2024-09-29

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXVI Domingo do Tempo Comum, 29 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravação não disponível)

 

 

EVANGELHO   (Mc 9, 38-48)

Naquele tempo, João disse a Jesus:
«Mestre, nós vimos um homem a expulsar os demónios em teu nome
e procurámos impedir-lho, porque ele não anda connosco».
Jesus respondeu:
«Não o proibais; porque ninguém pode fazer um milagre em meu nome
e depois dizer mal de Mim. Quem não é contra nós é por nós.
Quem vos der a beber um copo de água, por serdes de Cristo,
em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa.
Se alguém escandalizar algum destes pequeninos
que crêem em Mim, melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço
uma dessas mós movidas pró um jumento
e o lançassem ao mar.
Se a tua mão é para ti ocasião de escândalo, corta-a;
porque é melhor entrar mutilado na vida
do que ter as duas mãos e ir para a Geena,
para esse fogo que não se apaga.
E se o teu pé é para ti ocasião de escândalo, corta-o;
porque é melhor entrar coxo na vida
do que ter os dois pés e ser lançado na Geena.
E se um dos teus olhos é para ti ocasião de escândalo, deita-o fora;
porque é melhor entrar no reino de Deus só com um dos olhos
do que ter os dois olhos e ser lançado na Geena,
onde o verme não morre e o fogo não se apaga».

 

DIÁLOGO

O Evangelista Marcos continua a relatar-nos a etapa fundamental da vida de Jesus a caminho de Jerusalém, onde irá sofrer a Paixão e Crucifixão, às quais se seguirá a Ressurreição Pascal. Nesta etapa decisiva os discípulos continuam a manifestar uma grande incompreensão acerca das prioridades de Jesus na sua pregação.

No relato de hoje, o apóstolo João vai queixar-se a Jesus do sucesso de um homem que expulsava demónios em Seu nome, mas sem pertencer ao grupo. João fala em nome dos discípulos. Porque é que eles estão descontentes com o trabalho desse homem?

Esse homem estava a combater o mal, expulsando demónios, mas eles queriam impedi-lo.

Já no tempo de Moisés, Deus tinha partilhado o poder de profetizar de Moisés com 70 anciãos que se puseram a profetizar, mas isso não durou muito. Ora, dois homens que tinham ficado no acampamento, sem terem ido com os 70 anciãos também receberam o espírito e começaram a profetizar. Josué auxiliar de Moisés há muitos anos insiste em que ele os faça calar, o que Moisés recusa.

Também Jesus perante o apelo de João, diz aos discípulos: “Quem não é contra nós é por nós.” Se o homem tinha esse poder, é porque Deus lho tinha dado. Jesus quer que os seus discípulos tenham presente que o poder e a autoridade que tinham recebido vinha de Deus para fazerem a Sua Vontade.

Jesus deu-lhes poder para servirem o Reino de Deus. Não deviam desviar esse poder para os seus próprios interesses. A Igreja não é proprietária da força de salvação de Jesus. A Igreja deve estar atenta ao Espírito de Deus (Espírito Santo) que felizmente sopra onde quer, ultrapassando todas as fronteiras que lhe queiram impor.

O que é pedido aos discípulos é que reconheçam a obra de Deus, mesmo onde menos se espera. O Espírito que lhes é dado, inspira liberdade, imaginação e criatividade, que desconcerta e surpreende. Por isso, a graça de Deus não está confinada aos instrumentos que a Igreja utiliza, como os sacramentos, nem é monopólio daqueles nela têm funções hierárquicas.

Jesus diz a João e aos seus companheiros que aquele homem não deve ser impedido de expulsar demónios em Seu nome. Se esse homem pode expulsar o mal em Seu nome, é porque Deus lhe deu esse poder. Ou seja, Jesus quer que os discípulos compreendam que o Espírito não conhece fronteiras e não faz aceção de pessoas.

Jesus chama a atenção para a largueza do Reino de Deus, no qual todos podem participar na luta contra o mal e a exclusão.

Quem cria união e comunhão, sob todas as formas, está assim a colaborar com a construção do Reino.

Jesus quis que os seus discípulos formassem uma assembleia “católica”, que quer dizer, universal, onde cada um pode ter um lugar ativo.

Frei Eugénio, op (26.09.2021)


2024-09-15

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXIV Domingo do Tempo Comum, 15 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em setembro de 2021)

 

 

EVANGELHO   (Mc 8, 27-35)

Naquele tempo, Jesus partiu com os seus discípulos

para as povoações de Cesareia de Filipe.

No caminho, fez-lhes esta pergunta: «Quem dizem os homens que Eu sou?»

Eles responderam:

«Uns dizem João Baptista; outros, Elias; e outros, um dos profetas».

Jesus então perguntou-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»

Pedro tomou a palavra e respondeu: «Tu és o Messias».

Ordenou-lhes então severamente que não falassem d’Ele a ninguém.

Depois, começou a ensinar-lhes

que o Filho do homem tinha de sofrer muito, de ser rejeitado pelos anciãos,

pelos sumos sacerdotes e pelos escribas;

de ser morto e ressuscitar três dias depois. E Jesus dizia-lhes claramente estas coisas.

Então, Pedro tomou-O à parte e começou a contestá-l’O.

Mas Jesus, voltando-Se e olhando para os discípulos, repreendeu Pedro, dizendo: «Vai-te, Satanás,

porque não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens».

E, chamando a multidão com os seus discípulos, disse-lhes:

«Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.

Na verdade, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á;

mas quem perder a vida, por causa de Mim e do Evangelho, salvá-la-á».

 

DIÁLOGO

Este diálogo de Jesus com os apóstolos é seguramente um dos mais importantes do NT. 

Passa-se numa ocasião decisiva da vida de Jesus, uns meses antes da sua morte.

Jesus perguntou primeiro aos seus discípulos:

“Qual é a opinião que as pessoas têm acerca de Mim?

Ao terem de responder sobre as várias opiniões populares,

os discípulos são levados por Jesus a refletir, eles também, sobre o que é que eles próprios pensam sobre quem é Jesus.

E a pergunta direta veio logo a seguir: “E para vocês, quem é que Eu sou?”

Pedro tomou a dianteira e respondeu: “Tu és o Messias”, isto é “o libertador do povo” que os judeus esperavam. Em grego: “Tu és o Cristo”.

Cristo é a tradução da palavra grega khristos que quer dizer ”Ungido” ou “Escolhido por Deus”.

Pedro deu uma resposta certíssima, mas faltava ver se ele compreendia bem o que é queriam dizer as palavras certas com que respondeu

Mas o diálogo não podia ficar por aqui.

Pedro podia estar muito satisfeito por ter acertado na resposta, mas o que ele entendia por “Messias”, por “Cristo”, por “Salvador prometido”, como vamos ver, era afinal o oposto do que Jesus entendia como sendo a missão que Deus-Pai lhe tinha dado como Messias.

Jesus começou então a apresentar aos discípulos, abertamente, o que lhe iria acontecer nos tempos que se iam seguir: os grandes sofrimentos, a rejeição por parte dos mais responsáveis, a condenação, a tortura e a morte e três dias depois a ressurreição, a vitória sobre a morte e o desamor.

Jesus ensinou-lhes que tais acontecimentos até à sua ressurreição, não eram uma fatalidade, mas um caminho incompreensível, que Deus-Pai queria que Ele seguisse.

Ora, Pedro, apesar da resposta certa que tinha dado, não conseguia aceitar que o “Messias-Salvador” fosse passar por tudo isso.

Esse cenário com fraqueza, rejeição e morte na cruz, não correspondia em nada à imagem que os judeus tinham do único Deus que seria enviado para salvar Israel.

As pessoas que esperavam que Deus castigasse os que que praticavam o mal e recompensasse os bons, não podiam aceitar a ideia de que o Enviado de Deus pudesse ser derrotado e morto.

Então, com o seu ímpeto habitual, Pedro chamou Jesus à parte, e cheio de amizade, repreendeu-o:

«Que conversa é essa Mestre? A partir de agora e, tendo em conta que és mesmo o Messias, não há inimigos que nos ponham as mãos em cima, a tua força do Alto vence-os a todos!”

Na sua lógica, o Messias tinha todo o poder de Deus para derrotar os inimigos, e por isso quer convencer Jesus a corrigir o caminho que lhes tinha anunciado que ia seguir.

Como é que Jesus respondeu a esta iniciativa de Pedro?

”Vai-te Satanás! porque não compreendes as coisas de Deus,

mas só as dos homens».

Jesus é duríssimo para com Pedro e diz-lhe: ”Vai-te Satanás!”, que são as mesmas palavras que Jesus dirigiu ao Demónio quando este o foi tentar no deserto.

E, isto é dito, pouco depois de o ter elogiado pela resposta certíssima que tinha dado sobre quem Ele era.

Habitualmente as pessoas consideram que a atitude mais grave de Pedro foi ter negado três vezes que era discípulo de Jesus, quando este estava a ser condenado à morte por crucifixão.

Mas nessa ocasião, quando Jesus ia com a cruz às costas, dirigiu simplesmente um olhar cheio de misericórdia para Pedro, sem lhe dizer uma só palavra. E esse olhar foi compreendido por Pedro que foi chorar, profundamente arrependido.

Mas com atitude, Pedro, com toda a amizade queria afastar Jesus do caminho que o levaria à condenação, à tortura e à morte por crucifixão, onde está a gravidade a ponto de Jesus lhe ter gritado: ”Vai-te  Satanás!”

Pedro era o apóstolo em quem Jesus tinha maior confiança e a quem tinha dado a maior responsabilidade. Era precisamente Pedro que, com a melhor das intenções, O estava a procurar convencer que utilizasse os seus poderes de Messias, para destruir os planos dos que O queriam condenar à morte.

Pedro, o homem de confiança de Jesus, estava a tentá-lO, para o afastar da Vontade de Deus.

Esta conversa é uma das mais importantes dos Evangelhos.

E porquê?

Porque desde o tempo de Jesus até aos nossos dias, caímos na mesma atitude de Pedro: ficamos muito satisfeitos por darmos respostas certas sobre a nossa fé de cristãos, mas falta-nos conhecer bem como é que Jesus viveu para fazer avançar a aventura a que chamou o “Reinado de Deus”.

O que se passou com Pedro demonstra que leva muito tempo a aderir à partilha das prioridades de Jesus.

Jesus perguntou aos seus discípulos quem eles pensavam que Ele era.

Pedro respondeu muito bem: "És o Messias".

Mas o que é que essas palavras significavam para ele?

Pela atitude que Pedro teve, depois de ter recebido o ensinamento de Jesus sobre o que lhe iria acontecer, constatamos que ele pensava num Messias poderoso que devia usar o Seu poder, destruindo as forças do Mal.

Não tinha ainda compreendido que Jesus era um Messias cuja força passava pela sua fraqueza.

O Deus que descobrimos, graças a Jesus, não esmaga o Mal, mas em Jesus, seu Filho e seu Enviado, transforma o Mal em Bem.

Jesus não escapou à cruz, mas revelou a incapacidade de o Mal ter a última palavra, para vencer com a Vida e com o Amor.

E hoje?

A questão que Jesus colocou aos discípulos continua a ser decisiva para nós.

Como vamos responder à pergunta direta que Jesus nos faz:

“E para ti, quem é que Eu sou?”

O que é que esperamos de Jesus nas nossas interações com Deus e de Deus connosco?

Sabendo que Jesus é um Libertador que não evitou o sofrimento, mas que o transformou, será que ainda estamos dispostos a continuar a ser seus discípulos e a segui-Lo na confiança e no modo de viver que foi o d’Ele?

 

frei Eugénio, op (12.09.2021)


2024-09-07

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXIII Domingo do Tempo Comum, 8 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em setembro de 2021)

 

 

EVANGELHO (Mc. 7, 31-37)

Naquele tempo, Jesus deixou de novo a região de Tiro e, passando por Sidónia, veio para o mar da Galileia, atravessando o território da Decápole.
Trouxeram-Lhe então um surdo que mal podia falar e suplicaram-Lhe que impusesse as mãos sobre ele.
Jesus, levando-o a sós para longe da multidão, meteu-lhe os dedos nos ouvidos
e com saliva tocou-lhe a língua.
Depois, erguendo os olhos ao Céu, suspirou e disse-lhe:
«Effathá», que quer dizer «Abre-te».
Imediatamente se abriram os ouvidos do homem, soltou-se-lhe a prisão da língua
e começou a falar corretamente.
Jesus recomendou que não contassem nada a ninguém.
Mas, quanto mais lho recomendava, tanto mais intensamente eles o apregoavam.
Cheios de assombro, diziam: «Tudo o que faz é admirável: faz que os surdos oiçam e que os mudos falem».

DIÁLOGO

O Evangelho de hoje fala-nos de outro milagre de Jesus. Podemos imaginar como se passou.
Vemos Jesus a fazer uma sucessão de gestos simbólicos.
Marcos diz-nos que Jesus levou o surdo para o lado, a sós para longe da multidão.
A palavra utilizada para "o levar de lado (apo-lambano) é geralmente traduzida como "receber" em vez de "levar". Ficamos assim com a impressão que Jesus ao afastar-se com o homem, estava a recebê-lo na sua companhia privada, para um encontro mais pessoal, que não podia acontecer no meio de uma multidão.
Jesus realizou então a cura, colocando os seus dedos nos ouvidos do homem e pondo a sua própria saliva na sua língua.
Esses gestos de cura eram típicos do meio cultural de Jesus.
No entanto, a vontade de tocar uma pessoa doente era um sinal de solidariedade e o partilhar a sua própria saliva com o homem, era um gesto de intimidade especial.
Depois de fazer estes gestos, Jesus assumiu uma atitude de oração, de relação com Deus Pai, “Ergueu os olhos ao Céu” e “suspirou”, que no original significa rezar a pedir com muita intensidade. São Paulo (Rom 8, 26) diz que é o modo de fazer do Espírito Santo “que intercede por nós com suspiros sem palavras” .
Então Jesus com a intensidade dum forte suspiro, diz “Effatha!”, uma palavra em aramaico, a língua que Jesus falava, que se traduz "Abre-te".
Imediatamente o surdo-mudo se abriu à comunicação, ouvindo e falando.
Jesus não diz aos ouvidos "Abram-se" e à boca "Abre-te". É ao deficiente que diz "Abre-te".
É como se Jesus lhe tivesse dito: "Ouve, mas não basta ouvires palavras, também tens de ouvir, com o coração». E completasse: “Fala, mas não basta dizeres palavras, é preciso que também comuniques”.
O evangelista Marcos tem o cuidado de nos dizer que o falar do homem só se tornou compreensível depois de os seus ouvidos terem sido abertos.
Tanto a nível natural como a nível espiritual, a audição deve preceder a fala.
Até a sabedoria popular diz que Deus nos deu dois ouvidos e uma boca para escutarmos duas vezes mais do que falamos.
Jesus ensina-nos aqui que o importante nas relações humanas é haver encontro de pessoas.
Jesus quer que o nosso coração e toda a nossa pessoa escutem as palavras que Ele nos dirige.
As suas palavras são-nos dirigidas pessoalmente na intimidade dos nossos corações, como o fez com o surdo-mudo.
Jesus vem para curar e salvar a pessoa inteira, para dar sentido às nossas vidas, sejam quais forem os acontecimentos que as vão marcando.
Que a palavra que Jesus disse com toda a sua energia “Effatha”, possa continuar a ser ouvida no nosso íntimo, enchendo-nos de confiança que o Amor de Deus pode realizar milagres inimagináveis, para bem de toda a humanidade, através de cada um de nós.

     frei Eugénio, op (2021.09.09)

2024-08-31

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXII Domingo do Tempo Comum, 1 de setembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em agosto de 2021)

 

 

 

EVANGELHO   Mc 7,1-8, 14-15, 21-23

Naquele tempo, reuniu-se à volta de Jesus um grupo de fariseus e alguns escribas

que tinham vindo de Jerusalém.

Viram que alguns dos discípulos de Jesus comiam com as mãos impuras, isto é, sem as lavar.

Na verdade, os fariseus e os judeus em geral

não comem sem ter lavado cuidadosamente as mãos, conforme a tradição dos antigos.

Ao voltarem da praça pública, não comem sem antes se terem lavado.

E seguem muitos outros costumes a que se prenderam por tradição,

como lavar os copos, os jarros e as vasilhas de cobre.

Os fariseus e os escribas perguntaram a Jesus:

«Porque não seguem os teus discípulos a tradição dos antigos, e comem sem lavar as mãos?»

Jesus respondeu-lhes:

«Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito:

‘Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim.

É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos’.

Vós deixais de lado o mandamento de Deus, para vos prenderdes à tradição dos homens».

Depois, Jesus chamou de novo a Si a multidão e começou a dizer-lhe:

«Escutai-Me e procurai compreender. Não há nada fora do homem

que ao entrar nele o possa tornar impuro.

O que sai do homem é que o torna impuro; porque do interior do homem é que saem as más intenções:

imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, cobiças, injustiças, fraudes, devassidão, inveja, difamação, orgulho, insensatez.

Todos estes vícios saem do interior do homem e são eles que o tornam impuro».


 

DIÁLOGO

A passagem do Evangelho que acabamos de ler, começa com uma discussão de Jesus com as autoridades da época (fariseus e escribas) sobre a lavagem das mãos antes das refeições.

Para os judeus do tempo de Jesus, a lavagem não era uma prática sanitária, uma questão de higiene, mas uma norma religiosa que não podia deixar de ser cumprida

Quando dizemos «pureza», «puro», queremos referir-nos ao que contrasta com «sujo», «infestado», «manchado», «poluído».

Todas estas situações se referem a diversos ambientes do mundo físico.

Fala-se, por exemplo, de um «caminho imundo», de «ar poluído» , de «casa infestada».

Mas a discussão de Jesus, não foi sobre a higiene, mas sobre a noção de pureza ritual. Esta noção é bastante difícil de compreender, pois não tem a ver com a sujidade, nem com a falta de limpeza.

A maioria dos rituais de purificação existiam muito antes que se soubesse que os micróbios causam doenças.

Além disso, mesmo as pessoas que são exigentes com a limpeza pessoal e dos objetos, também elas têm de praticar esses ritos.

A chamada pureza ritual é a condição em que as pessoas devem estar para poderem participar em determinados atos religiosos, especialmente os de adoração duma divindade.

As condições para se considerar que se está apto para pratica do culto variam de religião para religião.

Uma grande parte dessas impurezas podem, no entanto, ser purificadas através dos chamados ritos de purificação sobretudo em relação com a água, mas também com rituais mais elaborados.

Alguns exemplos: Dentro do Budismo japonês, uma bacia chamada de «tsukubai» é fornecida à entrada dos templos para que os crentes façam abluções. Também é usado para a cerimónia do chá.

No Hinduísmo, uma parte importante da purificação ritual é o banho de todo o corpo, especialmente em rios considerados sagrados como o Ganges.

No Judaísmo e no Islão as leis da pureza ritual dizem respeito a alimentos, a líquidos, a roupas e utensílios e a pessoas contactadas pelos crentes.

No Cristianismo, encontramos variados costumes e tradições, segundo as épocas e as zonas do mundo.

Lembro apenas as mães que davam à luz um filho, não podiam participar nos batismos dos filhos.

A não-participação em algumas missas dominicais, impedia os fiéis de participar na comunhão nas Eucaristias seguintes.

As mulheres sem um véu na cabeça não podiam entrar numa igreja e ainda menos participar numa Eucaristia ou cerimónia litúrgica.

Uma das principais barreiras do relacionamento entre judeus e os não-judeus (os chamados «pagãos») eram precisamente as normas sobre o «puro» e o «impuro».

Jesus vai proclamar de modo claro:” Não há nada fora do homem que ao entrar nele o possa tornar impuro.”

Nenhuma sujidade «material» pode tornar o homem impuro no sentido moral, ou seja, interior.

A pureza moral tem a sua fonte exclusiva no interior do homem: provém do «coração».

Já os profetas, os sábios e os salmistas, proclamavam que os rituais de purificação e as cerimónias no Templo não podiam obter a pureza moral.

Não se deve colocar ao mesmo nível, o que é secundário, neste caso, as tradições humanas, com o que é essencial na vida moral: fazer a Vontade de Deus, pôr em prática o que Ele quer, para o bem de todas as pessoas e da criação inteira.

Em vez de centrarmos as nossas energias para nos deixarmos abrir ao que Deus quer, que podemos conhecer pela sua Palavra, sobretudo graças a Jesus, virámo-nos para nós próprios, procurando fazer determinados gestos e rituais religiosos, ficando satisfeitos por os termos concretizado bem.

Esta auto-satisfação nos rituais bem cumpridos, leva-nos também a olharmos com certa superioridade para os que não os cumprem.

Ora o ensinamento de Jesus, orienta-nos para a purificação do nosso interior, através do nosso modo de amar ou desamar o próximo, como Jesus viveu e ensinou.

Como o apóstolo Tiago dirá mais tarde: "Diante de Deus nosso Pai, a forma pura e irrepreensível de praticar a religião é ajudar os órfãos e as viúvas na sua aflição, e mantermo-nos livres da corrupção no meio do mundo" (Tiago 1, 27).

Jesus propõe-nos que despertemos a nossa consciência, para fazermos discernimentos mais conformes com o Seu Evangelho

Demasiadas vezes, deixámo-lo adormecer.

Agimos, sem nos interrogarmos sobre as nossas intenções, nem sobre as consequências para os outros e para nós mesmos, dos nossos atos.

Jesus mostra-nos que no centro da moralidade evangélica está a consciência, que se deve deixar iluminar e guiar pela sua confiança em Jesus e pelo Evangelho.

Jesus quer que atuemos com liberdade interior, por nós próprios, levando a sério as nossas responsabilidades.

Claro que frequentemente não conseguimos agir como Jesus teria feito no nosso lugar. Há todo um caminho de vida a ser feito, há falhas, há erros, há desamor, mas o que conta é procurarmos sempre que a consciência seja iluminada pela Palavra de Deus e que coloquemos nela o nosso coração.

frei Eugénio, op (2021.08.29)


2024-08-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XXI Domingo do Tempo Comum, 25 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em agosto de 2021)

 

 

Evangelho (Jo. 6, 60-69)

Naquele tempo, muitos discípulos, ao ouvirem Jesus, disseram:

«Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?»

Jesus, conhecendo interiormente

que os discípulos murmuravam por causa disso, perguntou-lhes: 

«Isto escandaliza-vos?

E se virdes o Filho do homem

subir para onde estava anteriormente?

O espírito é que dá vida, a carne não serve de nada.

As palavras que Eu vos disse são espírito e vida.

Mas, entre vós, há alguns que não acreditam».

Na verdade, Jesus bem sabia, desde o início,

quais eram os que não acreditavam

e quem era aquele que O havia de entregar.

E acrescentou:

«Por isso é que vos disse: Ninguém pode vir a Mim, se não lhe for concedido por meu Pai».

A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele.

Jesus disse aos Doze:

«Também vós quereis ir embora?»

Respondeu-Lhe Simão Pedro: «Para quem iremos, Senhor?

Tu tens palavras de vida eterna.

Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus».


 

DIÁLOGO

A página do Evangelho de São João que lemos, começa com muitos dos que seguiam Jesus a dizer: «Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?»

A partir de então muitos dos que desejavam ser discípulos de Jesus afastaram-se e não andaram mais com Ele.

Quais seriam essas palavras que Jesus lhes disse que eram tão insuportáveis?

Jesus disse-lhes que Ele era o “pão que desceu do Céu” e que “quem comer a minha carne e beber o seu sangue, permanece em mim e eu nele”.

Estes ensinamentos, se forem entendidos à letra como sendo ‘comer a carne e beber o sangue de uma pessoa humana’ e de ser ‘pão que desceu do Céu são, de facto, incompreensíveis e demasiado difíceis de serem aceites.

Jesus não explica como se tornará carne e sangue, longe disso, e até acrescenta o anúncio da sua ressurreição: "E quando virdes o Filho do Homem subir para onde antes estava?»

João apresenta as reações dizendo simplesmente: “A partir de então, muitos dos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele.”.

O texto grego, à letra, diz: “voltaram para trás”, preferindo voltar ao que conheciam e praticavam antes de ouvirem a pregação de Jesus.

Jesus faz então aos discípulos uma pergunta muito direta: «Também vós quereis ir embora?»

É uma pergunta clara, um pouco como a de um marido que pergunta à sua mulher, ou uma mulher que pergunta ao seu marido: «Amas-me como eu sou, confias em mim?»

Não esperam por explicações, mas pedem apenas um «sim» ou um «não», quer seja expresso por uma palavra, um gesto ou um olhar.

O que importa é ter uma resposta clara. Se a resposta é "sim" é a confiança do outro que é manifestada claramente.

João não indica qual foi o sentimento de Jesus ao ver a debandada dos que o seguiam. O evangelista apenas nos diz que Jesus sabia que alguns discípulos tinham falta de fé e que alguém o iria trair.

É verdade, que Jesus disse aos discípulos, que eles só poderiam vir ter com Ele com a ajuda da graça de Deus.

Mas, podemos pensar: será que Jesus contava que tantos o iriam abandonar e que a multidão iria ficar reduzida apenas a doze?

 Talvez consigamos imaginar a expressão do seu rosto e o seu tom de voz quando perguntou aos apóstolos: «Também vós quereis ir embora?»

 Em todo o Evangelho de João, este é, provavelmente, um dos momentos em que Jesus esteve mais fragilizado.

Assim, São Pedro e os apóstolos quiseram ficar com Jesus, porque tinham total confiança n’Ele.

Os 12 apóstolos, mesmo não tendo compreendido muitos dos ensinamentos e das atitudes de Jesus, confiaram. Abriram-se ao invisível, ao que não compreendiam.

Eles não olhavam para si próprios.

Os seus olhares eram inspirados pelas palavras, ações e atitudes de Jesus, que manifestavam a Vontade de Deus: "Tu tens palavras da vida eterna".

Os apóstolos, pela fé, veem Jesus, homem como eles, a quem podem tocar e com quem comem, como sendo “o Santo de Deus", o Messias Salvador.

O que significa permanecer com Jesus?

Significa que queremos ficar com ele, mesmo quando temos surpresas com que não contávamos, ou temos de seguir caminhos desconhecidos.

São riscos a correr por quem decide ficar com Jesus.

Não se confia em alguém da mesma maneira quando se tem 15, 40 ou 60 anos. Ao longo da vida, temos de ir fazendo novas escolhas.

É como nos casais, onde os dois têm de renovar cada dia os seus «sins », se querem continuar juntos.

Temos de recomeçar cada dia os nossos compromissos.

O que se passou com Jesus e os discípulos naquele tempo do relato do Evangelho, antecipa e anuncia todas as situações de crise, de grandes mudanças, quer na vida pessoal, quer nas comunidades cristãs, quer na Igreja, que são dolorosas, mas que nos põem diante de escolhas a fazer, para permanecermos fiéis a opções tomadas.

Estejamos nós prontos a responder, com uma escolha livre e meditada, à pergunta que Jesus Ressuscitado nos continua a fazer:

«Também vós quereis ir embora?»

Que a nossa resposta possa ser «Para quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.”

E assim, vamos renovando o nosso compromisso pessoal e público com Jesus e o Reinado de Deus, tendo os nossos corações cheios de rostos fraternos.

        frei Eugénio, op (22.08.2021)


2024-08-11

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XIX Domingo do Tempo Comum, 11 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em agosto de 2021)

 

 

 Evangelho (Jo. 6, 41-51)

Naquele tempo, os judeus murmuravam de Jesus, por Ele ter dito: «Eu sou o pão que desceu do Céu».
E diziam: «Não é Ele Jesus, o filho de José? Não conhecemos o seu pai e a sua mãe? Como é que Ele diz agora: "Eu desci do Céu"?».
Jesus respondeu-lhes: «Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que Me enviou, não o trouxer; e Eu ressuscitá-lo-ei no último dia.
Está escrito no livro dos Profetas: "Serão todos instruídos por Deus". Todo aquele que ouve o Pai e recebe o seu ensino vem a Mim.
Não porque alguém tenha visto o Pai; só Aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo: quem acredita tem a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
No deserto, os vossos pais comeram o maná e morreram.
Mas este pão é o que desce do Céu, para que não morra quem dele comer.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».
 

DIÁLOGO

Quando Jesus disse: "Eu sou o pão que desceu do céu", os seus ouvintes compreenderam o suficiente para não o rotularem de louco, por afirmar ser "pão da vida", mas vão distanciar-se e mesmo opor-se, por causa da afirmação «que desceu do Céu», o que queria dizer que Ele se considerava o Enviado de Deus.

 

Ser “pão da vida” quer dizer que é a Pessoa mesmo de Jesus que nos pode fazer viver para sempre, porque Ele é a Palavra de Deus tornada humana.

 

Jesus é Aquele que recebe tudo de Seu Pai: a sua missão, as suas obras, as suas palavras, até mesmo os seus discípulos.

 

Se Jesus é o único que revela completamente Deus, é porque é o único que conhece perfeitamente Deus-Pai.

 

Na ocasião da sua vida, em que Jesus fez esta pregação, estava a encontrar um ambiente de cada vez maior hostilidade e agressividade da parte das autoridades religiosas e políticas, a que o evangelista João chama “judeus”. Não se refere a todo o povo hebreu, mas somente às autoridades de Jerusalém que tinham tomado posição contra Jesus, até conseguirem que Ele fosse condenado à morte por crucifixão.

 

De modo mais amplo, o evangelista quer referir-se a todos os que recusaram acolher e escutar Jesus.

Os “judeus” falavam do pai de Jesus, José. Mas Jesus falava do seu verdadeiro Pai. Por sua vez, é o Pai que leva as pessoas até Jesus, para que elas reconheçam que Ele é o alimento que desceu do Céu.

 

As autoridades estavam firmemente convencidas que ninguém que eles conhecessem com origens tão humildes como as de Jesus, pudesse ser o Messias de Deus. Recusavam-se a acreditar que Jesus, um homem demasiado conhecido em Nazaré, pudesse ser o Enviado de Deus.

Ao mesmo tempo, nessa recusa, também negavam que Deus se pudesse preocupar com eles e que tivesse a iniciativa de revelar algo de novo sobre Ele e o Seu Projeto para o mundo.

 

Lamentavelmente, as pessoas a quem Jesus se dirigiu em Cafarnaum, contentaram-se com “murmurações”, isto é, falar mal de alguém, sem falar diretamente a essa pessoa, num EU-TU, que permita respeito mútuo, mesmo na discordância.

Jesus vai interpelá-los, para que eles deixem a «murmuração» e se decidam a dialogar com Ele acerca dos argumentos em que baseiam a sua oposição. Se o fizessem, poderiam pôr-se em questão e abrir-se ao Enviado de Deus.

 

E a nós, leitores do Evangelho neste tempo em que vivemos, a que é que Jesus nos convida?

Parece-me que antes de mais, Jesus está a desafiar-nos a reconhecermos quanto as nossas «murmurações», com queixas e críticas frequentes sobre o que se passa de mal, podem tornar-se num obstáculo para ouvirmos e acolhermos os convites que Deus nos vai dirigindo, através de pessoas e de acontecimentos.

Murmurar é mais fácil do que acreditar e rezar.

 

Se acreditamos que o Pai de Jesus é também nosso Pai, «Abba», Pai querido, e se acreditamos que Jesus é o Seu Enviado, que veio de junto do Pai, e que nos deixou o Seu Espírito, é a Ele que diretamente que nos podemos dirigir.

Quer nas nossas lágrimas e provações, quer nas situações que nos chegam de mais perto ou de mais longe, com tantos dramas humanos, é a Jesus que nos podemos dirigir, num EU-TU, interpelando-O e questionando-O sobre o que se passa e nos indigna e faz sofrer tantas pessoas, quer fazendo os possíveis por O escutar, com confiança, para acolhermos os seus apelos à nossa colaboração com Ele.

 

A última frase desta passagem do Evangelho é surpreendente:

“E o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo”.

A “carne” de que Jesus fala aqui não é o seu organismo biológico, é toda a sua Pessoa que vive e age através dos seus atos e palavras.

E “comer”, deve ser entendido no seu significado simbólico:

Jesus quer permanecer em nós e nós com Ele (Jo 6,56).

É esta inimaginável intimidade que nos é oferecida, na fé.

 

Deus, no Seu Amor por nós, não desiste de nós. Podemos mesmo dizer, que Deus já não pode viver sem nós!

 

 frei Eugénio, op (07.08.2021)

2024-08-04

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XVIII Domingo do Tempo Comum, 4 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em julho de 2021)

 

 

EVANGELHO  (Jo. 6, 24-35)  

Naquele tempo,
quando a multidão viu
que nem Jesus nem os seus discípulos estavam à beira do lago,
subiram todos para as barcas
e foram para Cafarnaum, à procura de Jesus.
Ao encontrá-l’O no outro lado do mar, disseram-Lhe:
«Mestre, quando chegaste aqui?».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
vós procurais-Me, não porque vistes sinais,
mas porque comestes dos pães e ficastes saciados.
Trabalhai, não tanto pela comida que se perde,
mas pelo alimento que dura até à vida eterna
e que o Filho do homem vos dará.
A Ele é que o Pai, o próprio Deus,
marcou com o seu selo».
Disseram-Lhe então:
«Que devemos nós fazer para praticar as obras de Deus?».
Respondeu-lhes Jesus:
«A obra de Deus
consiste em acreditar n’Aquele que Ele enviou».
Disseram-Lhe eles:
«Que sinal realizas,
para que nós vejamos e acreditemos em Ti?
Que obra fazes?
No deserto os nossos pais comeram o maná,
conforme está escrito:
‘Deu-lhes a comer um pão que veio do Céu’».
Jesus respondeu-lhes:
«Em verdade, em verdade vos digo:
Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu;
meu Pai é que vos dá o verdadeiro pão do Céu.
O pão de Deus é o que desce do Céu
para dar a vida ao mundo».
Disseram-Lhe eles:
«Senhor, dá-nos sempre desse pão».
Jesus respondeu-lhes:
«Eu sou o pão da vida:
quem vem a Mim nunca mais terá fome,
quem acredita em Mim nunca mais terá sede».
Palavra da salvação
 
DIÁLOGO


No diálogo, que acabámos de ler entre Jesus e o povo que o seguia, há a referência ao que aconteceu ao povo judeu na travessia do deserto do Sinai, no êxodo a partir do Egipto, onde os judeus eram escravos, para a Palestina, a terra prometida por Deus.


Durante esse êxodo, o povo, com frequência, fazia reclamações a Deus, através de Moisés. Deus, para minimizar essas queixas, respondia com a oferta diária do “maná”.
O que é o “maná”? 

O “maná” é uma segregação granulosa e aguada, do tamanho de sementes de coentros, de cor branca e com sabor a mel. É produzido   por uma planta quando é picada por um inseto, que naquela época existia desde o Irão até ao Norte de África, incluindo a península do Sinai.
O maná é uma substância muito nutritiva, que permitiu àquele povo alimentar-se e sobreviver durante os longos anos da travessia do deserto.
Muitas vezes este alimento não era reconhecido como uma manifestação do cuidado de Deus pelo Seu povo e um gesto concreto da Sua Providência. 

No Evangelho que lemos, as pessoas que procuravam Jesus e que iam ter com Ele, estavam motivadas pelas necessidades básicas da vida, sobretudo alimentação e saúde.
Como eles, também nós, preferimos o pão, que nos faz viver, sentimo-lo na boca, saboreamo-lo, é concreto e imediato.
Ao passo que Deus e a vida eterna, são frequentemente ideias, que podem vir ou partir, mas que pouca influência têm na vida do dia-a-dia.
Jesus tinha clara consciência que esta ânsia das pessoas em irem ao encontro d’Ele era motivada pela oferta tão generosa e gratuita de pão e de peixe, do dia anterior.

Diante dessas pessoas, Jesus anuncia a sua pretensão fundamental: assim como Eu saciei num só dia a vossa fome do corpo, também posso preencher as profundidades da vossa vida.
Estabelece-se então um diálogo em dois planos diferentes. Perguntam; qual é a obra de Deus?
Mas que coisa, especificamente, dá o Deus de Jesus?
Nada entre as coisas ou os bens de consumo: «Ele não pode dar menos do que dar-se a Si Mesmo.

Mas, dando-se a Si Mesmo, dá-nos tudo» disse Catarina de Sena, na sua sabedoria inspirada.
O dom de Deus é o próprio Deus que se dá.
Jesus responde, apresentando-se Ele próprio como sendo o rosto amigo de Deus.
Jesus declara que é Ele o “Pão da Vida” e que quem for ao seu encontro nunca mais terá fome.


É Ele, só Ele, que dará "o alimento que permanece na vida eterna".
O «Pão da Vida» vem dar vida não só aos hebreus, como aconteceu no deserto, mas às pessoas do mundo inteiro, ou seja, a toda a humanidade. Uma promessa de proporções prodigiosas!
Jesus tinha partilhado os pães com a multidão entusiasmada, que só queria  a repetição do milagre. 

Agora, Jesus revela que o autêntico dom de Deus é o próprio Doador, o enviado de Deus ao mundo, a quem devemos responder, estando onde Ele está, partilhando com Ele a nossa própria vida, «onde quer que Ele vá».
Devemos procurá-lo por Si Próprio, irmos ter com Ele e pormos toda a nossa confiança n’Ele. 

A obra de Deus é uma corrente de amor que entra em cada um de nós e faz florescer as raízes de cada ser humano, para que se torne, como Ele, dador de vida.

No coração da fé está a firme confiança de que a obra de Deus é Jesus: rosto luminoso de ser humano, livre como ninguém, curador do desamor, que vem ao nosso encontro para que nos tornemos no melhor daquilo que podemos ser.

O trabalho da fé em Jesus, é o trabalho da confiança em Jesus, que nos pode transformar por dentro, se nós O deixarmos.
Não é tanto “o que devo fazer”, mas “o que devo deixar fazer em mim” pelo Espírito de Jesus.

Poderíamos dizer que “o trabalho a fazer” é deixarmos que ”Jesus nos trabalhe e nos transforme”.
 
       frei Eugénio, op
(01.08.2021)

2024-07-27

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do XVII Domingo do Tempo Comum, 28 julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (gravado em julho de 2021)

 

 

EVANGELHO  (Jo. 6, 1-15)   


Naquele tempo, Jesus partiu para o outro lado do mar da Galileia, ou de Tiberíades. Seguia-O numerosa multidão, por ver os milagres que Ele realizava nos doentes.
Jesus subiu a um monte e sentou-Se aí com os seus discípulos. Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Erguendo os olhos e vendo que uma grande multidão vinha ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: «Onde havemos de comprar pão para lhes dar de comer?».
Dizia isto para o experimentar, pois Ele bem sabia o que ia fazer.
Respondeu-Lhe Filipe: «Duzentos denários de pão não chegam para dar um bocadinho a cada um».
Disse-Lhe um dos discípulos, André, irmão de Simão Pedro: «Está aqui um rapazito que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Mas que é isso para tanta gente?».
Jesus respondeu: «Mandai-os sentar». Havia muita erva naquele lugar, e os homens sentaram-se em número de uns cinco mil.
Então, Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, fazendo o mesmo com os peixes; e comeram quanto quiseram.
Quando ficaram saciados, Jesus disse aos discípulos: «Recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca».
Recolheram-nos e encheram doze cestos com os bocados dos cinco pães de cevada que sobraram aos que tinham comido.
Quando viram o milagre que Jesus fizera, aqueles homens começaram a dizer: «Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo».
Mas Jesus, sabendo que viriam buscá-l’O para O fazerem rei, retirou-Se novamente, sozinho, para o monte.
Palavra da salvação

 

DIÁLOGO

No Evangelho de hoje, ouvimos um dos relatos sobre a partilha milagrosa do pão que Jesus faz com uma multidão, também chamada de «multiplicação dos pães».
É o acontecimento da vida de Jesus que tem mais relatos, 6, nos quatro Evangelhos, o que manifesta a importância que teve na difusão do cristianismo.
A versão que lemos é a de João e é a mais longa e a mais teológica.
Talvez fosse mais correto falarmos de Jesus que dá pão em grande abundância.
Comecemos com os detalhes que João nos apresenta sobre o acontecimento.
Jesus ergueu os olhos e viu a grande multidão que vinha ao seu encontro.
A iniciativa de dar pão àquelas pessoas nasce do modo como Jesus vê a multidão, como sente e pensa sobre aquelas pessoas que tem diante de Si.
Jesus levantou um certo suspense entre os discípulos, com a pergunta que lhes fez: «Quem é capaz de dar de comer a tanta gente?»
Filipe, dizendo que para dar de comer a tanta gente seriam necessários mais de 200 denários e, sendo o denário o ordenado habitual por um dia de trabalho rural, é como se respondesse que seria impossível de conseguir, tal a quantidade necessária.
Quanto a André, mesmo satisfeito com a descoberta que tinha feito do rapazito, com um farnel de 5 pães e de 2 peixes, vai salientar a sua insignificância para dar de comer àquelas pessoas todas.
Tanto um como o outro, e possivelmente nós também, como eles poderemos concluir que a pergunta de Jesus não tinha resposta possível.
Então, espontaneamente, pensamos que Jesus iria usar o poder que Deus-Pai lhe deu, para multiplicar os pães.
Apesar de habitualmente estes relatos serem chamados de «multiplicação dos pães», nenhuma das versões tem qualquer referência a pão multiplicado.
Dizem apenas que Jesus recebeu uma pequena quantidade de pães e de peixes, que Jesus distribuiu pães e peixes, que a multidão comeu à vontade até ficar saciada e que ainda sobrou  pão.
E então agora nós, leitores, conhecedores dos relatos, será que sabemos resolver a questão que Filipe e André deixaram sem resposta?
Jesus que sabia bem o que ia fazer, ordenou aos discípulos que fizessem sentar as pessoas para irem comer.
Jesus então, não fez uma operação de «multiplicação» dos pães, mas sim de «divisão», isto é, de distribuição e de partilha dos pães e dos peixes.
Na nossa maneira de ver, pensamos na lógica do comprar e dos custos e do vender e dos lucros ou perdas.
Não chegamos a saborear a lógica do que é gratuito, do que «é comprado sem dinheiro».
A maravilha do que Jesus fez, não consistiu em aumentar a quantidade do pão e do peixe, mas em abrir os olhos do coração aos seus discípulos e a nós também, para vermos as pessoas e as situações à maneira d’Ele, que é a lógica do Pai do Céu «que faz nascer o Sol para os bons e para os maus».
Já o profeta Isaías, numa profecia muito conhecida do povo judeu, tinha dito : «Atenção ! Mesmo vós os que não tendes dinheiro, vinde, comprai trigo para comer sem pagar nada. Levai vinho e leite, que é de graça. (Is. 55, 1)
O profeta com a imagem do alimento dado gratuitamente, queria dizer que Yhavé (Deus) convidava Israel a procurar o que alimenta verdadeiramente, que é a Sua Palavra, que sendo escutada, fazia viver de forma durável.
No horizonte está o banquete, que segundo a Bíblia, será oferecido pelo Messias quando vier na sua glória. O povo judeu aguardava com grande esperança apoiada na fé, que chegasse esse momento de plenitude.
Os ouvintes de Jesus conheciam a profecia de Isaías.
A multidão além da fome corporal, tinha fome, isto é, desejava com ardor a chegada desse banquete de abundância para todos.
Jesus, com esta distribuição e partilha, vai oferecer um sinal de que esse banquete, tão esperado, tinha chegado.
Jesus dará mais do que pães maravilhosamente multiplicados,
dará as palavras de Seu Pai, mas mais ainda, vai dar-se a Ele próprio, dando a sua vida, aceitando a condenação e a morte na cruz, passagem para a ressurreição e a vida em plenitude.
Nos relatos, nenhuma palavra sobre o poder de Jesus é dita, como, aliás, nas bodas de Caná também, quando Jesus transformou a água em vinho.
Também nada é dito sobre o processo como Jesus transformou aqueles poucos pães e peixes até satisfazer plenamente tanta gente.
O objetivo de Jesus não é tirar a fome do corpo, mas dar a vida divina que Ele vem oferecer e que quer que seja recebida livremente.
Quem dará uma resposta adequada, será Pedro, mais adiante no Evangelho de João (Jo 6, 68): «A quem iremos nós? Tu tens palavras de vida eterna»
Entrando nesta lógica do poder inesgotável do DOM de Deus, leva-nos a procurarmos viver neste mundo, partindo o pão e dividindo-o, partilhando-o nas formas mais apropriadas.
Teremos, assim, clara consciência de que onde isto acontece, não só se consegue que o necessário chegue para todos, «todos comeram e ficaram saciados» e até também pode haver o «excesso», fruto da superabundância da graça de Deus, quando deixamos que mudem os nossos comportamentos e o modo de ver os outros.
A nossa vocação é oferecer os gestos e as atitudes mais insignificantes das nossas vidas e acreditarmos que, como o rapazito com o pequeno farnel, Deus fará connosco muito mais, por vezes até muitíssimo mais, do que poderíamos pedir ou imaginar.

 
     frei Eugénio
(25.07.2021)