2020-09-18

Diálogo com o Evangelho

  Diálogo com o evangelho deste Domingo, 20 de setembro, 25º do tempo comum, pelo Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.








Evangelho segundo São Mateus (20, 1-16a)


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:

«O reino dos Céus pode comparar-se a um proprietário,

que saiu muito cedo a contratar trabalhadores para a sua vinha.

Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a sua vinha.

Saiu a meia manhã, viu outros que estavam na praça ociosos e disse-lhes:

‘Ide vós também para a minha vinha e dar-vos-ei o que for justo’.

E eles foram.

Voltou a sair, por volta do meio-dia e pelas três horas da tarde, e fez o mesmo.

Saindo ao cair da tarde, encontrou ainda outros que estavam parados e disse-lhes:

‘Porque ficais aqui todo o dia sem trabalhar?’

Eles responderam-lhe: ‘Ninguém nos contratou’.

Ele disse-lhes: ‘Ide vós também para a minha vinha’.

Ao anoitecer, o dono da vinha disse ao capataz:

«Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário, a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros’.

Vieram os do entardecer e receberam um denário cada um.

Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um.

Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário, dizendo:

‘Estes últimos trabalharam só uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós,

que suportámos o peso do dia e o calor’.

Mas o proprietário respondeu a um deles:

‘Amigo, em nada te prejudico. Não foi um denário que ajustaste comigo?

Leva o que é teu e segue o teu caminho. Eu quero dar a este último tanto como a ti.

Não me será permitido fazer o que quero do que é meu?

Ou serão maus os teus olhos porque eu sou bom?’

Assim, os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos».

 

DIÁLOGO

A parábola que acabámos de ler refere-se a uma situação que as pessoas do tempo em que Mateus escreveu o seu Evangelho conheciam bem: as praças principais das aldeias e cidades cheias de homens à espera de uma oportunidade para irem trabalhar.

Nesse tempo havia muito desemprego na Palestina e por isso uma boa parte dos homens ficava ali horas a fio sem que ninguém os contratasse.

Na parábola, o dono da vinha sai logo pelas 6 horas da manhã e volta pelas 9 horas e de novo pelas 12h e pelas 15h e pelas 17h.

Comportamento inabitual. O motivo das suas idas à procura de trabalhadores é que nenhum deles fique sem trabalho e sem poder sustentar a família.

A generosidade do dono da vinha deveria ser um motivo de alegria e de gratidão para todos.

Mas na parábola acontece o contrário. Os trabalhadores das primeiras horas põem-se a queixar-se entre dentes contra o dono da vinha.

Não reconhecem a bondade e a generosidade do proprietário e protestam sem transparência, como se fosse uma maldade que lhes estava a ser feita.

Na história do povo judeu, esta forma de se queixar entre dentes contra Deus (termo bíblico “murmurar”) era uma atitude com muitos séculos, desde que Deus o libertou da escravatura no Egito e da sua viagem pelo deserto do Sinai a caminho da Terra Prometida.

Sempre que nós temos um olhar mesquinho e negativo diante de gestos de bondade e de generosidade, deixamos que a maldade, motivada pela inveja e pelo ciúme, tome conta do nosso interior.

É uma deformação que acontece sobretudo em épocas difíceis, ocasiões de crises económicas e sociais, tanto no século I como no século XXI.

Nesta época de pandemia, em que aceitamos a prática de lavar muitas vezes e muito bem as nossas mãos, será que esta parábola nos estimula a lavar muito bem os nossos olhos do coração?

Jesus, dá-nos constantemente a conhecer a preocupação de Deus como Pai para com os mais frágeis, os mais fracos, os que mais precisam de protecção e de ajuda.

Na parábola, os últimos a irem trabalhar também têm de comer, eles e as suas famílias, mesmo que só tenham encontrado trabalho durante uma hora.

Um sentido natural de justiça levar-nos-ia a pensar que os trabalhadores que suportaram o peso do trabalho durante 12 horas deveriam receber mais do que aqueles que trabalharam apenas 1 hora.

Mas, se virmos bem, dar o mesmo salário aos que trabalharam doze horas e aos que trabalharam apenas uma hora, não é injustiça, mas sim pura generosidade.

Todos eles recebem um denário, ou seja, o salário "justo" que tinham aceite, permitindo que cada um comesse, assim como a sua família, durante um dia.

O trabalhador na 11ª hora recebe um dia inteiro de salário, pois para Jesus a justiça deve ser aperfeiçoada com a misericórdia, a solicitude e a bondade, essenciais no verdadeiro amor ao próximo.

Para que possamos compreender um pouco os planos de Deus que muitas vezes são incompreensíveis para nós, precisamos de ter uma chave de interpretação, que é: o Amor de Deus é dado de modo gratuito e livre.

Não é para recompensar os méritos de cada um.

Este Amor tem como finalidade a vida daquele a quem é destinado.

Deus não é um contabilista que, de acordo com os nossos méritos, nos daria mais ou menos uma melhor parte na sua vida eterna

Além disso, esta bondade e generosidade também se revelam na sua incansável paciência, que nos convida repetidamente a escutá-lo e acolhê-lo até ao último segundo das nossas vidas.

frei Eugénio

 

2020-09-11

Diálogo com o Evangelho

 Diálogo com o evangelho deste Domingo, 13 de setembro, 24º do tempo comum, pelo Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.






Evangelho segundo São Mateus (18, 21-35)

Naquele tempo, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: «Se meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe? Até sete vezes?».
Jesus respondeu: «Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.
Na verdade, o Reino de Deus pode comparar-se a um rei que quis ajustar contas com os seus servos.
Logo de começo, apresentaram-lhe um homem que devia dez mil talentos.
Não tendo com que pagar, o senhor mandou que fosse vendido, com a mulher, os filhos e tudo quanto possuía, para assim pagar a dívida.
Então o servo prostrou-se a seus pés, dizendo: "Senhor, concede-me um prazo e tudo te pagarei".
Cheio de compaixão, o senhor daquele servo deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida.
Ao sair, o servo encontrou um dos seus companheiros que lhe devia cem denários. Segurando-o, começou a apertar-lhe o pescoço, dizendo: "Paga o que me deves".
Então o companheiro caiu a seus pés e suplicou-lhe, dizendo: "Concede-me um prazo e pagar-te-ei".
Ele, porém, não consentiu e mandou-o prender, até que pagasse tudo quanto devia.
Testemunhas desta cena, os seus companheiros ficaram muito tristes e foram contar ao senhor tudo o que havia sucedido.
Então, o senhor mandou-o chamar e disse: "Servo mau, perdoei-te tudo o que me devias, porque mo pediste.
Não devias, também tu, compadecer-te do teu companheiro, como eu tive compaixão de ti?".
E o senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia.
Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração».

 

Diálogo com o Evangelho

Caros leitores,

Quando se fala de amor vêm logo à baila confiança, respeito, diálogo, fidelidade, atracção, paciência, mas raramente o perdão aparece como uma faceta importante do amor.

Acontece também que quando se fala de perdão, quase sempre vem acompanhado de “coitado”: 

- “Coitado, é tão boa pessoa, mas é muito nervoso... e perde facilmente a cabeça tornando-se agressivo!”

- “Coitado, é tão disponível...que quer ajudar toda a gente e não assume os seus compromissos!”

Mas se esta categoria tão tolerante de “coitado” ou de “coitadinho”, nos for dirigida a nós próprios, muito provavelmente não ficaremos satisfeitos, pois queremos ser tratados como pessoas capazes e responsáveis.

Não apreciamos ser perdoados porque somos uns “coitados”.

Jesus insiste muitas vezes sobre o perdão como uma faceta essencial do amor.

Para compreendermos melhor esta parábola é preciso termos uma ideia de quanto representaria, nos dias de hoje, a dívida de 10.000 talentos. Seria uma quantia enorme, calculada em 164 toneladas de ouro que alguém, mesmo com um bom salário, levaria uns milhares de anos a pagar, isto é, impossível de saldar.

O perdão de Deus, diz a parábola, vem da sua compaixão (literalmente: “das suas entranhas de mãe”), do seu amor que nos quer transformar, é apresentado como valendo mais do que essas toneladas de ouro.

Mas o perdão recebido tem uma exigência: perdoarmos também aos outros, como atitude essencial do amor ao próximo.

E por isso Jesus completa a parábola mostrando a mesquinhez do servo perdoado, que aperta, sem piedade, o pescoço do seu colega por causa duma pequena quantia de 100 denários (correspondendo apenas a cem dias de trabalho).

As ofensas que os outros nos fazem podem deixar marcas de desilusão e de mágoa que vão ter um efeito negativo na nossa vida.

Perdoar essas ofensas, em certas ocasiões, é bem superior às nossas forças. Mas o que nos é impossível a nós, é possível a Deus.

Para conseguirmos perdoar à maneira de Jesus, Ele deixou-nos no Pai-Nosso o pedido: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.

Perdão recebido, perdão dado!

A experiência de ser verdadeiramente perdoado por alguém, que compreende a nossa fraqueza (por vezes bem miserável) e que renova a sua confiança em nós, apesar de não a merecermos de modo nenhum, é das atitudes de amor mais marcantes que podemos receber.

Esse perdão encoraja-nos a querer mudar a nossa conduta, a nos esforçarmos por não fazer mais esse mal, a querer deixar de ofender.

O perdão verdadeiro não nos trata como “coitados” ou “coitadinhos”, pelo contrário considera-nos capazes de ser responsáveis.

Como dizia alguém:

O perdão custa a pedir, mas é bom de receber. Custa a dar, mas todos o querem ter”.

frei Eugénio

 

2020-09-06

Diálogo com o Evangelho

 Diálogo com o evangelho deste Domingo, 6 de setembro, 23º do tempo comum, pelo Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.






Evangelho segundo São Mateus (18, 15-20)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Se o teu irmão te ofender, vai ter com ele e repreende-o a sós. Se te escutar, terás ganhado o teu irmão.
Se não te escutar, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão fique resolvida pela palavra de duas ou três testemunhas.
Mas, se ele não lhes der ouvidos, comunica o caso à Igreja; e se também não der ouvidos à Igreja, considera-o como um pagão ou um publicano.
Em verdade vos digo: tudo o que ligardes na Terra, será ligado no Céu; e tudo o que desligardes na Terra, será desligado no Céu.
Digo-vos ainda: se dois de vós se unirem na Terra para pedirem qualquer coisa, ser-lhes-á concedida por meu Pai que está nos Céus.
Na verdade, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles». 

DIÁLOGO 
Caros Leitores
Para que a nossa vida em comunidade se desenvolva duma forma positiva deve haver momentos em que é preciso dizer “isso não está bem” ou “não fizeste bem”.
Mas  sabemos por experiência, que os momentos de correcção não são fáceis.
Da parte de quem procura corrigir, tem de haver amor e sentido de justiça. A correção não deve ser vista como uma crítica ou um castigo, mas como um convite a que haja uma mudança para melhor.
Da parte de quem recebe uma correcção, tem de haver reconhecimento do que se fez de mal ou de errado e de querer melhorar, interiormente e livremente.
O ensinamento de Jesus neste relato do Evangelho, diz respeito sobretudo a situações das comunidades cristãs de todos os tipos, desde famílias, a grupos, escolas, movimentos, paróquias, até dioceses ou conferências episcopais.
O primeiro passo do caminho que Jesus nos propõe é o de nos
dirigirmos directamente a quem  queremos ajudar. É preciso saber escolher o momento propicio, sem  humilhar o outro..
É sempre mais fácil descarregar a nossa natural irritação diante do erro ou do mal, mas isso não ajuda ninguém a melhorar.
O objectivo da correcção, como diz o Evangelho, é de “ganhar o irmão”, é de conseguir que ele reconheça onde está o mal, se arrependa sinceramente e queira livremente corrigir os comportamentos errados.
Para evitar juízos precipitados ou avaliações erradas, se o primeiro passo não resultar, Jesus propõe que se peça ajuda a mais uma ou duas pessoas e ver se assim conseguem que aquele que está a receber a correcção reconheça a razão que lhe é apresentada para mudar de comportamento e queira livremente mudar.
Mas pode acontecer que, apesar destas tentativas, a pessoa não queira mudar e persista no erro.
Então Jesus faz uma proposta que certamente nos pode chocar:
“considera-o como um pagão ou um publicano.”
No contexto religioso e cultural da primeira geração cristã vinda do judaísmo , tratar alguém “como um pagão ou um publicano” correspondia a considerá-lo como não fazendo mais parte da comunidade.
Seria como dizer: “como não quiseste mudar, ficas excluído da nossa comunidade ” ou  “nós excomungamos-te !”
É, no entanto, interessante notar que o evangelista Mateus tinha a profissão de publicano, isto é de cobrador de impostos, e que Jesus se abeirou dele, o chamou e isso mudou completamente a vida dele.
Jesus era criticado por ser “aquele que acolhia e procurava os pagãos e os publicanos” e conhecemos os grandes elogios que Jesus fez à fé da mulher cananéia e dos centuriões romanos e como foi a casa do Zaqueu que tambem era publicano.

Jesus, nos seus ensinamentos e atitudes, procurava que as pessoas mudassem para melhor, corrigindo as faltas de amor ao próximo e o mal que faziam.
Jesus não fechava  a porta a ninguém, mantinha sempre a porta aberta,
esperando que o outro quisesse entrar.
Quem procura corrigir os outros deve rezar, pedindo  sabedoria, misericórdia e paciência.
Também não se pode considerar melhor ou superior aos que corrige, tendo presente que a sua vez de ser corrigido também chegará.
Infelizmente, ao longo dos tempos, entre os cristãos com responsabilidades  na Igreja,  a exclusão e a excomunhão têm sido bastante usadas, contrariamente à misericórdia de Jesus.
Para nos ajudar a nos deixarmos corrigir em comunidade, Jesus faz uma promessa de grandíssimo valor:
“ onde estão dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles».
Assim, Jesus dá-nos a garantia da sua presença viva.
Uma presença que abre caminhos, que nos apoia e que aumenta a nossa fé no Amor de Deus por nós
Com Jesus, procuremos, em comum, deixarmo-nos corrigir e assim melhorar este mundo em que vivemos.

 
frei Eugénio



2020-08-28

Diálogo com o Evangelho

 Diálogo com o evangelho deste Domingo, 30 de agosto, 22º do tempo comum, pelo Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.




Evangelho segundo São Mateus (16, 21-27)

Naquele tempo, Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas; que tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
Pedro, tomando-O à parte, começou a contestá-lo, dizendo: «Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há de acontecer!».
Jesus voltou-Se para Pedro e disse-lhe: «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo, pois não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens».
Jesus disse então aos seus discípulos: «Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Pois quem quiser salvar a sua vida há de perdê-la; mas quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la.
Na verdade, que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a sua vida? Que poderá dar o homem em troca da sua vida?
O Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e então dará a cada um segundo as suas obras».


DIÁLOGO DO FREI EUGÉNIO


No relato do evangelho do Domingo passado Jesus elogiou Simão pela descoberta que tinha feito de que Jesus era o Salvador e Filho de Deus.
Até lhe mudou o nome para Pedro e manifestou-lhe uma grande confiança, dando-lhe uma missão central entre os apóstolos.


Como é possível que logo na continuação, no relato de hoje, Jesus se dirige a Pedro num tom tão zangado a ponto de lhe chamar “Satanás” e de lhe dizer para se afastar dele? «Vai-te daqui, Satanás. Tu és para mim uma ocasião de escândalo”.
O que é que Pedro terá feito?
 

O Evangelho até apresenta Pedro a falar com Jesus dum modo amigo, procurando afastá-lo do caminho de oposições e de grande sofrimento e do final trágico de que Jesus começava a falar abertamente.
«Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!» diz Pedro com uma convicção amiga. 


Jesus chama então a Pedro Satanás e ele entende a quem Jesus o está a comparar: é ao Adversário de Deus, desde o começo da humanidade, cheio de astúcias e artimanhas, para afastar os seres humanos de Deus e da Sua Vontade.
Na tradição bíblica também é chamado Demónio ou Diabo, Pai da Mentira. Ele tem a arte de seduzir, apresentando o mal como sendo o Bem, o desamor como sendo o Amor.
E nós?


Alguns dos leitores dirão que o Satanás não existe como criatura e que é apenas o nome dado à origem do Mal.
Mas, sem entrarmos numa discussão filosófica, há uma realidade,  com a qual nos deparamos, quer no dia-a-dia, quer em momentos em que temos de tomar importantes decisões: a tentação.
A tentação aparece como a alternativa entre um Bem reconhecido e um Mal que nos atrai, que nos trará maior satisfação. A nossa consciência é posta à prova.
E qual é a arte de Satanás? 

É apresentar-nos um Mal como sendo um Bem; é seduzir-nos, mascarando habilmente o Mal, que  fica irreconhecível e, como tal,  nos atrai como sendo um Bem melhor, um Super-Bem.
 

Por exemplo: numa família há uma questão de grandes dívidas que é posta em tribunal. Os membros da família que perderam a causa resolvem cortar completamente as relações com a outra parte da família e a situação já se arrasta por três gerações. Esta atitude é tomada em nome dos valores da honra, dignidade e respeito que se merece.
Não reconhecem que é uma vingança.
 

Alguém tem de testemunhar em tribunal em defesa dum amigo e, para isso, apresenta documentos falsificados. O seu testemunho é decisivo. Foi em nome da grande amizade que fez tudo para salvar o amigo -  uma atitude de louvar e o amigo fica muito grato.
Não reconhecem que usar documentação falsa é um crime.
 

Pedro, o companheiro em quem Jesus pôs a sua confiança, com muita amizade, quer convencer Jesus a tomar decisões que O iriam afastar  do que Deus lhe inspirava.
Pedro não “tinha em vista as coisas de Deus, mas as dos homens” .
 

Jesus que já tinha vencido no deserto as seduções de Satanás, quer agora que Pedro e os seus discípulos estejam atentos às astúcias e artimanhas do Sedutor, para que tenham  lucidez para as identificar e  força para seguirem o caminho do verdadeiro Bem.

2020-08-21

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o evangelho deste Domingo, 23 de agosto, 21º do tempo comum, pelo Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.





Evangelho segundo São Mateus (16, 13-20)

Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos:
«Quem dizem os homens que é o Filho do homem?
»

Eles responderam: «Uns dizem que é João Baptista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?»
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse:
«Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também Eu te digo: Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias.


Aqui fica o texto do Diálogo do Frei Eugénio:


DIÁLOGO
Neste relato do Evangelho, Jesus interroga os discípulos sobre o que é que a população judaica pensava sobre quem seria o «Filho do Homem», título usado para designar o Messias prometido, o Salvador que deveria libertar para sempre o povo com quem Deus tinha feito uma Aliança. E os apóstolos dão-lhe as opiniões mais frequentes.

Mas, de facto, o que mais interessava a Jesus era o que os seus seguidores e colaboradores mais próximos iriam responder à pergunta : «E vós, quem dizeis que Eu sou?».


A maior parte de nós, provavelmente começaria por dizer : «penso que és…» ou «parece-me que és…» ou «tenho que pensar antes de responder…».


Não nos seria fácil  responder a esta pergunta tão directa, posta pelo próprio Jesus, e que implicaria verdade e transparência: «Tu, Jesus, para mim és…».
Simão, adiantando-se aos outros discípulos, respondeu «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo».
Simão responde a Jesus manifestando a sua convicção que é Ele o Salvador anunciado e esperado, o Cristo de Deus.
Diz-lhe também que o reconhece como a pessoa mais próxima e íntima de Deus, « Filho de Deus », que vem revelar quem Ele é, e o que Ele quer para a humanidade e para a  criação.

Jesus felicita Simão pela sua resposta, e lembra-lhe que foi o próprio Deus que permitiu que ele fizesse essa descoberta de quem Ele era.
Esta descoberta é de tal forma importante que tem por efeito transformar a pessoa e a sua orientação de vida.


Na Bíblia essa transformação é simbolicamente apresentada como uma mudança de nome: Abrão para Abraão, Saulo para Paulo, entre outros.
Jesus muda o nome de Simão para Pedro e dá-lhe uma missão em conjunto com os outros onze apóstolos. Mas esta pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» continua a ser feita ao longo dos séculos…
Que ela tenha eco em cada um de nós …

Procuremos e saibamos saborear ocasiões de oração, diálogo e meditação, em confiança e liberdade, em que reflectimos sobre quem é Jesus para nós e quem gostaríamos que fosse.
O próprio Jesus nos acompanhará nesse caminho.
Jesus não precisava de nos perguntar quem Ele é para nós, porque Ele sabe o que vai no nosso íntimo. Nós é que muitas vezes não sabemos.
Mas procurando responder, podemos, de facto,  aproximar-nos mais de quem Ele é.
Uma   vez que a resposta é importante para nós próprios, devemos ser o mais verdadeiros possível.
Jesus espera a nossa resposta.

2020-08-13

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o evangelho deste Domingo, 16 de agosto, 20º do tempo comum, pelo Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.





Evangelho segundo São Mateus (15, 21-28)

Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.

Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim.

Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».

Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra.

Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».

Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».

Mas a mulher veio prostrar-se diante d’Ele, dizendo: «Socorre-me, Senhor».

Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».

Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor;  mas também os cachorrinhos

comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».

Então Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé.  Faça-se como desejas».

E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada.


Aqui fica o texto do Diálogo do Frei Eugénio:


Provavelmente nunca tinham pensado, como eu também não, o que devemos a esta mulher da Cananéia, terra pagã já fora do reino onde os judeus viviam (este território situa-se no Líbano dos nossos dias).

A narrativa do Evangelho põe em relevo a coragem e a persistência que ela teve até conseguir que Jesus curasse a sua filha, apesar de não pertencer ao povo judeu, o povo da Aliança.

Podemos pedir a esta  mulher que nos ensine  como fazer para deitar abaixo as estruturas sociais, mentais e religiosas que criam separações e divisões, que se podem tornar intoleráveis.

A primeira coisa que ela nos pode ensinar é a atitude humilde, mas corajosa como se dirigiu a Jesus, mais conhecido como um simples carpinteiro, chamando-o  pelos títulos messiânicos de “Senhor” e “Filho de David”, inspirada por uma fé inexplicável.

Mas Jesus começa por a ignorar e não  lhe dirigiu nem uma palavra.

A maioria das pessoas, depois dessa atitude tão distante e indiferente de Jesus, teria desistido e aceitaria nada ter conseguido.

Mas isso não aconteceu com esta mãe cananéia.

Em vez disso, ela intensifica os seus esforços e continua a gritar pedindo socorro, ao ponto de os discípulos irem pedir a Jesus que fizesse alguma coisa para acabar com aquela  gritaria atrás deles.

A mudança de atitude que se operou em Jesus, ao atender a cananéia, irá ter uma grande importância na pregação e prática dos primeiros cristãos: primeiro que tudo, contribuiu para derrubar a separação que existia  nos começos do cristianismo entre os cristãos de origem judaica, que continuavam com as práticas e costumes do judaísmo e os cristãos de origem pagã, que não seguiam essas práticas que não existiam nas suas culturas.
 
Essa separação chegava ao ponto de não poderem partilhar a mesma refeição.

Mas também veio a ter influência na pregação sobre o Reino de Deus  que Jesus tinha vindo inaugurar e no qual a reconciliação entre povos, culturas e crenças era uma novidade. Só assim o nosso mundo se pode tornar numa Casa Comum, onde todos possam ser acolhidos e tenham o seu lugar.

A persistência desta cananéia, batendo-se contra todos os obstáculos, valeu a pena!

A segunda coisa que podemos aprender com esta mulher, é termos um objectivo claro nos nossos combates pelo amor e pela justiça.

Não gastar as nossas energias com aspectos secundários que podem acabar por nos levar ao desânimo.

Ela tem os olhos postos na cura da sua filha, cruelmente atormentada. É só isso que ela quer conseguir de Jesus.

E foi o que conseguiu.

Além disso ela é também, para nós, um modelo de resposta não-violenta, nem agressiva, diante dos insultos e preconceitos.

Como era costume entre os judeus do seu tempo, os que não seguiam a religião judaica eram chamados «cachorros».

As palavras que Jesus lhe dirigiu «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos» até a nós nos surpreendem.

Como reagiríamos se nos chamassem “cachorros” num tom cheio de desprezo?

Mas ela responde duma forma surpreendente e cheia de sabedoria.

A persistência e a coragem desta mulher não-judia, fez Jesus sair da atitude que era comum a um judeu piedoso, cumpridor da Lei.

Ela consegue que Jesus dialogue com ela, mãe aflita, e que se resolva a satisfazer o seu pedido insistente, curando a sua filha.

Jesus fez mais ainda: elogiou a fé dela - daquela que não era uma judia: "Mulher, grande é a tua fé! Faça-se como desejas!"

E, se queremos levar a sério os elogios de Jesus, olhemos para esta mulher como um modelo de Fé.

A sua mensagem para cada um de nós, nos nossos dias, é: "Não tenham medo de desafiar preconceitos e falsidades, mesmo em lugares significativos, mesmo em espaços religiosos importantes.” 
 
Quando o bem e a justiça dos mais frágeis e desprotegidos estão em causa, peçamos a Jesus para nos dar coragem para agir.

Sabemos que esta não foi a primeira vez que Jesus se deparou com uma situação deste género.

Segundo os evangelhos, Ele já tinha tido atitudes ditas "pouco ortodoxas" em relação aos samaritanos, aos soldados romanos, aos cobradores de impostos  e aos leprosos.

A humildade, perseverança e coragem desta mulher permitem que Jesus manifeste o seu papel de salvador universal e não apenas salvador de um povo.

Esta  mãe cananéia é uma "porta" que nos abre o caminho do amor de Jesus por todos e por cada um - ninguém pode ficar de fora!

Temos de desenvolver um modo de pensar mais aberto à diversidade cultural, social e económica e termos um coração disponível  para sairmos de nós-próprios.  

Temos de aprender a conhecer os outros, a querer compreendê-los na sua cultura e nas suas convicções que podem ser diferentes das nossas e que tão facilmente criticamos.

Talvez agora vejamos melhor o que devemos a esta mãe cananéia!
 
Frei Eugénio Boléo, op

2020-08-08

São Domingos de Gusmão

 

 Dia de São Domingos (1170 - 1221)

"De modo particular, Domingos quis dar relevo a dois valores considerados indispensáveis para o bom êxito da missão evangelizadora:  a vida comunitária na pobreza e o estudo."

Ver aqui esta síntese da vida de São Domingos, por Bento XVI.

 

2020-08-07

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o evangelho deste Domingo, 9 de agosto, 19º do tempo comum, pelo Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.







Aqui fica o texto do Diálogo do Frei Eugénio:


Evangelho segundo São Mateus (14,22-33)
 

Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-lo na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!», disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!».
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?».
Logo que subiram para o barco, o vento amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

 

DIÁLOGO


Ao ler esta passagem do Evangelho, imaginei-me no lugar de Pedro, a caminhar sobre as águas do Mar da Galileia.
Deve ser uma sensação formidável, caminhar sobre as águas do mar!
E, lembrei-me da grande alegria, na minha infância, quando aprendi a ter equilíbrio e a andar sozinho de bicicleta, já não precisando da ajuda do meu pai, que até então me equilibrava e depois corria atrás de mim a apoiar-me.
Esse momento da minha infância marcou o meu crescimento. O ser capaz de andar numa bicicleta, tornou-me autónomo, independente para dar passeios e fazer corridas.

Assim vai acontecendo ao longo das nossas vidas.
Somos educados para nos tornarmos mais seguros nas variadas facetas e atividades que vamos aprendendo, tornando-nos mais autónomos e menos dependentes de quem nos ensinou.

Há, no entanto, uma diferença fundamental entre a minha aprendizagem a andar de bicicleta e a de Pedro a andar sobre as águas.
O objetivo do meu pai era que eu ganhasse confiança em andar sobre duas rodas e me tornasse capaz de andar de bicicleta sem precisar da sua presença. Uma aprendizagem para ser autónomo.

Mas o objetivo de Jesus era dar uma nova orientação à confiança de Pedro. Os evangelhos mostram-nos Pedro confiante em si próprio, sendo o primeiro a tomar iniciativas e tendo capacidade de liderança.
Na passagem que lemos, é Pedro que avança: «Se és Tu, Senhor,
manda-me ir ter contigo sobre as águas». E Jesus diz-lhe: «Vem!»
Ora, Pedro, para conseguir caminhar sobre as águas ficava totalmente dependente de Jesus e do seu poder para superar a lei da gravidade e, assim, ser capaz de andar sobre as águas.
Quando Pedro sai do barco e começa a andar sobre o mar... é a fé em Jesus que o faz avançar.
Que alegria!


Mas assim que Pedro se sente perturbado pela força do vento, atordoado pela tempestade que se levanta, o medo começa a enfraquecer a sua fé e começa a afundar-se.
Então grita: «Senhor, salva-me!»
Imediatamente Jesus estende a sua mão e segura-o com firmeza,
dizendo: «Homem de pouca fé, por que duvidaste?»
Jesus está a ensinar Pedro a colocar cada vez mais a sua confiança n’Ele, Jesus, e menos em si próprio.
Na verdade, nós cristãos não fazemos mais do que avançar no mar da vida.
Como pessoas responsáveis, confiamos nas nossas capacidades para vencer os obstáculos com que nos vamos deparando e assumimos os nossos compromissos com determinação.
Custa-nos muito estender a mão, pedindo que alguém agarre nela e nos segure, quando as situações nos estão a afundar.
Sempre que aceitamos o risco de sair do barco, porque Jesus nos chama das mais variadas formas, vamos andando satisfeitos e confiantes.
Mas, quando começam a soprar os ventos das contrariedades, quando os insucessos agitam a nossa segurança em nós-próprios, o medo começa a tomar conta de nós e a confiança em Jesus vai ficando mais fraca… cheios de aflição sentimo-nos a afundar.
Pedro não teve vergonha de gritar, pedindo socorro a Jesus e estender a mão com ansiedade para que Ele a segurasse.

A Covid-19 veio mudar muito as nossas seguranças.
Até à chegada desta pandemia, podíamos organizar as nossas agendas, planear trabalhos profissionais, encontros e reuniões; programar viagens com antecedência; cuidar da saúde, marcando consultas e, se necessário, intervenções cirúrgicas. Tudo isso contribuía para a nossa segurança e confiança em nós-próprios.
Mas será que esta pandemia pode contribuir para fazermos a mesma descoberta que Pedro fez: que em todas as circunstâncias, é em Jesus que vale a pena pormos toda a confiança?
Poderemos aprender com ele que precisamos de não ter receio de estender a nossa mão, pedindo a Jesus que a agarre e nos salve?
Quem dera que o grito de Pedro tivesse eco dentro de nós, e que também com confiança pudéssemos gritar a Jesus: «Salva-me, Senhor!».
E que, esticando o nosso braço, estendêssemos a mão a pedir que a d’Ele nos segure e salve.

Frei Eugénio Boléo, op