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2020-07-10

Diálogo com o Evangelho - texto

Podemos também ler o diálogo da vida com o Evangelho de Jesus.

EVANGELHO (Forma breve) Mt 13, 1-9

Naquele dia, Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão que teve de subir para um barco e sentar-Se, enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
«Saiu o semeador a semear. Quando semeava, caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos, onde não havia muita terra, e logo nasceram porque a terra era pouco profunda; mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram, por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos e os espinhos cresceram e abafaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto: umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça».

DIÁLOGO

Caros leitores,

São Mateus organizou o seu evangelho como “um drama sobre a vinda do Reino de Deus”.

No capítulo 13, apresenta-nos sete parábolas sobre o Reino de Deus já presente entre nós, começando por esta “parábola do semeador”.

Jesus começa por dizer: “Saiu o semeador a semear” e logo cativa a atenção dos seus ouvintes que conhecem bem esse gesto tão cheio de ritmo do semeador, que começa por meter a mão no saco que leva a tiracolo e em seguida num largo gesto lança as sementes ao ar até onde chega a sua força, para que elas se espalhem na terra.

Com esse gesto amplo, algumas sementes vão também cair nos caminhos de terra batida ou empedrados e nos sítios pedregosos ou espinhosos que ladeiam os campos.

O semeador deseja que as  sementes sejam de boa qualidade e espera vir a ter uma colheita abundante.

As sementes que caem nos caminhos e que são comidas pelos pássaros, nada produzem, e o resultado nelas é o insucesso.

As que caem nos sítios pedregosos ainda crescem um pouco, mas também não dão qualquer fruto. Outro insucesso.

E as que caem entre os espinhos e até parecem crescer bem, mas que serão abafadas são também outro insucesso.

Mas a parábola tem “um final feliz” pois as sementes são boas e a terra também e o semeador terá uma boa produção.

Os insucessos que entristecem, as contrariedades que desanimam, os ambientes que abafam as boas intenções, fazem parte da sementeira.

Mas o final feliz da parábola vai fortalecer a esperança, vai encorajar a não desistir, vai dar força para se ser persistente, pois o bom resultado será alcançado, apesar dos insucessos.

Segundo o evangelista São Mateus, Jesus conta esta parábola e as outras seis sobre a vinda do Reino de Deus, quando a sua vida e pregação estão a encontrar as maiores oposições e quando a sua condenação, tortura e morte na cruz estão a ser planeadas.

É também a altura em que muitos discípulos o abandonam e mesmo os mais próximos ficam cheios de dúvidas e desânimo.

A parábola do semeador vai dar esperança e reforçar a confiança no Amor de Deus e do Seu Reinado.

Por outro lado, é bom termos presente que a imagem dos terrenos onde caem as sementes se refere ao nosso intimo, ao nosso  ‘coração’ em linguagem bíblica, o centro de nós mesmos,  fonte do pensamento, da vontade e dos sentimentos.

«Jesus faz, por assim dizer, uma «radiografia espiritual» do nosso coração, que é o terreno sobre o qual a semente da Palavra cai», como disse o Papa Francisco numa homilia.

Jesus veio lançar as sementes da sua Boa Notícia da presença do Reino de Deus no meio de nós, mas que ainda está longe do mundo completamente renovado que Ele promete em nome do Seu Pai para o final dos tempos.

É o Reino já presente, mas ainda não totalmente realizado.

Gostaria de chamar a atenção para uma interpretação muito comum desta parábola e que nos pode ocultar a beleza e força desta parábola do semeador.

Nessa interpretação, em vez de olharmos para dentro de nós para vermos onde estão a cair as sementes da Palavra de Deus, considera que é fora de nós e à nossa volta que há esses terrenos improdutivos.

Olhamos para pessoas conhecidas ou próximas que dizemos estarem nos caminhos de terra batida  e por isso se tornaram ateus ou completamente indiferentes.

Outros, estão nos terrenos pedregosos e desiludiram-se com o Catolicismo e afastaram-se da prática religiosa.

Outros são os que os espinhos abafaram por se preocuparem sobretudo em seguir o que a sociedade e o modo de pensar actual valorizam, mesmo se for contra a Palavra de Deus.

E por fim, nós, somos a boa terra que produz conforme conseguimos.

Porque é que esta interpretação na qual nos comparamos  com outros, nos pode afastar da intenção de Jesus?

Jesus no seu anúncio do Reino de Deus já presente, deseja que cada um de nós descubra que os quatro terrenos estão dentro de nós e que segundo as situações, podemos mudar de terreno, passar duma atitude à outra, sem nos apercebermos.

Para podermos sair dessas situações improdutivas e assim nos convertermos, devemos  ter os ouvidos do coração disponíveis para receber a Palavra de Deus, escutando-a, guardando-a, rezando-a  e procurando pô-la em prática.

A comparação com outros afasta-nos da verdadeira conversão.

Caros leitores, Jesus convida-nos hoje a olhar para dentro de nós, com a esperança de podermos colaborar com o Seu Amor para que o Seu Reino esteja mais presente entre nós.

frei Eugénio

2020-07-05

Diálogo com o Evangelho - Texto

Construir sobre a rocha
  
A partir deste Domingo, podemos também ler
o diálogo da vida com o Evangelho de Jesus.


EVANGELHO (Mateus  11, 25-30)
Naquele tempo Jesus exclamou
«Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos.   
Naquele tempo Jesus exclamou
Tudo Me foi dado por meu Pai.
Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado.
Tudo Me foi dado por meu Pai.
Ninguém conhece o Filho senão o Pai
e ninguém conhece o Pai senão o Filho
e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim,todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

DIÁLOGO
Esta passagem do evangelho de Mateus que acabamos de ouvir, no capitulo 11, versículos 25 a 30, é uma síntese que apresenta o  íntimo da personalidade de Jesus de Nazaré, a que podemos chamar o segredo da sua vida.
Cinco versículos apenas mas que são centrais para conhecermos Jesus como Ele se quis dar a conhecer.
Comecemos por reparar que Jesus se dirige a Deus  tratando-o por Pai, no original Abba, papá, como as crianças do seu tempo tratavam com carinho os seus pais.
Foi um modo completamente novo de se relacionar com Deus com muita proximidade e ternura.
Foi uma surpresa e ao mesmo tempo um escândalo para as pessoas mais religiosas e mais conhecedoras da religião judaica do seu tempo:  O Altíssimo Deus posto ao nível dos sentimentos humanos.

O relato do Evangelho começa com Jesus, dirigindo-se ao Pai dando-Lhe  graças, manifestando-Lhe a sua grande alegria interior, por constatar que o Pai tem uma preferência especial pelos “pequeninos”.
Mas quem são na linguagem da época estes “pequeninos” também chamados por “simples” ou “pobres” ?
Não são as crianças pequeninas, como por vezes se pensa, mas todos aqueles e aquelas que eram os mais  desfavorecidos da sociedade, os que tinham menos instrução e conhecimentos, aqueles a quem ninguém pedia uma opinião, os que não eram ouvidos, os que eram mais  desconsiderados e “marginalizados” como diríamos hoje.

E Jesus constata também que são estes “pequeninos” que melhor o escutam e se alegram com o que Ele anuncia sobre Deus e o seu projeto para a humanidade, Descobrem que são importantes para Deus.
Jesus dá graças a Deus Pai por Ele fixar os olhos naqueles que a sociedade e os homens parecem não querer ver.

Em seguida Jesus proclama a sua íntima certeza que as suas atitudes, as suas palavras, os seus gestos e o que é a sua personalidade manifestam quem Deus é e o que Deus quer para este mundo: “eu e o Pai somos um”.

Jesus diz ser o único que conhece Deus como mais ninguém neste mundo, com uma tal intimidade e profundidade, que os cristãos na proclamação da sua fé o apresentam como sendo o “Filho Único igual ao Pai”.
Jesus diz ainda que nos irá oferecer o Seu Espirito, para que possamos também partilhar essa Sua intimidade com o Pai.

“Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos”.
Este apelo parece feito para esta época que estamos a viver: tantas canseiras, tanto sofrimento, tantas preocupações...
Tantas situações desesperadas e para muitos sem qualquer solução à vista...
Jesus convida-nos  a ir ter com Ele para pormos sobre os seus ombros o que nos cansa e oprime.
Desafio enorme, este!
Estamos perante o mistério do sofrimento e da fé num Deus Pai e em Jesus que partilha as nossas dores. Não nos é pedida a resignação, mas a acção.
Temos de ter uma atitude de confronto, de oração, de meditação neste mistério.
Temos de escutar este mistério do sofrimento e escutar a voz de Deus Pai que muitas vezes se traduz no silêncio connosco.
A Fé é feita de poucas certezas e de muitas interrogações.
A grande pergunta com que nos deparamos nesta passagem do Evangelho é como é que se concretiza este alívio que Jesus nos promete.
Mesmo que não tenhamos uma resposta clara, o que não podemos é duvidar do que Jesus diz que Ele está connosco para nos ajudar e que Deus é Pai.

frei Eugénio Boléo op