê o Pai».

A principal ocupação de Jesus é de ser Anunciador do Evangelho de Deus.
Jesus tinha como principal função dar a conhecer a todas as pessoas e  em todos os lugares, a Boa Notícia sobre quem Deus era e o que  Deus queria para todas as pessoas humanas, suas filhas e seus filhos e para a criação.
 
Para poder anunciar o Evangelho, tinha que ensinar, mas ao mesmo tempo devia acolher todas as  pessoas, tinha também de as libertar de todas as prisões interiores e exteriores e de curá-las espiritual e fisicamente.
Foi o que Ele viveu.
 
Se ainda hoje há cristãos e se esperamos que nas novas gerações também haja, tudo dependerá de haver quem aceite ser anunciador do Evangelho de Deus à maneira de Jesus.
 
No nosso tempo, continua a ser habitual que as pessoas considerem que na Igreja Católica e também nas outras Igrejas cristãs, quem tem a função de ser anunciador são os bispos e os padres e as anunciadoras devem ser as monjas e  as religiosas.

Mas, felizmente, ao longo do tempo muitas das  Anunciadoras e dos Anunciadores do Evangelho, a quem também devemos, hoje, sermos seguidores de Jesus, não tinham qualquer estatuto, nem diploma, nem  título eclesiástico.

Essas mulheres e esses homens de fé, apenas se apoiaram na fidelidade a Jesus e na Sua mensagem que lhes foi confiada para ser anunciada. 

Anunciaram, porque eram livres. 
 
Também os há nos nossos dias!

Demos graças Deus se elas e eles entraram nas nossas vidas!

    frei Eugénio

 

2021-01-23

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho deste Domingo,  24 de janeiro, 3º Domingo do tempo comum, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.


 
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EVANGELHO (Mc  1, 14-20)

Depois de João ter sido preso, Jesus partiu para a Galileia

e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:

«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.

Convertei-vos e acreditai no Evangelho».

Caminhando junto ao mar da Galileia,

viu Simão e seu irmão André,

que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.

Disse-lhes Jesus:

«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».

Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.

Um pouco mais adiante, viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,

que estavam no barco a consertar as redes; e chamou-os.

Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados e seguiram Jesus.

Palavra da salvação.

 

DIÁLOGO

Jesus começa a sua pregação proclamando: "Está próximo o Reino de Deus. Convertei-vos e acreditai no Evangelho».

Foi essa a essência da mensagem e da atividade de Jesus.

O Evangelho de Marcos não realça tanto as pregações de Jesus, como as suas ações, pois Marcos pretendia demonstrar que através dessas ações Jesus encarnava o Reinado de Deus.

Jesus inaugurou o Reinado de Deus na História, com a sua obediência a Deus-Pai e  a sua intimidade com Ele e oferecendo a todas as pessoas poderem também participar nessa intimidade divina.

Jesus inaugura um estilo de vida e de comportamento, que pela sua novidade, vai encontrar muitas resistências no mundo religioso quer judaico, quer greco-romano.

É, pois, necessário que os seus ouvintes se preparem para ter de mudar de mentalidade religiosa, para poderem aceitar o modo como Jesus falava de Deus e com Deus, a si mesmo e ao próximo.

Isso implicava um modo de viver diferente.

Essa transformação é chamada conversão, que corresponde à palavra grega metanoia.

Em que consistia essa novidade tão grande?

Pensemos numa situação, aparentemente simples para nós.

Quando Jesus se dirigia a Deus, tratava-O por “Abba!”, que, como sabemos, quer dizer “papá, paizinho” como as crianças na Palestina tratavam os seus pais.

Conseguimos imaginar o enorme atrevimento que isso representava, por rebaixar Deus ao nível dum pai humano e falível?

Além disso, era uma pretensão de proximidade, e de grande intimidade com Deus, inimaginável para quem tinha um tal respeito pelo Deus da Criação e da Aliança que nem o seu Nome se podia pronunciar.

Era intolerável, era uma blasfémia mesmo, que parecia destruir o essencial da religião judaica.

Também no Reinado de Deus, que Jesus inaugurou, deixou de haver a separação fundamental entre os membros do Povo Eleito e os chamados pagãos, que seguiam outras crenças e religiões. Todos passaram a ser considerados filhas e filhos de Deus, um Pai e assim passavam todos a fazer parte duma imensa fraternidade.

Esta outra mudança que Jesus trouxe que era demasiado radical.

A conversão, a mudança de mentalidade era fundamental para que os ouvintes de Jesus pudessem acreditar no Evangelho, nas “boas notícias” que Ele apresentava e praticava.

Acreditar no Deus que Jesus nos apresenta tem um carácter de decisão, de opção.

Uma opção que não é de um dia, ou de uma ocasião, mas uma opção para todos os momentos ao longo da vida.

A conversão, realiza uma transformação no nosso interior, no nosso ser.

É Deus e a Sua Vontade que se tornam a fonte do nosso agir e do nosso estilo de vida.

A conversão, permite-nos sonhar, com os sonhos que só o Espírito de Deus nos pode inspirar.

Esta mudança, permite ter uma certeza cheia de fé, de que a comunhão com Deus, e com toda a criação se passa já no desenrolar da História e lhe dá o significado final.

Marcos mostra no seguimento desta página do Evangelho, como a metanoia se concretizou no chamamento dos primeiros discípulos.

Jesus viu uns pescadores, à beira do Mar da Galileia e convidou-os para uma transformação total na vida deles.

Será que estes pescadores já tinham alguma vez ouvido Jesus a pregar?

Teriam eles refletido sobre as promessas que ele apresentava?

Teriam já tido algumas discussões sobre ele?

Não sabemos, mas é possível que tenha acontecido!

Mas desta vez, ouvem-no dizer-lhes diretamente: "Vinde comigo”.

É Ele próprio, Jesus em pessoa, que se dirige a eles e lhes propõe uma total mudança de vida.

Marcos diz-nos que eles deixaram tudo imediatamente, dois deles até deixaram o seu pai sozinho para terminar o dia de trabalho na pesca.

O que é que pode ter motivado a decisão tão rápida que tomaram, de mudar completamente de vida familiar e profissional, aceitando o convite de Jesus?

O que é que pode estar na base da opção que tomaram por seguir Jesus e pelo seu modo de viver e de se relacionar com os outros, fazendo a Vontade de Deus?

Foi a sua conversão a Jesus, pondo-O no centro das suas vidas, como Alguém por quem valia a pena tudo arriscar.

É isso que a conversão faz, mudando as prioridades e os discernimentos.

É uma proposta de "tudo ou nada".

 A conversão destes pescadores e as de outras e outros discípulos de Jesus, apesar de tão radical, não funcionou automaticamente. As suas decisões de seguir Jesus não os transformou de um momento para o outro.

Tiveram de aprender a vivê-la através duma árdua e demorada aprendizagem com o Mestre.

Sabemos também que Jesus não pediu a todas e a todos que deixassem tudo para trás. Discípulos como Zaqueu, Marta, Maria e Lázaro, a samaritana, Nicodemos e outras e outros, viveram a sua metanoia em casa, em família, com as suas profissões.

A conversão, a metanoia, tem a ver com a transformação que se opera no modo de nos relacionarmos com Deus e deixarmos que Ele se relacione connosco, sobretudo pela oração, como Jesus a praticava, querendo o que Deus quer.

Conhecemos certamente pessoas, do passado e do presente, que permitiram que o sonho do Reinado de justiça e amor de Deus se tornasse realidade nas suas vidas.

Somos convidados ao mesmo.

frei Eugénio