2024-08-31

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXII Domingo do Tempo Comum, 1 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em agosto de 2021)

 

 

 

EVANGELHO   Mc 7,1-8, 14-15, 21-23

Naquele tempo, reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas

que tinham vindo de Jerusalém.

Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.

Na verdade, os fariseus e os judeus em geral

não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos.

Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado.

E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição,

como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre.

Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:

«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?»

Jesus respondeu-lhes:

«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito:

‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.

É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’.

Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens».

Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão e começou a dizer-lhe:

«Escutai-Me e procurai compreender. Não há nada fora do homem

que ao entrar nele o possa tornar impuro.

O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior do homem é que saem as más intenções:

imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez.

Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».


 

DIÁLOGO

A passagem do Evangelho que acabamos de ler, começa com uma discussão de Jesus com as autoridades da época (fariseus e escribas) sobre a lavagem das mãos antes das refeições.

Para os judeus do tempo de Jesus, a lavagem não era uma prática sanitária, uma questão de higiene, mas uma norma religiosa que não podia deixar de ser cumprida

Quando dizemos «pureza», «puro», queremos referir-nos ao que contrasta com «sujo», «infestado», «manchado», «poluído».

Todas estas situações se referem a diversos ambientes do mundo físico.

Fala-se, por exemplo, de um «caminho imundo», de «ar poluído» , de «casa infestada».

Mas a discussão de Jesus, não foi sobre a higiene, mas sobre a noção de pureza ritual. Esta noção é bastante difícil de compreender, pois não tem a ver com a sujidade, nem com a falta de limpeza.

A maioria dos rituais de purificação existiam muito antes que se soubesse que os micróbios causam doenças.

Além disso, mesmo as pessoas que são exigentes com a limpeza pessoal e dos objetos, também elas têm de praticar esses ritos.

A chamada pureza ritual é a condição em que as pessoas devem estar para poderem participar em determinados atos religiosos, especialmente os de adoração duma divindade.

As condições para se considerar que se está apto para pratica do culto variam de religião para religião.

Uma grande parte dessas impurezas podem, no entanto, ser purificadas através dos chamados ritos de purificação sobretudo em relação com a água, mas também com rituais mais elaborados.

Alguns exemplos: Dentro do Budismo japonês, uma bacia chamada de «tsukubai» é fornecida à entrada dos templos para que os crentes façam abluções. Também é usado para a cerimónia do chá.

No Hinduísmo, uma parte importante da purificação ritual é o banho de todo o corpo, especialmente em rios considerados sagrados como o Ganges.

No Judaísmo e no Islão as leis da pureza ritual dizem respeito a alimentos, a líquidos, a roupas e utensílios e a pessoas contactadas pelos crentes.

No Cristianismo, encontramos variados costumes e tradições, segundo as épocas e as zonas do mundo.

Lembro apenas as mães que davam à luz um filho, não podiam participar nos batismos dos filhos.

A não-participação em algumas missas dominicais, impedia os fiéis de participar na comunhão nas Eucaristias seguintes.

As mulheres sem um véu na cabeça não podiam entrar numa igreja e ainda menos participar numa Eucaristia ou cerimónia litúrgica.

Uma das principais barreiras do relacionamento entre judeus e os não-judeus (os chamados «pagãos») eram precisamente as normas sobre o «puro» e o «impuro».

Jesus vai proclamar de modo claro:” Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro.”

Nenhuma sujidade «material» pode tornar o homem impuro no sentido moral, ou seja, interior.

A pureza moral tem a sua fonte exclusiva no interior do homem: provém do «coração».

Já os profetas, os sábios e os salmistas, proclamavam que os rituais de purificação e as cerimónias no Templo não podiam obter a pureza moral.

Não se deve colocar ao mesmo nível, o que é secundário, neste caso, as tradições humanas, com o que é essencial na vida moral: fazer a Vontade de Deus, pôr em prática o que Ele quer, para o bem de todas as pessoas e da criação inteira.

Em vez de centrarmos as nossas energias para nos deixarmos abrir ao que Deus quer, que podemos conhecer pela sua Palavra, sobretudo graças a Jesus, virámo-nos para nós próprios, procurando fazer determinados gestos e rituais religiosos, ficando satisfeitos por os termos concretizado bem.

Esta auto-satisfação nos rituais bem cumpridos, leva-nos também a olharmos com certa superioridade para os que não os cumprem.

Ora o ensinamento de Jesus, orienta-nos para a purificação do nosso interior, através do nosso modo de amar ou desamar o próximo, como Jesus viveu e ensinou.

Como o apóstolo Tiago dirá mais tarde: "Diante de Deus nosso Pai, a forma pura e irrepreensível de praticar a religião é ajudar os órfãos e as viúvas na sua aflição, e mantermo-nos livres da corrupção no meio do mundo" (Tiago 1, 27).

Jesus propõe-nos que despertemos a nossa consciência, para fazermos discernimentos mais conformes com o Seu Evangelho

Demasiadas vezes, deixámo-lo adormecer.

Agimos, sem nos interrogarmos sobre as nossas intenções, nem sobre as consequências para os outros e para nós mesmos, dos nossos atos.

Jesus mostra-nos que no centro da moralidade evangélica está a consciência, que se deve deixar iluminar e guiar pela sua confiança em Jesus e pelo Evangelho.

Jesus quer que atuemos com liberdade interior, por nós próprios, levando a sério as nossas responsabilidades.

Claro que frequentemente não conseguimos agir como Jesus teria feito no nosso lugar. Há todo um caminho de vida a ser feito, há falhas, há erros, há desamor, mas o que conta é procurarmos sempre que a consciência seja iluminada pela Palavra de Deus e que coloquemos nela o nosso coração.

frei Eugénio, op (2021.08.29)


2024-08-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXI Domingo do Tempo Comum, 25 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em agosto de 2021)

 

 

Evangelho (Jo. 6, 60-69)

Naquele tempo, muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram:

«Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?»

Jesus, conhecendo interiormente

que os discípulos murmuravam por causa disso, perguntou-lhes: 

«Isto escandaliza-vos?

E se virdes o Filho do homem

subir para onde estava anteriormente?

O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada.

As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.

Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».

Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início,

quais eram os que não acreditavam

e quem era aquele que O havia de entregar.

E acrescentou:

«Por isso é que vos disse: Ninguém pode vir a Mim, se não lhe for concedido por meu Pai».

A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele.

Jesus disse aos Doze:

«Também vós quereis ir embora?»

Respondeu-Lhe Simão Pedro: «Para quem iremos, Senhor?

Tu tens palavras de vida eterna.

Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».


 

DIÁLOGO

A página do Evangelho de São João que lemos, começa com muitos dos que seguiam Jesus a dizer: «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?»

A partir de então muitos dos que desejavam ser discípulos de Jesus afastaram-se e não andaram mais com Ele.

Quais seriam essas palavras que Jesus lhes disse que eram tão insuportáveis?

Jesus disse-lhes que Ele era o “pão que desceu do Céu” e que “quem comer a minha carne e beber o seu sangue, permanece em mim e eu nele”.

Estes ensinamentos, se forem entendidos à letra como sendo ‘comer a carne e beber o sangue de uma pessoa humana’ e de ser ‘pão que desceu do Céu são, de facto, incompreensíveis e demasiado difíceis de serem aceites.

Jesus não explica como se tornará carne e sangue, longe disso, e até acrescenta o anúncio da sua ressurreição: "E quando virdes o Filho do Homem subir para onde antes estava?»

João apresenta as reações dizendo simplesmente: “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele.”.

O texto grego, à letra, diz: “voltaram para trás”, preferindo voltar ao que conheciam e praticavam antes de ouvirem a pregação de Jesus.

Jesus faz então aos discípulos uma pergunta muito direta: «Também vós quereis ir embora?»

É uma pergunta clara, um pouco como a de um marido que pergunta à sua mulher, ou uma mulher que pergunta ao seu marido: «Amas-me como eu sou, confias em mim?»

Não esperam por explicações, mas pedem apenas um «sim» ou um «não», quer seja expresso por uma palavra, um gesto ou um olhar.

O que importa é ter uma resposta clara. Se a resposta é "sim" é a confiança do outro que é manifestada claramente.

João não indica qual foi o sentimento de Jesus ao ver a debandada dos que o seguiam. O evangelista apenas nos diz que Jesus sabia que alguns discípulos tinham falta de fé e que alguém o iria trair.

É verdade, que Jesus disse aos discípulos, que eles só poderiam vir ter com Ele com a ajuda da graça de Deus.

Mas, podemos pensar: será que Jesus contava que tantos o iriam abandonar e que a multidão iria ficar reduzida apenas a doze?

 Talvez consigamos imaginar a expressão do seu rosto e o seu tom de voz quando perguntou aos apóstolos: «Também vós quereis ir embora?»

 Em todo o Evangelho de João, este é, provavelmente, um dos momentos em que Jesus esteve mais fragilizado.

Assim, São Pedro e os apóstolos quiseram ficar com Jesus, porque tinham total confiança n’Ele.

Os 12 apóstolos, mesmo não tendo compreendido muitos dos ensinamentos e das atitudes de Jesus, confiaram. Abriram-se ao invisível, ao que não compreendiam.

Eles não olhavam para si próprios.

Os seus olhares eram inspirados pelas palavras, ações e atitudes de Jesus, que manifestavam a Vontade de Deus: "Tu tens palavras da vida eterna".

Os apóstolos, pela fé, veem Jesus, homem como eles, a quem podem tocar e com quem comem, como sendo “o Santo de Deus", o Messias Salvador.

O que significa permanecer com Jesus?

Significa que queremos ficar com ele, mesmo quando temos surpresas com que não contávamos, ou temos de seguir caminhos desconhecidos.

São riscos a correr por quem decide ficar com Jesus.

Não se confia em alguém da mesma maneira quando se tem 15, 40 ou 60 anos. Ao longo da vida, temos de ir fazendo novas escolhas.

É como nos casais, onde os dois têm de renovar cada dia os seus «sins », se querem continuar juntos.

Temos de recomeçar cada dia os nossos compromissos.

O que se passou com Jesus e os discípulos naquele tempo do relato do Evangelho, antecipa e anuncia todas as situações de crise, de grandes mudanças, quer na vida pessoal, quer nas comunidades cristãs, quer na Igreja, que são dolorosas, mas que nos põem diante de escolhas a fazer, para permanecermos fiéis a opções tomadas.

Estejamos nós prontos a responder, com uma escolha livre e meditada, à pergunta que Jesus Ressuscitado nos continua a fazer:

«Também vós quereis ir embora?»

Que a nossa resposta possa ser «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.”

E assim, vamos renovando o nosso compromisso pessoal e público com Jesus e o Reinado de Deus, tendo os nossos corações cheios de rostos fraternos.

        frei Eugénio, op (22.08.2021)


2024-08-11

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XIX Domingo do Tempo Comum, 11 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em agosto de 2021)

 

 

 Evangelho (Jo. 6, 41-51)

Naquele tempo, os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu».
E diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que Ele diz agora: "Eu desci do Céu"?».
Jesus respondeu-lhes: «Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.
Está escrito no livro dos Profetas: "Serão todos instruídos por Deus". Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim.
Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram.
Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».
 

DIÁLOGO

Quando Jesus disse: "Eu sou o pão que desceu do céu", os seus ouvintes compreenderam o suficiente para não o rotularem de louco, por afirmar ser "pão da vida", mas vão distanciar-se e mesmo opor-se, por causa da afirmação «que desceu do Céu», o que queria dizer que Ele se considerava o Enviado de Deus.

 

Ser “pão da vida” quer dizer que é a Pessoa mesmo de Jesus que nos pode fazer viver para sempre, porque Ele é a Palavra de Deus tornada humana.

 

Jesus é Aquele que recebe tudo de Seu Pai: a sua missão, as suas obras, as suas palavras, até mesmo os seus discípulos.

 

Se Jesus é o único que revela completamente Deus, é porque é o único que conhece perfeitamente Deus-Pai.

 

Na ocasião da sua vida, em que Jesus fez esta pregação, estava a encontrar um ambiente de cada vez maior hostilidade e agressividade da parte das autoridades religiosas e políticas, a que o evangelista João chama “judeus”. Não se refere a todo o povo hebreu, mas somente às autoridades de Jerusalém que tinham tomado posição contra Jesus, até conseguirem que Ele fosse condenado à morte por crucifixão.

 

De modo mais amplo, o evangelista quer referir-se a todos os que recusaram acolher e escutar Jesus.

Os “judeus” falavam do pai de Jesus, José. Mas Jesus falava do seu verdadeiro Pai. Por sua vez, é o Pai que leva as pessoas até Jesus, para que elas reconheçam que Ele é o alimento que desceu do Céu.

 

As autoridades estavam firmemente convencidas que ninguém que eles conhecessem com origens tão humildes como as de Jesus, pudesse ser o Messias de Deus. Recusavam-se a acreditar que Jesus, um homem demasiado conhecido em Nazaré, pudesse ser o Enviado de Deus.

Ao mesmo tempo, nessa recusa, também negavam que Deus se pudesse preocupar com eles e que tivesse a iniciativa de revelar algo de novo sobre Ele e o Seu Projeto para o mundo.

 

Lamentavelmente, as pessoas a quem Jesus se dirigiu em Cafarnaum, contentaram-se com “murmurações”, isto é, falar mal de alguém, sem falar diretamente a essa pessoa, num EU-TU, que permita respeito mútuo, mesmo na discordância.

Jesus vai interpelá-los, para que eles deixem a «murmuração» e se decidam a dialogar com Ele acerca dos argumentos em que baseiam a sua oposição. Se o fizessem, poderiam pôr-se em questão e abrir-se ao Enviado de Deus.

 

E a nós, leitores do Evangelho neste tempo em que vivemos, a que é que Jesus nos convida?

Parece-me que antes de mais, Jesus está a desafiar-nos a reconhecermos quanto as nossas «murmurações», com queixas e críticas frequentes sobre o que se passa de mal, podem tornar-se num obstáculo para ouvirmos e acolhermos os convites que Deus nos vai dirigindo, através de pessoas e de acontecimentos.

Murmurar é mais fácil do que acreditar e rezar.

 

Se acreditamos que o Pai de Jesus é também nosso Pai, «Abba», Pai querido, e se acreditamos que Jesus é o Seu Enviado, que veio de junto do Pai, e que nos deixou o Seu Espírito, é a Ele que diretamente que nos podemos dirigir.

Quer nas nossas lágrimas e provações, quer nas situações que nos chegam de mais perto ou de mais longe, com tantos dramas humanos, é a Jesus que nos podemos dirigir, num EU-TU, interpelando-O e questionando-O sobre o que se passa e nos indigna e faz sofrer tantas pessoas, quer fazendo os possíveis por O escutar, com confiança, para acolhermos os seus apelos à nossa colaboração com Ele.

 

A última frase desta passagem do Evangelho é surpreendente:

“E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo”.

A “carne” de que Jesus fala aqui não é o seu organismo biológico, é toda a sua Pessoa que vive e age através dos seus atos e palavras.

E “comer”, deve ser entendido no seu significado simbólico:

Jesus quer permanecer em nós e nós com Ele (Jo 6,56).

É esta inimaginável intimidade que nos é oferecida, na fé.

 

Deus, no Seu Amor por nós, não desiste de nós. Podemos mesmo dizer, que Deus já não pode viver sem nós!

 

 frei Eugénio, op (07.08.2021)

2024-08-04

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XVIII Domingo do Tempo Comum, 4 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em julho de 2021)

 

 

EVANGELHO  (Jo. 6, 24-35)  

Naquele tempo,
quando a multidão viu
que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago,
subiram todos para as barcas
e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus.
Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe:
«Mestre, quando chegaste aqui?».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
vós procurais-Me, não porque vistes sinais,
mas porque comestes dos pães e ficastes saciados.
Trabalhai, não tanto pela comida que se perde,
mas pelo alimento que dura até à vida eterna
e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus,
marcou com o seu selo».
Disseram-Lhe então:
«Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?».
Respondeu-lhes Jesus:
«A obra de Deus
consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».
Disseram-Lhe eles:
«Que sinal realizas,
para que nós vejamos e acreditemos em Ti?
Que obra fazes?
No deserto os nossos pais comeram o maná,
conforme está escrito:
‘Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu’».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu;
meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu.
O pão de Deus é o que desce do Céu
para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede».
Palavra da salvação
 
DIÁLOGO


No diálogo, que acabámos de ler entre Jesus e o povo que o seguia, há a referência ao que aconteceu ao povo judeu na travessia do deserto do Sinai, no êxodo a partir do Egipto, onde os judeus eram escravos, para a Palestina, a terra prometida por Deus.


Durante esse êxodo, o povo, com frequência, fazia reclamações a Deus, através de Moisés. Deus, para minimizar essas queixas, respondia com a oferta diária do “maná”.
O que é o “maná”? 

O “maná” é uma segregação granulosa e aguada, do tamanho de sementes de coentros, de cor branca e com sabor a mel. É produzido   por uma planta quando é picada por um inseto, que naquela época existia desde o Irão até ao Norte de África, incluindo a península do Sinai.
O maná é uma substância muito nutritiva, que permitiu àquele povo alimentar-se e sobreviver durante os longos anos da travessia do deserto.
Muitas vezes este alimento não era reconhecido como uma manifestação do cuidado de Deus pelo Seu povo e um gesto concreto da Sua Providência. 

No Evangelho que lemos, as pessoas que procuravam Jesus e que iam ter com Ele, estavam motivadas pelas necessidades básicas da vida, sobretudo alimentação e saúde.
Como eles, também nós, preferimos o pão, que nos faz viver, sentimo-lo na boca, saboreamo-lo, é concreto e imediato.
Ao passo que Deus e a vida eterna, são frequentemente ideias, que podem vir ou partir, mas que pouca influência têm na vida do dia-a-dia.
Jesus tinha clara consciência que esta ânsia das pessoas em irem ao encontro d’Ele era motivada pela oferta tão generosa e gratuita de pão e de peixe, do dia anterior.

Diante dessas pessoas, Jesus anuncia a sua pretensão fundamental: assim como Eu saciei num só dia a vossa fome do corpo, também posso preencher as profundidades da vossa vida.
Estabelece-se então um diálogo em dois planos diferentes. Perguntam; qual é a obra de Deus?
Mas que coisa, especificamente, dá o Deus de Jesus?
Nada entre as coisas ou os bens de consumo: «Ele não pode dar menos do que dar-se a Si Mesmo.

Mas, dando-se a Si Mesmo, dá-nos tudo» disse Catarina de Sena, na sua sabedoria inspirada.
O dom de Deus é o próprio Deus que se dá.
Jesus responde, apresentando-se Ele próprio como sendo o rosto amigo de Deus.
Jesus declara que é Ele o “Pão da Vida” e que quem for ao seu encontro nunca mais terá fome.


É Ele, só Ele, que dará "o alimento que permanece na vida eterna".
O «Pão da Vida» vem dar vida não só aos hebreus, como aconteceu no deserto, mas às pessoas do mundo inteiro, ou seja, a toda a humanidade. Uma promessa de proporções prodigiosas!
Jesus tinha partilhado os pães com a multidão entusiasmada, que só queria  a repetição do milagre. 

Agora, Jesus revela que o autêntico dom de Deus é o próprio Doador, o enviado de Deus ao mundo, a quem devemos responder, estando onde Ele está, partilhando com Ele a nossa própria vida, «onde quer que Ele vá».
Devemos procurá-lo por Si Próprio, irmos ter com Ele e pormos toda a nossa confiança n’Ele. 

A obra de Deus é uma corrente de amor que entra em cada um de nós e faz florescer as raízes de cada ser humano, para que se torne, como Ele, dador de vida.

No coração da fé está a firme confiança de que a obra de Deus é Jesus: rosto luminoso de ser humano, livre como ninguém, curador do desamor, que vem ao nosso encontro para que nos tornemos no melhor daquilo que podemos ser.

O trabalho da fé em Jesus, é o trabalho da confiança em Jesus, que nos pode transformar por dentro, se nós O deixarmos.
Não é tanto “o que devo fazer”, mas “o que devo deixar fazer em mim” pelo Espírito de Jesus.

Poderíamos dizer que “o trabalho a fazer” é deixarmos que ”Jesus nos trabalhe e nos transforme”.
 
       frei Eugénio, op
(01.08.2021)

2024-07-27

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XVII Domingo do Tempo Comum, 28 julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em julho de 2021)

 

 

EVANGELHO  (Jo. 6, 1-15)   


Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.
Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?».
Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um».
Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?».
Jesus respondeu: «Mandai-os sentar». Havia muita erva naquele lugar, e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil.
Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram.
Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca».
Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido.
Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo».
Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.
Palavra da salvação

 

DIÁLOGO

No Evangelho de hoje, ouvimos um dos relatos sobre a partilha milagrosa do pão que Jesus faz com uma multidão, também chamada de «multiplicação dos pães».
É o acontecimento da vida de Jesus que tem mais relatos, 6, nos quatro Evangelhos, o que manifesta a importância que teve na difusão do cristianismo.
A versão que lemos é a de João e é a mais longa e a mais teológica.
Talvez fosse mais correto falarmos de Jesus que dá pão em grande abundância.
Comecemos com os detalhes que João nos apresenta sobre o acontecimento.
Jesus ergueu os olhos e viu a grande multidão que vinha ao seu encontro.
A iniciativa de dar pão àquelas pessoas nasce do modo como Jesus vê a multidão, como sente e pensa sobre aquelas pessoas que tem diante de Si.
Jesus levantou um certo suspense entre os discípulos, com a pergunta que lhes fez: «Quem é capaz de dar de comer a tanta gente?»
Filipe, dizendo que para dar de comer a tanta gente seriam necessários mais de 200 denários e, sendo o denário o ordenado habitual por um dia de trabalho rural, é como se respondesse que seria impossível de conseguir, tal a quantidade necessária.
Quanto a André, mesmo satisfeito com a descoberta que tinha feito do rapazito, com um farnel de 5 pães e de 2 peixes, vai salientar a sua insignificância para dar de comer àquelas pessoas todas.
Tanto um como o outro, e possivelmente nós também, como eles poderemos concluir que a pergunta de Jesus não tinha resposta possível.
Então, espontaneamente, pensamos que Jesus iria usar o poder que Deus-Pai lhe deu, para multiplicar os pães.
Apesar de habitualmente estes relatos serem chamados de «multiplicação dos pães», nenhuma das versões tem qualquer referência a pão multiplicado.
Dizem apenas que Jesus recebeu uma pequena quantidade de pães e de peixes, que Jesus distribuiu pães e peixes, que a multidão comeu à vontade até ficar saciada e que ainda sobrou  pão.
E então agora nós, leitores, conhecedores dos relatos, será que sabemos resolver a questão que Filipe e André deixaram sem resposta?
Jesus que sabia bem o que ia fazer, ordenou aos discípulos que fizessem sentar as pessoas para irem comer.
Jesus então, não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas sim de «divisão», isto é, de distribuição e de partilha dos pães e dos peixes.
Na nossa maneira de ver, pensamos na lógica do comprar e dos custos e do vender e dos lucros ou perdas.
Não chegamos a saborear a lógica do que é gratuito, do que «é comprado sem dinheiro».
A maravilha do que Jesus fez, não consistiu em aumentar a quantidade do pão e do peixe, mas em abrir os olhos do coração aos seus discípulos e a nós também, para vermos as pessoas e as situações à maneira d’Ele, que é a lógica do Pai do Céu «que faz nascer o Sol para os bons e para os maus».
Já o profeta Isaías, numa profecia muito conhecida do povo judeu, tinha dito : «Atenção ! Mesmo vós os que não tendes dinheiro, vinde, comprai trigo para comer sem pagar nada. Levai vinho e leite, que é de graça. (Is. 55, 1)
O profeta com a imagem do alimento dado gratuitamente, queria dizer que Yhavé (Deus) convidava Israel a procurar o que alimenta verdadeiramente, que é a Sua Palavra, que sendo escutada, fazia viver de forma durável.
No horizonte está o banquete, que segundo a Bíblia, será oferecido pelo Messias quando vier na sua glória. O povo judeu aguardava com grande esperança apoiada na fé, que chegasse esse momento de plenitude.
Os ouvintes de Jesus conheciam a profecia de Isaías.
A multidão além da fome corporal, tinha fome, isto é, desejava com ardor a chegada desse banquete de abundância para todos.
Jesus, com esta distribuição e partilha, vai oferecer um sinal de que esse banquete, tão esperado, tinha chegado.
Jesus dará mais do que pães maravilhosamente multiplicados,
dará as palavras de Seu Pai, mas mais ainda, vai dar-se a Ele próprio, dando a sua vida, aceitando a condenação e a morte na cruz, passagem para a ressurreição e a vida em plenitude.
Nos relatos, nenhuma palavra sobre o poder de Jesus é dita, como, aliás, nas bodas de Caná também, quando Jesus transformou a água em vinho.
Também nada é dito sobre o processo como Jesus transformou aqueles poucos pães e peixes até satisfazer plenamente tanta gente.
O objetivo de Jesus não é tirar a fome do corpo, mas dar a vida divina que Ele vem oferecer e que quer que seja recebida livremente.
Quem dará uma resposta adequada, será Pedro, mais adiante no Evangelho de João (Jo 6, 68): «A quem iremos nós? Tu tens palavras de vida eterna»
Entrando nesta lógica do poder inesgotável do DOM de Deus, leva-nos a procurarmos viver neste mundo, partindo o pão e dividindo-o, partilhando-o nas formas mais apropriadas.
Teremos, assim, clara consciência de que onde isto acontece, não só se consegue que o necessário chegue para todos, «todos comeram e ficaram saciados» e até também pode haver o «excesso», fruto da superabundância da graça de Deus, quando deixamos que mudem os nossos comportamentos e o modo de ver os outros.
A nossa vocação é oferecer os gestos e as atitudes mais insignificantes das nossas vidas e acreditarmos que, como o rapazito com o pequeno farnel, Deus fará connosco muito mais, por vezes até muitíssimo mais, do que poderíamos pedir ou imaginar.

 
     frei Eugénio
(25.07.2021)


2024-07-07

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XIV Domingo do Tempo Comum, 7 julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em julho de 2021)

 

 

Evangelho (Mc. 6, 1-6

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se à sua terra e os discípulos acompanharam-no.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: «De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos?
Não é Ele o carpinteiro, Filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?». E ficavam perplexos a seu respeito.
Jesus disse-lhes: «Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa».
E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.

 

2024-06-23

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XII Domingo do Tempo Comum, 23 junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em junho de 2021)

 

  

Evangelho (Mc. 4,35-41)

Naquele dia, ao cair da tarde,

Jesus disse aos seus discípulos:

«Passemos à outra margem do lago».

Eles deixaram a multidão e levaram Jesus consigo na barca em que estava sentado.

Iam com Ele outras embarcações.

Levantou-se então uma grande tormenta e as ondas eram tão altas que enchiam a barca de água.

Jesus, à popa, dormia com a cabeça na almofada.

Eles acordaram-n’O e disseram:

«Mestre, não Te importas que pereçamos?»

Jesus levantou-Se, falou ao vento imperiosamente e disse ao mar:

«Cala-te e está quieto».

O vento cessou e fez-se grande bonança.

Depois disse aos discípulos:

«Porque estais tão assustados? Ainda não tendes fé?»

Eles ficaram cheios de temor e diziam uns para os outros:

«Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?»

Palavra da salvação.

 

DIÁLOGO

Esta travessia de barco começou logo a seguir a Jesus ter ensinado, contando parábolas, que o poder do Reino de Deus está por vezes escondido, e que também pode ser tão abundante que ultrapassa a nossa capacidade de compreensão.

Depois de ensinar, Jesus pediu aos discípulos que atravessassem o Mar da Galileia, dirigindo-se para o território com população maioritariamente pagã

Neste relato, a combinação da fúria da natureza com o sono de Jesus foi suficiente para minar a confiança dos discípulos.

Jesus dormia com a cabeça encostada na almofada de couro que era fixa na popa das embarcações, onde quem era mais importante podia descansar e reganhar forças.

Marcos aponta a tentação dos discípulos de julgarem o sono de Jesus como um sinal de indiferença.

Eles acordaram-no com a acusação desesperada: “Mestre, não Te importas que pereçamos?»

Questionam Jesus como sendo um companheiro que na barca no meio da tempestade não tinha, como todos os outros, feito a sua tarefa, que poderia ter sido segurar bem os remos, ou recolher as velas ou governar o leme.

No entanto, o medo da tempestade é um sinal de sabedoria, fruto da experiência de pescadores, que sabiam bem que as tempestades devem ser levadas muito a sério.

Quando se está num barco, no qual se está a perder o controlo, quando o vento sopra violentamente e as ondas são tão altas que passam por cima do barco, o medo de naufragar deve levar toda a tripulação a tomar rapidamente as medidas possíveis.

Não é por causa deste medo, natural e saudável, que Jesus vai pôr em causa a fé dos discípulos.

Quando Jesus é acordado pelos discípulos aflitos, o que é que Ele faz?

Jesus age com a serenidade de quem domina a situação.

Vai agir como só o próprio Deus poderia ter agido. Ele dirige-se ao vento e ao mar e ordena-lhes para ficarem calados. As ondas amansam e a tempestade é acalmada. É o Filho de Deus cuja palavra tem o poder de Deus Criador, Senhor do Universo.

O poder de Deus manifesta-se em Jesus.

Jesus, na sua total confiança em Deus Pai, acredita que Ele lhe dará a capacidade de comandar o mar e o vento, quando for necessário.

Mas depois de Jesus ter atuado, de novo tiveram medo, não já por causa da tempestade, mas por terem visto Jesus a ser capaz de a dominar apenas com as suas próprias palavras.

Agora estão de novo atemorizados, e são levados a perguntar: "Quem é este homem que até o vento e o mar Lhe obedecem?»

Nenhum deles tinha sequer imaginado que Jesus pudesse ter um poder para dominar o mar e o vento.

Ficaram cheios daquilo a que a Bíblia chama “o Temor de Deus”.

Os discípulos saem dum medo diante da natureza, para outro medo ainda maior, cheio de espanto, ao verem o poder divino, sobre-humano de Jesus.

E, nesse momento, dirige-se aos discípulos, não com ordens como fizera com o mar e o vento, mas com duas perguntas:

«Porque estais tão assustados?” e “Ainda não tendes fé?»

É-lhes muito difícil acreditar que Jesus tem esse poder divino e esta questão «Quem é este homem, que até o vento e o mar Lhe obedecem?» irá acompanhá-los daqui para a frente no seu caminho com Jesus.

Também nós somos tentados a pensar e a sentir que Jesus parece estar a dormir.

Podemos também dizer-Lhe, como os discípulos disseram: "Senhor Jesus, estamos perdidos; não Te interessa o que se está a passar?"

Quantas situações a nível pessoal, na Igreja e na vida do Mundo

em que sentimos que somos completamente impotentes para as resolver e que vão ser causadoras de muito Mal, e que se podem prolongar por muitas gerações e por tempo que parece sem fim.

A nossa fé no poder sobrenatural de Jesus Ressuscitado é então profundamente abalada.

É a nossa fé em Jesus que precisa de ser vivificada, que precisa de ser despertada.

Senhor Jesus, Filho do Deus Vivo, no meio das tempestades, aumenta a nossa confiança em Ti.

 

    frei Eugénio, OP (20.06.2021)

2024-06-16

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XI Domingo do Tempo Comum, 16 junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em junho de 2021)

 

  

Evangelho (Mc. 4,26-34)

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 

«O reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra.

Dorme e levanta-se, noite e dia, enquanto a semente germina e cresce, sem ele saber como.

A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga, por fim o trigo maduro na espiga.

E quando o trigo o permite, logo se mete a foice, porque já chegou o tempo da colheita».

Jesus dizia ainda: «A que havemos de comparar o reino de Deus? Em que parábola o havemos de apresentar?

É como um grão de mostarda, que, ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes que há sobre a terra; mas, depois de semeado, começa a crescer e torna-se a maior de todas as plantas da horta, estendendo de tal forma os seus ramos que as aves do céu podem abrigar-se à sua sombra».

Jesus pregava-lhes a palavra de Deus com muitas parábolas como estas, conforme eram capazes de entender. E não lhes falava senão em parábolas; mas, em particular, tudo explicava aos seus discípulos.


 

DIÁLOGO

Neste domingo, a liturgia católica volta ao chamado tempo ordinário e comum.

Depois da Quaresma, celebramos a Páscoa, a Ascensão e o Pentecostes e mais as duas grandes festas da Santíssima Trindade e do Corpo e Sangue de Cristo.

No entanto, mesmo quando o nosso calendário litúrgico anuncia que voltamos para um tempo de normalidade, muitos de nós continuamos ansiosos pela libertação deste tão estranho período que começou a 11 de Março de 2020, quando a COVID-19 foi oficialmente declarada uma pandemia global.

O Evangelho de hoje convida-nos a apreciar os processos simples e extraordinários da criação, com a primeira parábola da semente que germina e cresce por si mesma. A terra produz por si, primeiro a planta, depois a espiga e por fim o trigo maduro na espiga.

Foi Marcos que inventou o género literário a que chamamos "Evangelho" (Boa Nova, Boa Notícia) dirigido sobretudo a pessoas que sofrem perseguição e desilusão.

A comunidade de Marcos tinha pensado que o fim do mundo, com a vinda vitoriosa do Messias Salvador estava próximo.

Mas a realidade que estavam a viver era muito diferente e por isso estavam profundamente abalados com a demora do regresso de Jesus Ressuscitado, na sua Glória divina.

Além disso, a sua fé era alimentada pelas profecias e pela sabedoria do Antigo Testamento que proclamava que os bons  servidores de Deus seriam felizes e recompensados por Deus.

Em vez disso, os cristãos estavam a ser martirizados em Roma e rejeitados em Jerusalém.

Estas realidades tão duras e incompreensíveis criaram muitas dúvidas e incertezas entre os que queriam ser cristãos.

Em contraste com a orientação de que o nosso objetivo é sermos bem sucedidos no que fazemos para agradar a Deus, esta parábola centra-se no poder divino que está sempre a atuar, dando vida às sementes do reino de Deus.

O agricultor nesta parábola nada mais faz do que plantar.

Depois disso, tudo o mais advém misteriosamente da ação de Deus.

Esta parábola leva os ouvintes a lembrarem-se de que eles não são os donos dos caminhos para seguir o que Jesus tinha ensinado como sendo os caminhos de Deus.

São chamados a confiar em Deus para além dos limites da sua compreensão.

Marcos escreveu esta parábola para uma comunidade desiludida e assustada.

O seu objetivo não era dizer-lhes para se sentarem e não fazerem nada, mas para se lembrarem de como o poder de Deus é prodigioso e gerador de vida.

Como eles, somos convidados a confiar na dinâmica do Amor divino em todas as situações que se vão desenrolando na nossa vida.

Nesta altura em que esperamos que seja anunciado nos próximos meses o fim da pandemia de  COVID-19, o Evangelho convida-nos a imitar o agricultor da parábola «da semente que germina e cresce, sem ele saber como” e a estarmos atentos às maravilhas escondidas que Deus está a fazer mas cujos efeitos se entendem e se tornam sinais de esperança num mundo melhor.

O que parece uma utopia para um futuro desconhecido, vai-se tornado numa grande multiplicidade de realidades vividas no presente.

É este o segredo do Reinado de Deus que Jesus nos oferece.

 

         frei Eugénio, O.P. (13.06.2021)

 

 

2024-05-26

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo da Santíssima Trindade, 26 maio, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em maio de 2021)

 

  

Evangelho (Mt. 28,16-20)

Naquele tempo,

os onze discípulos partiram para a Galileia,

em direção ao monte que Jesus lhes indicara.

Quando O viram, adoraram-n’O;

mas alguns ainda duvidaram.

Jesus aproximou-Se e disse-lhes:

«Todo o poder Me foi dado no Céu e na terra.

Ide e fazei discípulos de todas as nações,

batizando-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo,

ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei.

Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos».

Palavra da salvação.

 

 

DIÁLOGO

 

Certamente estão de acordo que é muito difícil pregar sobre a Santíssima Trindade. É um mistério tão imenso!

 

Deus é o Totalmente-Outro, misteriosamente insondável:

as nossas palavras, os nossos conceitos, as nossas imagens são incapazes de O dizer plenamente, quanto mais de O definir.

 

A liturgia deste Domingo, coloca diante dos nossos olhos o mistério da Santíssima Trindade.

Fá-lo propondo-nos um texto do Evangelho de São Mateus que acabámos de ler:

"Fazei discípulos de todas as nações;

batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.»

 

Esta é a única passagem em todo o NT onde encontramos esta expressão.

 

Esta fórmula trinitária que o evangelista coloca na boca de Jesus Ressuscitado, na realidade deve ter sido o fruto de uma longa reflexão das primeiras comunidades cristãs sobre o mistério de Deus que se revelou em Jesus, o Cristo.

 

No panorama das religiões do mundo, a imagem trinitária de Deus, ligada ao reconhecimento de Jesus como Seu Filho, é certamente a característica mais marcante da fé cristã.

 

Esta expressão da nossa fé separa-nos do judaísmo, onde temos as nossas raízes: «Só o Senhor é Deus, tanto no alto do céu, como em baixo sobre a terra, e não há outro.» Esta passagem do Deuteronómio (Dt 4, 38) deixa esta questão bem clara.

 

O Islão também não reconhece a Santíssima Trindade.

Também nas grandes tradições religiosas asiáticas o conceito de Deus, Pai, Filho e Espírito Santo está longe de ser aceite e reconhecido.

 

Para os cristãos Deus não é uma entidade unipessoal, mas tripessoal: Pai, Filho e Espírito Santo, como se pode ler no texto de São Mateus.

 

Foi isto que os primeiros discípulos experimentaram, primeiro na sua relação com Jesus, acompanhando-O nos caminhos da Palestina até à morte na cruz, e depois, na experiência de Jesus Ressuscitado, presente com eles, até à Ascensão.

 

Mas estas experiências levaram-nos a fazer muitas perguntas e a ter de dialogar sobre o próprio Jesus:

«Quem é afinal Jesus?», «Jesus é Deus?»

«O Filho está abaixo do Pai ou é igual a Ele?»

 

E também a interrogarem-se sobre Deus:

«O que é que Jesus diz sobre quem é Deus e qual é a Sua Vontade?» E também a interrogarem-se: «Quem é este Espírito que Jesus nos enviou?»; «O Espírito Santo também é uma Pessoa divina?» e muitas outras questões.

 

Gradualmente, através de dúvidas, tentativas e erros, a comunidade cristã acabou por dizer de Jesus:

Ele é o Filho de Deus Pai e Pai e Filho continuam a agir através do Seu Espírito.

 

Na oração pessoal e na meditação, assim como na liturgia e na oração em comunidade, foi alcançada uma síntese vivida da fé em Deus Pai, Filho e Espírito Santo.

 

As relações das três Pessoas entre si e na relação com os fiéis passam a ter um lugar central na fé cristã.

 

A salvação anunciada é-nos dada numa nova vida, numa comunhão íntima com Deus, que é Pai, Filho e Espírito Santo.

 

Deus não se contentou em nos fazer saber que Ele existe, o que já seria muito bom, mas revelou-nos que há três Pessoas em ação no mundo para salvar toda a humanidade: 

o Pai que nos ama e que quer a nossa salvação e que está também na origem da mesma; 

o Filho, enviado pelo Pai, em quem a nossa salvação é realizada através da sua Morte e Ressurreição, 

e o Espírito Santo que habita nos nossos corações, e nos faz viver e rezar como filhas e filhos de Deus.

 

O mistério da Santíssima Trindade na vida concreta de quem tem fé traduz-se numa relação viva e vivificante com o Pai, o Filho e o Espírito Santo unidos em comunhão num só Deus e, como diz São Pedro, na sua carta nos torna "pessoas participantes da natureza divina".

 

Este segredo pessoal de Deus que nos é revelado e chega aos nossos corações é evocado cada vez que fazemos o sinal da Cruz, dizendo: "Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo".

 

Fazermos este sinal com simplicidade e dizermos «Em nome de…» é atualizarmos o mistério de Deus presente nas nossas vidas e na Igreja, seu povo.

 

É o mistério da vida de alguém que acredita que ser filha ou filho dum Pai Divino que a(o) ama e que Jesus nos deu a conhecer e que graças ao dom do Espírito Santo habita nos nossos corações, e nos dá

a própria vida de Jesus Ressuscitado.

 

Que a fé no nosso Deus, cujo rosto é trinitário, seja para todos nós uma fonte de luz e de vida nova, ao longo dos dias que nos são dados viver.

 

frei Eugénio, op (31.05.2021)