2022-08-14

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho da Soleninada da Assunção da Virgem Santa Maria, 15 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


Evangelho (Lc 1, 39 - 56) 

Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa,
dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judéia.
Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel.
Quando Isabel ouviu a saudação de Maria,
a criança pulou no seu ventre
e Isabel ficou cheia do Espírito Santo.
Com um grande grito, exclamou:

"Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre!"
Como posso merecer
que a mãe do meu Senhor me venha visitar?
Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos,
a criança pulou de alegria no meu ventre.

«Feliz aquela que acreditou no cumprimento

de tudo aquilo que lhe foi dito da parte do Senhor».

Maria disse então:
«A minha alma engrandece o Senhor,
e se alegrou o meu espírito em Deus, meu Salvador,
pois, ele viu a pequenez de sua serva,
eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita.
O Poderoso fez por mim maravilhas
e Santo é o seu nome!
Seu amor, de geração em geração,
chega a todos que o respeitam.
Demonstrou o poder de seu braço,
dispersou os orgulhosos.
Derrubou os poderosos de seus tronos
e os humildes exaltou.
De bens saciou os famintos
despediu, sem nada, os ricos.
Acolheu Israel, seu servidor,
fiel ao seu amor,
como havia prometido aos nossos pais,
em favor de Abraão e de seus filhos, para sempre
».

Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.

 

DIÁLOGO

Para muitas pessoas Maria não é uma mulher de história real, ela é uma personagem da Bíblia, portanto, uma mulher da literatura religiosa e mundial, mas não uma pessoa histórica.

Por outro lado, para os cristãos, ela é a mulher mais importante da história da humanidade.

Por que motivo?

Porque ela concebeu do Espírito Santo o seu filho Jesus Emmanuel, que se apresentou como o Salvador da humanidade?

Ou porque ela é para os cristãos o principal modelo de uma vida humana e cristã plenamente realizada?

Esta festa da Assunção ao Céu de Maria, em corpo e alma, apoia-se no dogma proclamado em 1 de Novembro de 1950, pelo  Papa Pio XII proclamando a Assunção da Virgem Santíssima como dogma de fé (Constituição Apostólica Munificentissimus Deus).

Nessa constituição, o Papa afirmou que “A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celestial”.

As tradições católica e ortodoxa afirmam que, aquando da morte da Virgem Maria, esta foi transportada em corpo e alma até aos céus para participar da glória de seu filho, Jesus Cristo.

A Assunção de Maria é vista, assim, como uma antecipação da ressurreição que os humanos um dia irão experimentar.

Por isso, em países de tradição católica, como Portugal, Espanha e Itália, a Assunção de Maria é um feriado nacional.

Parece-me, no entanto, que valeria a pena perguntarmos a Maria:

 «Maria, mãe de Jesus e nossa mãe, como é que conseguiste ser um modelo como pessoa humana?

Qual é o segredo do teu sucesso, se assim lhe podemos dizer?»

Para termos a sua resposta de modo compreensível para nós, poderíamos pedir a Maria para fazer uma "descida” até ao meio de nós.

Assim como teve há cerca de 2000 anos uma «Assunção», pedimos-lhe para fazer nos nossos dias uma  «Descensão», ou seja, uma «descida dos Céus» até nós, aqui na Terra, neste tempo presente em que vivemos.

Se Maria concordar em fazer esta "descensão” poderá dar-nos o seu testemunho e ajudar-nos a descobrir o segredo da sua vida tão bem-sucedida.

Então, poderemos descobrir que toda a sua vida foi uma peregrinação na fé. Ela foi uma mulher de uma fé admirável.

Quando digo "fé" quero dizer "a obediência da fé", pela qual uma mulher ou um homem se entrega livre e totalmente a Deus, que se lhe dá a conhecer.

Nessa entrega, a pessoa confronta-se com as suas próprias capacidades de inteligência e de vontade, para aderir à revelação feita por Deus.

Como lemos, Isabel ao receber a visita de Maria que a tinha ido ajudar nesses finais da sua gravidez, diz num tom admirável: «Feliz aquela que acreditou no cumprimento de tudo aquilo que lhe foi dito da parte do Senhor». (Luc 1,45)

Em seguida Maria, na sua oração chamada «Magnificat», confessa: «Sim, sou abençoada, pois aceitei as maravilhas que o Senhor fez em mim.»

Maria também ouviu atentamente e guardou as palavras que o velho Simeão lhe dirigiu: "Uma espada perfurará a tua alma". (Lc 2,34-35)

O seu filho vai cumprir a sua missão cercado de incompreensão e com grande dor. Ao mesmo tempo, Maria acredita firmemente no cumprimento das promessas divinas de que Jesus traria a salvação.

Os Evangelhos mostram como o modo de Maria ser mãe é atravessado, como nas vidas de muitas mães, tanto pelas angústias e sofrimentos como pela beleza e pela alegria.

É evidente também que, lendo as poucas passagens dos Evangelhos que a ela se referem, a sua relação com Jesus foi muito complexa.

O seu segredo é-nos então revelado: é a união de Maria com o seu Filho, Jesus Emanuel, sempre vivida na fé.

Vemos que Maria é uma mulher comum, que vive algo de extraordinário porque está disponível à vontade de Deus, vivendo perfeitamente a «obediência da fé ».

Maria é o modelo de quem diz "sim" a Deus, no meio de todas as contradições e as contrariedades das nossas vidas e da humanidade no nosso tempo.

Obrigado, Maria, por nos teres dado a conhecer o segredo da tua vida: a intimidade com o teu Filho, vivida, livremente, na entrega total da inteligência e da vontade ao que Deus te revelou e te pediu.

     frei Eugénio op

 

 

 

2022-08-06

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 19º Domingo do Tempo Comum, 7 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


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Evangelho (Lc 12, 32 - 48) 

Tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas. 

Sede como homens que esperam o seu senhor voltar do casamento, para lhe abrirem logo a porta, quando chegar e bater. 

Felizes esses servos que o senhor, ao chegar, encontrar vigilantes. Em verdade vos digo: cingir-se-á e mandará que se sentem à mesa e, passando diante deles, os servirá. 

Se vier à meia-noite ou de madrugada felizes serão se assim os encontrar. 

Compreendei isto: se o dono da casa soubesse a que hora viria o ladrão, não o deixaria arrombar a sua casa. 

Estai vós também preparados, porque na hora em que não pensais virá o Filho do homem». 

Disse Pedro a Jesus: «Senhor, é para nós que dizes esta parábola, ou também para todos os outros?». 

O Senhor respondeu: «Quem é o administrador fiel e prudente que o senhor estabelecerá à frente da sua casa, para dar devidamente a cada um a sua ração de trigo?  

Feliz o servo a quem o senhor, ao chegar, encontrar assim ocupado.  

Em verdade vos digo que o porá à frente de todos os seus bens.  

Mas se aquele servo disser consigo mesmo: "O meu senhor tarda em vir"; e começar a bater em servos e servas, a comer, a beber e a embriagar-se,o senhor daquele servo chegará no dia em que menos espera e a horas que ele não sabe; ele o expulsará e fará que tenha a sorte dos infiéis.  

O servo que, conhecendo a vontade do seu senhor, não se preparou ou não cumpriu a sua vontade, levará muitas vergastadas.

Aquele, porém, que, sem a conhecer, tenha feito ações que mereçam vergastadas, levará apenas algumas.  

A quem muito foi dado, muito será exigido; a quem muito foi confiado, mais se lhe pedirá».

 
DIÁLOGO
 

A situação contada nesta parábola é um pouco estranha na vida corrente nos nossos países.

 

Há já muito tempo que as famílias, mesmo as mais abastadas, não têm numerosos criados nos variados serviços domésticos, nem a necessidade de acender tochas à noite ou lâmpadas de petróleo.

 

Na cena inicial, o que acontece?

O senhor da casa chega e há uma reviravolta surpreendente dos acontecimentos. Os criados não conseguem acreditar no que os seus olhos estão a ver.

 

É o seu próprio Senhor que os manda sentarem-se à mesa e que lhes começa a servir a comida preparada.

Ficam muitíssimo surpreendidos, porque o que lhes está a acontecer é completamente ao contrário do que normalmente acontecia na vida dos senhores e dos servos.

 

Nesta parábola qual é a mensagem para nós?

A resposta está na mudança surpreendente do Senhor em servidor.

O próprio Jesus vem realizar esta inversão. Ele vem para dar a sua vida ao serviço da humanidade. 

 

Ele não vem para impor a sua autoridade, nem para dar ordens que devem ser cumpridas. Jesus vem para servir...até ao ponto de dar tudo o que é e o que tem, para nos salvar.

Este é o seu serviço prioritário.

 

A primeira consequência desta atitude de serviço, que está no centro da vida de Jesus, diz respeito a todos nós.

Jesus, através desta parábola, quer dizer-nos que, como os discípulos não estão acima dos mestres, que nós, os seus discípulos, devemos fazer como Ele fez. 

 

Porque é que devemos fazer como Ele fez?

Porque Ele já não está fisicamente presente neste mundo.

Jesus está presente através dos seus discípulos que devem dar testemunho d’Ele.

Nós somos o seu Corpo Místico, é através de nós que outros, os nossos contemporâneos, podem ver Jesus Ressuscitado, o Cristo, o Messias Salvador.

 

Uma segunda consequência que surge desta parábola é o convite a estarmos vigilantes na espera da vinda do Mestre.

Somos convidados a estar sempre atentos à vinda de Deus nas nossas vidas quotidianas.

 

Os discípulos de Jesus são «pessoas que esperam», como a mulher que espera pelo nascimento dum filho, como o jovem que espera pelo espetáculo da sua banda de rock preferida, como aquela ou aquele que espera pela decisão favorável do juiz, numa questão vital, etc., etc.

 

Jesus Ressuscitado diz-nos hoje: «Um dia encontrareis Aquele que procurais".

É como se estivéssemos ‘programados' para um encontro pessoal de uma importância decisiva, a que não podemos faltar de modo nenhum.

Um dia alguém irá bater à nossa porta, alguém que nos conhece muito bem e que nos ama... será no final da nossa vida, será o Grande Encontro.

O discípulo de Jesus sabe que está a caminho de uma casa onde Jesus já chegou e onde Ele está à nossa espera para nos levar para lá.

 

O que se espera de nós enquanto trabalhamos para a realização do reinado de Deus entre nós?

Esta pergunta tem sido feita por todos os crentes, desde o início do cristianismo, e as respostas têm permanecido as mesmas:

sejam fiéis, estejam vigilantes e preparem-se para essa vinda final do Messias-Salvador.

 

Para sermos fiéis, vigilantes e preparados, temos de voltar repetidamente a Jesus, que nos vem revelar quem é Deus e qual a Sua Vontade.

 

Só neste regresso deliberado ao encontro de Jesus de Nazaré encontraremos a verdade, a razão de ser, e a motivação para continuarmos e estender a mão aos que precisam dos nossos serviços, no amor e na compaixão por todos.

 

Sem esta atitude de irmos com frequência à procura de Jesus como Ele é, perdemos facilmente o nosso caminho e podemos ser muito mais influenciados por imagens deformadas de Jesus e de Deus.

 

No Evangelho de hoje, Jesus continuará a formação dos seus discípulos para que eles possam cultivar uma grande confiança e vivam em preparação para o regresso de Jesus Ressuscitado que nos levará com Ele.

 

Não sabemos nem o dia nem a hora em que Jesus voltará, por isso cada um de nós deve viver como se esse dia fosse hoje.

Devemos também recordar que em tudo o que somos e em tudo o que fazemos, não estamos sós. 

 

Deus, dado a conhecer por Jesus, habita dentro de nós.

Também estamos rodeados e apoiados por inúmeros seguidores de Jesus no presente e também aqueles que nos precederam na união com Jesus.

Com a força dessa comunhão, somos chamados a assumir as nossas responsabilidades, tornando-nos membros vivos e ativos do Seu Corpo.

 

                   frei Eugénio op


 

 

2022-07-31

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum, 31 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


www.evangile-et-peinture.org


Evangelho (Lc 12, 13 - 21)

Naquele tempo, alguém, do meio da multidão, disse a Jesus: «Mestre, diz a meu irmão que reparta a herança comigo». 

Jesus respondeu-lhe: «Amigo, quem Me fez juiz ou árbitro das vossas partilhas?».
Depois disse aos presentes: «Vede bem, guardai-vos de toda a avareza: a vida de uma pessoa não depende da abundância dos seus bens». 

E disse-lhes esta parábola: «O campo dum homem rico tinha produzido excelente colheita. 

Ele pensou consigo: "Que hei de fazer, pois não tenho onde guardar a minha colheita? 

Vou fazer assim: deitarei abaixo os meus celeiros para construir outros maiores, onde guardarei todo o meu trigo e os meus bens. 

Então poderei dizer a mim mesmo: minha alma, tens muitos bens em depósito para longos anos; descansa, come, bebe, regala-te". 

Mas Deus respondeu-lhe: "Insensato! Esta noite terás de entregar a tua alma. O que preparaste, para quem será?"  

Assim acontece a quem acumula para si, em vez de se tornar rico aos olhos de Deus».

 

DIÁLOGO


A parábola que Jesus conta é uma história muito possível de acontecer com um empresário de sucesso que calcule as melhores formas de lucrar com o seu sucesso e de assegurar o vai adquirindo, para ter um bom futuro sem preocupações.

 

A descrição que Jesus faz deste homem não é a de um opressor que explora trabalhadores rurais pobres ou os engana com o seu salário.

Não, é antes alguém que é decente e estimado

 

Quando Jesus se refere ao verdadeiro carácter da avareza com esta parábola, Ele mostra este vício de ganância duma forma pouco chocante. Mesmo a sua ganância, à primeira vista, não aparece como detestável em si mesma.

 

O homem vive simplesmente para as coisas da terra e são elas que orientam os seus interesses e que preenchem os seus pensamentos e as várias facetas da sua vida. 

 

Não existem hoje em dia inúmeros exemplos semelhantes ao deste homem da parábola?

 

O que o homem resolveu fazer não é muito razoável aos nossos olhos?

Ele senta-se e pensa no que pode fazer para manter em boa segurança o seu trigo e outros frutos da terra. 

 

Mas, reparemos quantas vezes as palavras "eu", "meu", "minha" aparecem na conversa que o homem tem consigo mesmo e com a sua alma: treze vezes! 

 

Será que lemos algum agradecimento a Deus por estas colheitas tão ricas de  bênçãos? 

 

Não, Deus não faz parte das suas considerações.

Na realidade ele só pensa em aumentar a sua riqueza.

Os seus pensamentos não vão além desse objetivo.

 

Mas, será possível encontrar a verdadeira paz com Deus num tal modo de viver?

Este homem tem apenas diante dos seus olhos bens materiais que são temporários.

Ele espera com a posse deles ter a felicidade.

Milhões de pessoas e, talvez até nós mesmos, não seremos como ele nesta atitude!

Não haverá o perigo de nós, crentes, sermos mais ou menos apanhados por este modo de viver?

 

Na parábola, o que quer que o homem diga à sua alma sobre a multiplicação e a conservação das suas riquezas, Deus está ausente e esquecido.

Mas Deus, criador e senhor da vida, naquela noite, de repente, e inesperadamente pede-lhe de volta a vida que lhe tinha dado.

 

O homem não tinha contado com isso.

Todo o seu tempo, todos os seus pensamentos, todos os seus esforços, tinham sido gastos pelo homem na preparação dos seus bens, para si próprio.

 

Aquele que guarda tesouros para si próprio, aos olhos de Deus, não é rico. É um tolo, pois no fim da vida não leva nada e não vai ter nada.

Este ensinamento de Jesus não é novo: retoma ensinamentos bem conhecidos do Antigo Testamento. 

 

 «Não tenhais medo quando um homem se torna rico, quando a glória da sua casa aumenta; porque quando morrer, nada levará consigo; a sua glória não descerá depois dele.» (Salmo 49,16-19).

E também ensinamentos nos livros de Ben Sira, de Qoheleth, de Job e de Isaías.

 

Pobre homem, por mais rico que pensasse ser, esqueceu apenas uma coisa essencial, que a sua existência não dependia dele!

Ele pensava que era rico, mas a verdadeira riqueza não era o que ele pensava que era. 

 

Este ensinamento de Jesus é claro.

 

Na introdução da parábola, Jesus diz: "Cuidado com a ganância; pois a vida de um homem, mesmo que tenha muito, não depende sobretudo da sua riqueza. 

 

Jesus chama esta conduta de tola: na parábola, Deus diz ao homem que planeia a sua riqueza: "Tu és um tolo! Nesta mesma noite, a sua vida ser-lhe-á exigida.

E o que é que põe de lado, quem é que o vai receber?»

 

Por isso, somos convidados a nos tornarmos mais lúcidos.

Mas se podemos constatar a loucura que é acreditar que podemos controlar o nosso futuro pelos nossos próprios meios, pelo contrário, não temos a verdadeira sabedoria.

 

Voltemos a ler a conclusão da parábola:

“Assim acontece a quem acumula para si,

em vez de se tornar rico aos olhos de Deus”.

 

Isto não significa que não se deva fazer nada para cuidar dos nossos bens, mas que tudo o que fazemos, ainda mais se possível, seja por amor a Deus e às pessoas. 

 

Essa é que é a grande diferença. Para isso é necessária uma grande mudança de mentalidade.

 

Mas não há apenas a riqueza monetária e de bens valiosos, há também a riqueza mental, a nossa aparência física, o nosso estatuto académico, a nossa profissão, a nossa satisfação de ter conseguido alcançar um estatuto muito apreciado pelos outros… 

 

Também podemos ter satisfação nos nossos conhecimentos e capacidades?

Faz-nos sentir bem quando os outros ficam espantados com o que nós sabemos e esperam que sejamos nós a dar-lhes respostas que não encontram. 

 

Mas tais riquezas -materiais, mentais, culturais, espirituais- não nos conduzem necessariamente ao objetivo de sermos felizes para sempre.

Se o Evangelho for de facto uma Boa Noticia, então torna-se urgente conhecê-la. 

 

Isto explica porque é que Jesus respondeu de forma um pouco brusca à pessoa que queria resolver uma questão de herança. Essa pessoa tinha realmente a prioridade errada.

 

Jesus mostra a atitude correta: «procurar ser rico aos olhos de Deus».

«Aos olhos de Deus» também poderia ser traduzido como «segundo o que Deus quer» ou também «em nome do Reino de Deus».

Isto implica ter em atenção: Primeiro, nunca esquecer que a riqueza vem de Deus. 

 

Em segundo lugar, recordar em todas as circunstâncias, que a riqueza continua a pertencer a Deus, e que Ele nos confia essa riqueza para a fazer por frutificar para o benefício de todos os seus filhos e nossos irmãos.

 

     frei Eugénio op

 


2022-07-29

Quebec, Encontro com delegação indígena, hoje


"He venido a Canadá como amigo para encontrarme con ustedes, para ver, escuchar, aprender, apreciar cómo viven los pueblos indígenas de este país. 

No vine como turista, he venido como hermano, a descubrir en primera persona los frutos, buenos y malos, producidos por los miembros de la familia católica local a lo largo de los años. 

He venido con espíritu penitencial, para expresarles el dolor que llevamos en el corazón como Iglesia por el mal que no pocos católicos les causaron apoyando políticas opresivas e injustas. 

He venido como peregrino, con mis limitadas posibilidades físicas, para dar nuevos pasos adelante con ustedes y para ustedes; para que se prosiga en la búsqueda de la verdad, para que se progrese en la promoción de caminos de sanación y reconciliación, para que se siga sembrando esperanza en las futuras generaciones de indígenas y no indígenas, que desean vivir juntos fraternalmente, en armonía.

Pero quisiera decirles, ya próximo a la conclusión de esta intensa peregrinación, que, si he venido animado por estos deseos, regreso a casa mucho más enriquecido, porque llevo en el corazón el tesoro incomparable hecho de personas y de pueblos que me han marcado; de rostros, sonrisas y palabras que permanecen en mi interior; de historias y lugares que no podré olvidar; de sonidos, colores y emociones que vibran fuerte en mí. 

Realmente puedo decir que, durante mi visita, fueron sus realidades, las realidades indígenas de esta tierra, las que visitaron mi alma; entraron en mí y siempre me acompañarán. Me atrevo a decir, si me lo permiten, que ahora, en cierto sentido, yo también me siento parte de vuestra familia, y me siento honrado."

Quebec, 29-07-2022 

Texto completo (espanhol)

Texto completo (inglês)

 


2022-07-24

Walking Together: visita do Papa Francisco ao Canadá


Começa hoje a visita pastoral do Papa Francisco ao Canadá (24 a 29 de Julho).

Será uma oportunidade especial para ouvir e dialogar com os Povos Indígenas.

E expressar a sua sincera proximidade e abordar o impacto da colonização e a participação da Igreja Católica no funcionamento de escolas residenciais em todo o Canadá.

É um passo significativo no caminho para a verdade, compreensão e reconciliação.

A visita pode ser acompanhada neste site:

https://www.papalvisit.ca/

 

 





2022-07-23

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 17º Domingo do Tempo Comum, 24 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui

 


www.evangile-et-peinture.org


Evangelho (Lc 11, 1 - 13)

Naquele tempo,

estava Jesus em oração em certo lugar.

Ao terminar, disse-Lhe um dos discípulos:

«Senhor, ensina-nos a rezar,

como João Baptista ensinou também os seus discípulos».

Disse-lhes Jesus:

«Quando rezardes, dizei:

Pai,

santificado seja o vosso nome;

venha o vosso reino;

dai-nos em cada dia o pão da nossa subsistência;

perdoai-nos os nossos pecados,

porque também nós perdoamos a todo aquele que nos ofende;

e não nos deixeis cair em tentação’».

Disse-lhes ainda:

«Se algum de vós tiver um amigo,

poderá ter de ir a sua casa à meia-noite, para lhe dizer:

‘Amigo, empresta-me três pães,

porque chegou de viagem um dos meus amigos

e não tenho nada para lhe dar’.

Ele poderá responder lá de dentro:

‘Não me incomodes;

a porta está fechada,

eu e os meus filhos estamos deitados

e não posso levantar-me para te dar os pães’.

Eu vos digo:

Se ele não se levantar por ser amigo, ao menos, por causa da sua insistência,

levantar-se-á para lhe dar tudo aquilo de que precisa.

Também vos digo: Pedi e dar-se-vos-á; procurai e encontrareis; batei à porta e abrir-se-vos-á.

Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á.

Se um de vós for pai e um filho lhe pedir peixe, em vez de peixe dar-lhe-á uma serpente?

E se lhe pedir um ovo, dar-lhe-á um escorpião?

Se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos,

quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem!».

 

DIÁLOGO

 

O Evangelho de hoje abre-se com o desejo dos discípulos de aprenderem o modo de rezar de Jesus.

 

Eles tinham certamente rezado com Jesus, cantando hinos e salmos nas sinagogas e nos rituais do Templo em Jerusalém, mas também O tinham visto muitas vezes a se retirar sozinho para ter tempos de oração pessoal. 

 

Ao pedir-Lhe que os ensinasse a rezar, pediam-Lhe que os ensinasse a relacionar-se com Deus do mesmo modo que Ele o fazia.  

 

Para grande surpresa dos discípulos que tinham pedido a Jesus que os ensinasse a rezar como Ele fazia pessoalmente, Jesus vai fazer muito mais do que os ensinar, vai dar-lhes a sua própria oração, vai permitir-lhes que rezem como Ele próprio o fazia na intimidade com Deus.

 

Começa logo por um modo completamente original de se dirigir a Deus.

Jesus diz-lhes que Lhe chama “Abba!”, que na língua falada por Jesus, o aramaico, quer dizer: “papá, pai querido” e que é a expressão com que as crianças da Palestina se dirigiam aos seus pais, com a simplicidade, proximidade e confiança infantis.

 

Este modo de se dirigir a Deus é a expressão do conhecimento único que Ele tem de Deus.

 

Pela oração do Pai Nosso, Jesus dá aos seus discípulos o direito de dizer “Abba” como Ele próprio.

 

Ao partilhar o seu próprio estilo de oração, Jesus convida os discípulos a participar do seu tipo de relação com Deus-Pai.

 

Oferece-lhes participarem também da Sua condição de Filho.

 

Chega ao ponto de dizer que apenas este modo de criança de se relacionar com o Pai poderá abrir a porta do Reino dos Céus.

 

Para encontrar o caminho do Reino é preciso aceitar esta confiança infantil que se manifesta na palavra “Abba”.

 

Jesus sabia ser o Filho de Deus, por isso falava e tinha atitudes como só Deus podia falar e fazer. 

 

Em Jesus, Deus chegou perto, tão perto de nós, que assumiu um modo de viver perfeitamente humano e por isso mesmo, por Jesus, o Emmanuel, o Deus-connosco, nós chegamos perto de Deus.

 

Este é o segredo de Jesus: Ele nasceu não só da árvore da humanidade, como todos nós, mas nasceu também de Deus.

 

É Filho de Deus.

Por isso, a sua vida foi tão humana, que parecia até diferente da nossa, pois nós, apesar de humanos, somos muitas vezes desumanos e nem sabemos ser humanos.

 

Se quisermos saber alguma coisa sobre Deus, olhemos para Jesus.

Se quisermos saber como Deus se interessa e se preocupa connosco, olhemos como Jesus se interessava e se preocupava com as pessoas do seu tempo.

 

A frase seguinte da oração de Jesus, lembra-nos que Deus não é apenas um amigo. "Santificado seja o vosso nome", mas evoca o grande respeito que devemos ter pelo Senhor.

Com esta frase, pedimos que nunca esqueçamos a grandeza de Deus - este é o Criador do universo, a Fonte eterna de todo o ser, no entanto, este mesmo “Santificado” convida-nos a dizer: "Abba!” 

 

Estas duas frases: “Pai” e “santificado seja o vosso nome”,

fazem com que a nossa relação com Deus no resto da oração, seja uma relação de dependência, livremente aceite e agradecida e de obediência empenhada em fazer a Sua Vontade.

 

A frase seguinte do Pai-Nosso é "venha a nós o vosso reino", resume o objetivo da vida cristã.

 

Jesus proclamou e ensinou que vinha começar um novo Reino,

o “Reino de Deus” no nosso mundo.

 

Um modo de reinar diferente de todos os outros. 

 

Um Reino onde só reinam o Amor, a Justiça, a Verdade, a Paz, o Perdão.  

Esse Reino de Deus está onde reina o Amor de Deus, está onde procuramos viver como Jesus viveu e manifestou como é esse Amor de Deus.

 

Jesus contou bastante parábolas que falam desse Reino.

Jesus quer orientar os nossos corações, os nossos pensamentos,

as nossas atitudes, mas dando-nos a capacidade de o escolhermos livremente.

 

Deixando que Jesus reine em nós, deixamo-nos tornar melhores

e também contribuímos para a melhoria, por muito modesta que seja, do mundo à nossa volta.

 

Embora a versão da oração de Jesus que lemos não tenha a frase “Seja feita a vossa Vontade”, que tem a versão de Mateus, este pedido completa “Venha o  vosso reino”.

 

Para fazermos a vontade de alguém, para lhe agradarmos, temos de lhe perguntar:

“ O que quer de mim? O que quer que eu faça?

Que deseja de mim?”

 

A pergunta importante a fazer a Deus-Pai é:

“Pai querido, que queres de mim? O que é que queres que eu faça? O que esperas que eu seja?”

 

É um diálogo de discernimento.

Assim como este diálogo foi central e fundamental na vida de Jesus, também deverá ser nas nossas:

“Abba, Pai querido, que queres de mim?”

 

Seguidamente na oração de Jesus, reconhecendo Deus como Criador, pede-Lhe o que precisa para o dia de hoje e também para amanhã.

O “pão” pedido, inclui não só os alimentos e as bebidas.

 

Mas inclui também tudo o que é indispensável para uma vida humana minimamente digna:  casa, roupa, escola, saúde, proteção…

 

Jesus chama a atenção que o “pão é nosso” e não só meu e dos meus mais próximos.

Quer dizer que não podemos esquecer os que têm fome, os que não têm o que é indispensável para uma vida digna, segundo as necessidades de cada um.

 

Segue-se a dupla petição pedindo o perdão e prometendo dar o perdão.

Per+doar, que quer dizer dar (doar) de novo a confiança e o amor, passando por cima da ofensa que foi feita, do mal que magoou.

Para podermos ser melhores, precisamos que nos perdoem, que nos deem uma mão segura para nos levantarmos do Mal que fizemos e podermos recomeçar o caminho do Bem.

 

A última petição é “E não nos deixeis cair em tentação.”

Em todas as ocasiões em que temos de fazer uma escolha, estamos a pôr à prova a nossa capacidade de escolher o Bem e depois de o pôr em prática.

 

Jesus também foi tentado (no deserto e na cruz).

Quando somos tentados, somos seduzidos pelo Mal que se mascara de Bem para nos enganar.

 

A tentação apresenta-se a nós como sendo um bem útil e agradável, prático, realista. Na altura parece ser a melhor escolha, mas é um falso Bem, um Mal mascarado de Bem.

 

Não é aquilo que Deus Pai quer de nós nesses momentos.

O que Ele quer é que descubramos o verdadeiro Bem e que demos a nossa colaboração para que este mundo se torne melhor.

 

Esta oração de Jesus, que Ele oferece aos seus discípulos, manifesta a Sua relação com Deus.

Ao dá-la a nós, Jesus convida-nos a entrarmos nessa mesma relação filial.

 

 

             frei Eugénio op