2024-05-26

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo da Santíssima Trindade, 26 maio, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em maio de 2021)

 

  

Evangelho (Mt. 28,16-20)

Naquele tempo,

os onze discípulos partiram para a Galileia,

em direção ao monte que Jesus lhes indicara.

Quando O viram, adoraram-n’O;

mas alguns ainda duvidaram.

Jesus aproximou-Se e disse-lhes:

«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.

Ide e fazei discípulos de todas as nações,

batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,

ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.

Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

Palavra da salvação.

 

 

DIÁLOGO

 

Certamente estão de acordo que é muito difícil pregar sobre a Santíssima Trindade. É um mistério tão imenso!

 

Deus é o Totalmente-Outro, misteriosamente insondável:

as nossas palavras, os nossos conceitos, as nossas imagens são incapazes de O dizer plenamente, quanto mais de O definir.

 

A liturgia deste Domingo, coloca diante dos nossos olhos o mistério da Santíssima Trindade.

Fá-lo propondo-nos um texto do Evangelho de São Mateus que acabámos de ler:

"Fazei discípulos de todas as nações;

batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.»

 

Esta é a única passagem em todo o NT onde encontramos esta expressão.

 

Esta fórmula trinitária que o evangelista coloca na boca de Jesus Ressuscitado, na realidade deve ter sido o fruto de uma longa reflexão das primeiras comunidades cristãs sobre o mistério de Deus que se revelou em Jesus, o Cristo.

 

No panorama das religiões do mundo, a imagem trinitária de Deus, ligada ao reconhecimento de Jesus como Seu Filho, é certamente a característica mais marcante da fé cristã.

 

Esta expressão da nossa fé separa-nos do judaísmo, onde temos as nossas raízes: «Só o Senhor é Deus, tanto no alto do céu, como em baixo sobre a terra, e não há outro.» Esta passagem do Deuteronómio (Dt 4, 38) deixa esta questão bem clara.

 

O Islão também não reconhece a Santíssima Trindade.

Também nas grandes tradições religiosas asiáticas o conceito de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo está longe de ser aceite e reconhecido.

 

Para os cristãos Deus não é uma entidade unipessoal, mas tripessoal: Pai, Filho e Espírito Santo, como se pode ler no texto de São Mateus.

 

Foi isto que os primeiros discípulos experimentaram, primeiro na sua relação com Jesus, acompanhando-O nos caminhos da Palestina até à morte na cruz, e depois, na experiência de Jesus Ressuscitado, presente com eles, até à Ascensão.

 

Mas estas experiências levaram-nos a fazer muitas perguntas e a ter de dialogar sobre o próprio Jesus:

«Quem é afinal Jesus?», «Jesus é Deus?»

«O Filho está abaixo do Pai ou é igual a Ele?»

 

E também a interrogarem-se sobre Deus:

«O que é que Jesus diz sobre quem é Deus e qual é a Sua Vontade?» E também a interrogarem-se: «Quem é este Espírito que Jesus nos enviou?»; «O Espírito Santo também é uma Pessoa divina?» e muitas outras questões.

 

Gradualmente, através de dúvidas, tentativas e erros, a comunidade cristã acabou por dizer de Jesus:

Ele é o Filho de Deus Pai e Pai e Filho continuam a agir através do Seu Espírito.

 

Na oração pessoal e na meditação, assim como na liturgia e na oração em comunidade, foi alcançada uma síntese vivida da fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

 

As relações das três Pessoas entre si e na relação com os fiéis passam a ter um lugar central na fé cristã.

 

A salvação anunciada é-nos dada numa nova vida, numa comunhão íntima com Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo.

 

Deus não se contentou em nos fazer saber que Ele existe, o que já seria muito bom, mas revelou-nos que há três Pessoas em ação no mundo para salvar toda a humanidade: 

o Pai que nos ama e que quer a nossa salvação e que está também na origem da mesma; 

o Filho, enviado pelo Pai, em quem a nossa salvação é realizada através da sua Morte e Ressurreição, 

e o Espírito Santo que habita nos nossos corações, e nos faz viver e rezar como filhas e filhos de Deus.

 

O mistério da Santíssima Trindade na vida concreta de quem tem fé traduz-se numa relação viva e vivificante com o Pai, o Filho e o Espírito Santo unidos em comunhão num só Deus e, como diz São Pedro, na sua carta nos torna "pessoas participantes da natureza divina".

 

Este segredo pessoal de Deus que nos é revelado e chega aos nossos corações é evocado cada vez que fazemos o sinal da Cruz, dizendo: "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo".

 

Fazermos este sinal com simplicidade e dizermos «Em nome de…» é atualizarmos o mistério de Deus presente nas nossas vidas e na Igreja, seu povo.

 

É o mistério da vida de alguém que acredita que ser filha ou filho dum Pai Divino que a(o) ama e que Jesus nos deu a conhecer e que graças ao dom do Espírito Santo habita nos nossos corações, e nos dá

a própria vida de Jesus Ressuscitado.

 

Que a fé no nosso Deus, cujo rosto é trinitário, seja para todos nós uma fonte de luz e de vida nova, ao longo dos dias que nos são dados viver.

 

frei Eugénio, op (31.05.2021)


2024-05-19

Diálogo com o Evangelho

 

Diálogo com o Evangelho do Domingo de Pentecostes, 19 de maio, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em maio de 2021)

 

  

Evangelho (Jo. 15,26-27.16,12-15)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Quando vier o Paráclito, que Eu vos enviarei de junto do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim.

E vós também dareis testemunho, porque estais comigo desde o princípio.

Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas não as podeis suportar por agora.

Quando vier o Espírito da verdade, Ele vos guiará para a verdade plena; porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver -- ouvido e vos anunciará o que há de vir.

Ele Me glorificará, porque receberá do que é meu e vos há de anunciá-lo.

Tudo o que o Pai tem é meu. Por isso vos disse que Ele receberá do que é meu e vos há de anunciá-lo».

Palavra da Salvação

 

 

DIÁLOGO

 

No passado Domingo, celebrámos a Ascensão, aquele momento tão decisivo em que Jesus se despediu dos seus discípulos, assegurando-lhes que o Espírito os iria conduzir como seus seguidores.

 

A passagem do Evangelho de João que acabamos de ler/ouvir, sobre o Pentecostes, faz parte do último ensinamento de Jesus aos apóstolos.

Jesus promete-lhes repetidamente o Espírito, que Ele intitula de «Paráclito» e que será o seu constante apoio  a partir deste momento.

 

Tal como com a Ascensão, o relato mais detalhado do Pentecostes vem nos Actos dos Apóstolos.

 

No Evangelho de hoje, João dá-nos uma versão alternativa à dos Actos dos Apóstolos, na qual Jesus transmite o seu Espírito no próprio dia da Ressurreição.

Os primeiros cristãos aceitaram estes dois relatos do Pentecostes, que se completam.

A palavra Pentecostes vem da palavra grega para 50. Originalmente referia-se a uma festa celebrada pelos judeus 50 dias depois da Páscoa. Coincidia com a Festa das Colheitas, na qual se ofereciam a Deus os «primeiros frutos» das colheitas.

 

A narrativa de Lucas nos Actos dos Apóstolos dá a impressão que no Pentecostes os discípulos passaram por uma transformação súbita e maravilhosa: receberam o Espírito, perderam o medo, começaram a falar em línguas que até aí desconheciam e saíram a pregar a uma multidão multicultural.

 

Segundo o que João relata, o que produziu um efeito mais marcante nos Apóstolos foi o encontro com o Jesus Ressuscitado, seguido de 50 dias de oração comunitária para abrir os seus corações e as suas mentes e poderem fazer o discernimento sobre o que Deus estava a fazer entre eles e em todos eles.

Em vez de uma conversão súbita e miraculosa, foram necessários 50 dias de oração.

 

A totalidade dos Actos dos Apóstolos narra a história da lenta abertura das comunidades dos primeiros cristãos ao grande alargamento do plano de Deus para o Seu Povo.

Mesmo sob a influência do Espírito Santo, aprender a ser cristão foi um processo lento.  

Sabendo o quanto teriam de evoluir e crescer em fé e sabedoria, Jesus tinha-os avisado que teriam muito a aprender, mas que só estariam aptos a assimilar esses ensinamentos se fossem guiados pelo Espírito da Verdade.

 

Os Actos dos Apóstolos mostram-nos como o Espírito continua a trabalhar através de seres humanos frágeis e de culturas muito diferentes.

O Espírito de Deus leva-nos a alargarmos os nossos planos e modos de viver e a irmos além das nossas próprias limitações.

 

Jesus confia aos seus discípulos a sua missão, equiparando a relação que eles têm com Ele, à sua própria relação com o Pai.

 

Este 50º dia após a Páscoa lembra-nos que quando estamos disponíveis ao que o Espírito nos sussurra, então os nossos melhores projetos e trabalhos tornam-se fecundos e o próprio Espírito vai-os multiplicando.

 

Se Jesus insiste tanto no dom do Espírito, é para dar conforto aos seus discípulos no momento da sua partida, pois de agora em diante, serão eles que estarão na linha da frente.

 

Eles precisarão do apoio do Espírito da Verdade. João chama-lhe o Defensor ou o Consolador (em grego o "Paráclito"). Os «paráclitos» na sociedade da época, era um termo jurídico que designava os que deviam estar ao lado dos que eram acusados em tribunal para os defender e ajudar.

 

A ação do Espirito Paráclito é sobretudo exercida no coração dos discípulos, que não só podem mas devem recorrer a Ele, com toda a confiança, para os esclarecer sobre qual é a Verdade acerca de Jesus Salvador e para os confirmar na sua fé em Jesus, Filho de Deus, que vem revelar Deus-Pai.

 

Graças ao Espírito Santo, e com o apoio da Sua Palavra, os discípulos podem dirigir-se às pessoas à sua volta , partilhando e comunicando c a Verdade de Jesus: quem Ele é e o que Ele vem dar a conhecer do Pai.

 

Santo Agostinho dizia que o Espírito Santo fala aos corações dos discípulos e os discípulos falam aos outros com palavras.

Que o Espírito Santo é o Inspirador (da melodia) e os discípulos são os sons (da música).

 

Que o Espírito, enviado por Jesus Ressuscitado, continue a ser o nosso Consolador no desânimo, o nosso Defensor na confiança em Jesus e o nosso Inspirador da «música» das nossas vidas.

   

 frei Eugénio, op (23.05.2021)


2024-05-11

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo da Asensão, 12 de maio, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

  

Evangelho (Mc. 16, 15-20)

Naquele tempo, Jesus apareceu aos Onze e disse-lhes: «Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda a criatura.
Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado.
Eis os milagres que acompanharão os que acreditarem: expulsarão os demónios em meu nome; falarão novas línguas;
se pegarem em serpentes ou beberem veneno, não sofrerão nenhum mal; e quando impuserem as mãos sobre os doentes, eles ficarão curados».
E assim o Senhor Jesus, depois de ter falado com eles, foi elevado ao Céu e sentou-Se à direita de Deus.
Eles partiram a pregar por toda a parte, e o Senhor cooperava com eles, confirmando a sua palavra com os milagres que a acompanhavam.
 
 
DIÁLOGO
 

Já alguma vez imaginaram que estavam também presentes no momento da Ascensão?

Como se teriam sentido se lá tivessem estado? Quais teriam sido os vossos sentimentos naquele momento único?

 

Como em qualquer experiência vivida ao mesmo tempo por um grupo de pessoas, iríamos contar de diferentes maneiras o que teríamos experimentado.

 

É interessante ver que no Novo Testamento existem várias versões da Ascensão, cada uma focando experiências diferentes.

São Lucas, no seu evangelho, refere-se ao final da relação presencial entre Jesus e os discípulos e que leva à expectativa dum futuro regresso e da sua vinda gloriosa no final dos tempos.

 

Não é aquela tristeza, que acompanha habitualmente as separações como nós a conhecemos, mas uma alegria que enche o coração dos discípulos, por causa da promessa do envio do Espírito Santo.

 

Já no relato dos Atos dos Apóstolos (Act 1, 6-11) São Lucas apresenta-nos muitos detalhes e salienta que os discípulos ficaram sem saber o que fazer, a olhar para o céu, mas que são chamados à realidade do que há para fazer na terra.

 

São Mateus, por seu lado, apresenta um relato que, em vez de descrever a "ascensão" de Jesus, salienta a sua exaltação junto do Deus Altíssimo, e assim, a presença contínua junto de nós, como Ele prometeu: "E eis que estou sempre convosco, mesmo até ao fim dos tempos".

 

O Evangelho de São João não menciona a Ascensão.

 

A versão de São Marcos que lemos hoje, apresenta uma declaração fundamental sobre Jesus (Mc 16:19):

"O Senhor Jesus, tendo falado com eles, foi levado para o céu e sentou-se à direita de Deus."

"Sentar-se à direita de Deus" significava a inauguração do Reinado do Messias Salvador. 

Esta designação simbólica foi entendida pelos discípulos como a glória e a honra da Divindade atribuída a Jesus, após a sua Ressurreição e a ela unida.

 

Estava a realizar-se a famosa visão do profeta Daniel sobre o Filho do Homem, ao qual haviam de servir todos os povos, nações e línguas.

 

O Mestre, que os discípulos tinham conhecido na terra como o carpinteiro de Nazaré, tinha-se tornado agora no Rei dos Céus e da Terra.

 

É compreensível que o Senhor, que governa toda a Criação, tenha dado uma missão com caráter universal: “Ide por todo o mundo” e “pregai o Evangelho a toda a criatura”.

Os discípulos, tendo recebido uma missão totalmente inesperada e para lá de tudo o que podiam imaginar, não tinham de ficar sem saber o que fazer, pois tinham recebido de Jesus a garantia que “o Senhor cooperava com eles”.

 

Os Apóstolos «saíram e pregaram o Evangelho em todo o lado.» 

Este foi o início das suas aventuras missionárias.

É, portanto, importante compreender o significado simbólico de «foi elevado ao Céu”.  

 

Uma das dificuldades que temos em partilhar ou dialogar sobre a Ascensão, é que muitas vezes para falar sobre o Céu usamos a linguagem de lugar.

 

Ora, sabemos que «o Céu não é um lugar como tal, mas um tipo particular de realidade ou estado de perfeita comunhão de Amor e Vida com a Trindade», como diz o Catecismo da Igreja Católica (cf. C.I.C.1024).

Ou por outras palavras, o Céu é a vida eterna, em que vemos Deus face a face, sendo transformados como Jesus na glória de Deus, e gozando da felicidade eterna.

 

Teilhard de Chardin, no seu estilo muito pessoal, disse: «Através da humanidade ascendente de Cristo, a natureza humana está definitivamente unida com a divindade.»

Que dignidade tão grande é dada à natureza humana!

 

Neste dia, aqueles que receberam o batismo, é bom terem presente que lhes foi confiada a mesma missão de dar testemunho em todos os tempos e todos os lugares, da presença real do Amor de Deus, da presença real de Deus-Amor.

 

O que Jesus nos dá é uma missão, que espera que seja bem aceite por nós: a de anunciar que o Deus tão distante para tantas pessoas (e até por vezes para nós), não é o Deus Longuíssimo, nem é uma invenção do espírito humano. É o Deus-que-está-sempre-connosco, próximo e familiar até ao fim dos tempos e o Senhor-com-uma-Presença-que- coopera-connosco em cada momento e lugar.

 

Nesta passagem do Evangelho há, no entanto, umas palavras muito perturbadoras e que parecem estar em total contradição com o que acabámos de dizer: «Quem acreditar e for batizado será salvo; mas quem não acreditar será condenado.»

 

Era um estilo muito usado na cultura hebraica, de apoiar uma afirmação com a sua negação, que neste caso é o que perdia aquele que não acreditasse.

 

Mas a ausência do batismo não é mencionada como causa de perdição. E o texto enumera ainda os sinais que acompanharão os que acreditarem.

Na Ascensão de Jesus Ressuscitado, nosso Senhor, podemos ter a bússola da nossa vida: nela podemos ver, desde já, para onde podemos ir e para onde devemos ir.

 

frei Eugénio, op (16-05-2021)

 



2024-04-28

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do V Domingo de Páscoa, 28 de abril, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

  

Evangelho (Jo. 15, 1-8)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a verdadeira vide e meu Pai é o agricultor.
Ele corta todo o ramo que está em Mim e não dá fruto e limpa todo aquele que dá fruto, para que dê ainda mais fruto.
Vós já estais limpos, por causa da palavra que vos anunciei.
Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós, se não permanecerdes em Mim.
Eu sou a videira, vós sois os ramos. Se alguém permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto, porque sem Mim nada podeis fazer.
Se alguém não permanece em Mim, será lançado fora, como o ramo, e secará. Esses ramos, apanham-nos, lançam-nos ao fogo e eles ardem.
Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido.
A glória de meu Pai é que deis muito fruto. Então vos tornareis meus discípulos.

 

 

DIÁLOGO

O nosso crescimento, desde o nosso nascimento, é feito por sucessivas autonomias. Na nossa juventude e na maturidade desejamos ter liberdade e responsabilidade e não estar dependentes dos outros.

Na velhice, não queremos perder a nossa autonomia.

Também Jesus, durante o tempo da sua vida com os discípulos, quis formá-los para que pudessem continuar a obra de salvação que Ele tinha começado, colaborando de modo cada vez mais responsável no construção do Reino no meio de nós.

Mas esta imagem da vinha coloca-nos num outro registo. Não no do crescimento com autonomia e com a capacidade de resolver por si próprio os desafios da vida e de assumir responsabilidades,

mas no registo das relações de grande proximidade e de intimidade e

de viver em comunhão com outros.

Diz Jesus: «Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós.»

Jesus quer que descubramos que somos parte de uma videira cuja seiva é o Amor de Deus, que é o agricultor da parábola,

A seiva que circula através da verdadeira videira, que é Jesus, dá vida aos ramos, que nós somos.

Nas nossas vidas atarefadas e de ritmo acelerado, temos poucas oportunidades de «estar» verdadeiramente com outros.

Por exemplo, é bom ver as avós e os avôs, ou um deles, quando estão com os netos. O seu papel principal não é educá-los, mas estar com os mais pequenos, simplesmente, com atenção, brincando, lendo, falando, ou em silêncio. Nesses momentos, o seu tempo é todo para os netos.

Estes momentos em que ficamos com outros, ou quando outros ficam connosco, sem tarefas a realizar, sem serviços a fazer, sem qualquer encargo, sem qualquer pressa, são momentos de alegria pacífica.

Assim, a vida cristã pode ser resumida nesta atitude: permanecer em Jesus.

Para explicar o que ele quer dizer com isto, Jesus usa a bela figura da videira: "Eu sou a verdadeira videira, vocês são os ramos.

Permanecer em Jesus significa estar unido a Ele para receber a vida d’Ele, o Amor d'Ele.

É verdade que somos todos pecadores, mas se permanecermos em Jesus, como ramos na vinha, o Senhor vem e «poda-nos» um pouco, para que possamos dar mais frutos.

Permanecer em Jesus significa também ter a vontade de receber d'Ele o perdão, a Sua misericórdia.

Cada ramo que dá frutos, poda-o para que dê mais fruto.

Podar a videira não significa amputar, mas remover o supérfluo e dar força; visa eliminar o velho e fazer nascer o novo. Qualquer agricultor o sabe: a poda é um dom para a planta.

Assim me trabalha o meu Deus agricultor, com um único objetivo: o florescimento de tudo o que de mais belo e promissor pulsa em mim.

Se estamos motivados para termos momentos de "estar com" alguém, de permanecer junto de alguém, precisamos de procurar as ocasiões para o fazer, quer programando-as, quer aproveitando os «acasos» e as surpresas, que vão surgindo ao longo dos dias e mesmo das noites.

Jesus faz ainda uma promessa, à primeira vista, inacreditável: «Se permanecerdes em Mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis o que quiserdes e ser-vos-á concedido.»

Se as palavras de Jesus forem interiorizadas por nós, também os nossos pedidos se tornarão mais próximos da Vontade de Deus.

Se de facto acreditarmos nesta promessa de Jesus, ela dá-nos

uma grande energia interior, uma esperança reforçada, um desejo acrescido de produzir frutos, com a qualidade da Vontade de Deus.

Peçamos ao Senhor esta graça.

frei Eugénio, op (02.05.2021)


2024-04-20

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do IV Domingo de Páscoa, 21 de abril, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

  

Evangelho (Jo. 10, 11-18)

Naquele tempo, disse Jesus: «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas.

O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa.

O mercenário não se preocupa com as ovelhas.

Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas.

Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor.

Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la.

Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

 

DIÁLOGO

Jesus apresenta-se como O Bom Pastor.

Um pastor é normalmente um homem corajoso, pronto a defender o seu rebanho contra os animais selvagens, que na Palestina do tempo de Jesus eram sobretudo os lobos.

Quando os perigos se aproximam, o rebanho pode sentir-se seguro estando perto do seu pastor.

Ao mesmo tempo, um pastor é sensível, tem delicadeza e sabe como está cada uma das suas ovelhas, pegando mesmo ao colo na que anda mais frágil.

Jesus apresenta estas duas facetas essenciais a um pastor, dizendo:

«O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas»!

Preocupa-se com o bem de todas a ovelhas do seu rebanho.

Para reforçar a coragem e a responsabilidade assumida,

que é acompanhada da preocupação com o bem estar do seu rebanho, Jesus faz uma comparação com os pastores que são apenas uns mercenários, os pastores que estão apenas preocupados consigo mesmos e com a sua segurança .

E Jesus completa:

«Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me».

Inspira confiança e é próximo de cada uma.

O pastor, que anda com o seu rebanho pelos campos e pelos montes

é ao mesmo tempo um líder e um companheiro.

A sua autoridade não intimida, nem cria distância, pois vem do seu Amor pelas ovelhas.

Como Bom Pastor, Jesus chama-nos continuamente, para que ouvindo a sua voz o sigamos pelos bons caminhos.

Se nos desviamos ou nos desorientamos e ficamos perdidos e solitários, Ele vai à nossa procura, até nos encontrar.

Mas será que aprendemos a reconhecer a sua voz?

Na nossa cultura contemporânea, o perigo está em que a voz de Jesus, a voz do Bom Pastor, pode ser facilmente abafada pelas muitas outras vozes que tomam conta da nossa atenção.

Tal atenção a Jesus só pode ser cultivada se criarmos espaço nas nossas vidas para que a voz de Jesus se torne audível acima do barulho de  todas as outras vozes.

Como deviam as ovelhas, relacionar-se com o pastor?

Do seu lado, as ovelhas tinham todo o interesse em permanecer perto do pastor, andar atentas ao mais pequeno som da sua voz, que indicava caminhos e as advertia dos perigos possíveis.

Jesus disse claramente que apenas as ovelhas que ouvem a Sua voz e acolhem a sua Palavra com um coração disponível e cheio de confiança podem entrar na sua intimidade.

Jesus disse: «conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai».

Com esta afirmação, ele declara que não somos simplesmente chamados a ser um povo de Deus, mas a participar na sua própria união com o Seu Pai.

Como líder e companheiro, vem oferecer-nos uma intimidade com Ele, como Ele tem com Deus-Pai.

Essa intimidade transforma-nos, torna-nos mais parecidos com Deus.

É da nossa experiência, quer entre bons amigos, quer em casal, se passamos tempo juntos e se escolhemos repetidamente amarmo-nos uns aos outros, tornamo-nos em quem nunca poderíamos ter sido, sem esses outros. Ao fazê-lo, tornamo-nos mais completos.

Os bons amigos captam os gestos uns dos outros, e os casais que se amam há muito tempo, começam a tornar-se mais parecidos um com o outro.

Isto porque deram um ao outro o que é mais precioso: passaram o seu tempo um com o outro, por escolha própria.

Quanto mais verdadeiramente nos vemos e contemplamos uns aos outros com amor, mais as nossas vidas se entrelaçam.

A imagem do Bom Pastor abre-nos à descoberta da origem e do destino da relação de Jesus connosco.

Como Bom Pastor, Jesus diz que dá a vida por suas ovelhas. Embora se refira mais diretamente à sua condenação e morte na cruz, num sentido mais amplo, descreve o relacionamento de Deus com a humanidade, desde o início na criação por Amor gratuito, até à realização total no final dos tempos.

A verdadeira liberdade das ovelhas é adquirida graças a um esforço persistente, com a ajuda da graça de Deus, seguindo o "Bom Pastor", reconhecido e aceite como Caminho, Verdade e Vida.

Os verbos "ouvir" e "seguir" designam, na Bíblia o processo pelo qual o homem adere com todo o seu ser e toda a sua vida à vontade do seu Deus.

As ovelhas não são consideradas como um rebanho, que segue sem pensar, mas como pessoas empenhadas na atividade mais livre e mais “personalizante” colaborar na missão libertadora de Jesus.

Fazendo isso, tornamo-nos cada vez mais relacionados entre nós e, portanto, cada vez mais parecidos com Deus, em cuja imagem e semelhança fomos moldados.

Hoje, Jesus Ressuscitado vem até nós, como o Bom Pastor.

É bom notar que tudo o que Ele diz sobre ser o nosso pastor é-nos dirigido no plural.

Todos nós somos ovelhas muito queridas e fazemos parte do seu rebanho, crescendo n’Ele, dando as nossas vidas umas às outras e para as outras.  

 

frei Eugénio, op (25.04.2021)


2024-04-14

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do III Domingo de Páscoa, 14 de abril, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Lc. 24, 35-48)

Naquele tempo, os discípulos de Emaús contaram o que tinha acontecido no caminho e como tinham reconhecido Jesus ao partir do pão.
Enquanto diziam isto, Jesus apresentou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco».
Espantados e cheios de medo, julgavam ver um espírito.
Disse-lhes Jesus: «Porque estais perturbados e porque se levantam esses pensamentos nos vossos corações?
Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo; tocai-Me e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que Eu tenho».
Dito isto, mostrou-lhes as mãos e os pés.
E como eles, na sua alegria e admiração, não queriam ainda acreditar, perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa para comer?».
Deram-Lhe uma posta de peixe assado,
que Ele tomou e começou a comer diante deles.
Depois disse-lhes: «Foram estas as palavras que vos dirigi, quando ainda estava convosco: "Tem de se cumprir tudo o que está escrito a meu respeito na Lei de Moisés, nos profetas e nos salmos"».
Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras
e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e de ressuscitar dos mortos ao terceiro dia,
e que havia de ser pregado em seu nome o arrependimento e o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sois testemunhas disso».

 

2024-03-31

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo de Páscoa, 31 de março, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Jo. 20, 1-9)

No primeiro dia da semana,

Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro

e viu a pedra retirada do sepulcro.

Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus

e disse-lhes:

«Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram».

Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro.

Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se,

correndo mais depressa do que Pedro, e chegou primeiro ao sepulcro.

Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.

Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.

Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão

e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,

não com as ligaduras, mas enrolado à parte.

Entrou também o outro discípulo  que chegara primeiro ao sepulcro:

viu e acreditou.

 

DIÁLOGO

Acabamos de ler neste relato a descoberta surpreendente que Maria Madalena e, em seguida, Pedro e João fizeram quando se aproximaram do túmulo onde Jesus tinha sido sepultado.

O corpo de Jesus não estava lá!

Apenas estavam as ligaduras e o sudário com que o seu corpo tinha sido envolvido.

O túmulo estava vazio!

A sensação que tiveram foi certamente de uma enorme aflição!

Naturalmente pensaram: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram».

Jesus depois da Última Ceia, tinha sido preso, condenado, torturado, tinha sofrido a pena de morte na cruz. Tinha sido descido da cruz e sepultado naquele túmulo, e agora constatavam que o corpo não estava lá, que tinha sido roubado e escondido!

Como nos diz o evangelista: “Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.”

Por isso, nem sequer puseram essa hipótese de ter ressuscitado, pois não faziam ideia do que fosse Jesus vencer para sempre a morte.

No entanto, estamos a celebrar a ressurreição de Jesus e cantamos: "Deus ressuscitou Jesus dos mortos. Aleluia! Jesus venceu para sempre a morte! Aleluia!"

Estaremos a celebrar um mito ou uma ilusão?

Em que é que eles se puderam basear para proclamar que, de facto, Jesus tinha ressuscitado e vencido para sempre a morte?

A única "prova" que eles tinham, se assim podemos dizer, era o túmulo vazio!

Como podemos nós, com os cristãos de todos os tempos e lugares cantar: “O Senhor ressuscitou! Aleluia!”?

Temos os relatos evangélicos que nos apresentam os testemunhos das aparições de Jesus Ressuscitado: a Maria Madalena e às mulheres que iam ungir o corpo de Jesus, aos apóstolos, aos discípulos de Emaús e a muitas e a muitos outros...

O grupo dos mais próximos de Jesus testemunha esta grande e feliz surpresa: Ele está de novo com eles, mas de uma maneira nova e impensável. O Ressuscitado já estava na Glória de Deus Pai e ao mesmo tempo continuava aqui na Terra connosco.

Cheios de entusiasmo e de alegria, depois dessas aparições testemunharam e proclamaram: "Deus ressuscitou Jesus dos mortos"!

É bom termos em atenção que elas e eles não davam testemunho da Ressurreição de Jesus. Ninguém a testemunhou.

Ninguém viu Jesus ressuscitar!

Muitos artistas, em pinturas e em vitrais, representam Jesus a elevar-se fora do túmulo, rodeado por discípulos e com Maria também. Mas é apenas a imaginação dos artistas.

O que elas e eles testemunharam é que Jesus Ressuscitado veio ao encontro deles, em numerosas ocasiões.

Eles não dão testemunho da Ressurreição, mas do Ressuscitado!

É também muito interessante notar, que todos os encontros do Ressuscitado não têm lugar em ocasiões de celebrações religiosas, mas em momentos da vida quotidiana: quando iam ungir o corpo de Jesus sepultado, numa reunião na casa de alguém, à beira-mar depois da pesca, quando vão a caminho estrada fora, durante uma refeição...

É o Ressuscitado que vem ao encontro deles, em variados momentos das suas vidas e eles reconhecem-nO, cheios de alegria!

No entanto, os seus testemunhos, para quem os ouvia, quer judeus, quer de outras religiões, apareciam como sendo palavras cheias de ilusão.

Atualmente muitas pessoas pensam algo de semelhante:

"A pessoa de Jesus de Nazaré, que viveu há dois mil anos, é um exemplo de amor a Deus e amor ao próximo. Foi um modelo de preocupação pelos mais desprotegidos e acolheu a todos, sem exceção. Para o admirar e seguir o seu exemplo, basta-nos que tenha sido uma pessoa que tenha vivido e ensinado de modo excecional o amor aos outros, para que o mundo seja mais fraterno.

Quer o livro dos Atos dos Apóstolos, que as cartas de São Paulo e as outras cartas que estão incluídas no Novo Testamento, estão cheios de testemunhos dos que não tiveram as aparições do Ressuscitado, mas que descobriram a Sua presença e atuação nas mais variadas situações.

O Espírito de Amor de Jesus Ressuscitado, abriu-lhes as portas e propôs discernimentos e soluções, em circunstâncias totalmente adversas e deu-lhes novas capacidades de amar e de ter esperança!

A manhã da Páscoa é o dia mais importante da história da humanidade, porque desde a manhã de Páscoa, a morte nunca mais terá a última palavra.

É o Ressuscitado que nos abre à maior das esperanças que é possível ter:  abrir a nossa vida, a vida de todos os seres humanos e a vida do mundo ao futuro eterno de Deus, à felicidade total, à perspetiva de que o mal, o sofrimento, o pecado (o desamor) e a morte podem ser superados. Só o Amor ficará para sempre

Esta convicção leva-nos a viver as realidades quotidianas com a confiança que haverá sempre uma saída porque Deus a prometeu e a quer, mesmo através de caminhos presentemente bloqueados, por tempos que não sabemos.

Jesus Ressuscitado, desde aquela manhã de Páscoa, continua a enviar gerações e gerações de pessoas, de todos os horizontes, a testemunharem que colocam toda a sua confiança na vitória do Amor, em todas as suas expressões.

Podemos então dizer-Lhe:

"Senhor Jesus Ressuscitado aumenta a nossa fé na Tua presença viva!

Aumenta a nossa confiança no poder do Teu Amor, o único que tudo pode transformar!"

 

Uma Páscoa Feliz!

 

frei Eugénio, op (04.04.2021)