2021-11-05

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 32º Domingo do tempo comum, 7 de Novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 

 

Evangelho (Marcos 12, 41-44)

Naquele tempo, Jesus sentou-Se em frente da arca do Tesouro do Templo a observar como a multidão deitava o dinheiro no cofre das ofertas.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Em verdade vos digo: esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava, mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha, tudo o que possuía para viver».

DIÁLOGO 

Na passagem do Evangelho que lemos, Jesus estava no átrio do Templo de Jerusalém, sentado em frente do sítio no qual estava o cofre, onde os peregrinos iam deitar as suas ofertas. 

Em dada altura, Jesus viu uma pobre viúva que deitou no cofre duas moedinhas. 

Entre tantos peregrinos, Jesus reparou naquela pobre viúva, porque o seu olhar era cheio de amor e estava sempre atento a cada pessoa, nas situações e nos acontecimentos em que se encontravam. 

O que vê Jesus naquela pobre viúva, de quem nem mesmo sabemos o nome? 

Certamente vê uma mulher com uma vida muito difícil, como a das viúvas pobres, completamente dependentes de quem lhes dava guarida e alimentos, mas Jesus vê sobretudo o que é muito mais importante: que a viúva deu como oferta tudo o que tinha. 

Jesus vê a viúva oferecer a Deus tudo o que tinha e declara que ela, aos olhos de Deus, deu mais do que os outros peregrinos, que davam do que lhes sobrava. 

Quando Jesus chamou a atenção dos discípulos para a atitude da viúva no Templo, apresentou o valor da sua oferta, usando uma escala diferente daquela que era a habitual, que se centrava na quantidade de dinheiro entregue em donativos. 

A viúva dará da sua pobreza, e Deus será «tocado» pela humildade daquela pobre mulher, que se confia totalmente ao Amor e à Misericórdia de Deus. 

Jesus chamou a atenção para o gesto dela, para ensinar aos seus discípulos, que no Reino de Deus, há um modo bem diferente de valorizar as ações das pessoas. 

As «balanças» de Deus são diferentes das nossas. Ele «pesa» as pessoas e as suas ações de forma diferente. Deus não «pesa» a quantidade, mas a qualidade, Ele examina o coração, Ele olha para a retidão das intenções. 

A viúva no Templo é uma imagem do próprio Jesus.    

Tal como Ele, ela recebeu pouca atenção das pessoas que eram importantes. 

Tal como Ele, ela era suficientemente livre para dar tudo o que tinha, quer fosse ou não bem apreciado pelos outros.Deus vê a nossa humildade como um Pai misericordioso.   

Tal como Jesus, os discípulos aprendem a dar-se completamente, apesar das dificuldades, hesitações e sofrimentos que esse modo de viver pode acarretar. 

Também a nós, Deus dá generosamente a sua graça e os seus dons.

 Ele salvou-nos gratuitamente. E nós próprios devemos fazer as coisas como uma expressão de gratuidade. 

Quando somos tentados pelo desejo de contabilizar os nossos actos de altruísmo e de solidariedade, quando estamos interessados em que as pessoas valorizem o bem que fazemos aos outros, pensemos nesta viúva. Vai fazer-nos bem!Acreditar que Jesus ressuscitado também nos olha pessoalmente com amor, a cada um de nós, é um grande reconforto e estímulo.   

Com Jesus, podemos aprender a dar e a dar-nos: dar tempo, dar atenção, dar ajudas, dar alegria, dar apoio, dar coragem, e tantos outros modos de dar, valorizando os outros. 

Jesus olhou, e viu o melhor daquela pobre viúva! 

Jesus ressuscitado olha-nos e vê o que podemos dar de melhor de nós mesmos, em cada ocasião. 

frei Eugénio

 

 

2021-10-30

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 31º Domingo do tempo comum, 31 de Outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 


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Evangelho (Marcos 12, 28-34) 

Naquele tempo, aproximou-se de Jesus um escriba e perguntou-Lhe: «Qual é o primeiro de todos os mandamentos?».
Jesus respondeu: «O primeiro é este: "Escuta, Israel: O Senhor nosso Deus é o único Senhor.
Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças".
O segundo é este: "Amarás o teu próximo como a ti mesmo". Não há nenhum mandamento maior que estes».
Disse-Lhe o escriba: «Muito bem, Mestre! Tens razão quando dizes: Deus é único e não há outro além dele.
Amá-lo com todo o coração, com toda a inteligência e com todas as forças, e amar o próximo como a si mesmo, vale mais do que todos os holocaustos e sacrifícios».
Ao ver que o escriba dera uma resposta inteligente, Jesus disse-lhe: «Não estás longe do reino de Deus». E ninguém mais se atrevia a interrogá-lo.

DIÁLOGO

Certamente que teríamos uma grande alegria se ouvíssemos Jesus dizer-nos: «Não estás longe do Reino de Deus».

Foi o que Jesus disse a este escriba que foi ter com Ele, pedindo-lhe uma orientação segura para a sua vida.

Também nós procuramos relacionar-nos com o Deus Verdadeiro e Vivo.

A nossa busca de Deus, tal como a do escriba, deve basear-se em alicerces firmes. 

Jesus dá-nos estes alicerces quando diz: “Amarás o Senhor teu Deus e amarás o teu próximo como a ti mesmo”. 

De facto, o chamado "primeiro mandamento" não é propriamente um mandamento, é um apelo, pois diz: «Escuta Israel. Eu sou Iahweh, vosso Deus, que vos tirei do Egito, da casa da servidão" (Dt 5,6).

E se Deus é Aquele que, no Seu Amor, toma a iniciativa de nos libertar, é normal que Ele nos convide a amá-Lo livremente. 

«Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças.» 

Não é apenas um «mandamento», é uma convicção vivida pessoalmente, com todas as nossas energias: «Estas palavras que vos dou hoje permanecerão no vosso coração».

Jesus, não criou estes mandamentos, pois já estavam presentes no Antigo Testamento, na Lei da Aliança que Deus tinha feito com o povo, por intermédio de Moisés. 

O que Jesus fez foi unir intimamente os dois mandamentos entre si. 

À pergunta: «Qual é o maior mandamento?» 

Jesus responde que não é um só, mas que são dois, inseparáveis entre si.

Não há amor a Deus sem amor ao próximo e não há amor ao próximo sem amor a Deus.

O evangelista João di-lo, duma forma muito clara, numa das suas cartas: «Se alguém diz: 'Eu amo Deus', mas odeia o seu irmão, ele é um mentiroso. 

Pois aquele que não ama o seu irmão, que ele vê, é incapaz de amar a Deus, que ele não vê.» (I João 4, 20)

Num encontro de formação de jovens para o Crisma, queria criar-se um símbolo que representasse a união e a complementaridade destes amores. E, assim surgiu a ESTRELA DO AMOR (com 5 pontas como as estrelas-do-mar). 

Numa ponta: o amor A DEUS. 

Noutra, o amor AO PRÓXIMO.

E numa terceira, o amor A SI-MESMO

Mas quais serão os outros dois amores que faltam na estrela? 

Para que estes três amores possam ser vividos por nós, há dois que são os mais fundamentais e quase sempre os mais esquecidos. 

Quais serão eles? 

É o AMOR DO PRÓXIMO e o AMOR DE DEUS.

No nosso desenvolvimento e crescimento num amor saudável a Nós-Mesmos, para nos podermos tornar Pessoas bem humanas, dependemos de muitas pessoas e de circunstâncias que elas nos proporcionam. 

Assim, o AMOR DO PRÓXIMO é essencial nas nossas vidas.

Mas para amar a Deus, que não vemos, nem podemos ver neste mundo e também para termos confiança na sua Bondade, quando conhecemos as histórias de tantas pessoas e dos variados povos da Humanidade, não nos podemos apoiar em argumentações que só convencem quem já está convencido. 

Precisamos, sim, de descobrir que Deus tem Amor por mim, por cada um de nós, por todas as pessoas que vêm a este mundo. Precisamos descobrir o AMOR DE DEUS.

É uma graça muito grande experimentarmos que vale a pena por toda a nossa confiança nesse AMOR DE DEUS.

Para nós cristãos, no centro da Estrela do Amor está Jesus de Nazaré, o Filho de Deus e nosso irmão, que é a ponte que unifica estes 5 amores.

Que esta Estrela dos 5 amores: 

Amor De Deus, Amor A Deus, Amor Do Próximo, Amor Ao Próximo e Amor A Nós-mesmos, nos acompanhe sempre.  

frei Eugénio

2021-10-24

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 30º Domingo do tempo comum, 24 de Outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 


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Evangelho (Marcos 10, 46-52)

Naquele tempo, quando Jesus ia a sair de Jericó com os discípulos e uma grande multidão, estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho.
Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar: «Jesus, Filho de David, tem piedade de mim».
Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais: «Filho de David, tem piedade de mim».
Jesus parou e disse: «Chamai-o». Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te».
O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus.
Jesus perguntou-lhe: «Que queres que Eu te faça?». O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja».
Jesus disse-lhe: «Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho.

 

DIÁLOGO


Quando lemos esta página do Evangelho, conhecida como “a cura do cego de Jericó” com atenção, descobrimos que há nela muito mais do que uma cura.

A situação deste infeliz mendigo cego, chamado Bartimeu é descrita de modo comovente: está sozinho ( à beira do caminho), afastado das outras pessoas que circulam nos seus afazeres, sem esperança de  sair da situação de mendigo. Ao ouvir dizer que Jesus de Nazaré estava a passar ali pelo caminho, começa a gritar: "Jesus, Filho de David, tem piedade de mim!” 

Esta é a primeira vez que este título aparece no Evangelho de Marcos. Bartimeu, apesar de tão limitado na sua cegueira, é a primeira pessoa a reconhecer Jesus como o Messias (“Filho de David”).

O evangelista salienta que muitos dos que iam com Jesus, começaram a tentar silenciá-lo. É um marginal, desprezado e por isso o lugar que lhe é atribuído é a borda do caminho. As pessoas que querem escutar Jesus não querem ser incomodadas com aquele alarido que ele está a fazer. Que fique onde está e que não queira juntar-se a elas!

Mas nada silenciou os gritos de pedido de socorro de Bartimeu. Ele gritava cada vez mais forte “Filho de David, tem piedade de mim! “ 

Nos Evangelhos, muitas vezes Jesus ouve aqueles que os discípulos não querem ouvir e vê os que as pessoas não querem ver. 

Jesus vê e ouve Bartimeu, pára e manda-o chamar.

A atenção que Jesus lhe dá, faz com que o olhar da multidão começasse a mudar: em vez de o marginalizarem como até ali, começaram a encorajá-lo dizendo:  «Coragem ! Levanta-te, que Ele está a chamar-te». 

Bartimeu começou a andar, até mesmo a saltar, na direção de Jesus. 

Ao dar um pulo, deitou fora a capa (que os mendigos estendiam no chão para receber as esmolas). Deixou de estar sozinho e ao mesmo tempo deixou de ser mendigo.

Vale a pena ter em atenção o modo tão discreto do evangelista Marcos ao se referir a esta cura - nem um gesto, nem uma palavra de Jesus! 

O que está em causa é o milagre da fé de Bartimeu. 

O cego não é “curado", mas “salvo”, e salvo pela fé que manifestou em Jesus. 

Como é frequente na Bíblia, recuperar a vista é o sinal de acesso à fé.

É a fé que permite a Bartimeu ver o Messias que é Jesus. 

“Ver Jesus” significa "acreditar n’Ele", é tornar-se seu discípulo.

Não será Bartimeu um modelo do cristão que “reza sempre sem desanimar” (Luc 18, 1). 

Bartimeu não se intimidou com as vozes que queriam que ele continuasse à beira do caminho, mas gritou cada vez mais alto e com mais força, cheio de confiança que o Filho de David, o iria ouvir e que teria misericórdia da situação em que vivia. 

Não é verdade que as nossas orações, de mãos estendidas, são como pedidos de esmola que dirigimos a Deus? 

Quando éramos adolescentes, ainda não tínhamos feito a experiência dos nossos limites e por isso ainda não tínhamos que os aceitar. 

Tornamo-nos adultos à medida que passamos pelas fragilidades e pelos limites e fomos aprendendo a reconhecê-los e a viver com eles.

Deus, na sua “pedagogia”, faz com que a oração nos faça tomar consciência das nossas limitações mais profundas, fazendo crescer em nós o desejo de confiarmos cada vez mais n’Ele.

Bartimeu não grita para que Jesus tenha conhecimento da sua situação desgraçada, mas para manifestar a sua confiança na misericórdia d’Aquele que ele reconhece como Messias e que o pode salvar, como e quando entender.

A nossa oração não se destina a chamar a atenção de Deus para o que se está a passar, quer connosco mesmos e os nossos mais próximos, quer com todos e com tudo o que se passa no nosso mundo, o que é completamente inútil. 

Jesus disse claramente: “ o vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lhO pedirdes “ (Mt 6, 8).

Mas Jesus também nos diz: “Pedi e vos será dado; buscai e achareis; batei e vos será aberto. Pois todo o que pede, recebe; o que busca, encontra; e ao que bate, se abrirá” (Luc 11, 9-11).

Jesus, em nome do Seu Pai, manifesta a Sua confiança em nós e faz apelo à nossa colaboração com Deus, pela oração. 

É o que Jesus faz com Bartimeu perguntando-lhe: «Que queres que Eu te faça?». 

Para responder a Jesus, ele irá dizer claramente o que pede: "Mestre, que eu veja!”.

Apesar de não sermos cegos, também devemos pedir na nossa oração: « Jesus, faz com que eu veja à tua maneira » 

frei Eugénio