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2013-09-15

O Evangelho da Misericórdia

Para uma análise do texto deste Capítulo 15 do Evangelho de Lucas pode ler-se este texto de António Couto.

Aqui fica um extracto:

"[o filho mais novo] Pensa então em voltar para casa, mas como assalariado, não como filho. Prestemos atenção ao discurso em três pontos que prepara: 
1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 
2) não sou mais digno de ser chamado teu filho; 
3) trata-me como um dos teus assalariados» (Lucas 15,18-19).
Ei-lo, portanto, que regressa. Mas já o Pai está à espera dele com um imenso abraço de alma a alma. 

Mas o filho tinha preparado o seu discurso em três pontos, e ei-lo que começa a debitá-lo: 
1) «Pai, pequei contra o céu e contra ti; 
2) não sou mais digno de ser chamado teu filho» (Lucas 15,21). 

Como se compreende, o terceiro ponto deste discurso era fatal, e o filho já não o diz. Não porque não quisesse, mas porque o Pai o interrompe, dizendo aos criados: «Depressa…» (Lucas 15,22)."

2013-03-10

A propósito do Evangelho


Na sequência do diálogo do Frei Eugénio com o Evangelho do Filho Pródigo, vale bem a pena ler este texto de António Couto, de que aqui ficam alguns excertos.

(...) o narrador prepara cuidadosamente o cenário, dizendo-nos que os PUBLICANOS e PECADORES se aproximavam de Jesus para o escutar, em claro contraponto com os ESCRIBAS e FARISEUS que estavam lá, não para o escutar, mas para criticar o facto de Jesus acolher os pecadores e comer com eles. (…)

 3. A estes últimos [escribas e fariseus] conta Jesus uma parábola, «ESTA PARÁBOLA» (taúten parabolên) (15,3), no singular. Sim, o texto diz expressamente «ESTA PARÁBOLA», o que quer dizer que tudo o que Jesus vai contar até ao final do Capítulo é uma só parábola, e não três, como vulgarmente se pensa, titula e diz. Sendo a parábola contada para os ESCRIBAS e FARISEUS, então é desse lado do auditório que nós, leitores ou ouvintes, nos devemos colocar. Se nos colocarmos, como é usual e a nossa simpatia reclama, do lado dos PECADORES, da OVELHA perdida e encontrada, da DRACMA perdida e encontrada, do FILHO perdido e encontrado, a parábola passa-nos ao lado.

(…)
7. Vejamos então: o filho mais novo faz ao seu PAI um estranho pedido: pede a parte da herança que lhe toca. Note-se bem que se trata de um pedido fatal. O PAI dá três coisas: o pão todos os dias, uma roupa nova pelas festas, mas há uma coisa que só dá uma vez na vida, e em circunstâncias fatais, de morte próxima: a herança! Ao pedir a herança, este filho como que mata o PAI e morre como filho! Em boa verdade, ele não quer mais ter PAI e não quer mais ser filho. Por isso, junta tudo, parte para longe e gasta tudo. Desce abaixo de porco, pois nem o que os porcos comem lhe é permitido comer. Decide então voltar para casa, e prepara um discurso com três pontos: 1) PAI, pequei contra o céu e contra ti; 2) não sou digno de ser chamado teu filho; 3) trata-me como um dos teus assalariados. Vê-se bem que não quer voltar mais a ser filho. Também não quer mais ter PAI. Quer ser um assalariado. Quer ter um patrão.

8. Voltou. O PAI viu-o ao longe, as suas entranhas moveram-se de compaixão, correu ao encontro do filho, abraçou-o e beijou-o. É outra vez a surpresa a encher a cena. Quando nós regressamos a casa, entenda-se, a Deus, nunca encontramos um PAI distraído ou ausente, que mudou de residência, ou que responde de forma brusca e fria. Note-se bem que a iniciativa surpreendente é do PAI.

(…)
10. Como tinha saído ao encontro do filho mais novo, o PAI sai agora também ao encontro do filho mais velho, para o instar a entrar para a FESTA, tal como o pastor que encontra a ovelha perdida e a mulher que encontra a dracma perdida convidaram os amigos e os vizinhos para a ALEGRIA. Mas este filho mais velho acusa o PAI de acolher um pecador e de se preparar para comer com ele. Exactamente o que faziam os ESCRIBAS e FARISEUS, que criticavam Jesus por acolher os pecadores e comer com eles. Este filho mostra-se, portanto, um puro FARISEU, que sempre cumpriu as ordens do PAI (patrão), achando-se credor e não devedor face ao seu PAI, face a Deus!


11. Quando duas figuras parecem diferentes, é naquilo em que se assemelham que reside a chave de compreensão. O que assemelha estes dois filhos é que ambos se sentem assalariados (e não filhos) e ambos olham para o PAI como para um patrão. É também interessante notar que os dois filhos deste quadro falam ao PAI, ao seu PAI comum, como fazem os cristãos. Como fazemos nós. Mas em nenhum momento da história se falam um ao outro. Será que também neste ponto se parecem connosco? Sim, às vezes, nós também só sabemos falar por trás, entre raivas acumuladas e insultos. (...)

13. Afinal «ESTA PARÁBOLA» em três quadros foi contada por Jesus aos ESCRIBAS e FARISEUS, ao FILHO MAIS VELHO, a NÓS. Mas ficamos sem saber, no final, se o FILHO MAIS VELHO entrou ou não entrou em casa, para a FESTA. O narrador não o diz, porque essa decisão de entrar ou não, somos NÓS que a temos de tomar. Afinal foi para NÓS, TU e EU, colocados, na estratégia narrativa, do lado dos ESCRIBAS e FARISEUS e do FILHO MAIS VELHO (única posição correcta para sermos interpelados pela parábola), que Jesus contou a parábola. Então, a decisão é nossa, é minha e tua: entramos ou recusamos entrar na CASA do PAI, na misericórdia, na festa, na dança e na alegria?

2011-08-13

Mulher de grande fé

A propósito do Evangelho deste Domingo aqui fica o comentário de António Couto, retirado do Mesa de Palavras.

MULHER DE GRANDE FÉ

1. O Evangelho deste Domingo XX do Tempo Comum serve-nos uma página absolutamente desarmante: Mateus 15,21-28. Jesus abandona Genesaré, na costa ocidental do Mar da Galileia, e vai para a região de Tiro e de Sídon, actual Líbano, terra pagã.

 2. Uma mulher e mãe «libanesa», carregada com o drama da sua filha doente – situação verdadeira ontem como hoje –, vem implorar de Jesus, num grito que lhe sai do fundo das entranhas, que lhe «faça graça» (eléêsón me, kýrie) (Mateus 15,22), isto é, que olhe para ela com bondade e ternura como uma mãe que dirige o seu olhar embevecido para a criança que embala nos braços.

 3. O texto diz que Jesus nem lhe respondeu (Mateus 15,23). Mas a mulher não desiste, mas insiste e vai mais longe, prostrando-se (verbo proskinéô) agora diante de Jesus (Mateus 15,25). O gesto significa orientar a sua vida toda para Jesus, pôr-se totalmente na dependência de Jesus. A reacção de Jesus é de uma dureza extrema: afasta a pobre mulher e mãe duramente, catalogando-a na classe dos cachorros [= pagãos] e não dos filhos [= judeus] (Mateus 15,26). Só para estes é que ele veio.

 4. A mulher replica de modo admirável: é verdade, Senhor! Os filhos estão reclinados à mesa, mas os cachorros comem debaixo da mesa as migalhas que caem! (Mateus 15,27). «Mulher da grande fé! (megalê hê pístis)», replicou Jesus, «faça-se como queres!» (Mateus 15,28).

 5. Note-se bem que é a única vez que Jesus fala da «grande fé». E atribui-a a uma mulher e mãe «libanesa» cujo amor nunca se vergou perante a dureza e as dificuldades da vida. Em contraponto com esta mulher da «grande fé», note-se bem que Pedro é o homem da «pequena fé» (oligópistos) (Mateus 14,31), do mesmo modo que os discípulos são os homens «da pequena fé» (oligópistoi) (Mateus 6,30; 8,26; 16,8; 17,20). Admirável ainda que Jesus diga a esta mulher que não desiste, mas insiste e persiste: «faça-se como queres» (genêthêtô hôs théleis), um paralelo claro da oração do «Pai Nosso»: «Faça-se a tua vontade» (genêthêtô tò thélêmá sou) (Mt 6,10)!

 6. O episódio é de uma crueza e de uma beleza inauditas. Mas há ainda mais: é a insistência desta mulher e mãe «libanesa» que, por assim dizer, obriga Jesus a passar mais uma fronteira: de hebraeos ad gentes!

 7. Enquanto tentamos compreender melhor a ousadia desta mulher e mãe «libanesa», que enche claramente este Domingo XX, não deixemos também de contemplar o rumor missionário que se faz ouvir, em perfeita sintonia, nas demais passagens ou paisagens bíblicas de hoje: aí está Isaías a adscrever mais um belo nome a Jerusalém: «Casa de oração para todos os povos» (Isaías 56,7). E Paulo a intitular-se «Apóstolo das nações» (Romanos 11,13). E o Salmo 67(66) a juntar as vozes dos povos de toda a terra no mesmo louvor ao Deus que faz graça e misericórdia.

2010-12-12

A propósito do Evangelho: é divertido


Vale a pena ler o artigo do Frei Bento, no Público de hoje. Aqui fica o link (através do Religionline):

Bento Domingues: O Evangelho é divertido

"
Se lêssemos as narrativas do Novo Testamento sem beatices e reparássemos na ironia, no riso e no humor que as percorrem, seria fácil descobrir quanto o Evangelho é divinamente divertido!"

2010-06-20

A propósito do Evangelho deste Domingo...

Para todos, todos os dias - António Couto
"...duas coisas únicas deste Evangelho, duas pérolas, portanto: «Dizia Ele a todos: “Se alguém quer vir atrás de mim, diga não a si mesmo, e tome a sua cruz todos os dias, e siga-me» (9,23). A primeira pérola está em que Jesus diz para todos. O dizer de Jesus, o seu ensino novo, não é para elites, para alguns iluminados. É para todos. Entenda-se que a escola de Jesus está aberta a todos, ricos e pobres, maus e bons, especialistas e ignorantes. Já se sabe que o ignorante é aquele que não sabe; de resto, também o especialista não sabe, mas não sabe com grande autoridade e competência! Ainda bem, portanto, que Jesus diz para todos. A segunda pérola é que a vida cristã, seguir Jesus, é coisa quotidiana, de todos os dias. Não é só para alguns dias de festa. Não pode ter pausas."


"Dizer não a si mesmo é pensar ao contrário do que estamos habituados. Pensamos sempre primeiro em nós, em salvar-nos a nós mesmos. Para nos salvarmos a nós mesmos, temos de nos anteciparmos aos outros, sermos mais espertos que os outros, passar à frente dos outros. Exactamente o contrário de Jesus, que não quis salvar-se a si mesmo. Quis salvar-nos a nós, pôr-se ao nosso serviço, fazer-se fonte de água viva para nós. «Salva-te a ti mesmo, e desce da Cruz!» (Lucas 23,35-39). Se se tivesse salvo a si mesmo, não nos salvava a nós! Lógica nova do «quem perde, ganha», jogo novo do cristianismo."

Ver aqui texto completo.

2009-11-02

A propósito do Evangelho...

A propósito deste dia de Todos-os-Santos, venho partilhar convosco o que me pus a pensar comigo mesmo :
Quero ser feliz? ... Claro que quero, é o que todos andamos à procura, mais ou menos conscientemente.
Quero realizar-me como pessoa? ... Obriga a muita procura e a ter de fazer escolhas e tomar decisões, mas se assim não fôr, como poderei ser feliz comigo mesmo e com as pessoas e ambiente à minha volta?
Quero ser santo? ... Antes de responder tive que pensar um bom bocado! Mas afinal o que é isto de querer ser santo?
E fui dar uma volta pelo parque em frente do convento... a matutar no Evangelho das Bem-aventuranças.
Jesus fala de caminhos de felicidade ("boa ventura")!
E se ser feliz fosse = a realizar-me como pessoa e = a ser santo?
Se esta "equação" estiver certa, ser santo é ser feliz à maneira de Jesus e permite realizar-me pesoalmente!
... Bingo! Acertei!
Se falar mais vezes a Jesus: "que é que queres de mim neste momento? Dá-me uma ajudinha para enfrentar esta contrariedade! Abre uma porta para resolver este problema! Bem hajas afinal o que me fazia mêdo correu bem melhor do que imaginava! ..." ponho em prática a "equação" de Jesus.
Fiquei feliz com a minha descoberta!

Frei Eugénio