2024-01-28

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 4º Domingo do tempo comum, 28 de janeiro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mc. 1, 21-28)

Jesus chegou a Cafarnaum
e quando, no sábado seguinte, entrou na sinagoga
e começou a ensinar,
todos se maravilhavam com a sua doutrina,
porque os ensinava com autoridade e não como os escribas.
Encontrava-se na sinagoga um homem com um espírito impuro,
que começou a gritar:
«Que tens Tu a ver connosco, Jesus Nazareno?
Vieste para nos perder?
Sei quem Tu és: o Santo de Deus».
Jesus repreendeu-o, dizendo: «Cala-te e sai desse homem».
O espírito impuro, agitando-o violentamente,
soltou um forte grito e saiu dele.
Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros:
«Que vem a ser isto?
Uma nova doutrina, com tal autoridade,
que até manda nos espíritos impuros e eles obedecem-Lhe!»
E logo a fama de Jesus se divulgou por toda a parte,
em toda a região da Galileia.

DIÁLOGO


A história que este relato do Evangelho nos conta sobre um homem com um «espírito impuro», também chamado um «espírito maligno»,
é uma, entre outras, onde aparecem «espíritos demoníacos» que tomam posse de pessoas.
Estes espíritos provocam gritos, atitudes e convulsões horríveis.
O que nós consideramos demoníaco e maligno é para outras pessoas pura ignorância científica sobre as doenças que afetam o sistema nervoso humano.
Alguém se lembra ainda do filme «O exorcista» que levantou grandes discussões há uns quinze anos?
 
Na mentalidade da época de Jesus, quer entre judeus, quer entre os que seguiam os cultos gregos e romanos, quase todas as doenças e enfermidades eram vistas como sendo provocadas por espíritos com poderes para desencadear o mal nas pessoas e por isso era necessário, além de certos cuidados médicos, fazer exorcismos para os expulsar.
 
As pessoas de Cafarnaum sabiam, por isso, o que eram os exorcismos e como eram feitos.
Os procedimentos eram demorados, cheios de fórmulas próprias para afastar esses espíritos e eram acompanhados de ritos que só certas pessoas, com poderes especiais, os podiam realizar para que produzissem efeito.
No relato que lemos, em perfeito contraste com esses exorcismos, Jesus diz apenas duas frases: «cala-te» e «sai desse homem» em precisar de fazer qualquer ritual.

As simples palavras de Jesus fizeram sair do homem o «espírito fazedor de mal».

Por outro lado, de modo muito surpreendente é precisamente o «espírito maligno» que vai dizer que sabe quem é Jesus.
Diz que Jesus «é o Santo de Deus», isto é o Deus Único, o Completamente Diferente de todas as criaturas.
Jesus aparece como Aquele, que apenas com a sua presença, já enchia de pânico os «espíritos malignos».
 
A admiração e o espanto que Jesus provocou nas pessoas, em Cafarnaum, não eram apenas fruto do poder de expulsar espíritos, mas também do modo como ensinava.
 
Jesus «ensinava com autoridade e não como os escribas».
Os escribas eram os que copiavam os textos da Bíblia, mas também os que a estudavam e a ensinavam a ler e a interpretar.
Eram os guardiões da tradição bíblica, o que os fazia repetir o mais exatamente possível as interpretações das passagens  da Lei judaica recebida por Moisés.
Por sua vez Jesus não é um guardião da Tradição, mas o anunciador duma novidade vinda de Deus.
 
De onde vinha então a autoridade de Jesus?
Não tinha currículo, nem diplomas de escriba ou doutor da Lei, nem estatuto religioso por ser um fiel judeu comum, sem ser sacerdote, nem pertencia a nenhuma confraria como os fariseus ou partido como os saduceus.
 

A sua autoridade começava no seu dizer unido ao seu fazer.
A sua autoridade saía dos seus lábios e das suas mãos.
A sua autoridade vinha-lhe da sua completa união a Deus Pai, de quem era o porta-voz e o mensageiro.
O Amor de Deus-Pai é sua fonte.

Jesus, o Filho de Deus, é a perfeita transparência de Deus Pai e por isso pode, com toda a verdade, dizer ao apóstolo Filipe: «Filipe quem me vê, vê o Pai»

A principal ocupação de Jesus é de ser Anunciador do Evangelho de Deus.
Jesus tinha como principal função dar a conhecer a todas as pessoas e em todos os lugares, a Boa Notícia sobre quem Deus era e o que Deus queria para todas as pessoas humanas, suas filhas e seus filhos e para a criação.
 
Para poder anunciar o Evangelho, tinha que ensinar, mas ao mesmo tempo devia acolher todas as pessoas, tinha também de as libertar de todas as prisões interiores e exteriores e de curá-las espiritual e fisicamente.
Foi o que Ele viveu.

Se ainda hoje há cristãos e se esperamos que nas novas gerações também haja, tudo dependerá de haver quem aceite ser anunciador do Evangelho de Deus à maneira de Jesus.

No nosso tempo, continua a ser habitual que as pessoas considerem que na Igreja Católica e também nas outras Igrejas cristãs, quem tem a função de ser anunciador são os bispos e os padres e as anunciadoras devem ser as monjas e as religiosas.

Mas, felizmente, ao longo do tempo muitas das Anunciadoras e dos Anunciadores do Evangelho, a quem também devemos, hoje, sermos seguidores de Jesus, não tinham qualquer estatuto, nem diploma, nem título eclesiástico.
Essas mulheres e esses homens de fé, apenas se apoiaram na fidelidade a Jesus e na Sua mensagem que lhes foi confiada para ser anunciada.
Anunciaram, porque eram livres.  
Também os há nos nossos dias!
Demos graças Deus se elas e eles entraram nas nossas vidas!

    frei Eugénio, op
(31-01-2021)
 

2024-01-21

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 3º Domingo do tempo comum, 21 de janeiro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mc. 1, 14-20)

Depois de João ter sido preso,
Jesus partiu para a Galileia
e começou a proclamar o Evangelho de Deus, dizendo:
«Cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus.
Convertei-vos e acreditai no Evangelho».
Caminhando junto ao mar da Galileia,
viu Simão e seu irmão André,
que lançavam as redes ao mar, porque eram pescadores.
Disse-lhes Jesus:
«Vinde comigo e farei de vós pescadores de homens».
Eles deixaram logo as redes e seguiram-n’O.
Um pouco mais adiante,
viu Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João,
que estavam no barco a consertar as redes;
e chamou-os.
Eles deixaram logo seu pai Zebedeu no barco com os assalariados
e seguiram Jesus.
Palavra da salvação.

 

DIÁLOGO

Jesus começa a sua pregação proclamando: "Está próximo o Reino de Deus. Convertei-vos e acreditai no Evangelho».
Foi essa a essência da mensagem e da atividade de Jesus.

O Evangelho de Marcos não realça tanto as pregações de Jesus, como as suas ações, pois Marcos pretendia demonstrar que através dessas ações Jesus encarnava o Reinado de Deus.
Jesus inaugurou o Reinado de Deus na História, com a sua obediência a Deus-Pai e a sua intimidade com Ele e oferecendo a todas as pessoas poderem também participar nessa intimidade divina.
Jesus inaugura um estilo de vida e de comportamento, que pela sua novidade, vai encontrar muitas resistências no mundo religioso, quer judaico, quer greco-romano.

É, pois, necessário que os seus ouvintes se preparem para ter de mudar de mentalidade religiosa, para poderem aceitar o modo como Jesus falava de Deus e com Deus, a si mesmo e ao próximo.
Isso implicava um modo de viver diferente.
Essa transformação é chamada conversão, que corresponde à palavra grega “metanoia”.

Em que consistia essa novidade tão grande?
Pensemos numa situação, aparentemente simples para nós.
Quando Jesus se dirigia a Deus, tratava-O por “Abba!”, que, como sabemos, quer dizer “papá, paizinho” como as crianças na Palestina tratavam os seus pais.
Conseguimos imaginar o enorme atrevimento que isso representava, por rebaixar Deus ao nível dum pai humano e falível?
Além disso, era uma pretensão de proximidade, e de grande intimidade com Deus, inimaginável para quem tinha um tal respeito pelo Deus da Criação e da Aliança que nem o seu Nome se podia pronunciar.
Era intolerável, era uma blasfémia mesmo, que parecia destruir o essencial da religião judaica.

Também no Reinado de Deus, que Jesus inaugurou, deixou de haver a separação fundamental entre os membros do Povo Eleito e os chamados pagãos, que seguiam outras crenças e religiões. Todos passaram a ser considerados filhas e filhos de Deus, um Pai e assim passavam todos a fazer parte duma imensa fraternidade.
Esta outra mudança que Jesus trouxe que era demasiado radical.

A conversão, a mudança de mentalidade era fundamental para que os ouvintes de Jesus pudessem acreditar no Evangelho, nas “boas notícias” que Ele apresentava e praticava.
Acreditar no Deus que Jesus nos apresenta tem um carácter de decisão, de opção.
Uma opção que não é de um dia, ou de uma ocasião, mas uma opção para todos os momentos ao longo da vida.
A conversão, realiza uma transformação no nosso interior, no nosso ser.
É Deus e a Sua Vontade que se tornam a fonte do nosso agir e do nosso estilo de vida.
 
A conversão, permite-nos sonhar, com os sonhos que só o Espírito de Deus nos pode inspirar.
Esta mudança, permite ter uma certeza cheia de fé, de que a comunhão com Deus, e com toda a criação se passa já no desenrolar da História e lhe dá o significado final.
 
Marcos mostra no seguimento desta página do Evangelho, como a metanoia se concretizou no chamamento dos primeiros discípulos.

Jesus viu uns pescadores, à beira do Mar da Galileia e convidou-os para uma transformação total na vida deles.
Será que estes pescadores já tinham alguma vez ouvido Jesus a pregar?
Teriam eles refletido sobre as promessas que ele apresentava?
Teriam já tido algumas discussões sobre ele?
Não sabemos, mas é possível que tenha acontecido!
Mas desta vez, ouvem-no dizer-lhes diretamente: "Vinde comigo”.
É Ele próprio, Jesus em pessoa, que se dirige a eles e lhes propõe uma total mudança de vida.
Marcos diz-nos que eles deixaram tudo imediatamente, dois deles até deixaram o seu pai sozinho para terminar o dia de trabalho na pesca.

O que é que pode ter motivado a decisão tão rápida que tomaram, de mudar completamente de vida familiar e profissional, aceitando o convite de Jesus?
O que é que pode estar na base da opção que tomaram por seguir Jesus e pelo seu modo de viver e de se relacionar com os outros, fazendo a Vontade de Deus?
Foi a sua conversão a Jesus, pondo-O no centro das suas vidas, como Alguém por quem valia a pena tudo arriscar.
É isso que a conversão faz, mudando as prioridades e os discernimentos.
É uma proposta de "tudo ou nada".

A conversão destes pescadores e as de outras e outros discípulos de Jesus, apesar de tão radical, não funcionou automaticamente. As suas decisões de seguir Jesus não os transformou de um momento para o outro.
Tiveram de aprender a vivê-la através duma árdua e demorada aprendizagem com o Mestre.

Sabemos também que Jesus não pediu a todas e a todos que deixassem tudo para trás. Discípulos como Zaqueu, Marta, Maria e Lázaro, a samaritana, Nicodemos e outras e outros, viveram a sua metanoia em casa, em família, com as suas profissões.

A conversão, a metanoia, tem a ver com a transformação que se opera no modo de nos relacionarmos com Deus e deixarmos que Ele se relacione connosco, sobretudo pela oração, como Jesus a praticava, querendo o que Deus quer.

Conhecemos certamente pessoas, do passado e do presente, que permitiram que o sonho do Reinado de justiça e amor de Deus se tornasse realidade nas suas vidas.
Somos convidados ao mesmo.

frei Eugénio, op (24-01-2021)

2024-01-14

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 2º Domingo do tempo comum, 14 de janeiro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Jo. 1, 35-42)

Naquele tempo, estava João Baptista com dois dos seus discípulos e, vendo Jesus que passava, disse:
«Eis o Cordeiro de Deus».
Os dois discípulos ouviram-no dizer aquelas palavras
e seguiram Jesus.
Entretanto, Jesus voltou-Se;
e, ao ver que O seguiam, disse-lhes:
«Que estais a procurar?»
Eles responderam: «Rabi
», que quer dizer ‘Mestre’, onde moras?»
Disse-lhes Jesus: «Vinde e vede».
Eles foram ver onde morava e ficaram com Ele nesse dia.
Era por volta das quatro horas da tarde.
André, irmão de Simão Pedro, foi um dos que ouviram João e seguiram Jesus.
Foi procurar primeiro seu irmão Simão e disse-lhe:
«Encontrámos o Messias
», que quer dizer ‘Cristo’;
e levou-o a Jesus. Fitando os olhos nele, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Chamar-te-ás Cefas», que quer dizer ‘Pedro’.

 

DIÁLOGO


O Evangelho de hoje apresenta uma história de chamamento (também chamada de “vocação”) que é contada de modo pouco habitual.
Começa com o personagem menos em destaque nesta história,
que é João Baptista, mas é com ele que estes chamamentos deram os primeiros passos ao ouvir as suas pregações.
João na sua humilde pretensão de ser o que vem preparar as pessoas para acolherem o Messias viu Jesus passar e indicou aos seus próprios discípulos que era Ele, aquele que "que vem depois de mim".   

Os discípulos de João escutaram o que ele lhes disse e começaram então uma caminhada que iria alterar completamente as suas vidas.
Quando Jesus se voltou para eles, fez-lhes uma das perguntas mais básicas à qual qualquer pessoa é capaz de responder: «Que estais a procurar?» 

É interessante ver que o Evangelho de João, logo no seu início, começa por se referir que Jesus é o Verbo de Deus e que o Verbo estava com Deus.
Que Ele é a Palavra pela qual Deus se revela, na longa História da Salvação. 

Ora, as primeiras palavras que pronuncia o Verbo de Deus que se torna humano, são uma pergunta muito simples e compreensível:
«Que estais a procurar?»

São as mesmas palavras, isto é, a mesma pergunta, que Jesus irá fazer em várias situações marcantes ao longo do Evangelho: nas bodas de Caná, nos diálogos com a samaritana, ao cego de nascença, aos que foram prendê-lo, no jardim das Oliveiras, e também a Maria Madalena, quando ela foi ao túmulo, onde Jesus tinha sido sepultado e o encontrou aberto e vazio.

A resposta dos dois discípulos: «Rabi onde moras?», não é certamente o tipo de resposta que se esperaria.
Parece apenas uma questão de curiosidade, mas de facto o que eles pedem é poder acompanhar Jesus, para verem como Ele vivia e o que fazia. 

A atitude dos dois discípulos, que aceitaram ir à procura do Deus que libertava e salvava, aceitaram acompanhar Jesus para verem como Ele vivia e o que fazia, acabou por transformar completamente a vida deles.

A partir daí, tudo o que passariam a querer fazer, iria estar em relação com o que viram Jesus viver, dizer e fazer, e procuraram aprender com Ele o modo de viver em todas as suas facetas.

Também nós podemos querer experimentar o que eles experimentaram.

Jesus é Aquele que revela a dignidade da vida humana, como sendo criada à imagem de Deus, e redimida pelo Cordeiro de Deus e destinada à comunhão eterna com Deus nos céus.

Quer pensemos nisso ou não, tudo o que vamos fazendo ao longo da vida tem a ver com esta pergunta de Jesus: "Que estais a procurar?"
Esta é a pergunta que Jesus continua a fazer a cada um de nós.
O que queremos de Deus para nós e para o nosso mundo?
«Que estás a procurar?» é a pergunta aberta que somos convidados a escutar e a responder, em inteira liberdade.

No Evangelho de João o convite “vinde” quer dizer “confiai em Mim”.
E se confiamos, queremos para “ver” bem as diversas facetas da vida  e para isso é necessário morar juntamente.

Na nossa vida de fé, somos levados a querer “permanecer na presença de Jesus”, ao longo dos nossos dias e mais tarde, depois da nossa partida desta vida terrena, vir a permanecer para sempre na gloria de Deus, nos Céus.

Esta caminhada dos discípulos com Jesus, teve uma etapa terrível, mas decisiva: a paixão, a condenação e a execução por crucifixão.
Mas depois experimentaram, na fé, a presença de Jesus Ressuscitado até à sua partida a glória de Deus Pai.

Também nós podemos experimentar ouvir este chamamento, que tem os seus começos quando procuramos um sentido e um valor que nos motive a viver.

Como os discípulos de João, podemos aceitar seguir Jesus como nos é dado a conhecer na Escritura (sobretudo no Novo Testamento), rezando com insistência, para permanecermos com Ele, a ponto de querermos o que Ele quer de nós, como Ele queria o que o Pai queria.
Jesus pedia ao Pai que os seus discípulos permanecessem unidos como Ele e o Pai estavam unidos.
E Jesus garante-nos que Ele e o Pai querem permanecer connosco, a ponto de fazerem morada dentro de nós.

O poeta dizia: “Tudo vale a pena se alma não é pequena”,
e nós podemos adaptar:
 “Tudo vale a pena para permanecermos na presença de Jesus, se a nossa paixão pela vida e pelas criaturas, humanas e outras, não for pequena”!
 
    frei Eugénio, o.p
(17.01.2021)
 

2024-01-07

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo da Epifania, 7 de janeiro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 2,1-12)

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes,

quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente.

«Onde está perguntaram eles o rei dos judeus que acaba de nascer?

Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O».

Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém.

Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo

e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias.

Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo profeta:

‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor

entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe,

que será o Pastor de Israel, meu povo».

Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas

sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela.

Depois enviou-os a Belém e disse-lhes:

«Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me,

para que também eu vá adorá-l’O».

Ouvido o rei, puseram-se a caminho.

E eis que a estrela que tinham visto no Oriente

seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino.

Ao ver a estrela, sentiram grande alegria.

Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe,

e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O.

Depois, abrindo os seus tesouros,

ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra.

E, avisados em sonhos, para não voltarem à presença de Herodes,

regressaram à sua terra por outro caminho.

 

DIÁLOGO

O título da festa de hoje é a Epifania (Revelação) do Senhor.

Dos quatro evangelistas, apenas Mateus nos fala dos Magos.

Seguindo o tema dos céus, os Magos vieram "do nascer do sol", ou seja, do Oriente. A sua interpretação das estrelas disse-lhes que tinha nascido um "rei dos judeus".

Perante este relato de Mateus, muitos astrónomos e historiadores têm-se esforçado por identificar aquela estrela que despontou e guiou os Magos, apresentando três hipóteses mais viáveis:

- O cometa Halley, que se fez ver em 12-11 a.C.;

- Tríplice conjunção de Júpiter e Saturno na constelação de Peixes, ocorrida em 7 a.C. e que está registada nos observatórios da Babilónia e do Egito;

-Uma “nova” ou “supernova”, visível em 5-4 a.C., registada nos observatórios astronómicos chineses.

O célebre astrónomo Kepler (1571-1630), que estudou este assunto em pormenor, dedica particular atenção aos fenómenos registados em segundo e terceiro lugar.

 

Por outro lado, há numerosos estudiosos da Bíblia, que põem seriamente em causa a historicidade da existência dessa estrela e a visita dos Magos.

Aparentemente, Mateus escreve como um simples narrador de um facto espantoso. Mas na verdade, ele escreve, como teólogo e como mensageiro do Evangelho.

Esta história faz sentido e o seu significado vai para além da materialidade do acontecimento.

É a Epifania do Senhor!

Epifania, que significa manifestação de Deus-entre-nós-e-para-nós.

Ou seja, a manifestação do Salvador do mundo, anunciado pelos profetas e há muito aguardado pelo povo da Bíblia.

Este relato da estrela que brilha aos olhos dos Magos está longe de ser uma história para crianças.

A estrela orienta os caminhos dos Magos e, neles, os de toda a humanidade para a verdadeira Estrela que desponta, que é o Menino.

E os Magos e, com eles, toda a humanidade orientam toda a sua vida para aquele Menino, que é o que significa o verbo «adorar».

Esta «adoração» pessoal é o melhor e o mais agradável presente que podemos oferecer ao Menino, com os Magos o fizeram.

A história narrada por Mateus apresenta, no entanto, uma surpreendente tragédia.

Os Magos, pagãos peregrinos, fizeram longas viagens para longe das terras onde habitavam, porque acreditavam que o Divino estava a fazer surgir algo de muito novo.

Intuíram algo que despertou os seus sonhos, o suficiente para os sacudir de uma existência estável e sem sobressaltos.

Por outro lado, os líderes religiosos do povo escolhido, consultados pelo rei Herodes, relataram simplesmente os resultados do seu estudo das Escrituras: ‘Belém de Judá era o local de nascimento designado para o governante que iria pastorear Israel’. Mas, de facto, esta leitura não lhes revelava nada de novo.

Os líderes religiosos na Palestina, da época de Jesus, tinham conseguido uma acomodação relativamente pacífica com o Império Romano. Em palavras do nosso tempo, poderíamos dizer que eles vivam entre acomodados e colaboradores.

No começo deste novo ano, os Magos podem estar a convidar-nos também a nós a «ler as estrelas», a procurarmos manifestações – «epifanias» - de Deus entre nós e a deixar que o Mistério nos sacuda, para além das fronteiras das nossas confortáveis relações com os outros e do nosso modo de pensar.

Tal como os Magos, podemos não saber exatamente o que procuramos, mas se pusermos os nossos objetivos suficientemente elevados, como pode ser um mundo verdadeiramente fraterno e justo, Deus não hesitará em nos conduzir a novas «epifanias», onde nos encontraremos com Deus-entre-nós de formas inesperadas e cheias de bondade e de alegria!

Que durante este ano que agora começa, os Magos continuem a orientar toda a nossa vida para aquele Menino!

frei Eugénio, o.p. (03.01.2021)

2023-12-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho da Noite de Natal, 25 de dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 


Evangelho (Lc. 2, 1-14)

Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto,

para ser recenseada toda a terra.

Este primeiro recenseamento efetuou-se

quando Quirino era governador da Síria.

Todos se foram recensear, cada um à sua cidade.

José subiu também da Galileia, da cidade de Nazaré,

à Judeia, à cidade de David, chamada Belém,

por ser da casa e da descendência de David,

a fim de se recensear com Maria, sua esposa,

que estava para ser mãe.

Enquanto ali se encontravam,

chegou o dia de ela dar à luz

e teve o seu Filho primogénito.

Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura,

porque não havia lugar para eles na hospedaria.

Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos

e guardavam de noite os rebanhos.

O Anjo do Senhor aproximou-se deles

e a glória do Senhor cercou-os de luz;

e eles tiveram grande medo.

Disse-lhes o Anjo: «Não temais,

porque vos anúncio uma grande alegria para todo o povo:

nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador,

que é Cristo Senhor.

Isto vos servirá de sinal:

encontrareis um Menino recém-nascido,

envolto em panos e deitado numa manjedoura».

Imediatamente juntou-se ao Anjo

uma multidão do exército celeste,

que louvava a Deus, dizendo:

«Glória a Deus nas alturas

e paz na terra aos homens por Ele amados».

 

DIÁLOGO

 

Lemos no Evangelho: «Maria sua mãe envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.»

 

No Natal deste ano, em Belém, onde Jesus nasceu, não haverá turistas.

Os vendedores de relíquias desesperam nas ruas quase desertas há já vários meses e os cristãos preparam-se para celebrar um Natal invulgar: sem fiéis, que noutros anos vinham de todo o mundo, e com celebrações que apenas poderão ser seguidas através da televisão.

O pároco da paróquia de Belém, dizia há dias: «Graças a Deus o Natal está sempre aqui e dá sentido a tudo.

O amor de Deus enche este lugar, este lugar santo, para nos dizer: ‘não tenhais medo, eu estou convosco, tudo isto passará e eu permanecerei ‘"

 

Apesar desta tão dura realidade que se vive em Belém, fruto sobretudo da pandemia, deixem-me imaginar convosco que depois desta missa da meia-noite celebrada na Basílica da Natividade em condições tão excecionais, o celebrante fazia uma revelação sensacional.

 

«Posso informar neste dia de Natal, com grande alegria, que foram feitas pesquisas arqueológicas sob esta basílica da Natividade», diria ele, «e os cientistas arqueólogos, descobriram uma manjedoura que foi reconhecida como tendo mais de 2000 anos, e devido a um fenómeno desconhecido, a manjedoura ainda tinha palha que os animais comiam na época em que Jesus ali nasceu. Este grande segredo foi guardado até hoje!»

 

Conseguem imaginar o que iria acontecer ainda nesta noite de Natal e nos próximos dias, depois da revelação desta descoberta?

Seria a corrida às palhas da manjedoura!

 

O Vaticano, as catedrais, os museus, os colecionadores, os vendedores de antiguidades, todos a quererem ter pelo menos uma palhinha, uma relíquia sensacional: uma pequena palha do presépio onde Jesus Emmanuel, foi deitado por Maria, sua mãe.

Podem imaginar quanto valeria cada uma das pequenas palhas daquela manjedoura: cada uma valeria muito mais que ouro!

Passaria a ser a notícia mais valorizada, divulgada e discutida.

E o valor das palhinhas iria estar sempre a subir!

 

Mas para nós, o que é que mais queremos valorizar neste Natal, vivido de modo tão estranho ao que nos é habitual?

O que eu peço e partilho convosco é que queiramos valorizar o que Jesus veio valorizar e valorizar o que Jesus veio ensinar, de acordo com os critérios de Deus, Seu Pai.

 

Diz-se que há crianças que nasceram «num berço de ouro".

Ora Jesus nasceu num "berço vivo"...

Num berço, onde não são as palhas, mesmo que fossem avaliadas em milhares e milhares de euros cada uma, que maior valor podem ter, mas o que Jesus veio valorizar.

 

Os relatos dos evangelhos mostram bem o que Jesus veio valorizar: cada pessoa que nasce, cada uma e cada um, todos sem exceção.

Jesus, o Filho eterno do Pai vem assumir plenamente toda a humanidade. O seu berço é um «berço vivo»!

 

Mas esta vinda de Deus para habitar no meio de nós, está cheia de pontos de interrogação, cheia de perguntas e não de evidências.

Tudo o que sabemos sobre a vida da pessoa mais próxima de Jesus, a sua mãe, Maria de Nazaré, está cheio de pontos de interrogação.

Sobre José, casado com Maria, também.

Os apóstolos, incluindo São Paulo e as santas mulheres e os seus discípulos também manifestam constantemente estes pontos de interrogação. Aparece sempre a questão:

Quem é esta criança? Quem é este jovem? Quem é este homem?

 

A vida de Jesus revela-nos quanto Deus quer estar perto de nós.

Perto, como Aquele que nos acompanha e nos protege, mas sobretudo como aquele que quis ser carne da nossa carne, em todas as situações igual a nós.

 

É na humanidade do Deus-Connosco, que podemos descobrir o que Jesus quer valorizar no nosso modo de sermos humanos, com os gestos e atitudes que nos aproximam do seu «estilo de vida».

 

Caros leitores, a noite iluminou-se em Belém!

Enquanto os coros dos anjos cantam, olhemos bem fundo nos olhos do Menino: n’Ele sorri a humanidade, a alegria e a eterna juventude do nosso Deus.

 

frei Eugénio, op  (25.12.2020)


 


2023-12-17

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 3º Domingo do Advento, 17 de dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

  

Evangelho (Jo. 1, 6-8)

Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele.
Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
Foi este o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: «Quem és tu?».
Ele confessou e não negou: «Eu não sou o Messias».
Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?». «Não sou», respondeu ele. «És o profeta?». Ele respondeu: «Não».
Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?».
Ele declarou: «Eu sou a voz que clama no deserto: "Endireitai o caminho do Senhor", como disse o profeta Isaías».
Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram: «Então porque batizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o profeta?».
João respondeu-lhes: «Eu batizo na água; mas no meio de vós está Alguém que não conheceis:
Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».
Tudo isto se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava a batizar.

 

 

DIÁLOGO

No diálogo do Domingo passado pusemos em relevo a faceta de João Batista como grande pregador.
 

Ele pregava para sacudir as consciências, para pôr em questão os hábitos dos seus ouvintes, para os estimular a viver algo de muito melhor, que Deus lhes vinha oferecer através desse Salvador que estava para chegar.

Mas a passagem do Evangelho de São João que lemos hoje é toda ela centrada noutra faceta:

“Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha, para dar testemunho da luz,
a fim de que todos acreditassem por meio dele.”


É a faceta de testemunha da vinda do Messias Salvador.
Ora, nós sabemos que o que é próprio duma testemunha, não é centrar sobre si mesma as atenções dos que a ouvem, mas dirigi-las para os factos que se passaram e para as pessoas sobre as quais se pretende dar testemunho.

Muitas pessoas iam ter com João Batista, que pregava e batizava no rio Jordão, segundo os relatos dos evangelhos. Era natural que ficassem presos pelas suas pregações vigorosas, mas o que João queria era que toda a gente que o escutava dirigisse a atenção para o Messias que estava para vir, que até já estava no meio deles, mas sem ser reconhecido.

João Batista foi enviado por Deus para dar testemunho da Luz. Assim, procura que todas as atenções se dirijam para essa Luz.
João não quer atrair a atenção das pessoas sobre ele próprio, tendo muitos admiradores, mas que se virem para Jesus que é a luz de Deus, que os pode transformar.

 

Diante das pessoas notáveis que se dirigem a ele, para saberem quem ele é, João não lhes responde «Eu sou…», mas quem não é:
“Eu não sou o Messias!”, “Eu não sou Elias!”, “Eu não sou o profeta!” 

 

Ele apresenta-se como uma simples «voz». A voz que articula um conjunto de sons, necessários para que surja a «palavra» que, essa sim, comunica a mensagem.
João testemunha que quem é importante é Jesus que é o comunicador de Deus, que é a «Palavra de Deus».

Zacarias, seu pai, tinha razão quando a seguir ao nascimento da criança rezou «E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à sua frente a preparar os seus caminhos.»
João não é a Luz, é a lâmpada que tem por função apresentar essa luz.

Por vezes confundimos «dar exemplo» com «dar testemunho».

 

Ambos são importantes, pois os bons exemplos são um grande incentivo para os seguirmos e assim sermos pessoas melhores para os outros, assim como pessoas que procuram fazer bem o que lhes é confiado.

Também esperamos que os nossos bons exemplos, e todos temos alguns, sejam seguidos por outros, a começar pelos que temos responsabilidade de educar ou de ensinar ou de formar.

Mas «dar testemunho» como cristão é afirmar com clareza que há uma Fonte, donde nascem essas obras boas e as virtudes que praticamos.

Dizermos, com naturalidade, quem é a Fonte onde vamos beber a esperança dum mundo melhor.

A nossa Fonte é Jesus, Filho de Deus e Emanuel (Deus Connosco). Essa Fonte, veio para ser acessível a todos, sem exclusão. E dá uma renovada alegria de viver, a quem se refrescar nela. Em todos os aspetos da vida, o cristão é chamado a seguir as atitudes e os ensinamentos de Jesus e também a dizer, que é Ele o inspirador do que fazemos.

 

Dar testemunho de Jesus é uma atitude constante de procura da Vontade de Deus em cada situação presente, em cada instante, sempre em liberdade, como Jesus o fazia, para dar testemunho do Pai, a Fonte do Amor.

frei Eugénio (13.12.2020)


2023-12-09

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 2º Domingo do Advento, 10 de dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

  

Evangelho (Mc. 1, 1-8)

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.
Está escrito no profeta Isaías:
«Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
que preparará o teu caminho.
Uma voz clama no deserto:
« Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas».
Apareceu João Baptista no deserto
a proclamar um baptismo de penitência
para remissão dos pecados.
Acorria a ele toda a gente da região da Judeia
e todos os habitantes de Jerusalém
e eram batizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados.
João vestia-se de pêlos de camelo,
com um cinto de cabedal em volta dos rins,
e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
E, na sua pregação, dizia:
«Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu,
diante do qual eu não sou digno de me inclinar
para desatar as correias das suas sandálias.
Eu baptizo-vos na água,
mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».


DIÁLOGO
 

Li que houve uma tradição, já desaparecida, na Alemanha e na Polónia, na qual no dia de São Nicolau, 6 de Dezembro, as crianças se vestiam como bispos e íam pela ruas a pedir esmola para os pobres.
Era uma tradição muito rica nas duas mensagens que trazia!

Em primeiro lugar, ensinava às crianças que o cristianismo nos torna a todos nós, desde pequenos, responsáveis uns pelos outros e que pedir esmola tem o duplo objetivo: promover a generosidade dos mais abastados e ajudar os mais pobres a terem os bens essenciais que lhes faltam.
Em segundo lugar, pondo as crianças vestidas de bispos a pedir pelas ruas, colocava na imaginação delas uma imagem muito evangélica, dos chefes religiosos, como pessoas que põem o valor do seu cargo no serviço dos pobres.
 
Esta tradição já desapareceu, mas pode inspirar-nos para a nossa abordagem  neste 2° Domingo da caminhada do Advento.
O que é que Deus tem como projeto para o futuro da humanidade ?

No Evangelho de São Marcos, o primeiro personagem a aparecer em cena é João Batista.
A sua vocação era a de inquietar as pessoas, dizendo «preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas».
A sua vocação era convencê-las de que se tinham acomodado demasiado às condições sociais, políticas e religiosas que as rodeavam. Que se tinham deixado submeter à influência de César, que se impunha em todo o império, através da sua administração e dos  seus exércitos.
Que também tinham aceitado chefes religiosos que se preocupavam menos com a vida de fé e mais pela obediência às leis e regras  religiosas e que valorizavam as cerimónias e ritos religiosos, dando pouca atenção aos que mais precisavam de receber cuidados, por serem os mais desprotegidos, que na época eram as viúvas, os órfãos e os estrangeiros sem direitos.
 
Segundo os Evangelhos,  a pregação de João Batista  convenceu muitos da urgência destas mudanças e deu-lhes esperança num mundo mais à imagem de Deus, e encorajou-os a correr os riscos que essas mudanças lhes iriam trazer.
 
O batismo que João lhes dava no rio Jordão, significava que essas pessoas queriam deixar para trás os hábitos e comportamentos que seguiam sem se interrogar,  para ficar mais disponíveis para receber esse «Salvador poderoso», esse novo Messias, que Deus estava para enviar.
Seria esse Messias muito forte que não só os lavaria do pecado, mas que os encheria com o fogo do Amor do Espírito Santo.
 
João Batista foi um dos personagens mais estranhos na História do povo com quem Deus tinha feito uma aliança.
Abdicou da segurança e da estabilidade duma família sacerdotal, pois o seu pai Zacarias era descendente de Aarão e sacerdote no Templo , para ter uma vida de profeta na sobriedade e austeridade do deserto.
João queria que o seu povo ansiasse por mais, desejasse uma vida mais consoante a Vontade de Deus.
Só tendo esse desejo no seu interior, é que eles estariam motivados para desejar outro modo de viver muito melhor, mas arriscado.
João chamou-os e motivou-os a sonhar tão grande, que eles decidiram abandonar os seus pequenos confortos sociais e religiosos  para apostar em Deus.
 
João Batista pregou para sacudir as consciências, para pôr em questão os seus hábitos, e estimulá-los para algo de muito melhor que Deus lhes vinha oferecer através desse Salvador que estava a chegar.  

As crianças alemãs e polacas, no dia de São Nicolau, contribuíram para chamar a atenção para dois valores evangélicos muito importantes: a partilha e o cuidado pelos mais desfavorecidos e a liderança como um serviço aos outros.

E hoje, neste nosso mundo, Deus continua a envia-nos Joões Batistas e  Joanas Batistas, para despertar em nós, de modo quantas vezes inesperado, uma santa inquietação, que nos motive a preparar os caminhos que Ele quer trilhar para vir até nós.
Pessoas e situações, dos mais variados modos, que o Espírito Santo inspira, estão a dizer-nos:
« Preparai os caminhos que o Senhor quer trilhar para vir até vós, endireitai as suas veredas para Ele vos vir visitar!»

Para avivarmos em nós, a capacidade de ouvir os apelos que Deus nos faz, através de Joanas Batistas e de Joões Batistas, podemos pedir com fé e insistência:  
 

«Vem, Espírito Santo, vem!
Acende em nós o fogo do Teu Amor!
Dá-nos a alegria de preparar os teus caminhos.
Nós Te agradecemos as Tuas vindas. Amen.»


frei Eugénio (06.12.2020)

2023-12-02

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 1º Domingo do Advento, 3 de dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mc. 13, 33-37)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tomai cuidado, vigiai, pois não sabeis quando chegará esse momento.
Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse.
Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha;
não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir.
O que vos digo a vós, digo-o a todos: vigiai».

 

DIÁLOGO

Caros leitores,
Desejo-lhes um bom começo deste ano que vai dar os primeiros passos neste Domingo!
Não, não me enganei, mesmo se estamos a 29 de Novembro e o novo ano só chega daqui a mais dum mês!
De facto é neste Domingo começa o Ano Litúrgico da Igreja Católica, com o 1° Domingo do Advento.
 

O tempo do Advento (do Latim «adventus» que quer dizer «vinda» ou «chegada») recorda em primeiro lugar o facto histórico do nascimento de Jesus de Nazaré, numa manjedoura de Belém, na Palestina.
Para os cristãos este nascimento é importantíssimo, pois consideram que em Jesus, Deus se faz homem e veio viver entre nós.
A teologia diz que é o «Mistério da Encarnação», isto é, Deus encarnou-se, tornou-se  homem como nós.
Esta é a primeira vinda que celebramos no Natal.
 

A segunda vinda acontece no presente em que estamos a viver: Jesus anunciou, depois da sua Ressurreição e antes de partir para o junto de Deus: «Eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos!»
Deus visita-nos constantemente, caminha ao nosso lado e é uma presença de consolação, cada dia da nossa vida.
Essas visitas acontecem quando Deus quer e muitas vezes de modo que nos surpreende.
 

Por fim, teremos a terceira e a última visita. É a vinda de Jesus Cristo Ressuscitado, com toda a grandeza e santidade de Deus, no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos.
Foi a essa vinda que se referia o evangelho do Domingo passado. Seremos julgados pelo amor que praticámos.
“Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e acolhestes-me; nu e vestistes-me; enfermo e visitastes-me; estava na prisão e viestes até mim". Sendo estas vindas de Deus até nós tão importantes, queremos naturalmente estar atentos quando Deus nos vem visitar.
 

Mas há tantas coisas que nos interessam, outras que nos ocupam e tantas que nos preocupam, que nos esquecemos de estar vigilantes.
Daí Jesus insistir no Evangelho que lemos :
«Acautelai-vos e vigiai, O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!»
Esta pandemia, que tem mudado tanto as nossas vidas e as nossas relações com os outros, pode tornar-se uma boa oportunidade para vivermos este Advento 2020 dum modo diferente.
 

Como?
Estamos a ficar treinadíssimos a ser vigilantes. Para nos protegermos a nós mesmos do vírus e para termos também muito cuidado em não contaminar os outros, desenvolvemos a atenção a detalhes que antes nos escapavam.
Este treino que nos torna mais vigilantes e atentos, pode dar-nos a oportunidade de melhor viver esta quadra do Advento, na qual Jesus nos pede para estarmos especialmente vigilantes às vindas de Deus até nós.
 

Como?
Intensificando o hábito de pedir ao Espírito Santo que nos ajude a discernir as visitas que Deus nos faz.
É como se tivéssemos metido uma aplicação ESPÍRITO SANTO nos smartphones, que nos alerta, não para portadores de Covirus-19 que estejam perto de nós, mas de vindas de Deus até nós.
A aplicação ESPÍRITO SANTO é gratuita e só precisa de ser carregada com Fé na Palavra de Jesus.
Só tem um inconveniente: é que começa a alertar-nos para visitas de surpresa que Deus nos vem fazer.
 

Mas são visitas que nos trazem uma alegria profunda a nós e àqueles a quem temos atenções renovadas.

 frei Eugénio, op
(29.11.2020)

 

2023-11-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo de Cristo, Rei do Universo, 26 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 25, 31-46)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Quando o Filho do homem vier na sua glória
com todos os seus Anjos,
sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença
e Ele separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino
que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer;
tive sede e destes-Me de beber;
era peregrino e Me recolhestes;
não tinha roupa e Me vestistes;
estive doente e viestes visitar-Me;
estava na prisão e fostes ver-Me’.
Então os justos Lhe dirão:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome  e Te demos de comer,
ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos,
ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’.
E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes
a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’.

 

DIÁLOGO

A festa de hoje é conhecida como a festa de «Cristo-Rei».
Ao longo dos tempos, os artistas têm produzido uma grande variedade de imagens de Cristo como Rei.
Na famosa Capela Sistina, há o super musculado Jesus de Miguel Ângelo, que levanta os abençoados de Deus e rejeita os condenados.
Os ícones ortodoxos, alguns de grande beleza, retratam um salvador mais sério do que acolhedor, e muitas representações populares apresentam Jesus coroado e resplandecente em vestes reais ou sacerdotais.
A verdade é que muitas destas imagens contrastam com o Evangelho de hoje.

Vale a pena reparar que nesta parábola nem o grupo das «ovelhas», nem o grupo dos «cabritos», haviam adivinhado os critérios que iriam determinar o seu destino.
Se se tivessem aconselhado para se preparar para o julgamento de Deus, muitos deles iriam examinar como haviam mantido a ortodoxia da doutrina e da liturgia, ou como tinham cumprido os mandatos morais que a Igreja ensinava, sobretudo os que contêm um «não farás».

Mas nada disso está presente nos critérios que Jesus apresenta nesta parábola sobre o julgamento que o Filho de Deus irá fazer no fim dos tempos.
A parábola conta-nos que o Filho do Homem, Jesus Cristo, Rei do Universo, escolheu claramente identificar-se com «os mais pequeninos”, que nos Evangelhos designam as pessoas mais desprotegidas, as menos consideradas, os mais pobres de tudo.

A imagem que Jesus apresenta de si mesmo nesta parábola, contrasta com as imagens tradicionais de Cristo-Rei investido de poder e com uma pose de majestade.
Lembremos, no entanto, que algumas representam Cristo-Rei de braços abertos numa atitude de acolhimento

Regressemos à parábola.
Há nela dois aspetos que contrastam; por um lado uma grande beleza, por nos apresentar o Rei que se identifica como os que mais precisam de ser acolhidos e apoiados; por outro tem um aspeto muito chocante, a oposição radical entre as duas categorias de pessoas, as «benditas de Deus Pai» e as «amaldiçoadas».

Pensemos um pouco:
em que grupo poderemos nós vir a ser incluídos? No dos benditos ou no dos amaldiçoados?
Na prática, todos nós, uma vez por outra, visitámos um doente, ou demos roupa para tirar o frio a alguém, ou demos alimentos a quem estava com muita fome…
Mas nós também, ocasionalmente (ou muitas vezes…), desviamos os nossos olhos (e as nossas bolsas) de pessoas angustiadas que nos pedem ajuda numa aflição, ou ficamos indiferentes face a populações a quem é negada a água, essencial para viver.

Diante desta realidade, onde as atitudes boas e más se misturam, julgo que nenhum de nós se atreve a considerar-se já com lugar no grupo dos «benditos do Pai». Por outro lado, nenhum de nós deve deixar-se dominar pelo medo de um dia merecer a condenação radical.
Se acreditamos que Deus, Pai e Juiz infinitamente justo e misericordioso, que nos conhece bem melhor do que nós próprios, que conhece o nosso interior e o que fizemos e o que deixamos de fazer, irá Ele fazer essa separação tão radical e definitiva?

Importa ter presente que na Bíblia, quando encontramos a oposição entre os bons e os maus, os justos e os pecadores, não se refere a duas categorias de pessoas, mas, sim, a duas atitudes opostas.
As atitudes opostas vivem dentro de cada um dos nós, como o trigo e o joio, na conhecida parábola de Jesus.

O objetivo da vinda de Jesus, o Filho de Deus não pode ser o de separar a humanidade em duas categorias de pessoas: os bons e os justos, de um lado, os ímpios e os pecadores, do outro!
Na verdade, essas duas categorias coexistem no nosso interior: cada um de nós tem luz e escuridão no seu coração.

O contexto desta parábola de Jesus, no Evangelho de São Mateus, pode ajudar-nos a compreendê-la melhor.
De facto, Jesus conta esta parábola antes da sua Paixão, numa ocasião em que as forças da luz enfrentavam de modo decisivo as forças das trevas.

Portanto, a intenção de Jesus ao contar esta parábola não é para nos obrigar a sermos solidários com os «mais pequeninos» apenas para fugirmos ao castigo.
Pelo contrário, Jesus quer dizer-nos que os encontros verdadeiros com os pobres alargam o coração e a visão dos doadores.
A solidariedade, as chamadas «obras de misericórdia» que a parábola nos apresenta, tornam-nos a todos mais humanos.
Assim, Jesus convida-nos a reconhecê-lo na relação que temos com os pobres que são a sua imagem.

Quando queremos seguir Jesus, nos pobres e pelos pobres com quem Ele se identifica, queremos servi-Lo neles e com eles.
De acordo com as Bem-aventuranças, isto nos fará felizes neste mundo e nos abrirá as portas para o mundo novo e eterno que Jesus veio inaugurar.

Estarmos vigilantes sobre o modo como tratamos com o nosso próximo, será o único critério que Jesus nos apresenta para amarmos a Deus, fazendo a Sua Vontade.
Felizes seremos se o descobrirmos e o praticarmos.

    frei Eugénio, op
(22.11.2020)

2023-11-20

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 33º Domingo do Tempo Comum, 19 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 25, 1-13) 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:

«Um homem, ao partir de viagem,

chamou os seus servidores e confiou-lhes os seus bens.

A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,

conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.

O que tinha recebido cinco talentos

fê-los render e ganhou outros cinco.

Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.

Mas, o que recebera um só talento

foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servidores

e foi ajustar contas com eles.

O que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: «Senhor, confiaste-me cinco talentos:

aqui estão outros cinco que eu ganhei».

Respondeu-lhe o senhor: «Muito bem, servidor bom e fiel.

Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor».

Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:

«Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois

que eu ganhei».

Respondeu-lhe o senhor: «Muito bem, servidor bom e fiel.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor».

Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:

«Senhor, eu sabia que és um homem severo,

que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.

Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.

Aqui tens o que te pertence».

O senhor respondeu-lhe: «Servidor mau e preguiçoso,

sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;

devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro

e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.

Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.

Porque, a todo aquele que tem,

dar-se-á mais e terá em abundância;

mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.

Quanto ao servidor inútil, lançai-o às trevas exteriores.

Aí haverá choro e ranger de dentes».

 

 

DIÁLOGO

A parábola de Jesus começa por nos falar dum homem muito rico

que indo viajar para longe, confia grandes quantias a três dos seus servidores.

Naquela época do Império Romano, o talento era uma medida de peso de ouro, entre 35 e 60 quilos. Em valores atuais, um talento valia entre 1.800.000 euros e 3.100.000 euros.

 

Nesta parábola, é interessante reparar quantas vezes aparece a palavra confiar.

O principal passa-se à volta deste mal-entendido: a confiança dum lado e a desconfiança e o medo do outro.

Esta confiança do senhor nos seus servidores, exige que eles se decidam, por eles próprios, a tomar iniciativas e a correr riscos: perder uma parte ou mesmo muito do que lhes tinha sido confiado pelo seu senhor, durante a prolongada ausência.

 

Mas o que é que se pode criticar ao terceiro servidor?

Ele não fez nada de mal. Não matou, nem roubou, nem utilizou em proveito próprio o talento de ouro recebido. Até entregou ao seu senhor exatamente o que lhe tinha sido confiado.

Mais ainda, segundo o direito praticado e ensinado pelos rabinos, este terceiro servidor era considerado como o que melhor protegeu contra os ladrões aquela grande quantia.

 

O terceiro servidor pode é lamentar-se de ter avaliado muito erradamente como era o seu senhor. Só viu a sua severidade e por isso, com medo duma punição, preferiu nada arriscar, protegendo-os quilos de ouro o melhor possível contra os roubos.

Diante da confiança do senhor havia duas atitudes possíveis:

- reconhecer a confiança recebida e querer merecê-la, sendo criativo e correndo riscos, ou 

- não ver essa confiança, mas sim a severidade e com esta avaliação tomar a medida mais segura, que era esconder bem o que era do seu senhor.

 

Os três servidores são tratados do mesmo modo, mas “conforme a capacidade de cada qual”.

O primeiro ensinamento desta parábola é que Deus tem confiança em nós, em cada um de nós, mulheres e homens, e associa-nos ao Seu projeto para a criação, segundo as capacidades de cada um.

Deus conhece-nos, bem melhor que nós mesmos, e por isso não nos pede mais do que podemos fazer, o que traria como consequência culpabilizarmo-nos pelo que não fizemos. Deus pede-nos o que sabe que podemos e somos capazes de fazer, o que nos dá uma grande segurança para trabalharmos e colaborarmos com Ele.

 

Por vezes valorizamos muito os currículos das pessoas, isto é, o que já viveram e fizeram no passado e estão a fazer no presente. No entanto, desconhecemos completamente o que poderemos vir a ser e a fazer no futuro. O futuro pode reservar-nos grandes surpresas, mas para Deus o que fazemos de mais surpreendente, faz parte das nossas capacidades, que Ele bem conhece e com as quais conta, no que nos pede.

 

É como se Deus nos dissesse: «fica descansado, pois fizeste o que eu sabia que podias fazer!»

O terceiro servidor teve medo de ser considerado culpado, se perdesse uma parte do talento de ouro e por isso não arriscou nada e não colaborou com o que o senhor desejava dele.

 

No centro desta parábola está a imagem que temos de Deus, com a riqueza do Seu Amor, que nos é confiado por Ele, para nos empenharmos a viver uns com os outros, como verdadeiros irmãos que se querem bem e que querem o bem de todos.

Para viver assim, teremos de correr riscos e de ser criativos, mas teremos a alegria de colaborar na construção dum mundo  mais próximo daquele que Deus quer para nós a para as gerações que nos seguem.

 

Os discípulos de Jesus, em todos os tempos, têm de gerir a riqueza sem limites da Palavra de Deus que lhes é confiada.

Como na parábola, Deus confia-nos, a cada um de nós, segundo as nossas capacidades, a riqueza admirável da Sua Palavra que é portadora de Vida nova, e na qual podemos pôr toda a nossa confiança.

 

frei Eugénio, op (15.11.2020)