2022-11-27

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 1º Domingo do Advento, 27 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 

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EVANGELHO (Mt 24, 37-44)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 
«Como aconteceu nos dias de Noé, assim sucederá na vinda do Filho do homem.
Nos dias que precederam o dilúvio, comiam e bebiam, casavam e davam em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca;
e não deram por nada, até que veio o dilúvio, que a todos levou. 
Assim será também na vinda do Filho do homem.
Então, de dois que estiverem no campo, um será tomado e outro deixado;
de duas mulheres que estiverem a moer com a mó, uma será tomada e outra deixada.
Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão, estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa.
Por isso, estai vós também preparados, 
porque na hora em que menos pensais, virá o Filho do homem.
 
 
DIÁLOGO

A Festa de Natal é já daqui a 30 dias. Esta quadra em muitos países costuma ser a mais festiva do ano.

As iluminações decorativas nas ruas e praças e nos edifícios e igrejas trazem um ambiente muito festivo, tanto de dia como até de noite, mesmo com as restrições devidas aos elevados custos da eletricidade.

As montras e as lojas cheiinhas de variadíssimas novidades são um convite irresistível à compra de presentes para oferecer a pequenos e grandes.

Esta quadra torna-se, assim, a quadra das compras e dos

gastos. O subsídio de Natal vai-se num instante!

Neste Domingo, os cristãos começam um tempo a que chamamos o ADVENTO.

Permitam-me repetir o que já devem saber, mas que me parece bom recordar.

Advento vem do Latim “adventus”, que quer dizer “vinda” ou “chegada”, sobretudo aplicada a vindas triunfais ou solenes de reis e imperadores.

Mas Jesus nasceu em Belém, na Palestina, há cerca de 2026 anos, segundo os estudos históricos.

Que vinda queremos então festejar?

Nesta quadra, os cristãos querem festejar três vindas de Jesus:

A primeira, que faz parte da História da Humanidade,

quando em Belém, Maria sua mãe o deu à luz numa manjedoura, por não haver lugar nas estalagens.

Na segunda, se temos fé no que Jesus prometeu na sua pregação, Ele vem até nós em cada dia, estando sempre  presente no meio de nós, vindo  morar dentro dos corações que O aceitam e recebem.

Mas há ainda uma terceira vinda, de que fala a página do Evangelho que ouvimos.

É a vinda no fim dos tempos, como Ele anunciou.

Será uma vinda cheia de Glória, do Salvador e triplo vencedor: da morte, destruidora da vida; do desamor que destrói o respeito e a harmonia entre as pessoas e no âmbito da natureza; do sofrimento, fonte de tantas dores e angústias.

Essa terceira vinda irá acontecer de surpresa e de forma inesperada.

Assim, Jesus insiste que estejamos atentos e vigilantes, prestando atenção ao que é importante para a dignidade, a beleza, a justiça, o amor nas nossas vidas.

Nessa terceira vinda na Gloria de Vencedor e de Salvador, Jesus Ressuscitado vem-nos  levar para sempre para junto de Deus, mas para isso devemos estar atentos à sua vinda para aceitarmos ir com Ele.

Podemos assim repetir: “Jesus Tu vieste, vens e virás!

Alegra-nos com as tuas vindas.”

É um tempo, no qual somos convidados a preparar os nossos interiores, a renovar os nossos corações para acolhermos Jesus,

para lá dos preparativos para as festas familiares,

com as compras de presentes e as comidas e delícias a fazer.

Em todos os povos, os festejos de todos os géneros têm os seus ritos e costumes próprios.

Um nascimento ou um aniversário festejam-se de maneira diferente de um casamento ou da entrega dum diploma profissional.

A vitória desportiva num campeonato, não se celebra como uma festa religiosa.

Assim, no Advento, como os ritos tradicionais quase desapareceram em países como Portugal e a Bélgica sugerimos que utilizemos o rito tão bonito da COROA DO ADVENTO, que teve origem na Europa Central e do Norte.

Uma coroa feita com ramos de variadas árvores, conforme os países, com algumas decorações e com quatro velas.

Coloca-se a coroa no espaço da casa onde a família se reúne, ou toma as refeições.

Em cada semana do Advento vai-se acendendo mais uma vela até ficarem as 4 acesas.

O acender das velas pode ser acompanhado duma oração muito simples em família.

Para esta primeira semana podemos rezar:

Jesus, Tu és a nossa luz,

Ilumina a nossa família


e depois em conjunto:

Deus, nosso Pai,

seja feita a tua Vontade.

Que na nossa família

haja sempre bom entendimento entre todos

e que o mundo se torne uma grande família
. Amen”.


Esta oração pode ser acompanhada com o Pai-Nosso rezado.

Se não temos possibilidade de preparar ou comprar este símbolo, durante esta semana podemos ter a atitude de procurar estar atentos, nos locais onde vivemos e trabalhamos ou nos distraímos, ou nas redes sociais que utilizamos, que haja gestos e palavras que criem melhor compreensão para que este nosso mundo seja mais fraterno e humano.

Que vivamos uma boa primeira semana de Advento a caminho dum Natal de Jesus mais humano.

       frei Eugénio op


 

 

 
 

2022-11-18

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo de Cristo Rei, 20 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 

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EVANGELHO (Lc 23, 35-43)
 

Naquele tempo, os chefes dos Judeus zombavam de Jesus, dizendo: «Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito». 

Também os soldados troçavam dele; aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o rei dos Judeus, salva-Te a Ti mesmo». 

Por cima dele, havia um letreiro: «Este é o rei dos judeus». 

Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-O, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-Te a Ti mesmo e a nós também». 

Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo das nossas más ações. 

Mas Ele nada praticou de condenável». E acrescentou: «Jesus, lembra-Te de mim quando vieres com a tua realeza». 
Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso».
 
 
DIÁLOGO

Todos conhecemos o santuário de Cristo Rei, em Almada. A estátua de Cristo sobre uma torre de mais de 110 metros de altura, lembra-nos espontaneamente a estátua do Cristo Rei no Pão de Açúcar no Rio de Janeiro.


Estas duas enormes estátuas são o resultado de um desejo de tornar visível o que celebramos hoje: Cristo, Rei do Universo.

A festa de Cristo-Rei nasceu num contexto em que a Igreja, em várias zonas do mundo e sobretudo na Europa, foi desvalorizada
e despojada dos seus bens no século XIX, e onde, no início do século XX, uma secularização intolerante se espalhava com força.

É neste contexto que a imagem da realeza de Jesus Cristo foi cada vez mais utilizada.

O Papa Pio XI instituiu em 1925 a festa litúrgica de Cristo-Rei.
O famoso cântico "Christus vincit, Christus regnat, Christus imperat" (Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera) tornou-se o cântico que unia milhares de católicos em todas as partes do mundo.
Até há alguns anos atrás, ainda era o sinal da Rádio Vaticano.

A imagem da realeza que foi utilizada desta forma foi muito desmotivante para aqueles que viviam em democracia e na igualdade entre os cidadãos.
Na Bíblia a realeza é apresentada como um dom de Deus que está longe de ser a imagem dos governantes comuns.
O rei é um "consagrado". Jesus foi "ungido".

Assim, Jesus é Aquele que o Pai escolheu para trazer a Boa Nova e que se reconhece, Ele-Mesmo, como o Eleito de Deus, Consagrado e Ungido. O famoso episódio em que Jesus faz a leitura do livro de Isaías na sinagoga de Cafarnaum descreve muito bem o que se passou:
"O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque o Senhor Me consagrou pela unção. Ele enviou-Me para trazer a Boa Nova aos pobres, para proclamar libertação aos cativos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos, para proclamar um ano favorável do Senhor. (Luc. 4,18-19)

Não podemos falar da realeza de Jesus sem apresentar esta unção que o torna Sacerdote, Profeta e Rei e na qual participam todos os batizados, como nos ensinou o Concílio Vaticano II, e que o Catecismo da Igreja Católica retoma quando diz: "Jesus Cristo é aquele a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo e constituiu 'Sacerdote, Profeta e Rei' ".
Todo o Povo de Deus participa nestas três funções de Jesus Cristo e assume as responsabilidades de missão e serviço que delas decorrem" (n.° 783 do Catecismo da Igreja Católica).

Como podemos ver, a realeza de Jesus não nos orienta para o reino do poder, mas sim para Aquele de quem provém todo o poder, toda a glória e toda a majestade: Deus Pai, que nos envia o Seu Filho.

É Deus Pai que envia o Seu Filho para nos salvar e nos levar até Ele.
Nesta festa de Jesus Cristo, Rei do Universo, o evangelista Lucas diz-nos que quando Jesus estava a morrer, os seus torturadores zombaram d’Ele, insistindo, que se Ele fosse de Deus, deveria ser capaz de se salvar a si próprio como tinha salvo tantas outras pessoas.

O letreiro colocado na cruz, acima da sua cabeça, proclamava o seu crime: "Este é o Rei dos Judeus", e era a fonte de todos os insultos.
Não era uma situação nada apelativa, nem entusiasmante.
Este rei morria, suspenso na tortura da cruz e rejeitado pelas autoridades civis e religiosas.
Para os Romanos, Ele não significava nada de importante.
Para a elite religiosa judaica, Ele era uma ameaça moral, e talvez até mortal.

Para a maioria dos seus discípulos, tinha-se tornado um perigo e um aparente fracassado.
No entanto, algumas das pessoas de condição mais baixa, à sua volta, viram algo mais.
Por exemplo, algumas mulheres continuaram a acompanhá-Lo, oferecendo-Lhe a única coisa que podiam: a sua presença confiante, dolorosa e chorosa.

A graça salvadora, neste momento decisivo e dramático, manifestou-se quando Jesus, moribundo, respondeu a um dos dois criminosos que partilhavam a mesma sentença que Ele.
Para lá das aparências e da própria razão, um dos companheiros de condenação disse: «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

O pedido, "lembra-te de mim", ressoa com um significado bíblico. O êxodo do povo de Israel, saindo do Egito, aconteceu porque Deus se lembrou da aliança realizada entre Ele e o povo e resolveu agir. (Êxodo 2,24)

Quando Jesus, antes da sua morte, na última ceia, abençoou o pão da sua oferta pessoal, disse aos seus discípulos que fizessem o mesmo em sua memória.

Jesus prometeu ao seu companheiro crucificado que ele não só iria partilhar a Sua morte, mas também a Sua vida.

O Evangelho de hoje retrata um Jesus aparentemente sem qualquer poder: derrotado aos olhos do mundo e a morrer aos olhos de um Deus impotente para o salvar, ou então, desinteressado do que Lhe estava a acontecer.

Na solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Rei do Universo, recordemos o verdadeiro Jesus: rejeitado e escarnecido, Ele como sendo incapaz de parar a violência.

Recordemos que Ele reinou através do Amor ativo, mesmo quando sofreu e morreu.
Quando Deus O ressuscitou, apesar de Ele ainda carregar as marcas do sofrimento, foi o Amor que continuou a reinar.
A nossa fé proclama com insistência que o Amor é o único poder capaz de vencer o mal.
 
Como imagem viva do nosso Deus, é esse Amor e só Ele, que somos chamados a recordar e a tornar presente nas nossas vidas.

               frei Eugénio op


2022-11-11

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 33º Domingo do Tempo Comum, 13 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 

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EVANGELHO (Lc 21, 5 - 19)

Naquele tempo, comentavam alguns que o Templo estava ornado com belas pedras e piedosas ofertas. Jesus disse-lhes:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído».
Eles perguntaram-Lhe: «Mestre, quando sucederá isto? Que sinal haverá de que está para acontecer?».
Jesus respondeu: «Tende cuidado; não vos deixeis enganar, pois muitos virão em meu nome e dirão: "Sou eu"; e ainda: "O tempo está próximo". Não os sigais.
Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis: é preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim».
Disse-lhes ainda: «Há de erguer-se povo contra povo e reino contra reino.
Haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fomes e epidemias. Haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu».
Mas antes de tudo isto, deitar-vos-ão as mãos e hão-de perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e às prisões, conduzindo-vos à presença de reis e governadores, por causa do meu nome.
Assim tereis ocasião de dar testemunho.
Tende presente em vossos corações que não deveis preparar a vossa defesa.
Eu vos darei língua e sabedoria a que nenhum dos vossos adversários poderá resistir ou contradizer.
Sereis entregues até pelos vossos pais, irmãos, parentes e amigos. Causarão a morte a alguns de vós
e todos vos odiarão por causa do meu nome;
mas nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas». 

 

DIÁLOGO

Para a comunidade de Lucas este Evangelho poderia relacionar-se com o Templo de Jerusalém.
Talvez para nós hoje este texto nos faça lembrar as torres gémeas de Nova Iorque ou a COVID-19.

Jesus avisou as pessoas que estavam encantadas com a majestade do Templo:
«Dias virão em que, de tudo o que estais a ver,
não ficará pedra sobre pedra:
tudo será destruído».

Muitos dos que o ouviram descobriram tristemente que ele não previu uma calamidade longínqua, mas uma tragédia que veriam com os seus próprios olhos e lamentariam em completa confusão.

O Templo tinha sido a peça central da prática judaica e o lugar onde Deus habitava entre eles.
Segundo fontes antigas, o Templo do tempo de Jesus esteve em construção durante quase 50 anos e foi concluído apenas seis anos antes de os romanos o destruírem.

O que estava Jesus a dizer aos seus seguidores quando previu a destruição do Templo?
Enquanto evitava responder a perguntas sobre quando isso iria acontecer, chamou-lhes a atenção sobre o que significaria essa destruição.
 
Os charlatães iriam aparecer, fazendo-se passar por enviados de Deus.
Catástrofes naturais e sociais fariam parecer que o mundo estava a chegar ao fim, e o próprio povo de Deus seria perseguido por inimigos, por antigos amigos e mesmo por familiares.
 
Quanto à resposta às ansiedades das pessoas, Jesus apenas diz:
“nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.
Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas.”
 
Os fiéis que contemplavam os escombros do Templo tiveram de procurar dolorosamente o seu significado.
As ruínas testemunharam que a sua fé na importância do Templo tinha sido alterada, quando este foi destruído pelos romanos, no ano 70 da nossa era.
 
Alguns interrogavam-se mesmo se a sua fé em Deus tinha sido uma ilusão. Se tinha sido uma ficção reconfortante enquanto durou, mas que no final se reduzia aquilo a que Karl Marx chamou o «ópio do povo».
Não seria que o poder romano teria afinal vencido o Deus de Israel?
 
Outros questionavam a prática da sua fé na dependência das peregrinações e dos sacrifícios no Templo de Jerusalém.
Recordaram também que antes de haver um Templo, Deus tinha viajado com os seus antepassados, presente através da tenda d encontro.

Pode parecer-nos estranho que, quando Jesus alertou os discípulos para a perseguição e a destruição que iriam chegar, os tenha avisado para não tentarem preparar-se para se defenderem.
E porquê?
Porque se se começassem a preparar para se defender, teriam sido levados a travar batalhas fictícias.
Em vez disso, Jesus prometeu que quando chegasse o momento:
"Eu vos darei língua e sabedoria
a que nenhum dos vossos adversários
poderá resistir ou contradizer.”
 
Jesus diz aos seus discípulos de então e aos dos nossos dias, para não tentarem arquitetar defesas consideradas inteligentes e poderosas, pois será o próprio Deus que lhes dará o Seu Espírito, que lhes inspirará a sabedoria e as palavras certas para anular o poder dos adversários.
 
Se nos mantivermos firmes na confiança no que Jesus prometeu, não teremos nada a perder.
Jesus ofereceu uma esperança, firmemente apoiada na sua intimidade com Deus, em vez de estratégias de combate.

Hoje, em vez do Templo de Jerusalém destruído, vivemos com a memória de como o 11 de Setembro de 2001 transformou a convicção da invencibilidade da nação americana.

Também a pandemia do COVID-19, que se espalhou pelo mundo inteiro, nos ensinou que as fronteiras nacionais são divisões, mas que já não são mais, protetoras.
 
A recente agressão da Rússia contra a Ucrânia mantém-nos alertados para a constante ameaça de guerra nuclear.
 
Estas realidades são manifestações universais da verdade pessoal que todos conhecemos, mas que normalmente tentamos esquecer: estarmos  vivos implica que somos mortais.
 
Se reconhecermos e vivermos essa mortalidade, como pessoas que sabem que nenhuma catástrofe ou desgraça, por maior que sejam, estão fora do alcance da Vida e do Amor de Deus, estaremos a dar testemunho que, com Jesus Ressuscitado, esse Amor é, e será sempre, o mais poderoso.

Quanto à resposta às ansiedades das pessoas, Jesus apenas disse: “nenhum cabelo da vossa cabeça se perderá.”
 
Jesus dá um exemplo que ilustra até que ponto Deus nos conhece.
Contar os cabelos da nossa cabeça!
Que impossibilidade para nós e também que inutilidade!
 
Mas, esta ideia da contagem dos cabelos manifesta bem e com humor, até que ponto vai a intimidade e o conhecimento que Deus tem de cada um de nós.
 
Que estas palavras de Jesus tenham um eco profundo em nós, quando procuramos manifestar que é por causa d’Ele que temos atitudes que desencadeiam incompreensões e até perseguições, da parte dos nossos próximos.
Será esta persistência na confiança no Amor de Deus
que nos salvará.
 
  frei Eugénio  op

 

 

2022-11-06

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 32º Domingo do Tempo Comum, 6 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


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EVANGELHO (Lc 20, 27.34 - 38)

Naquele tempo, aproximaram-se de Jesus alguns saduceus

– que negam a ressurreição – e começaram a interrogá-l’O.

Disse-lhes Jesus:

Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento.

Mas aqueles que forem dignos

de tomar parte na vida futura e na ressurreição dos mortos,

nem se casam nem se dão em casamento.

Na verdade, já não podem morrer, pois são como os Anjos,

e, porque nasceram da ressurreição, são filhos de Deus.

E que os mortos ressuscitam,

até Moisés o deu a entender no episódio da sarça ardente,

quando chama ao Senhor

‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob’.

Não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos».

 

DIÁLOGO

 A fé na ressurreição tem, na Bíblia, uma longa história.
Os primeiros crentes, como Abraão e Moisés, não viram uma vida depois da vida.
A sua fé comprometeu-os aqui na Terra, na sua busca da melhor maneira de agradar ao Deus da Aliança que se lhes tinha manifestado.
Ansiavam pelos dias de paz e de felicidade nas suas vidas que Deus Criador lhes tinha dado.
 
Foi perante o destino terreno de pessoas justas diante de Deus que, por vezes como Job, experimentaram a miséria e o fracasso, que se levantou a questão de uma vida após a morte.
E, no livro de Job encontramos uma primeira afirmação de fé numa vida que continua para além do tempo, nesta bela passagem que lemos frequentemente em funerais:
“Sei que o meu Defensor está vivo e que no fim se levantará sobre o pó; depois do meu despertar, levantar-me-á junto d’Ele, e em minha carne verei a Deus. Aquele que eu vir será para mim, Aquele que meus olhos contemplarem e não será um estranho." (Job 19:25-27).
Job teve a intuição de uma vida humana que se estendia até à vida eterna, com Deus.
 
É este ensinamento que Jesus conhece e os seus opositores fazem questão de lhe apresentar objeções:
Como é que alguém se encontra numa vida após a morte, onde não há matéria?
E quanto aos laços entre marido e mulher, o que se passará?
O que é que permanecerá de cada pessoa? Como é que isso vai acontecer?
Estas são perguntas importantes, que ainda hoje nós fazemos, procurando respostas.
 
Lembro-me de uma senhora de mais de 90 anos me perguntar, quando eu a ia visitar:
"Frei, depois de morrer verei o meu marido, como ele é?
Poderei falar e estar com ele?
Irei poder ver os meus filhos e netos que continuam cá na Terra?
Irei ver também os meus pais, de que tanto gostei e de quem tanto recebi?
Com estas questões, eu ficava numa situação um pouco semelhante à de Jesus.

Vejamos que Jesus não respondeu diretamente aos seus opositores.
Disse-lhes que deviam primeiro pensar que são "filhos de Deus” e que o seu Deus não é "o Deus dos mortos, mas dos vivos", como narra o Evangelho que acabamos de ler.

Esta resposta de Jesus deixa-nos certamente insatisfeitos, mas abre a porta a uma compreensão mais profunda da ressurreição, que não é apenas um estado de vida em que um dia nos encontraremos, mas que tem a ver com a pessoa de Jesus que disse: "Eu sou a Ressurreição e a Vida" (João 11,25).

No Credo que proclamamos habitualmente nas missas de Domingo, podemos afirmar que acreditamos na "ressurreição da carne", porque acreditamos que Jesus ressuscitou em corpo e alma e que nos prometeu que nos havia de levar com Ele.
"Se Cristo não ressuscitou, a minha fé é em vão" (I Coríntios 15,17), diz São Paulo.
Não temos de nos perguntar como é que isso acontecerá em pormenor, mas seguirmos Jesus com a mesma total confiança em Deus-Pai, que nos salva e nos manterá para sempre perto d’Ele.
 
A resposta às interrogações sobre uma vida após esta vida, leva-nos a voltar os olhos para a vida presente, porque a nossa vida presente, no momento da nossa partida para a casa do Pai "não será destruída, será transformada", como diz o prefácio da missa pelos defuntos.
Que forma assumirá esta transformação, permanece um mistério!
Mas porque Jesus ressuscitou, vencendo a morte para sempre, podemos acreditar que estaremos juntamente com Ele e que podemos confiar no Amor do Pai de Jesus e nosso Pai, que nos guardará junto d’Ele, para sempre.
 
A ressurreição de Jesus não é uma reanimação de um cadáver, como aconteceu com Lázaro e com o filho da viúva de Naïm, que voltaram a viver como antes, tendo um prolongamento desta vida, indo morrer mais tarde.

Se Abraão, Isaac e Jacob estão vivos, não é pelo facto de terem casado com mulheres e gerado com elas filhos, mas pelo facto de serem eles mesmos «filhos de Deus» para sempre e recebedores da vida plena e definitiva junto de Deus.
Deus, como Jesus nos veio revelar, quer dar a todas as pessoas a Sua própria Vida para sempre.
Os primeiros cristãos utilizaram a palavra Ressurreição de Jesus, em união com o «primeiro nascido dentre os mortos».
Viam no Ressuscitado o início da ressurreição geral de todas as pessoas e a garantia da esperança na vida plenamente feliz em Deus.

O ser pessoal de Jesus é transformado na sua totalidade, por isso Ele ressuscitou corporalmente.
O Ressuscitado é o mesmo Jesus de Nazaré, mas um Jesus completamente realizado na sua Glória.

É através do corpo que podemos estar presentes a nós-mesmos, uns aos outros e ao mundo em geral.

Na nossa ressurreição, prometida por Jesus, isto é, no novo tipo de vida com Deus e em Deus, iremos estar em relação de Amor connosco e com todas as irmãs e todos os irmãos e para isso, teremos os nossos corpos transformados como o do Ressuscitado.
Como se realizará esta maravilhosa e grandiosa transformação, graças ao Amor de Deus, não o sabemos.

Mas, graças a Jesus Ressuscitado, já podemos ter a satisfação de entrar na transfiguração do nosso mundo, através de gestos e de atitudes de amor.
Pondo em prática o lema inventado pelos jovens participantes dum «campo de descoberta»:
Com Cristo vamos a isto!»

         frei Eugénio op

 

 

2022-10-29

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 31º Domingo do Tempo Comum, 30 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


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 EVANGELHO (Lc 19, 1-10)

Evangelho de Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
Jesus entrou em Jericó e começou a atravessar a cidade.
Vivia ali um homem rico chamado Zaqueu,
que era chefe de publicanos.
Procurava ver quem era Jesus,
mas, devido à multidão, não podia vê-l’O,
porque era de pequena estatura.
Então correu mais à frente e subiu a um sicómoro,
para ver Jesus, que havia de passar por ali.
Quando Jesus chegou ao local,
olhou para cima e disse-lhe:
«Zaqueu, desce depressa,
que Eu hoje devo ficar em tua casa».
Ele desceu rapidamente
e recebeu Jesus com alegria.
Ao verem isto, todos murmuravam, dizendo:
«Foi hospedar-Se em casa dum pecador».
Entretanto, Zaqueu apresentou-se ao Senhor, dizendo:
«Senhor, vou dar aos pobres metade dos meus bens
e, se causei qualquer prejuízo a alguém,
restituirei quatro vezes mais».
Disse-lhe Jesus:
«Hoje entrou a salvação nesta casa,
porque Zaqueu também é filho de Abraão.
Com efeito, o Filho do homem veio procurar e salvar
o que estava perdido».
Palavra da salvação.

DIÁLOGO

 
O Evangelho de hoje fala-nos de Zaqueu, o homem pequeno que é um Grande homem.
Vamos ver como!


Lendo com atenção o relato de Lucas entendemos melhor por que razão Zaqueu, no meio da multidão não conseguia ver quem era Jesus.
Aparentemente era porque ele era de pequena estatura.
Mas a razão principal é que ele, sendo chefe de publicanos (cobradores de impostos) era um traidor ao seu povo judaico, cobrando-lhes impostos que eram exigidos pelos ocupantes romanos.
 

Além disso, muitas vezes era muito mais exigente com os pobres, com grandes dificuldades para pagar o que lhes era exigido.
Mas sabia fazer arranjos negociados para favorecer os mais poderosos.
Zaqueu, como chefe de cobradores de impostos, era bem conhecido em Jericó e era detestado pelos seus concidadãos judeus e por isso não arriscava andar no meio da multidão; se alguém o descobrisse que se o descobrisse podia enche-lo de insultos e até de cuspidelas e de pontapés.
 

É esta a razão mais provável para o fazer correr adiante, onde a multidão que seguia Jesus ainda não tinha chegado, indo esconder-se na densa copa dum sicómoro que ficava no caminho que Jesus ia percorrer, podendo ver e não ser visto, ficando, portanto, protegido.

Notemos que a narrativa não diz que Zaqueu procurava ver Jesus, o que equivaleria a ver o rosto de Jesus, o seu aspeto, a roupa que vestia, o modo de falar… O relato diz que Zaqueu procurava ver quem era Jesus.
Assim, Zaqueu, não procurava ver o aspeto exterior de Jesus, mas a sua identidade, o seu modo de ser e de viver.
 

Para ver quem era Jesus, na sua identidade, era preciso que procurasse ter um encontro com Ele.
É aqui que vai entrar mais alguém que anda à procura, Jesus.
Levantou os olhos e procurou ver Zaqueu, escondido na folhagem do sicómoro e disse-lhe: «Zaqueu, desce depressa, que Eu hoje devo ficar em tua casa» (Luc. 19,5)
 

Jesus procurou-o e viu-o, tinha sede do seu amor e, por isso, queria que ele se deixasse salvar por Deus: «Hoje devo ficar em tua casa...»
E Zaqueu, que pensava estar escondido a ver Jesus,
é ele que é visto por Jesus.
Não há nada, nem ninguém, demasiado pequeno para Jesus.
Assim, as duas procuras cruzaram-se!
Jesus procurava salvar quem estava perdido e Zaqueu procurava ver quem era Jesus.
 
É naquele dia, que é o dia de hoje, que chega a salvação de Deus.
Podemos compreender porque é que Zaqueu se alegra:
«Desceu rapidamente e recebeu Jesus com alegria» (Luc 19,6).
A salvação de Deus ia entrar na casa de Zaqueu, porque dois desejos
se tinham cruzado, expressos através de dois olhares.
 

Zaqueu começou, desde esse momento, a ver quem era Jesus, que o chamava, o acolhia, o incluía entre os filhos de Abraão.
Em sua casa, Zaqueu pode continuar a ver quem era Jesus, e iria mudar completamente todo o seu modo de viver, dando do que era seu aos pobres e aos muitos a quem tinha extorquido impostos.
Do seu lado, Jesus declarou alegremente a todos:
«Hoje chegou a salvação a esta casa». (Luc 19,9)

Zaqueu, como homem prático, para provar que a sua conversão é séria, age rapidamente e resolve dar metade dos seus bens aos pobres.
Jesus não lhe pedia que desse tanto, mas ficou tocado por esta tão grande esmola arrependida.
A salvação é dada por Deus e a pessoa aceita-a, através da conversão, da sua mudança de modo de viver, realizando-se obras de misericórdia, especialmente para com os mais pobres e desfavorecidos.

Zaqueu encheu-se de alegria com o Filho do Homem, ao deixar-se olhar e ser amado por Ele, que «veio para procurar e salvar o que estava perdido» (Luc 19,10).

Também nos toca a nós, sermos convidados por Jesus Ressuscitado,
entre outras formas, através da oração interior e do serviço aos outros.

Jesus deseja tanto ficar nas nossas casas para partilhar connosco a sua intimidade, que disse: «Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo» (Apoc 3,20).

Permitam-me terminar este diálogo convosco, com uma oração:
 

Senhor Jesus, levanta os Teus olhos
para cada uma das nossas vidas,
como fizeste com Zaqueu.

Chama constantemente por nós,
para que possamos ser tocados pelo Teu amor,
que vê muito para além das aparências e dos preconceitos.

Não Te canses de vir ao nosso encontro,
para que nós Te possamos procurar,
nos nossos caminhos humanos.

Agradecemos-Te, Senhor Jesus,
por passares pelas nossas cidades e nos olhares.
Que a Tua presença nos transforme,
para nos deixarmos tornar mais parecidos conTigo,
que vens salvar quem anda perdido.
        

 frei Eugénio op



2022-10-22

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum, 16 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


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Evangelho (Lc. 18, 9-14) 

Naquele tempo, Jesus disse a seguinte parábola para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros:
«Dois homens subiram ao Templo para orar; um era fariseu e o outro publicano.
O fariseu, de pé, orava assim: "Meu Deus, dou-Vos graças por não ser como os outros homens, que são ladrões, injustos e adúlteros, nem como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de todos os meus rendimentos".
O publicano ficou a distância e nem sequer se atrevia a erguer os olhos ao Céu; mas batia no peito e dizia: "Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador".
Eu vos digo que este desceu justificado para sua casa e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado».

DIÁLOGO

O Evangelho deste Domingo é a parábola do fariseu e do publicano (o cobrador de impostos).

A frase inicial introduz as duas personagens do relato: «Dois homens subiram ao Templo para rezar. Um era um fariseu e o outro um publicano.»

A frase final da parábola apresenta o resultado do drama: «este (o publicano) desceu justificado para sua casa e o outro não.»

 

Os fariseus eram geralmente considerados bons homens, muito cumpridores da Lei de Moisés e apenas lhes era apontado o defeito da falta de humildade.

Mas este modo de ver, pode não ser correto.

 

Jesus conta esta parábola «para alguns que se consideravam justos e desprezavam os outros», conta para certos homens que estavam convencidos de que eles próprios eram justos, mas que, de facto, podiam sê-lo ou não.

 

Na parábola, o que é que o fariseu faz?

Os aspetos que ele valoriza, são os comportamentos que ele tem e que os outros não cumprem com a mesma exigência:

jejuar mais vezes do que a Lei prescrevia, pagar impostos para lá do que era legal, além de ser escrupuloso quanto a contas e pagamentos, não ser corrupto e ser fiel à mulher com quem casou.

Na sua oração, o fariseu faz um elogioso retrato de si mesmo.

Desta forma, fica sempre em vantagem na comparação com os outros.

 

Ele não se apercebe, no entanto, que neste quadro que ele traça de si próprio, falta um comportamento muitíssimo importante da Lei de Moisés: o mandamento do amor ao próximo como si-mesmo!

 

Olhemos agora para o publicano, na parábola que Jesus conta.

 

Não se compara com os outros, apenas se refere a si próprio e o que faz contra a Vontade de Deus.

Não se aproxima sequer do altar e não ousa levantar os olhos para o céu, considerando-se indigno de se aproximar de Deus.

E bate no peito, na atitude dum pecador arrependido diante de Deus.

 

Do seu íntimo sai uma oração curta, numa só frase:

«Meu Deus, tende compaixão de mim, que sou pecador.»

Põe nela todo o seu coração, arrependido e humilhado.

 

Jesus mostra-nos, assim, duas formas radicalmente diferentes de conceber o comportamento correto (isto é «ser justo») diante de Deus.

Numa, o homem considera que, com os seus esforços, consegue por si-mesmo, ter direito a um lugar próximo de Deus.

 

Na outra, é Deus que, na sua misericórdia e por um dom completamente gratuito, oferece um lugar, junto de Si.

 

Procuremos, agora, aplicar esta parábola a nós próprios.

 

Certamente ninguém tem sempre um comportamento como o do fariseu, mas também nenhum de nós tem sempre o modo de viver do cobrador de impostos.

Na realidade das nossas vidas, somos um conjunto dos dois:

uma parte de fariseu e outra parte de publicano.

Sendo assim, não nos podemos convencer que somos mais parecidos com a personagem da parábola que nos é mais simpática.

Os publicanos eram considerados, e de facto eram, homens sem escrúpulos, que colocavam o dinheiro e os seus interesses acima de tudo.

 

Em contraste, os fariseus eram, na vida prática, muito austeros e cumpridores da lei de Moisés.

Assim, somos em parte como o publicano na vida

e em parte como o fariseu no templo.

 

Como o publicano, reconhecemos que em certos aspetos das nossas vidas nos afastamos da vontade de Deus, isto é, que somos pecadores.

E como o fariseu, estamos convencidos que habitualmente somos corretos diante de Deus, que não temos nada de grave a nos ser reprovado e que por isso somos melhores que quase todas as outras pessoas.

 

Se realmente descobrimos que, nas nossas vidas, somos em parte um e em parte outro, então se nos comportássemos, como o cobrador de impostos na vida profissional e como o fariseu na nossa atitude religiosa?

 

Seríamos diferentes do que somos hoje?

 

Tal como o fariseu, se nos esforçamos nas nossas vidas diárias para sermos corretos em tudo o que diz respeito a bens e dinheiro, a sermos respeitadores do marido ou da mulher nas vidas de casados, procurando não prejudicar o próximo nas diversas situações.

E se procurássemos também cumprir os mandamentos de Deus o melhor que pudermos?

 

E, se ao mesmo tempo, tal como o publicano, reconhecêssemos que o que fazemos para seguir a Vontade de Deus é devido a um dom recebido gratuitamente da Sua parte, e se implorássemos a Sua misericórdia para nos deixarmos transformar como Ele quer?

Como seríamos nós?

 

Que esta parábola de Jesus fique bem gravada nos nossos corações, no nosso modo de pensar e de discernir e nas atitudes com aqueles que entram nas nossas vidas.

 

    frei Eugénio op

 

 



2022-10-17

Albert Nolan (1934 - 2022)

 

O conhecido dominicano sul-africano, ativista anti-apartheid e teólogo e autor de renome internacional, Albert Nolan, morreu hoje aos 88 anos.

Nascido na Cidade do Cabo em 1934, Nolan entrou na Ordem dos Pregadores em 1954 e morreu pacificamente durante o seu sono sob os cuidados das Irmãs Dominicanas na Marian House em Boksburg, na madrugada de segunda-feira, 17 de Outubro.
 
Premiado com a 'Ordem de Luthuli em Prata' pelo então Presidente Thabo Mbeki em 2003 pela sua "dedicação vitalícia à luta pela democracia, direitos humanos e justiça e por desafiar o 'dogma' religioso, especialmente a justificação teológica do apartheid", Nolan inspirou uma geração de ativistas cristãos e teólogos.


A sua dedicação à luta anti-apartheid viu-o recusar ser Mestre da Ordem dos Pregadores para que foi eleito em 1983, pois isso teria significado a sua transferência para a sede da Ordem em Roma.

Em vez disso, convenceu os dominicanos a permitir-lhe que permanecesse na África do Sul.

A Ordem Dominicana reconheceu a sua contribuição como teólogo e pregador do Evangelho quando, em 2008, o Mestre da Ordem promoveu Nolan a Mestre de Teologia Sagrada.

Nolan, contudo, preferiu ver-se como um pregador e não como um erudito bíblico. Ele queria que o Evangelho fizesse a diferença na vida das pessoas, e não via o debate de pequenas questões de interpretação textual como o propósito das escrituras.

Na sua opinião, as escrituras estavam lá para inspirar, converter e transformar as pessoas e levá-las a mudar as suas vidas e o mundo em que vivem.


Fora da África do Sul, Nolan tornou-se conhecido pelo seu livro "Jesus antes do Cristianismo", de 1976, o qual foi traduzido em pelo menos nove línguas.

Como padre, activista, autor e teólogo de renome, Nolan ofereceu uma mensagem de esperança forte mas gentil, particularmente de esperança na construção de uma África do Sul e de um mundo não racial, não sexista, pacífico e ambientalmente sustentável.

Fonte: adaptado de https://www.polity.org.za/article/albert-nolan-priest-activist-author-and-renowned-theologian-2022-10-17

Traduzido com a versão gratuita do tradutor - www.DeepL.com/Translator

2022-10-15

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum, 16 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


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Evangelho (Lc. 18,1-8) 

Naquele tempo, Jesus disse aos seus discípulos uma parábola sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar:
«Em certa cidade vivia um juiz que não temia a Deus nem respeitava os homens.
Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia: "Faz-me justiça contra o meu adversário".
Durante muito tempo ele não quis atendê-la. Mas depois disse consigo: "É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens;
mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça, para que não venha incomodar-me indefinidamente"».
E o Senhor acrescentou: «Escutai o que diz o juiz iníquo.
E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos, que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo?
Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa. Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre a Terra?»

 

DIÁLOGO 

Esta passagem do Evangelho é utilizada com frequência por pessoas cristãs, para recomendarem que rezemos novenas após novenas para obter da parte de Deus algo de importante para as suas vidas.

 

Também serve para reforçar propostas piedosas dizendo: "Mais alguns terços e a Santíssima Virgem certamente convencerá Jesus a fazer o que pedimos"!

 

Nos Evangelhos, nas passagens que se referem a Maria, Jesus não dá um tratamento ou um poder especial à sua mãe.

 

Além disso, Jesus disse muito claramente:

"Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos." (Mat. 6,7).

 

A seguir a esta chamada de atenção, Jesus oferece aos discípulos a possibilidade de rezarem a sua própria oração: o Pai-Nosso.

 

A persistência a que Jesus se refere, quando fala da “necessidade de rezar sempre sem desanimar”, não tem a ver, seguramente, com a multiplicação de palavras em numerosas orações.

 

Quando Jesus nos diz para rezarmos sem perder o ânimo, está a convidar-nos para entrarmos no seu próprio caminho espiritual.

Nós dizemos que acreditamos no Deus de Jesus, o Deus que tem um projeto para a História humana, que nos dá a conhecer sobretudo através de Jesus.

 

Esta convicção, implica que a História da Humanidade esteja a caminho de uma realização que irá muito para além daquilo que podemos imaginar.

 

Rezar sem cessar é uma imitação do que Jesus vivia.

Ele estava constantemente atento e aberto a receber e a seguir a Vontade de Deus.

 

Os textos bíblicos que chegaram até nós, neste nosso tempo, dirigem-se em grande parte a pessoas, que sendo responsáveis, se sentem sobrecarregadas de situações pessoais, familiares, profissionais e sociais cheias de inseguranças e provações e que obrigam a discernimentos difíceis.

 

Estas pessoas também estão muito preocupadas com as evoluções climáticas, sociais e políticas do nosso mundo.

 

Os textos bíblicos chamam-nos a atenção para Deus como criador, mas também como um Pai.

Ele interessa-se por cada uma e cada um e quer também que façamos os possíveis por vivermos uns com os outros em bom entendimento.

 

Os textos bíblicos incitam-nos a rezar, porque rezar é a única forma de nos abrirmos para permitir que o Espírito de Deus aja, com poder e criatividade, através de nós e entre nós.

 

Jesus vai contar a parábola da viúva que importuna o juiz com tanta insistência, que até vai conseguir que justiça lhe seja feita.

 

No entanto, ela tem todos os motivos para se sentir desencorajada: a sua causa parece estar perdida de antemão, desde que teve a pouca sorte de se deparar com um juiz que não quer saber nem da Vontade de Deus, nem da prática correta da justiça.

 

Mas ela persiste, porque está convencida que a sua causa é justa.

Ela não põe em dúvida, nem por um momento, que não tenha razão.

O que ela está a pedir é que a Vontade de Deus se faça.

 

Este exemplo da viúva, que Jesus nos apresenta, é antes de mais um exemplo de humildade.

 

Se ela insistia com o juiz, é porque ela estava em necessidade.

A primeira condição para participarmos no Reino de Deus é reconhecermos a nossa pobreza, a nossa dependência do querer doutros.

 

É a primeira bem-aventurança: "Bem-aventurados vós, que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus" (Luc 6, 20).

Na nossa expectativa de entrarmos no Reino de Deus já neste mundo, somos desafiados a sermos tão persistentes como esta viúva cheia de coragem e confiança na bondade e na justiça de Deus.

 

Estará Lucas a dirigir-se a uma comunidade ameaçada pelo desânimo?

 

Podemos pensar assim, dada a última frase: «Quando o Filho do Homem vier, irá encontrar fé na terra?»

Reparemos que é uma frase curiosa.

 

A primeira parte diz: «O Filho do Homem, quando ele vier» é uma afirmação cheia de certeza.

 

Mas a segunda parte da frase: «irá encontrar fé na terra?», à primeira vista, parece pessimista, mas de facto não é uma dúvida, mas um alerta, um forte apelo à vigilância.

 

Os primeiros cristãos, confrontados com incompreensões e perseguições, começaram a achar que o Reinado de Deus demorava muito a chegar. E foram tentados pelo desânimo.

 

Também eles deviam lembrar-se que Deus queria a sua salvação, e Lucas recorda-lhes, com esta parábola, que Jesus punha em valor a sua perseverança.

 

Os cristãos, quer os do tempo em que Lucas escreveu o seu Evangelho, quer os de hoje, são convidados a não desistir.

Acreditar é, assim, uma recusa a desanimar.

 

A última frase de Jesus: "Quando o Filho do Homem vier, irá encontrar fé sobre a terra?" é uma forte chamada de atenção, válida para todos os cristãos em todos os tempos e todos os lugares, é como se Ele nos dissesse: «Tenham cuidado, pois se não estiverem vigilantes, acabarão por deixar de acreditar.»

 

Esta parábola é uma lição importante sobre a fé.

A última frase faz a pergunta sobre a fé e a primeira frase diz precisamente em que consiste a fé: «Devemos sempre rezar sem nos desencorajarmos», entre as duas partes, o exemplo que nos é proposto por Jesus é o da viúva que é tratada injustamente, mas que não desiste.

 

Jesus sabe bem que, desde a manhã da sua ressurreição até à Sua vinda definitiva no final dos tempos, a fé será sempre um combate contra o desânimo.

 

Não faltarão as «aves de mau agoiro» para semear a dúvida e não faltarão os falsos mestres a alimentar as suspeitas e a criar grandes medos.

Esta espera pelo Reino de Deus presente entre nós, continua a parecer uma interminável expectativa.

 

Estará Deus realmente presente e atuante no meio de nós, com o Seu Amor?

O exemplo desta pobre viúva injustiçada chega-nos em momentos decisivos nas nossas vidas, quando somos tão indigentes e pedintes como ela.

Procuremos ser tão persistentes e corajosos como ela.

 

A viúva teve sempre esperança que iria ser atendida.

Ela teve a certeza, na fé, duma resposta de Deus e duma eficácia escondida, que não seria automática, que muitas vezes demoraria e que podia mesmo demorar muito.

 

Se Deus demora a dar uma resposta, consegue ao mesmo tempo ter-nos mais tempo perto d’Ele.

 

A oração constante é um combate contra o desencorajamento.

 

A perseverança na oração é um grande dom, que devemos pedir a Deus, com insistência e confiança.

 

   frei Eugénio op

 

2022-10-08

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum, 9 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


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Evangelho (Lc. 17,11-19)

Naquele tempo, indo Jesus a caminho de Jerusalém, passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa povoação, vieram ao seu encontro dez leprosos. Conservando-se a distância,
disseram em alta voz: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes: «Ide mostrar-vos aos sacerdotes». E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao ver-se curado, voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para Lhe agradecer. Era um samaritano.
Jesus, tomando a palavra, disse: «Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão os outros nove?
Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este estrangeiro?».
E disse ao homem: «Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou».
 
 
DIÁLOGO
 

Esta passagem do Evangelho que acabámos de ler é bem conhecida.

Jesus curou 10 leprosos. Apenas um deles, que era um samaritano, voltou atrás, para lhe agradecer.

Jesus ia a caminho de Jerusalém, onde a sua Paixão estava a aproximar-se e nesta narrativa estava a atravessar a Samaria.

 

Tudo se passou como se Jesus quisesse pôr à prova a fé daqueles 10 homens, que no caminho, dum modo muito discreto, iriam ficar limpos da lepra.

Quem sofria da lepra, que na altura se pensava ser contagiosa pelo simples toque, estava também atingido de impureza religiosa, que impedia o doente de se aproximar doutras pessoas.

O grito “leproso, leproso” que tinham de berrar, marcava de forma dramática a distância que os separava das outras pessoas.

Neste relato de Lucas, os leprosos em vez do grito que a Lei de Moisés impunha, vão gritar chamando Jesus pelo Seu nome que quer dizer “Deus Salvador”.

E pedem-Lhe: “tem compaixão de nós”.

 

Da parte de Jesus, podiam esperar um gesto, como Ele fez noutras ocasiões com leprosos, ou então que dissesse uma palavra que falasse de cura.

Mas Jesus apenas lhes dá a ordem de se irem mostrar aos sacerdotes, como prescrevia a Lei de Moisés, o que significava apenas uma promessa de cura.

 

Numa primeira etapa, a confiança numa simples palavra que ouviram a Jesus foi suficiente para que os 10 homens se pusessem a caminho e viessem a recuperar a saúde.

Também nas nossas vidas, é uma questão de cultivar esta capacidade de confiança com que nascemos...

Só se nos tornarmos como as crianças pequenas, poderemos entender a dinâmica do Reinado de Deus.

 

Ora um deles, ao ver-se curado, em vez de continuar o caminho para ir ao encontro dos sacerdotes que iriam atestar a cura, como Jesus lhes tinha dado ordem, resolveu voltar atrás, glorificando a Deus em alta voz.

A fé que “salva” este homem, vai além da confiança em Jesus que o cura, como aconteceu com os outros nove; manifesta a descoberta que ele faz do segredo pessoal de Jesus, a Sua intimidade com Deus-Pai.

A etapa decisiva da fé, é-nos mostrada por um Samaritano!

E qual é essa etapa?

Não só antecipa, pela confiança, a cura, mas também remova a distância entre ele próprio, o beneficiário da cura, e Jesus, o autor desta cura.

O samaritano passa do benefício recebido para o reconhecimento da pessoa através da qual este benefício é oferecido: Jesus que é O Salvador.

Aquele homem da Samaria torna-se como que o representante dos pagãos (isto é, dos não-judeus), como a maioria de nós-próprios, que ao longo dos tempos virão ao encontro de Jesus.

Nas últimas palavras que Jesus dirige ao samaritano: “levanta-te” aparece em grego no original, com uma palavra que também quer dizer “ressuscita”.

 

Para os outros nove leprosos deste grupo, Jesus é apenas o instrumento da cura, enquanto para ele, o samaritano, Jesus é aquele em quem ele pode acreditar totalmente, ele é o termo da sua fé.

Assim, ele deixa o mundo da cura, com as suas leis, para entrar no mundo livre da relação com o Salvador.

 

O samaritano 'glorifica Deus' ao mesmo tempo que 'dá graças a Jesus'. Para ele, Deus e Jesus estão fundidos:

eles estão unidos, numa mesma ação de graças.

É por isso que, nas palavras gregas de Lucas, se todos os dez estão "curados", apenas um está "salvo".

 

Este samaritano vai colocar-se "aos pés de Jesus".

Todas as distâncias são abolidas.

Apenas aquele que estava mais afastado (o estrangeiro) saberá fazer-se verdadeiramente próximo.

Como na parábola do Bom Samaritano!

É ele que vai além da proibição da Lei, uma vez que chega a Jesus antes mesmo de os sacerdotes terem confirmado a sua cura.

E Jesus vai "levantar" este homem que está prostrado diante dele.

 

Através da sua fé, o samaritano não só recuperou a sua saúde, mas também a verdadeira vida, a salvação de Deus reconhecida na pessoa do homem-Jesus que o pôs de novo de pé.

 

É tão humano simplesmente gritar a nossa angústia a Deus, mesmo que nem Deus nem Jesus sejam referidos.

Em cada ser humano surge um protesto contra o mal.

Deus ouve este grito, é como se fosse a primeira etapa da fé.

 

O escritor jesuíta Tony de Mello disse muitas vezes que não se pode estar muito agradecido e infeliz ao mesmo tempo.

Há tanto para agradecermos, e tantas graças para recordarmos!

Precisamos de tornar vivas em nós, de tempos a tempos, as bênçãos recebidas e de renovarmos a nossa gratidão por as termos recebido.

 

Jesus diz-nos o quanto quer que o ser humano seja um "ser humano de pé".

 

Seguindo este samaritano, deixemos que a palavra de Deus trabalhe em nós e através de nós,

para nos tornarmos mulheres e homens verdadeiramente livres, quaisquer que sejam as circunstâncias ou provações da vida.

 

 frei Eugénio, op