2023-09-24

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum, 24 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 20, 1-16)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos
e disse-lhes: "Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo".
E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: "Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?".
Eles responderam-lhe: "Ninguém nos contratou". Ele disse-lhes: "Ide vós também para a minha vinha".
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: "Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros".
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
"Estes últimos trabalharam só uma hora, e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor".
Mas o proprietário respondeu a um deles: "Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?".
Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

DIÁLOGO

A parábola que acabámos de ler refere-se a uma situação que as pessoas do tempo em que Mateus escreveu o seu Evangelho conheciam bem: as praças principais das aldeias e cidades cheias de homens à espera de uma oportunidade para irem trabalhar.
Nesse tempo havia muito desemprego na Palestina e por isso uma boa parte dos homens ficava ali horas a fio sem que ninguém os contratasse.

Na parábola, o dono da vinha sai logo pelas 6 horas da manhã e volta pelas 9 horas e de novo pelas 12h e pelas 15h e pelas 17h.
Comportamento inabitual. O motivo das suas idas à procura de trabalhadores é que nenhum deles fique sem trabalho e sem poder sustentar a família.

A generosidade do dono da vinha deveria ser um motivo de alegria e de  gratidão para todos.
Mas na parábola acontece o contrário. Os trabalhadores das primeiras horas põem-se a queixar-se entre dentes contra o dono da vinha.
Não reconhecem a bondade e a generosidade do proprietário e protestam sem transparência, como se fosse uma maldade que lhes estava a ser feita.
Na história do povo judeu, esta forma de se queixar entre dentes contra Deus ( termo bíblico “murmurar” ) era uma atitude com muitos séculos, desde  que Deus o libertou da escravatura no Egito e da sua viagem pelo deserto do Sinai a caminho da Terra Prometida.

Sempre que nós temos um olhar mesquinho e negativo diante de gestos de bondade e de generosidade, deixamos que a maldade, motivada pela inveja e pelo ciúme, tome conta do nosso interior.

É uma deformação que acontece sobretudo em épocas difíceis, ocasiões de crises económicas e sociais, tanto no século I como no século XXI.
Nesta época de pandemia, em que aceitamos a prática de lavar muitas vezes e muito bem as nossas mãos, será que esta parábola nos estimula a lavar muito bem os nossos olhos do coração?

Jesus, dá-nos constantemente a conhecer a preocupação de Deus como Pai para com os mais frágeis, os mais fracos, os que mais precisam de proteção e de ajuda.
Na parábola, os últimos a irem trabalhar também têm de comer, eles e as suas famílias, mesmo que só tenham encontrado trabalho durante uma hora.

Um sentido natural de justiça levar-nos-ia a pensar que os trabalhadores que suportaram o peso do trabalho durante 12 horas deveriam receber mais do que aqueles que trabalharam apenas 1 hora.

Mas, se virmos bem, dar o mesmo salário aos que trabalharam doze horas e aos que trabalharam apenas uma hora, não é injustiça mas sim pura generosidade.
Todos eles recebem um denário, ou seja, o salário "justo" que tinham aceite, permitindo que cada um comesse, assim como a sua família, durante um dia.
O trabalhador na 11ª hora recebe um dia inteiro de salário, pois  para Jesus a justiça deve ser aperfeiçoada com a misericórdia, a solicitude e a bondade, essenciais no verdadeiro amor ao próximo.

Para que possamos compreender um pouco os planos de Deus que muitas vezes são incompreensíveis para nós, precisamos de ter uma chave de interpretação, que é:
o Amor de Deus é dado de modo gratuito e livre.
Não é para recompensar os méritos de cada um. 

Este Amor tem como finalidade a vida daquele a quem é destinado.
Deus não é um contabilista que, de acordo com os nossos méritos, nos daria mais ou menos uma melhor parte na sua vida eterna.
Além disso, esta bondade e generosidade também se revelam na sua incansável paciência, que nos convida repetidamente a escutá-lo e acolhê-lo até ao último segundo das nossas vidas.

    frei Eugénio, op

    (2020.09.20)




2023-09-16

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 24º Domingo do Tempo Comum, 17 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 18, 21-35)

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?» Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
‘Paga o que me deves’.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’.
Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?’
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».


DIÁLOGO

Quando se fala de amor vêm logo à baila confiança, respeito, diálogo, fidelidade, atração, paciência, mas raramente o perdão aparece como uma faceta importante do amor.

Acontece também que quando se fala de perdão, quase sempre vem acompanhado de “coitado”: “Coitado, é tão boa pessoa, mas é muito nervoso... e perde facilmente a cabeça tornando-se agressivo!”
“Coitado, é tão disponível...que quer ajudar toda a gente e não assume os seus compromissos!”

Mas se esta categoria tão tolerante de “coitado” ou de “coitadinho”, nos for dirigida a nós próprios, muito provavelmente não ficaremos satisfeitos, pois queremos ser tratados como pessoas capazes e responsáveis.
Não apreciamos ser perdoados porque somos uns “coitados”.
Jesus insiste muitas vezes sobre o perdão como uma faceta essencial do amor. 

Para compreendermos melhor esta parábola é preciso termos uma ideia de quanto representaria, nos dias de hoje, a dívida de 10.000 talentos. Seria uma quantia enorme, calculada em 164 toneladas de ouro que alguém, mesmo com um bom salário, levaria uns milhares de anos a pagar, isto é, impossível de saldar.

O perdão de Deus, diz a parábola, vem da sua compaixão (literalmente: “das suas entranhas de mãe”), do seu amor que nos quer transformar, é apresentado como valendo mais do que essas toneladas de ouro.
Mas o perdão recebido tem uma exigência: perdoarmos também aos outros, como atitude essencial do amor ao próximo.

E por isso Jesus completa a parábola mostrando a mesquinhez do servo perdoado, que aperta, sem piedade, o pescoço do seu colega por causa duma pequena quantia de 100 denários (correspondendo apenas a cem dias de trabalho).

As ofensas que os outros nos fazem podem deixar marcas de desilusão e de mágoa que vão ter um efeito negativo na nossa vida. Perdoar essas ofensas, em certas ocasiões, é bem superior às nossas forças. Mas o que nos é impossível a nós, é possível a Deus.

Para conseguirmos perdoar à maneira de Jesus, Ele deixou-nos no Pai-Nosso o pedido: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
Perdão recebido, perdão dado!

A experiência de ser verdadeiramente perdoado por alguém, que compreende a nossa fraqueza (por vezes bem miserável) e que renova a sua confiança em nós, apesar de não a merecermos de modo nenhum, é das atitudes de amor mais marcantes que podemos receber. 

Esse perdão encoraja-nos a querer mudar a nossa conduta, a nos esforçarmos por não fazer mais esse mal, a querer deixar de ofender.
O perdão verdadeiro não nos trata como “coitados” ou “coitadinhos”, pelo contrário considera-nos capazes de ser responsáveis.

Como dizia alguém:
“O perdão custa a pedir, mas é bom de receber.
Custa a dar, mas todos o querem ter”

   frei Eugénio, dominicano
   (13.09.2020)


2023-09-09

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 23º Domingo do Tempo Comum, 10 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 18, 15-20)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganhado o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas, se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo: tudo o que ligardes na Terra, será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na Terra, será desligado no Céu.
Digo-vos ainda: se dois de vós se unirem na Terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».


DIÁLOGO


2023-09-02

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 22º Domingo do Tempo Comum, 3 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 16, 21-27)

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-lo, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!».
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa há de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida?
O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras. 


DIÁLOGO

No relato do evangelho do Domingo passado Jesus elogiou Simão pela descoberta que tinha feito de que Jesus era o Salvador e Filho de Deus.

Até lhe mudou o nome para Pedro e manifestou-lhe uma grande confiança, dando-lhe uma missão central entre os apóstolos.
Como é possível que logo na continuação, no relato de hoje, Jesus se dirige a Pedro num tom tão zangado a ponto de lhe chamar “Satanás” e de lhe dizer para se afastar dele?
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo”.
O que é que Pedro terá feito? 


O Evangelho até apresenta Pedro a falar com Jesus dum modo amigo, procurando afastá-lo do caminho de oposições e de grande sofrimento e do final trágico de que Jesus começava a falar abertamente.
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!» diz Pedro com uma convicção amiga.
Jesus chama então a Pedro Satanás e ele entende a quem Jesus o está a comparar: é ao Adversário de Deus, desde o começo da humanidade, cheio de astúcias e artimanhas, para afastar os seres humanos de Deus e da Sua Vontade.
Na tradição bíblica também é chamado Demónio ou Diabo, Pai da Mentira. Ele tem a arte de seduzir, apresentando o mal como sendo o Bem, o desamor como sendo o Amor.
E nós?


Alguns dos leitores dirão que o Satanás não existe como criatura e que é apenas o nome dado à origem do Mal.
Mas, sem entrarmos numa discussão filosófica, há uma realidade, com a qual nos deparamos, quer no dia-a-dia, quer em momentos em que temos de tomar importantes decisões: a tentação.
A tentação aparece como a alternativa entre um Bem reconhecido e um Mal que nos atrai, que nos trará maior satisfação. A nossa consciência é posta à prova.


E qual é a arte de Satanás? É apresentar-nos um Mal como sendo um Bem; é seduzir-nos, mascarando habilmente o Mal, que fica irreconhecível e, como tal,  nos atrai como sendo um Bem melhor, um Super-Bem.
Por exemplo: numa família há uma questão de grandes dívidas que é posta em tribunal. Os membros da família que perderam a causa resolvem cortar completamente as relações com a outra parte da família e a situação já se arrasta por três gerações. Esta atitude é tomada em nome dos valores da honra, dignidade e respeito que se merece.


Não reconhecem que é uma vingança.


Alguém tem de testemunhar em tribunal em defesa dum amigo e, para isso, apresenta documentos falsificados. O seu testemunho é decisivo. Foi em nome da grande amizade que fez tudo para salvar o amigo - uma atitude de louvar e o amigo fica muito grato.
Não reconhecem que usar documentação falsa é um crime.


Pedro, o companheiro em quem Jesus pôs a sua confiança, com muita amizade, quer convencer Jesus a tomar decisões que O iriam afastar do que Deus lhe inspirava. 


Pedro não “tinha em vista as coisas de Deus, mas as dos homens”.
Jesus que já tinha vencido no deserto as seduções de Satanás, quer agora que Pedro e os seus discípulos estejam atentos às astúcias e artimanhas do Sedutor, para que tenham lucidez para as identificar e força para seguirem o caminho do verdadeiro Bem.

 

Frei Eugénio, OP
 (30.08.2020)


2023-08-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 21º Domingo do Tempo Comum, 27 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 16, 13-20)

Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?».
Eles responderam: «Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias. 

 

DIÁLOGO


Neste relato do Evangelho, Jesus interroga os discípulos sobre o que é que a população judaica pensava sobre quem seria o «Filho do Homem», título usado para designar o Messias prometido, o Salvador que deveria libertar para sempre o povo com quem Deus tinha feito uma Aliança. E os apóstolos dão-lhe as opiniões mais frequentes.

Mas, de facto, o que mais interessava a Jesus era o que os seus seguidores e colaboradores mais próximos iriam responder à pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
 

A maior parte de nós, provavelmente começaria por dizer: «penso que és…» ou «parece-me que és…» ou «tenho que pensar antes de responder…».

Não nos seria fácil responder a esta pergunta tão direta, posta pelo próprio Jesus, e que implicaria verdade e transparência: «Tu, Jesus, para mim és…».

Simão, adiantando-se aos outros discípulos, respondeu «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo».

Simão responde a Jesus manifestando a sua convicção que é Ele o Salvador anunciado e esperado, o Cristo de Deus.

Diz-lhe também que o reconhece como a pessoa mais próxima e íntima de Deus, «Filho de Deus», que vem revelar quem Ele é, e o que Ele quer para a humanidade e para a criação.

Jesus felicita Simão pela sua resposta, e lembra-lhe que foi o próprio Deus que permitiu que ele fizesse essa descoberta de quem Ele era.

Esta descoberta é de tal forma importante que tem por efeito transformar a pessoa e a sua orientação de vida.

Na Bíblia essa transformação é simbolicamente apresentada como uma mudança de nome: Abrão para Abraão, Saulo para Paulo, entre outros.

Jesus muda o nome de Simão para Pedro e dá-lhe uma missão em conjunto com os outros onze apóstolos.

Mas esta pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» continua a ser feita ao longo dos séculos…

Que ela tenha eco em cada um de nós …

Procuremos e saibamos saborear ocasiões de oração, diálogo e meditação, em confiança e liberdade, em que refletimos sobre quem é Jesus para nós e quem gostaríamos que fosse.

O próprio Jesus nos acompanhará nesse caminho.

Jesus não precisava de nos perguntar quem Ele é para nós, porque Ele sabe o que vai no nosso íntimo. Nós é que muitas vezes não sabemos.

Mas procurando responder, podemos, de facto, aproximar-nos mais de quem Ele é. Uma vez que a resposta é importante para nós próprios, devemos ser o mais verdadeiros possível.

Jesus espera a nossa resposta.

Frei Eugénio Boléo, OP
23.08.2020 


 

2023-08-19

DIálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 20º Domingo do Tempo Comum, 20 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

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Evangelho (Mt. 15, 21-28)

Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então, Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada. 

 

DIÁLOGO

2023-08-13

Diálgo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 19º Domingo do Tempo Comum, 13 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 


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Evangelho (Mt. 14, 22-33)

Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-lo na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!», disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!».
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois, disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?».
Logo que subiram para o barco, o vento amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

 

DIÁLOGO

 

 

2023-08-06

Diálgo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum (Festa da Transfiguração), 6 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 


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Evangelho (Mt. 17, 1-9)

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então, Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

DIÁLOGO

 

 

 

A transfiguração pintada por Fra Angélico numa cela do Convento de São Marcos, em Florença



 

2023-07-30

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 17º Domingo do Tempo Comum, 30 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

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Evangelho (Mt. 13,44-52)


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo.
O Reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola».
O Reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos, e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?». Eles responderam-Lhe: «Entendemos».
Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».

DIÁLOGO


2023-07-22

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum, 23 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

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EVANGELHO (Mt. 13, 24 - 43)

Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: "Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?".
Ele respondeu-lhes:"Foi um inimigo que fez isso". Disseram-lhe os servos: "Queres que vamos arrancar o joio?".
"Não!", disse ele, "não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro"».
Jesus disse-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos».
Disse-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado».
Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo».
Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo».
Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem,
e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino, o joio são os filhos do Maligno,
e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são os anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus anjos, que tirarão do seu Reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade,
e hão de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes.
Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça». 

DIÁLOGO


2023-07-15

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 15º Domingo do Tempo Comum, 16 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 https://www.evangile-et-peinture.org


EVANGELHO (Mt. 13, 1 - 9)

Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
«Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e abafaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça».

DIÁLOGO

São Mateus organizou o seu evangelho como “um drama sobre a vinda do Reino de Deus”.
No capítulo 13, que estamos a começar a ler apresenta-nos sete parábolas sobre o Reino de Deus já presente entre nós, começando por esta “parábola do semeador”.

Jesus começa por dizer: “Saiu o semeador a semear” e logo cativa a atenção dos seus ouvintes, que conhecem bem esse gesto tão cheio de ritmo do semeador, que começa por meter a mão no saco que leva a tiracolo e em seguida, num largo gesto, lança as sementes ao ar até onde chega a sua força, para que elas se espalhem na terra.

Com esse gesto amplo, algumas sementes vão também cair nos caminhos de terra batida ou empedrados e nos sítios pedregosos ou espinhosos que ladeiam os campos.
O semeador deseja que as sementes sejam de boa qualidade e espera vir a ter uma colheita abundante.
As sementes que caem nos caminhos e que são comidas pelos pássaros, nada produzem, e o resultado nelas é o insucesso.

As que caem nos sítios pedregosos ainda crescem um pouco,
mas também não dão qualquer fruto. Outro insucesso.

E as que caem entre os espinhos e até parecem crescer bem,
mas que serão abafadas são também outro insucesso.

Mas a parábola tem “um final feliz” pois as sementes são boas e a terra também, e o semeador terá uma boa produção.

Os insucessos que entristecem, as contrariedades que desanimam, os ambientes que abafam as boas intenções,
fazem parte da sementeira.

Mas o final feliz da parábola vai fortalecer a esperança,
vai encorajar a não desistir, vai dar força para se ser persistente, pois o bom resultado será alcançado, apesar dos insucessos.

Segundo o evangelista São Mateus, Jesus conta esta parábola
e as outras seis sobre a vinda do Reino de Deus, quando a sua vida e pregação estão a encontrar as maiores oposições
e quando a sua condenação, tortura e morte na cruz,
já estão a ser planeadas.

É também a altura em que muitos discípulos O abandonam e mesmo entre os mais próximos, alguns ficam cheios de dúvidas e de desânimo.

A parábola do semeador vai dar esperança e vai reforçar a confiança no Amor de Deus e do Seu Reinado.
Por outro lado, é bom termos presente que a imagem dos terrenos onde caem as sementes se refere ao nosso íntimo, ao nosso ‘coração’ em linguagem bíblica, o centro de nós mesmos, fonte do pensamento, da vontade e dos sentimentos.
 
Jesus faz, por assim dizer, uma «radiografia espiritual» do nosso coração, que é o terreno sobre o qual a semente da Palavra cai, como disse o Papa Francisco numa homilia.

Jesus veio lançar as sementes da sua Boa Notícia da presença
do Reino de Deus no meio de nós, mas que ainda está longe
do mundo completamente renovado, que Ele promete
para o final dos tempos, em nome do Seu Pai.
É o Reino já presente, mas ainda não totalmente realizado.
 
Gostaria de chamar a atenção para uma interpretação muito comum desta parábola e que nos pode ocultar a beleza e a força desta parábola do semeador.
Nessa interpretação, em vez de olharmos para dentro de nós para vermos onde estão a cair as sementes da Palavra de Deus, considera que é fora de nós e à nossa volta que há esses terrenos improdutivos.

Olhamos para as pessoas conhecidas ou próximas e dizemos
ou pensamos que andam pelos caminhos e por isso se tornaram ateus ou completamente indiferentes ao Evangelho.
Outros, são os que estão nos terrenos pedregosos e que se desiludiram com o Catolicismo e se afastaram da prática religiosa.
Olhamos para outros que são os que os espinhos abafaram,
por se preocuparem sobretudo em seguir o que a sociedade e o modo de pensar atual valorizam, mesmo se for contra a Palavra de Deus.
E por fim, nós, somos a boa terra que produz conforme conseguimos.

Porque é que esta interpretação na qual nos comparamos com outros, nos pode afastar da intenção de Jesus?

Jesus, no seu anúncio do Reino de Deus já presente, deseja que cada um de nós descubra que os quatro terrenos estão dentro de nós
e que, segundo as situações, podemos mudar de terreno,
passar duma atitude à outra, sem nos apercebermos.
Para podermos sair dessas situações improdutivas e assim nos convertermos, devemos ter os ouvidos do ‘coração’ disponíveis para receber a Palavra de Deus, escutando-a, guardando-a, rezando-a  e procurando pô-la em prática.

A comparação com outros afasta-nos da verdadeira conversão.

Caros leitores, Jesus convida-nos hoje a olhar para dentro de nós, com a esperança de podermos colaborar com o Seu Amor para que o Seu Reino esteja mais presente entre nós.
                
frei Eugénio, dominicano

 


2023-07-08

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum, 9 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.



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EVANGELHO (Mt. 11, 25 - 30)

Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos.
Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado.
Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».


DIÁLOGO

Esta página do Evangelho é um condensado de ensinamentos belíssimos.
Jesus dá graças a Deus-Pai, pois o que os mais cultos não conseguem compreender, entendem-no os que estão mais disponíveis para aprender e que aceitam mais facilmente mudar de atitude e de opinião. São aqueles que podemos considerar como ignorantes, mas que têm uma sabedoria que lhes permite entender a Boa Nova de Jesus.    

A primeira parte do texto do Evangelho de hoje apresenta-nos uma mensagem clara: Jesus contrapõe os sábios e os cultos aos humildes e aos simples.
Os discípulos deverão ser pessoas simples, humildes, capazes de aprender com Jesus e de conservar no seu íntimo o que aprenderam.  
Não se concentram nas suas capacidades pessoais,
nem se colocam acima dos que não possuem os seus conhecimentos.
O modelo é o próprio Jesus, que sempre se dirigia aos outros pondo-se ao mesmo nível de cada um, e não de cima para baixo, como quem sabe muito que se dirige a quem sabe pouco ou quase nada sobre o assunto a abordar.

É entrando numa atitude de humilde disponibilidade que a porta do nosso coração se abre.
Jesus, o Filho amado do Pai, pode levar-nos a segui-lo até ao Coração de Deus, pois "ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar".

Jesus tem uma tal intimidade com Deus-Pai que tem a possibilidade de nos dizer da parte de Deus quem Ele é, e o que Ele quer, isto é, qual é a Sua Vontade.
 E é sempre na sua humanidade que Ele nos revela a sua divindade.

Esta "revelação" sobre os pequeninos não significa que devemos rejeitar a reflexão e os conhecimentos humanos.
Não! O contraste marcante que Jesus apresenta tem simplesmente o objetivo de nos mostrar onde se encontram os "verdadeiros sábios" e os "verdadeiros doutores".
São as pessoas que sabem reconhecer os seus limites diante de Deus, aqueles que se sentem muito pequenos diante do mistério da imensidade de Deus.

Conta-se que, no final da sua vida, um grande sábio e erudito, São Tomás de Aquino, que ensinou teologia e escreveu muitos livros, disse que todas as suas aulas e escritos não eram nada em comparação com o seu encontro pessoal e místico com Deus: "Tudo o que escrevi é uma palha em comparação com o que me foi revelado".

Voltemos ao texto do Evangelho.
A segunda parte merece também a nossa atenção, porque traz uma mensagem bem vinda à nossa vida, por vezes tão agitada.

Que mensagem é essa?
Jesus utiliza uma imagem bem conhecida dos seus ouvintes para lhes fazer compreender que podem sempre contar com Ele e que Ele carrega consigo os nossos “fardos”, os nossos problemas e as nossas questões.
A imagem escolhida é a de um jugo. Esta palavra é mais utilizada hoje em dia em sentido figurado.
Exprime uma autoridade que esmaga, ou problemas que pesam demasiado sobre nós.
Mas no seu sentido de objeto real, a palavra “jugo” designa um instrumento, geralmente de madeira, que une pelo pescoço dois bois para puxar um arado, por exemplo, ou uma outra carga qualquer.
Assim, os dois animais coordenam-se e ajudam-se mutuamente na sua ação.
É esta a imagem que Jesus tinha em mente quando disse:
“Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

Assim, as nossas dores e problemas, não desaparecem das nossas vidas e do nosso mundo, mas passam a ter um peso muito diferente, se tivéssemos de os carregar sozinhos.
Assim como os dois animais se ajudam mutuamente e suportam cargas muito mais pesadas, também nós, se tivermos confiança no Amor de Deus, que está presente "no coração das nossas vidas", teremos uma coragem e uma esperança nunca imaginadas.

A primeira e mais importante obrigação é a da lei do Amor.
Deus-Pai enviou Jesus, Seu Filho, para nos revelar que Ele é um Deus de Amor.
O seu nome é AMOR.

Na comunidade ecuménica de Taizé, em França,
na liturgia há em certas celebrações um gesto cheio de significado e que nos toca profundamente
Uma grande cruz é deitada no chão apenas levantada por uma grande almofada.
Os participantes são convidados a sair dos lugares onde estão na igreja e a dirigir-se até à cruz.
Aí chegados, baixam-se, habitualmente ajoelhando-se, para poisar a cabeça na cruz e assim ficar algum tempo, durante o qual entregamos a Jesus, em confiança e na fé, todos os nossos “mais pesados fardos”: tudo o que nos aflige, que nos preocupa muito, que não conseguimos carregar por nós próprios.
Além da fé, a própria atitude física, de inclinados profundamente, apoiando a nossa cabeça na cruz, opera em nós uma forte sensação de “descarga dos fardos” em Jesus, de braços abertos na cruz.

Nesta belíssima celebração, se acreditamos no que Jesus nos prometeu, de estar disponível para carregar sobre Si todos os nossos fardos, mesmo os mais pesados, podemos pôr em prática, na fé e na confiança, o que Ele nos prometeu.

        frei Eugénio, dominicano

2023-07-01

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 13º Domingo do Tempo Comum, 2 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.


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EVANGELHO (Mt. 10, 37 - 42)

«Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,

não é digno de Mim;

e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,

não é digno de Mim.

Quem não toma a sua cruz para Me seguir,

não é digno de Mim.

Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;

e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.

Quem vos acolhe, a Mim acolhe;

e quem Me acolhe, acolhe Aquele que Me enviou.

Quem acolhe um profeta por ele ser profeta,

receberá a recompensa de profeta;

e quem acolhe um justo por ele ser justo,

receberá a recompensa de justo.

E se alguém der de beber,

nem que seja um copo de água fresca,

a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,

em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa».


DIÁLOGO

Acabámos de ler a parte final do chamado «discurso missionário»

no Evangelho de Mateus (Mt. 10, 37-42).

Esta parte do «discurso» não é dirigida aos missionários, mas àqueles que os acolhem.

 

O acolhimento feito aos missionários é muito importante, pois Jesus diz que acolhê-los é como acolher o próprio Jesus Messias («Cristo») e mais ainda: “quem Me acolhe, acolhe Aquele que Me enviou.”, isto é, Deus Pai (Mt. 10, 40).

 

Nesta tão curta passagem, a palavra «acolher» aparece seis vezes «Acolher» torna-se uma atitude-chave para quem quer ser seguidor de Jesus.

 

Acolher os missionários, não é apenas recebê-los educadamente em suas casas.

Acolher não consiste apenas em abrir as portas da casa aos missionários.

 

Um missionário não é um "vendedor", um portador de uma mensagem.

Quem os recebe, recebe o Senhor Jesus em pessoa, e até, recebendo o Filho, recebe também Deus-Pai.

 

Aqui, Jesus convida-nos a correr o risco de nos deixarmos transformar pelos outros.

 

Em primeiro lugar, por aqueles a quem Ele chama os mais pequenos:

o deficiente de quem cuidamos, o idoso que visitamos, o adolescente que se procura a si mesmo, o refugiado que chega, o ferido que foi atingido na carne, o sem-abrigo e outros socialmente mais desconsiderados.

 

O discípulo de Jesus aceita ver Jesus que o chama nesse «pequeno», nessa pessoa ferida, nessa pessoa que precisa d’Ele.

É Jesus que nos chama e que nos pede a nossa ajuda.

 

E assim, ao acolhê-los, estamos a acolher Jesus e Àquele que o enviou, como diz a passagem do Evangelho que lemos.

 

Tem sobretudo a ver com o abrir o coração à mensagem de que eles são portadores.

 

Como podemos ver, tornamo-nos dignos de Jesus não apenas ouvindo as suas palavras, a sua mensagem, mas aceitando que Ele seja o Mestre das nossas vidas, permitindo que Ele entre nelas e que as oriente.

 

Por detrás dos missionários e com eles está Jesus que os enviou.

Acolher os anunciadores não é fácil, porque o anúncio de que são portadores provoca divisões nos que os acolhem, porque o que anunciam exige que eles se deixem transformar também a eles próprios como anunciadores.

Acolher Jesus e os seus enviados é aceitar viver com um fogo dentro de nós, que a Palavra de Deus nos provoca.

 

Isto estava bem presente numa tradição que amigos meus canadianos francófonos me contaram que havia no Québec, no Canadá, até aos começos do século XX.

 

As famílias deixavam sempre junto à porta de entrada da casa, um banco que se transformava em cama para receber os pedintes que apareciam. Chamavam a esta cama improvisada o "banco do mendigo".

 

Então, no dia do julgamento, como nos relata o evangelista Mateus (Mt. 25, 34-40), Jesus Ressuscitado «separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda». 

Então dirá: «Vinde benditos de Meu Pai, porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e acolhestes-me; estava nu e vestistes-me; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo!»

«Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes».

É isto que desejo para cada um e todos nós.

 

        frei Eugénio, dominicano


 

2023-06-24

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum, 25 de junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.


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EVANGELHO (Mt. 10, 26 - 33)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais: valeis muito mais do que todos os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus».

 

DIÁLOGO


 

 

2023-06-17

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 11º Domingo do Tempo Comum, 18 de junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.


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EVANGELHO (Mt. 9, 36 - 38.10, 1-8)

Naquele tempo, Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes doze, dando-lhes as seguintes instruções: «Não sigais o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos.
«Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que está perto o Reino dos Céus».
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça.

 

DIÁLOGO

Durante três domingos, o que lemos hoje e os dois próximos, ouviremos o chamado «Discurso missionário» no Evangelho de Mateus.

Tudo começa pela compaixão de Jesus que é expressa numa palavra grega que implica um movimento visceral, maternal, de Jesus à vista das pessoas cansadas e abatidas «como ovelhas sem pastor» uma maneira muito bíblica que exprime a dispersão, o desalento,  a desilusão das pessoas.
É a mesma comoção interior que encontramos noutras circunstâncias: na cena da viúva de Naïm, na parábola do bom samaritano; na parábola do pai que tem dois filhos com atitudes opostas e que os acolhe a ambos cheio de misericórdia.
É sempre com a mesma maneira de ver os outros, enternecida e comovida, que Jesus diz aos seus discípulos: «A seara é grande,
mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
 
A seara a que Jesus se refere é aquela que já está no momento da colheita e não na ocasião da sementeira.
Não se trata dum tempo de espera e de expectativa, mas da realização do Reino de Deus, com a vinda do Messias.
 
É neste contexto que Jesus envia em missão os seus doze apóstolos, chamados cada um pelo seu nome.
Eles ficam fortemente ligados a Jesus, através da autoridade que lhes é dada e que é sempre de Jesus. Também ficam ligados a Jesus que os envia e pelo que eles devem anunciar: “Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios”.
 
Jesus chama os doze, dá-lhes autoridade e envia-os.
A autoridade não é uma característica própria dos doze, ela é dada por Jesus e ela é recebida também da fonte, que é Jesus.
A autoridade destina-se a libertar as pessoas da influência dos espíritos impuros e a curá-las.
 
Expulsar os espíritos maus não é nem mais eficaz nem menos credível que as curas psicanalíticas do nosso tempo.
 
O envio é para anunciar que o Reino dos Céus já está próximo e que é preciso ir à procura das ovelhas perdidas para que o mundo fique cheio de paz e de esperança.
 
A missão não é resguardar-se no seu grupo de pertença e a partir daí, fazer propaganda religiosa.
A missão implica sair de si, mudar de situação e de atitude.
Implica ir à procura do outro que está perdido em uma qualquer margem da vida, e acolhê-lo e cuidar dele.
 
Tudo isto que se passou com os doze apóstolos, também se refere aos que, como nós, queremos ser discípulos de Jesus nos nossos dias e que gostaríamos de pôr em prática, com entusiasmo, este discurso missionário.
Que à nossa volta as pessoas possam descobrir que ninguém fica fora do Amor de Jesus de Nazaré.
 
         frei Eugénio, dominicano