2023-10-29

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum, 29 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 22, 15-21) 

 

Naquele tempo,

os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,

reuniram-se em grupo,

e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:

«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?»

Jesus respondeu:

«‘Amarás o Senhor teu Deus

com todo o teu coração, com toda a tua alma

e com todo o teu espírito’.

Este é o maior e o primeiro mandamento.

O segundo, porém, é semelhante a este:

‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.

Nestes dois mandamentos se resumem

toda a Lei e os Profetas».

Palavra da salvação.

 

 

DIÁLOGO


Nos nossos diálogos dos últimos Domingos e neste também, Jesus é interpelado com perguntas preparadas pelos mais doutos e notáveis religiosos do judaísmo, que procuram apanhar Jesus em falha, para o levar à condenação como falso Messias.

 

A todas essas perguntas armadilhadas, Jesus respondeu com uma perspetiva mais ampla. Desta vez o porta-voz é um teólogo moralista que lhe faz a pergunta mais básica de todas para um judeu: " Qual é o maior mandamento da Lei?»

Ele fez a pergunta central de todos os crentes: "O que é que Deus espera da humanidade?"

A resposta de Jesus foi a que esse teólogo e os seus companheiros esperavam.

 

Quando Jesus disse: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito”, estava a dizer uma oração do Deuteronômio 6: 4-5, que todos os judeus piedosos recitam diariamente de manhã e à noite, e que esperam que seja a última prece que dirão na hora da morte.

 

É a chamada SHEMÁ: “Escuta Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito”.

É o apelo de Deus que liberta e salva o povo e com quem faz uma aliança. Deus pede uma resposta de fé, com todas as forças humanas, no reconhecimento da sua bondade e grandeza únicas.

 

Em seguida Jesus, vai além da pergunta do doutor da Lei e acrescenta o segundo mandamento da Aliança, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, mas acrescentando que este mandamento é semelhante ao primeiro.

Se é semelhante, quer dizer que faz corpo com o primeiro, de certo modo deixa de ser segundo. Os dois são inseparáveis para Deus, diz Jesus.

É como se dissesse: o grau do teu amor a Deus verifica-se pela qualidade do teu amor ao próximo.

 

"Amarás o teu próximo como a ti mesmo."

No Sermão da Montanha, que o evangelista Mateus reúne nos capítulos 5 a 7, Jesus faz um apelo ao amor ao próximo, incluindo os inimigos.

 

Ao dizer que o amor ao próximo é semelhante ao amor a Deus,

Jesus declara que eles dois amores estão intimamente ligados num modo de vida como Deus quer.

 

Jesus pede um amor em quatro dimensões: amor a Deus, amor a si mesmo, amor àqueles que estão afetivamente mais próximos de nós, e amor àqueles cujos objetivos e modos de vida são totalmente diferentes, ou mesmo opostos aos nossos.

 

Quando analisamos essas quatro dimensões de uma vida de amor, vemos que somos chamados a amar em duas direções:

Uma direção para o amor aos familiares e aos que nos são semelhantes e a outra direção para o amor aos que não são como nós.

 

Para muitas pessoas o amor a si mesmo e aos mais próximos, o amor por aqueles que pensam e agem de modo semelhante ao nosso, vem de certo modo, naturalmente. Esse amor consolida a nossa personalidade como pessoas-de-relação e dá-nos calor humano.

Mas Jesus convida-nos a ir mais longe e a aprender a amar quem pensa e age de maneira diferente e até oposta à nossa.

Jesus diz-nos que o amor a Deus e ao amor ao próximo são duas dimensões inseparáveis do mesmo Amor que Deus quer e Ele veio manifestar.

 

Santa Catarina de Sena na sua obra-prima “O Diálogo” na qual relata os diálogos de Deus com ela, exprime-o de uma forma simples que partilho convosco.

 

Deus diz-lhe:

“Quem Me ama procura ser útil ao próximo. Nem poderia ser de outra maneira, dado que o amor por Mim e pelo próximo, são uma só coisa. Tanto alguém ama o próximo, quanto Me ama, pois de Mim se origina o amor do outro.”

 

“Como nada podeis fazer de útil para Mim, deveis ser de utilidade ao homem.”

 

”Quem se apaixona por Mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros, de modo geral ou particular, com maior ou menor empenho, segundo as disposições do beneficiado e do benfeitor.”

 

“Assim, graças ao amor que o une a Mim, o homem torna-se útil ao próximo; preocupado com a salvação alheia, ama o próximo, presta-lhe serviços em suas necessidades.”

 

In “O Diálogo” n° 2.7 (É no homem que se ama a Deus)

 

frei Eugénio (25.10.2020)

 

 

 

 




2023-10-22

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum, 22 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 22, 15-21) 

Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.
Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem Te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas.
Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?».
Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas?
Mostrai-Me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário,
e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?».
Eles responderam: «De César». Disse-lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».


DIÁLOGO

Todos nós já ouvimos com variadas, e até interpretações opostas, a sentença “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Mas o que é que Jesus quereria dizer com esta sentença?
É o que irei partilhar convosco.

No tempo de Jesus os romanos ocupavam com as suas tropas a terra de Israel e o povo era obrigado a pagar pesados tributos.
O imperador de Roma, o César, era de facto o verdadeiro senhor do povo.

A tradição religiosa de Israel ensinava, ao contrário, que o único que devia ser considerado o Senhor do povo eleito era o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus que tinha libertado o seu povo da escravidão do Egito.

O imposto era um sinal de dominação romana. Os fariseus rejeitavam-na, mas os partidários de Herodes aceitavam-na.

É com esta pergunta “É lícito ou não pagar tributo a César?” que os líderes religiosos do povo judeu esperavam apanhar Jesus numa armadilha.

Onde está essa armadilha?
Se Jesus respondesse “sim” seria tratado como um colaborador dos ocupantes romanos. Aceitar pagar a taxa do tributo significava reconhecer e aceitar a dominação dos romanos, estrangeiros e pagãos. Isto significava para Jesus perderia a confiança do povo.

Se Jesus dissesse "não", os partidários de Herodes poderiam acusá-lo de subversão. Seria denunciado como inimigo do imperador.

Qualquer resposta, pensavam os adversários de Jesus, iria colocá-lo numa situação desfavorável e perigosa.

O denário, moeda romana com que se pagava o imposto, tinha a inscrição “Divino Tibério César”.
Portanto, os imperadores queriam ser adorados como deuses.
De acordo com as interpretações mais rigorosas da Lei, aquela moeda trazia uma imagem de um falso deus, um ídolo, e usá-la seria como dizer que “Israel pertence a César”.

Possuir essa moeda correspondia a admitir que eles não hesitavam em colaborar com os romanos. Apesar da evidente contradição em que estavam aqueles fariseus, com as moedas nas mãos, manifestado a sua hipocrisia, Jesus não fez acusações contra eles.

Só podemos imaginar Jesus apontando para a moeda, com a aversão por qualquer tipo de ídolo, que teria um judeu fiel da sua época, perguntando: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”

Simplesmente, depois da resposta, cita-lhes um ditado conhecido de todos: “Então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Era como se dissesse: “Somos obrigados a pagar impostos a Roma, paguemo-los. Mas César é apenas César, ele não é Deus, os homens não precisam de adorá-lo. Eles não devem obedecer-lhe como alguém obedece a Deus.”

Com esta resposta, Jesus conseguiu, não só evitar de cair na armadilha de dar uma resposta de “sim” ou “não”, mas também chamar a atenção para uma estão essencial: “Existe alguma coisa na criação que não pertença a Deus?”
Chamar a Deus de “Senhor da História” quer dizer que nenhuma situação está fora do alcance de Deus.

Na verdade, Jesus vai mais além do que a questão sobre os impostos. Jesus desafiou-os a pensar sobre as imagens.
A imagem de César gravada na moeda e a imagem e semelhança com Deus que Ele nos quis criar.
Estas imagens situam-se a dois níveis completamente diferentes.

Jesus não põe em oposição o poder de Deus e o poder do homem, mas destacou a primazia absoluta de Deus, que na imagem e semelhança que gravou em nós inscreveu o amor e a liberdade.

Devemos guardar no nosso coração a imagem do nosso Deus e não a imagem de quem nos quer dominar.

Ele é o único Senhor da nossa vida que constantemente nos surpreende e vai além do que nós esperamos, oferecendo-nos novas oportunidades de trabalhar para a vinda do Seu Reino.

A confiança prioritária em Deus e a esperança Nele não nos levam a uma fuga da realidade, mas pelo contrário, levam-nos a trabalhar e a dar a Deus o que lhe pertence.

O Evangelho que lemos pode também chamar-nos a atenção que a relação entre a Igreja e o Estado nunca é simples.

Se, por um lado, a secularização enquanto separação da(s) Igreja(s) e do Estado constitui um avanço civilizacional fundamental, em ordem à não discriminação dos cidadãos e à salvaguarda da paz, por outro lado, ela não significa indiferença mútua.

Pelo contrário, a separação pode e deve conviver de modo saudável com o reconhecimento do papel público das religiões, traduzido em múltiplas formas de colaboração entre as Igrejas e o Estado.

Cabe a cada um de nós comprometer-se, em nome da nossa fé em Jesus, para melhorar a convivência de todos, para que a dignidade dos mais pobres e desfavorecidos seja reconhecida e respeitada.

A causa de Deus é, pois, a causa do Homem.

Frei Eugénio, op
(18.10.2020)
 

2023-10-14

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum, 15 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 22, 1-14) 

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: 

«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’.

Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados.

O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’ Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».

 

DIÁLOGO

A parábola, que lemos, fala-nos do Reino de Deus, comparando-o a uma festa de casamento.
A figura principal é o filho do rei, o noivo, no qual facilmente se reconhece Jesus.
Na parábola, porém, nunca se fala da noiva, mas de muitos convidados, que são desejados e esperados. São eles que vão receber à entrada da sala do banquete a túnica de festa, como presente do Rei. 

Quem são todos esses convidados? Somos nós, todos nós, porque o Senhor deseja que cada um de nós esteja com ele na «festa de casamento do filho». Deus procura-nos e convida-nos, e não se contenta com o nosso bom cumprimento das leis e dos deveres religiosos, mas quer uma verdadeira comunhão de vida connosco, uma relação feita de diálogo, confiança e perdão.

É deste amor gratuito de Deus, que nasce e renasce constantemente a vida cristã, conforme Jesus a apresenta aos seus discípulos.
Podemos interrogar-nos se, ao menos uma vez por dia, entre tantas palavras que dizemos, nos lembramos de Lhe dizer: «Senhor eu amo-Te, Senhor eu quero fazer a Tua Vontade, Obrigado, Senhor, por me convidares!» … 

Se reavivarmos a memória de que somos amados, que somos os convidados de Deus para a «festa do casamento», é-nos dada, em cada dia, a oportunidade de respondermos «sim» ao convite. Mas Jesus, na parábola, chama-nos a atenção que o convite pode ser recusado.
Muitos convidados «não fizeram caso», foram um para o seu campo, outro para o seu negócio, diz o texto. 

Uma palavra que reaparece é «seu». É a palavra-chave para entendermos o motivo das recusas.
De facto, os convidados não foram ao casamento, porque simplesmente a festa não lhes interessava, «não fizeram caso»: viviam tão centrados nos seus interesses pessoais, que nem sequer fizeram caso do convite que pedia uma resposta.

Eles se afastam-se daquela festa não por serem más pessoas, mas porque toda a atenção está dirigida para o que é seu.

Quando tudo fica dependente do «Senhor EU» – isto é, daquilo com que eu concordo, do que eu gosto, daquilo que me serve, daquilo que eu quero e a nossa vida gira tão somente à volta deste «Senhor EU» muita coisa nos passa ao lado.

Assim, o Evangelho pergunta-nos de que lado estamos: do lado do meu Eu ou do lado de Deus e do que Ele quer, para nosso bem?
Mas diante das recusas aos convites que se vão repetindo, Deus não se resigna e continua a convidar, não fecha a porta da sala do casamento, mas ainda vai incluir mais convidados.

Deus, ao mesmo tempo que sofre com os nossas recusas, persiste em oferecer o amor, mesmo a quem «não faz caso».
Só o Amor pode fazer sair desta «bolha do Senhor Eu». 

Há um último aspeto que a parábola destaca, que para nós, no nosso tempo, temos muita dificuldade em entender: a importância da roupa de cerimónia dos convidados.

É o próprio rei que, à maneira oriental, em vez de receber presentes, oferece a túnica de cerimónia, indispensável nos rituais do casamento.
Todos os convidados a recebem, pois muitos foram convidados à pressa e outros não teriam posses para comprar o traje exigido. Com efeito, não basta responder uma vez só ao convite, dizer «sim» e… chega!

Precisamos de renovar cada dia a nossa escolha por Deus, praticar a Sua vontade, tomando consciência dos seus convites e aceitando-os.
Deus convida sempre, pede a nossa participação como parceiros ativos na construção do Seu Reino.

Todos nós somos chamados a seguir os caminhos da coragem e da busca da verdade e do bem que o amor exige.

A nossa resposta, em liberdade, é que nos permite aceitar os convites.

    frei Eugénio, OP  (11.10.2020)

 


2023-10-08

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 27º Domingo do Tempo Comum, 8 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 21, 33-43)

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
‘Respeitarão o meu filho’.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?»
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados,
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,  que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?
Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».



DIÁLOGO

A parábola que acabámos de ler começa por descrever os gestos de amor do proprietário cheio de cuidados pela sua vinha.

Numa colina cheia de sol, cavou a terra, plantou castas selecionadas, protegeu-as com uma sebe e uma torre de vigia e construiu um lagar. Não se poupou a esforços para com a sua vinha.
Entram então em cena os vinhateiros, a quem o proprietário aluga a sua vinha, contando que chegada a vindima venham a recolher belas e saborosas uvas.

A parábola insiste em que o proprietário continua a ser o dono da vinha e somente a alugou a quem cuidasse dela.

Mas os vinhateiros, em vez de se reconhecerem como trabalhadores que colaboram, tratando o melhor possível daquela bela vinha, querem tornar-se eles próprios os donos.

Para conseguirem o seu objetivo, recorrem à violência sobre os enviados do proprietário e chegam mesmo ao assassinato do herdeiro, o filho do proprietário.

Jesus, com esta parábola quer levar os seus ouvintes, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, pessoas letradas e influentes, a reconhecerem que são eles os atores do drama que se está a passar com Ele, filho e herdeiro de Deus-Pai.

Jesus apresenta-se como um continuador dos profetas de Israel, mas dizendo que é muito mais do que eles, que é o "filho", o herdeiro, que esses dirigentes estão a rejeitar e pior ainda, estão a fazer todos os possíveis para que seja condenado, o que naquela altura significava ser julgado, torturado e crucificado.

Jesus diz-lhes: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.» Jesus foi expulso da cidade de Jerusalém como uma pedra inútil e inadequada que os construtores não queriam.

Mas Deus-Pai fez dele "a pedra angular", a pedra que serve de remate à abóbada do novo Templo de Jerusalém, que significa que não se trata de um edifício de pedras, madeiras e mármores, mas de pessoas humanas, de todas as nações no Mundo, que se juntam ao Filho de Deus, na confiança e no amor, para construírem o Reino.

Também a nós, nos são dadas múltiplas ocasiões de trabalharmos na «vinha do Senhor». Podemos ser bons «vinhateiros» se procurarmos cuidar com responsabilidade e honestidade da «vinha» em que Ele nos pede para trabalharmos.

A «vinha do Senhor» inclui toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral.
Aceitando conscientemente os apelos que Deus nos faz e procurando pôr em prática a Sua Vontade, tornámo-nos seus colaboradores para que o seu Reino de amor, justiça e paz venha entre nós.

Seremos bons «vinhateiros», nos mais variados sectores da atividade humana, se trabalharmos para ajudar resolver as consequências da degradação ambiental na vida dos mais desprotegidos do mundo.

Se quisermos ter uns momentos de paragem, e nos pusermos à procura de colaborações que Deus nos pede, para cuidarmos da Sua «vinha» começamos a vê-las nos mais variados momentos e circunstâncias: em casa, com quem vivemos e acolhemos… , no trabalho virtual ou presencial…, a deslocarmo-nos nos transportes públicos ou a conduzir…, nas idas às compras para alimentar a família e a cozinhar…, nas ocasiões de lazer e distração…, nos momentos de oração...

Que dignidade nos é oferecida por Jesus: sermos bons «vinhateiros», colaboradores de Deus, na construção do seu Reino no meio de nós!

frei Eugénio, op (04.10.2020)

 

2023-10-01

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum, 1 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 21, 28-32)

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes
e aos anciãos do povo:
«Que vos parece?
Um homem tinha dois filhos.
Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’.
Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’.
Depois, porém, arrependeu-se e foi.
O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo.
Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’.
Mas de facto não foi.
Qual dos dois fez a vontade ao pai?»
Eles responderam-Lhe: «O primeiro».
Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus.
João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça,
e não acreditastes nele;
mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.
E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».

 

DIÁLOGO

Caros leitores,

Jesus contou esta parábola aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, pessoas muito bem situadas na Palestina, tanto na religião como na vida pública. A pergunta que lhes fez no final era muito simples: «qual dos dois filhos fez a vontade ao pai?». Foi o que disse que ia e não foi, ou foi o que o acabou por ir? 

A questão é, pois, entre o dizer e o fazer.
Jesus contou esta parábola durante o seu ensino sobre o Reino de Deus presente no meio de nós.
Dizer que se adere ao ensino de Jesus, ou que se adere aos valores da religião cristã que nos transmitiram e aprendemos, não traz grande dificuldade, nem compromete muito.
Mas pôr em prática atitudes como as que Jesus tinha e que Ele nos propõe para entrarmos no Reino, torna-se mais exigente.
 

Será necessário passar das ideias e dos princípios, à procura concreta do que Deus quer de cada um de nós.
Como lemos, depois de ter recebido a resposta que lhe deram, Jesus fez uma comparação que iria chocar os seus ouvintes. Comparou as pessoas importantes e respeitadas com dois tipos de pessoas completamente desconsideradas: os publicanos e as mulheres de má vida.
Quem eram essas pessoas, para serem tão desprezadas?

Os publicanos eram os cobradores dos impostos ao serviço do Império Romano. Tinham práticas corruptas para enriquecer, pressionando  de todos os modos a população a pagar impostos aos ocupantes romanos. Eram desprezados e detestados pelo povo e considerados pecadores públicos pelos intérpretes da Lei de Moisés.

As mulheres de má vida eram as que praticavam a prostituição, de modo público, prática condenada pela Lei e pela sociedade.
Jesus chocou muito os seus ouvintes, como nos chocaria a nós, pois disse-lhes que esses «pecadores públicos», no Reino de Deus, passariam à frente deles. 

Como é possível que Deus possa dar prioridade no Seu Reino a pessoas com práticas tão condenadas pela moral e pela religião?
Jesus já o tinha dito com toda a clareza no final do Sermão da Montanha: «Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai». 

O próprio evangelista Mateus era publicano de profissão, assim como o bem conhecido Zaqueu, entre outros. Graças a Jesus descobriram a vontade de Deus e mudaram profundamente as suas práticas
Os Evangelhos também nos apresentam mulheres de má vida - a que ia ser condenada à morte por apedrejamento, a mulher que ungiu Jesus em Betânia  e Madalena, a pecadora arrependida, que mudaram de vida por terem sido perdoadas por Jesus.

A prioridade que elas e eles têm no Reino de Deus, deve-se ao facto de terem decidido procurar conhecer e pôr em prática a vontade de Deus, na vida concreta, em qualquer sítio onde estivessem e no momento presente, (« aqui e agora » como se dizia).
E se falharem e não conseguirem, o que irá acontecer certamente, pedem a Jesus ajuda para recomeçar.

Pelo contrário, se ficarem satisfeitos em conhecer os princípios e as regras religiosas e morais, não veem a necessidade de mudar o seu modo de viver. Ao mesmo tempo andam preocupados com os outros, que esses sim, é importante que mudem de comportamento – corruptos, imorais, egoístas, materialistas…  

Jesus contou esta parábola aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, e a outros notáveis da religião e da vida pública, porque eram eles que mais se opunham aos ensinamentos e ao modo de viver de Jesus, que o fazia em nome de Deus.
No seu amor por estas pessoas que resistiam aos seus ensinamentos, Jesus fez todo o possível por os alertar para o caminho que estavam a seguir e a ensinar aos outros, como sendo o caminho oposto à vontade de Deus.  

Desses notáveis, conhecemos dois, Paulo de Tarso e Nicodemos que, graças a Jesus, «deram uma grande volta» às prioridades das suas vidas.
Afinal podemos dizer que Jesus, em nome de Deus Pai, veio pôr a religião «de pernas para o ar». 

E, a meu ver, ainda bem!

Que me dizem os meus caros leitores?

        frei Eugénio, op

        (27.09.2020)

 

2023-09-24

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 25º Domingo do Tempo Comum, 24 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 20, 1-16)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário, que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.
Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha.
Saiu a meia-manhã, viu outros que estavam na praça ociosos
e disse-lhes: "Ide vós também para a minha vinha, e dar-vos-ei o que for justo".
E eles foram. Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo.
Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes: "Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?".
Eles responderam-lhe: "Ninguém nos contratou". Ele disse-lhes: "Ide vós também para a minha vinha".
Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz: "Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros".
Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.
Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.
Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:
"Estes últimos trabalharam só uma hora, e deste-lhes a mesma paga que a nós, que suportámos o peso do dia e o calor".
Mas o proprietário respondeu a um deles: "Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo?
Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti.
Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?".
Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

DIÁLOGO

A parábola que acabámos de ler refere-se a uma situação que as pessoas do tempo em que Mateus escreveu o seu Evangelho conheciam bem: as praças principais das aldeias e cidades cheias de homens à espera de uma oportunidade para irem trabalhar.
Nesse tempo havia muito desemprego na Palestina e por isso uma boa parte dos homens ficava ali horas a fio sem que ninguém os contratasse.

Na parábola, o dono da vinha sai logo pelas 6 horas da manhã e volta pelas 9 horas e de novo pelas 12h e pelas 15h e pelas 17h.
Comportamento inabitual. O motivo das suas idas à procura de trabalhadores é que nenhum deles fique sem trabalho e sem poder sustentar a família.

A generosidade do dono da vinha deveria ser um motivo de alegria e de  gratidão para todos.
Mas na parábola acontece o contrário. Os trabalhadores das primeiras horas põem-se a queixar-se entre dentes contra o dono da vinha.
Não reconhecem a bondade e a generosidade do proprietário e protestam sem transparência, como se fosse uma maldade que lhes estava a ser feita.
Na história do povo judeu, esta forma de se queixar entre dentes contra Deus ( termo bíblico “murmurar” ) era uma atitude com muitos séculos, desde  que Deus o libertou da escravatura no Egito e da sua viagem pelo deserto do Sinai a caminho da Terra Prometida.

Sempre que nós temos um olhar mesquinho e negativo diante de gestos de bondade e de generosidade, deixamos que a maldade, motivada pela inveja e pelo ciúme, tome conta do nosso interior.

É uma deformação que acontece sobretudo em épocas difíceis, ocasiões de crises económicas e sociais, tanto no século I como no século XXI.
Nesta época de pandemia, em que aceitamos a prática de lavar muitas vezes e muito bem as nossas mãos, será que esta parábola nos estimula a lavar muito bem os nossos olhos do coração?

Jesus, dá-nos constantemente a conhecer a preocupação de Deus como Pai para com os mais frágeis, os mais fracos, os que mais precisam de proteção e de ajuda.
Na parábola, os últimos a irem trabalhar também têm de comer, eles e as suas famílias, mesmo que só tenham encontrado trabalho durante uma hora.

Um sentido natural de justiça levar-nos-ia a pensar que os trabalhadores que suportaram o peso do trabalho durante 12 horas deveriam receber mais do que aqueles que trabalharam apenas 1 hora.

Mas, se virmos bem, dar o mesmo salário aos que trabalharam doze horas e aos que trabalharam apenas uma hora, não é injustiça mas sim pura generosidade.
Todos eles recebem um denário, ou seja, o salário "justo" que tinham aceite, permitindo que cada um comesse, assim como a sua família, durante um dia.
O trabalhador na 11ª hora recebe um dia inteiro de salário, pois  para Jesus a justiça deve ser aperfeiçoada com a misericórdia, a solicitude e a bondade, essenciais no verdadeiro amor ao próximo.

Para que possamos compreender um pouco os planos de Deus que muitas vezes são incompreensíveis para nós, precisamos de ter uma chave de interpretação, que é:
o Amor de Deus é dado de modo gratuito e livre.
Não é para recompensar os méritos de cada um. 

Este Amor tem como finalidade a vida daquele a quem é destinado.
Deus não é um contabilista que, de acordo com os nossos méritos, nos daria mais ou menos uma melhor parte na sua vida eterna.
Além disso, esta bondade e generosidade também se revelam na sua incansável paciência, que nos convida repetidamente a escutá-lo e acolhê-lo até ao último segundo das nossas vidas.

    frei Eugénio, op

    (2020.09.20)




2023-09-16

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 24º Domingo do Tempo Comum, 17 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 18, 21-35)

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe:
«Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe?
Até sete vezes?» Jesus respondeu:
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o reino de Deus pode comparar-se a um rei
que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido,
com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo:
‘Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei’.
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo
deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros
que lhe devia cem denários.
Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo:
‘Paga o que me deves’.
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo:
‘Concede-me um prazo e pagar-te-ei’.
Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender,
até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes
e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse:
‘Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro,
como eu tive compaixão de ti?’
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia. Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».


DIÁLOGO

Quando se fala de amor vêm logo à baila confiança, respeito, diálogo, fidelidade, atração, paciência, mas raramente o perdão aparece como uma faceta importante do amor.

Acontece também que quando se fala de perdão, quase sempre vem acompanhado de “coitado”: “Coitado, é tão boa pessoa, mas é muito nervoso... e perde facilmente a cabeça tornando-se agressivo!”
“Coitado, é tão disponível...que quer ajudar toda a gente e não assume os seus compromissos!”

Mas se esta categoria tão tolerante de “coitado” ou de “coitadinho”, nos for dirigida a nós próprios, muito provavelmente não ficaremos satisfeitos, pois queremos ser tratados como pessoas capazes e responsáveis.
Não apreciamos ser perdoados porque somos uns “coitados”.
Jesus insiste muitas vezes sobre o perdão como uma faceta essencial do amor. 

Para compreendermos melhor esta parábola é preciso termos uma ideia de quanto representaria, nos dias de hoje, a dívida de 10.000 talentos. Seria uma quantia enorme, calculada em 164 toneladas de ouro que alguém, mesmo com um bom salário, levaria uns milhares de anos a pagar, isto é, impossível de saldar.

O perdão de Deus, diz a parábola, vem da sua compaixão (literalmente: “das suas entranhas de mãe”), do seu amor que nos quer transformar, é apresentado como valendo mais do que essas toneladas de ouro.
Mas o perdão recebido tem uma exigência: perdoarmos também aos outros, como atitude essencial do amor ao próximo.

E por isso Jesus completa a parábola mostrando a mesquinhez do servo perdoado, que aperta, sem piedade, o pescoço do seu colega por causa duma pequena quantia de 100 denários (correspondendo apenas a cem dias de trabalho).

As ofensas que os outros nos fazem podem deixar marcas de desilusão e de mágoa que vão ter um efeito negativo na nossa vida. Perdoar essas ofensas, em certas ocasiões, é bem superior às nossas forças. Mas o que nos é impossível a nós, é possível a Deus.

Para conseguirmos perdoar à maneira de Jesus, Ele deixou-nos no Pai-Nosso o pedido: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
Perdão recebido, perdão dado!

A experiência de ser verdadeiramente perdoado por alguém, que compreende a nossa fraqueza (por vezes bem miserável) e que renova a sua confiança em nós, apesar de não a merecermos de modo nenhum, é das atitudes de amor mais marcantes que podemos receber. 

Esse perdão encoraja-nos a querer mudar a nossa conduta, a nos esforçarmos por não fazer mais esse mal, a querer deixar de ofender.
O perdão verdadeiro não nos trata como “coitados” ou “coitadinhos”, pelo contrário considera-nos capazes de ser responsáveis.

Como dizia alguém:
“O perdão custa a pedir, mas é bom de receber.
Custa a dar, mas todos o querem ter”

   frei Eugénio, dominicano
   (13.09.2020)


2023-09-09

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 23º Domingo do Tempo Comum, 10 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 18, 15-20)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganhado o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas, se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo: tudo o que ligardes na Terra, será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na Terra, será desligado no Céu.
Digo-vos ainda: se dois de vós se unirem na Terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».


DIÁLOGO


2023-09-02

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 22º Domingo do Tempo Comum, 3 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 16, 21-27)

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-lo, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!».
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa há de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida?
O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras. 


DIÁLOGO

No relato do evangelho do Domingo passado Jesus elogiou Simão pela descoberta que tinha feito de que Jesus era o Salvador e Filho de Deus.

Até lhe mudou o nome para Pedro e manifestou-lhe uma grande confiança, dando-lhe uma missão central entre os apóstolos.
Como é possível que logo na continuação, no relato de hoje, Jesus se dirige a Pedro num tom tão zangado a ponto de lhe chamar “Satanás” e de lhe dizer para se afastar dele?
«Vai-te daqui, Satanás.
Tu és para mim uma ocasião de escândalo”.
O que é que Pedro terá feito? 


O Evangelho até apresenta Pedro a falar com Jesus dum modo amigo, procurando afastá-lo do caminho de oposições e de grande sofrimento e do final trágico de que Jesus começava a falar abertamente.
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!» diz Pedro com uma convicção amiga.
Jesus chama então a Pedro Satanás e ele entende a quem Jesus o está a comparar: é ao Adversário de Deus, desde o começo da humanidade, cheio de astúcias e artimanhas, para afastar os seres humanos de Deus e da Sua Vontade.
Na tradição bíblica também é chamado Demónio ou Diabo, Pai da Mentira. Ele tem a arte de seduzir, apresentando o mal como sendo o Bem, o desamor como sendo o Amor.
E nós?


Alguns dos leitores dirão que o Satanás não existe como criatura e que é apenas o nome dado à origem do Mal.
Mas, sem entrarmos numa discussão filosófica, há uma realidade, com a qual nos deparamos, quer no dia-a-dia, quer em momentos em que temos de tomar importantes decisões: a tentação.
A tentação aparece como a alternativa entre um Bem reconhecido e um Mal que nos atrai, que nos trará maior satisfação. A nossa consciência é posta à prova.


E qual é a arte de Satanás? É apresentar-nos um Mal como sendo um Bem; é seduzir-nos, mascarando habilmente o Mal, que fica irreconhecível e, como tal,  nos atrai como sendo um Bem melhor, um Super-Bem.
Por exemplo: numa família há uma questão de grandes dívidas que é posta em tribunal. Os membros da família que perderam a causa resolvem cortar completamente as relações com a outra parte da família e a situação já se arrasta por três gerações. Esta atitude é tomada em nome dos valores da honra, dignidade e respeito que se merece.


Não reconhecem que é uma vingança.


Alguém tem de testemunhar em tribunal em defesa dum amigo e, para isso, apresenta documentos falsificados. O seu testemunho é decisivo. Foi em nome da grande amizade que fez tudo para salvar o amigo - uma atitude de louvar e o amigo fica muito grato.
Não reconhecem que usar documentação falsa é um crime.


Pedro, o companheiro em quem Jesus pôs a sua confiança, com muita amizade, quer convencer Jesus a tomar decisões que O iriam afastar do que Deus lhe inspirava. 


Pedro não “tinha em vista as coisas de Deus, mas as dos homens”.
Jesus que já tinha vencido no deserto as seduções de Satanás, quer agora que Pedro e os seus discípulos estejam atentos às astúcias e artimanhas do Sedutor, para que tenham lucidez para as identificar e força para seguirem o caminho do verdadeiro Bem.

 

Frei Eugénio, OP
 (30.08.2020)


2023-08-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 21º Domingo do Tempo Comum, 27 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 16, 13-20)

Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?».
Eles responderam: «Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias. 

 

DIÁLOGO


Neste relato do Evangelho, Jesus interroga os discípulos sobre o que é que a população judaica pensava sobre quem seria o «Filho do Homem», título usado para designar o Messias prometido, o Salvador que deveria libertar para sempre o povo com quem Deus tinha feito uma Aliança. E os apóstolos dão-lhe as opiniões mais frequentes.

Mas, de facto, o que mais interessava a Jesus era o que os seus seguidores e colaboradores mais próximos iriam responder à pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
 

A maior parte de nós, provavelmente começaria por dizer: «penso que és…» ou «parece-me que és…» ou «tenho que pensar antes de responder…».

Não nos seria fácil responder a esta pergunta tão direta, posta pelo próprio Jesus, e que implicaria verdade e transparência: «Tu, Jesus, para mim és…».

Simão, adiantando-se aos outros discípulos, respondeu «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo».

Simão responde a Jesus manifestando a sua convicção que é Ele o Salvador anunciado e esperado, o Cristo de Deus.

Diz-lhe também que o reconhece como a pessoa mais próxima e íntima de Deus, «Filho de Deus», que vem revelar quem Ele é, e o que Ele quer para a humanidade e para a criação.

Jesus felicita Simão pela sua resposta, e lembra-lhe que foi o próprio Deus que permitiu que ele fizesse essa descoberta de quem Ele era.

Esta descoberta é de tal forma importante que tem por efeito transformar a pessoa e a sua orientação de vida.

Na Bíblia essa transformação é simbolicamente apresentada como uma mudança de nome: Abrão para Abraão, Saulo para Paulo, entre outros.

Jesus muda o nome de Simão para Pedro e dá-lhe uma missão em conjunto com os outros onze apóstolos.

Mas esta pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» continua a ser feita ao longo dos séculos…

Que ela tenha eco em cada um de nós …

Procuremos e saibamos saborear ocasiões de oração, diálogo e meditação, em confiança e liberdade, em que refletimos sobre quem é Jesus para nós e quem gostaríamos que fosse.

O próprio Jesus nos acompanhará nesse caminho.

Jesus não precisava de nos perguntar quem Ele é para nós, porque Ele sabe o que vai no nosso íntimo. Nós é que muitas vezes não sabemos.

Mas procurando responder, podemos, de facto, aproximar-nos mais de quem Ele é. Uma vez que a resposta é importante para nós próprios, devemos ser o mais verdadeiros possível.

Jesus espera a nossa resposta.

Frei Eugénio Boléo, OP
23.08.2020 


 

2023-08-19

DIálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 20º Domingo do Tempo Comum, 20 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

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Evangelho (Mt. 15, 21-28)

Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então, Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada. 

 

DIÁLOGO

2023-08-13

Diálgo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 19º Domingo do Tempo Comum, 13 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 


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Evangelho (Mt. 14, 22-33)

Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-lo na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!», disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!».
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois, disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?».
Logo que subiram para o barco, o vento amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

 

DIÁLOGO

 

 

2023-08-06

Diálgo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum (Festa da Transfiguração), 6 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 


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Evangelho (Mt. 17, 1-9)

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então, Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

DIÁLOGO

 

 

 

A transfiguração pintada por Fra Angélico numa cela do Convento de São Marcos, em Florença



 

2023-07-30

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 17º Domingo do Tempo Comum, 30 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

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Evangelho (Mt. 13,44-52)


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo.
O Reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola».
O Reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos, e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?». Eles responderam-Lhe: «Entendemos».
Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».

DIÁLOGO


2023-07-22

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum, 23 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

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EVANGELHO (Mt. 13, 24 - 43)

Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: "Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?".
Ele respondeu-lhes:"Foi um inimigo que fez isso". Disseram-lhe os servos: "Queres que vamos arrancar o joio?".
"Não!", disse ele, "não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro"».
Jesus disse-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos».
Disse-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado».
Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo».
Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo».
Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem,
e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino, o joio são os filhos do Maligno,
e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são os anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus anjos, que tirarão do seu Reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade,
e hão de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes.
Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça». 

DIÁLOGO