2023-12-17

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 3º Domingo do Advento, 17 de dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

  

Evangelho (Jo. 1, 6-8)

Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos acreditassem por meio dele.
Ele não era a luz, mas veio para dar testemunho da luz.
Foi este o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram, de Jerusalém, sacerdotes e levitas, para lhe perguntarem: «Quem és tu?».
Ele confessou e não negou: «Eu não sou o Messias».
Eles perguntaram-lhe: «Então, quem és tu? És Elias?». «Não sou», respondeu ele. «És o profeta?». Ele respondeu: «Não».
Disseram-lhe então: «Quem és tu? Para podermos dar uma resposta àqueles que nos enviaram, que dizes de ti mesmo?».
Ele declarou: «Eu sou a voz que clama no deserto: "Endireitai o caminho do Senhor", como disse o profeta Isaías».
Entre os enviados havia fariseus que lhe perguntaram: «Então porque batizas, se não és o Messias, nem Elias, nem o profeta?».
João respondeu-lhes: «Eu batizo na água; mas no meio de vós está Alguém que não conheceis:
Aquele que vem depois de mim, a quem eu não sou digno de desatar a correia das sandálias».
Tudo isto se passou em Betânia, além do Jordão, onde João estava a batizar.

 

 

DIÁLOGO

No diálogo do Domingo passado pusemos em relevo a faceta de João Batista como grande pregador.
 

Ele pregava para sacudir as consciências, para pôr em questão os hábitos dos seus ouvintes, para os estimular a viver algo de muito melhor, que Deus lhes vinha oferecer através desse Salvador que estava para chegar.

Mas a passagem do Evangelho de São João que lemos hoje é toda ela centrada noutra faceta:

“Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha, para dar testemunho da luz,
a fim de que todos acreditassem por meio dele.”


É a faceta de testemunha da vinda do Messias Salvador.
Ora, nós sabemos que o que é próprio duma testemunha, não é centrar sobre si mesma as atenções dos que a ouvem, mas dirigi-las para os factos que se passaram e para as pessoas sobre as quais se pretende dar testemunho.

Muitas pessoas iam ter com João Batista, que pregava e batizava no rio Jordão, segundo os relatos dos evangelhos. Era natural que ficassem presos pelas suas pregações vigorosas, mas o que João queria era que toda a gente que o escutava dirigisse a atenção para o Messias que estava para vir, que até já estava no meio deles, mas sem ser reconhecido.

João Batista foi enviado por Deus para dar testemunho da Luz. Assim, procura que todas as atenções se dirijam para essa Luz.
João não quer atrair a atenção das pessoas sobre ele próprio, tendo muitos admiradores, mas que se virem para Jesus que é a luz de Deus, que os pode transformar.

 

Diante das pessoas notáveis que se dirigem a ele, para saberem quem ele é, João não lhes responde «Eu sou…», mas quem não é:
“Eu não sou o Messias!”, “Eu não sou Elias!”, “Eu não sou o profeta!” 

 

Ele apresenta-se como uma simples «voz». A voz que articula um conjunto de sons, necessários para que surja a «palavra» que, essa sim, comunica a mensagem.
João testemunha que quem é importante é Jesus que é o comunicador de Deus, que é a «Palavra de Deus».

Zacarias, seu pai, tinha razão quando a seguir ao nascimento da criança rezou «E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque irás à sua frente a preparar os seus caminhos.»
João não é a Luz, é a lâmpada que tem por função apresentar essa luz.

Por vezes confundimos «dar exemplo» com «dar testemunho».

 

Ambos são importantes, pois os bons exemplos são um grande incentivo para os seguirmos e assim sermos pessoas melhores para os outros, assim como pessoas que procuram fazer bem o que lhes é confiado.

Também esperamos que os nossos bons exemplos, e todos temos alguns, sejam seguidos por outros, a começar pelos que temos responsabilidade de educar ou de ensinar ou de formar.

Mas «dar testemunho» como cristão é afirmar com clareza que há uma Fonte, donde nascem essas obras boas e as virtudes que praticamos.

Dizermos, com naturalidade, quem é a Fonte onde vamos beber a esperança dum mundo melhor.

A nossa Fonte é Jesus, Filho de Deus e Emanuel (Deus Connosco). Essa Fonte, veio para ser acessível a todos, sem exclusão. E dá uma renovada alegria de viver, a quem se refrescar nela. Em todos os aspetos da vida, o cristão é chamado a seguir as atitudes e os ensinamentos de Jesus e também a dizer, que é Ele o inspirador do que fazemos.

 

Dar testemunho de Jesus é uma atitude constante de procura da Vontade de Deus em cada situação presente, em cada instante, sempre em liberdade, como Jesus o fazia, para dar testemunho do Pai, a Fonte do Amor.

frei Eugénio (13.12.2020)


2023-12-09

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 2º Domingo do Advento, 10 de dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

  

Evangelho (Mc. 1, 1-8)

Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus.
Está escrito no profeta Isaías:
«Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
que preparará o teu caminho.
Uma voz clama no deserto:
« Preparai o caminho do Senhor,
endireitai as suas veredas».
Apareceu João Baptista no deserto
a proclamar um baptismo de penitência
para remissão dos pecados.
Acorria a ele toda a gente da região da Judeia
e todos os habitantes de Jerusalém
e eram batizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados.
João vestia-se de pêlos de camelo,
com um cinto de cabedal em volta dos rins,
e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre.
E, na sua pregação, dizia:
«Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu,
diante do qual eu não sou digno de me inclinar
para desatar as correias das suas sandálias.
Eu baptizo-vos na água,
mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo».


DIÁLOGO
 

Li que houve uma tradição, já desaparecida, na Alemanha e na Polónia, na qual no dia de São Nicolau, 6 de Dezembro, as crianças se vestiam como bispos e íam pela ruas a pedir esmola para os pobres.
Era uma tradição muito rica nas duas mensagens que trazia!

Em primeiro lugar, ensinava às crianças que o cristianismo nos torna a todos nós, desde pequenos, responsáveis uns pelos outros e que pedir esmola tem o duplo objetivo: promover a generosidade dos mais abastados e ajudar os mais pobres a terem os bens essenciais que lhes faltam.
Em segundo lugar, pondo as crianças vestidas de bispos a pedir pelas ruas, colocava na imaginação delas uma imagem muito evangélica, dos chefes religiosos, como pessoas que põem o valor do seu cargo no serviço dos pobres.
 
Esta tradição já desapareceu, mas pode inspirar-nos para a nossa abordagem  neste 2° Domingo da caminhada do Advento.
O que é que Deus tem como projeto para o futuro da humanidade ?

No Evangelho de São Marcos, o primeiro personagem a aparecer em cena é João Batista.
A sua vocação era a de inquietar as pessoas, dizendo «preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas».
A sua vocação era convencê-las de que se tinham acomodado demasiado às condições sociais, políticas e religiosas que as rodeavam. Que se tinham deixado submeter à influência de César, que se impunha em todo o império, através da sua administração e dos  seus exércitos.
Que também tinham aceitado chefes religiosos que se preocupavam menos com a vida de fé e mais pela obediência às leis e regras  religiosas e que valorizavam as cerimónias e ritos religiosos, dando pouca atenção aos que mais precisavam de receber cuidados, por serem os mais desprotegidos, que na época eram as viúvas, os órfãos e os estrangeiros sem direitos.
 
Segundo os Evangelhos,  a pregação de João Batista  convenceu muitos da urgência destas mudanças e deu-lhes esperança num mundo mais à imagem de Deus, e encorajou-os a correr os riscos que essas mudanças lhes iriam trazer.
 
O batismo que João lhes dava no rio Jordão, significava que essas pessoas queriam deixar para trás os hábitos e comportamentos que seguiam sem se interrogar,  para ficar mais disponíveis para receber esse «Salvador poderoso», esse novo Messias, que Deus estava para enviar.
Seria esse Messias muito forte que não só os lavaria do pecado, mas que os encheria com o fogo do Amor do Espírito Santo.
 
João Batista foi um dos personagens mais estranhos na História do povo com quem Deus tinha feito uma aliança.
Abdicou da segurança e da estabilidade duma família sacerdotal, pois o seu pai Zacarias era descendente de Aarão e sacerdote no Templo , para ter uma vida de profeta na sobriedade e austeridade do deserto.
João queria que o seu povo ansiasse por mais, desejasse uma vida mais consoante a Vontade de Deus.
Só tendo esse desejo no seu interior, é que eles estariam motivados para desejar outro modo de viver muito melhor, mas arriscado.
João chamou-os e motivou-os a sonhar tão grande, que eles decidiram abandonar os seus pequenos confortos sociais e religiosos  para apostar em Deus.
 
João Batista pregou para sacudir as consciências, para pôr em questão os seus hábitos, e estimulá-los para algo de muito melhor que Deus lhes vinha oferecer através desse Salvador que estava a chegar.  

As crianças alemãs e polacas, no dia de São Nicolau, contribuíram para chamar a atenção para dois valores evangélicos muito importantes: a partilha e o cuidado pelos mais desfavorecidos e a liderança como um serviço aos outros.

E hoje, neste nosso mundo, Deus continua a envia-nos Joões Batistas e  Joanas Batistas, para despertar em nós, de modo quantas vezes inesperado, uma santa inquietação, que nos motive a preparar os caminhos que Ele quer trilhar para vir até nós.
Pessoas e situações, dos mais variados modos, que o Espírito Santo inspira, estão a dizer-nos:
« Preparai os caminhos que o Senhor quer trilhar para vir até vós, endireitai as suas veredas para Ele vos vir visitar!»

Para avivarmos em nós, a capacidade de ouvir os apelos que Deus nos faz, através de Joanas Batistas e de Joões Batistas, podemos pedir com fé e insistência:  
 

«Vem, Espírito Santo, vem!
Acende em nós o fogo do Teu Amor!
Dá-nos a alegria de preparar os teus caminhos.
Nós Te agradecemos as Tuas vindas. Amen.»


frei Eugénio (06.12.2020)

2023-12-02

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 1º Domingo do Advento, 3 de dezembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mc. 13, 33-37)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «Tomai cuidado, vigiai, pois não sabeis quando chegará esse momento.
Será como um homem que partiu de viagem: ao deixar a sua casa, deu plenos poderes aos seus servos, atribuindo a cada um a sua tarefa, e mandou ao porteiro que vigiasse.
Vigiai, portanto, visto que não sabeis quando virá o dono da casa: se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se de manhãzinha;
não se dê o caso que, vindo inesperadamente, vos encontre a dormir.
O que vos digo a vós, digo-o a todos: vigiai».

 

DIÁLOGO

Caros leitores,
Desejo-lhes um bom começo deste ano que vai dar os primeiros passos neste Domingo!
Não, não me enganei, mesmo se estamos a 29 de Novembro e o novo ano só chega daqui a mais dum mês!
De facto é neste Domingo começa o Ano Litúrgico da Igreja Católica, com o 1° Domingo do Advento.
 

O tempo do Advento (do Latim «adventus» que quer dizer «vinda» ou «chegada») recorda em primeiro lugar o facto histórico do nascimento de Jesus de Nazaré, numa manjedoura de Belém, na Palestina.
Para os cristãos este nascimento é importantíssimo, pois consideram que em Jesus, Deus se faz homem e veio viver entre nós.
A teologia diz que é o «Mistério da Encarnação», isto é, Deus encarnou-se, tornou-se  homem como nós.
Esta é a primeira vinda que celebramos no Natal.
 

A segunda vinda acontece no presente em que estamos a viver: Jesus anunciou, depois da sua Ressurreição e antes de partir para o junto de Deus: «Eis que Eu estou convosco todos os dias, até à consumação dos séculos!»
Deus visita-nos constantemente, caminha ao nosso lado e é uma presença de consolação, cada dia da nossa vida.
Essas visitas acontecem quando Deus quer e muitas vezes de modo que nos surpreende.
 

Por fim, teremos a terceira e a última visita. É a vinda de Jesus Cristo Ressuscitado, com toda a grandeza e santidade de Deus, no fim dos tempos, para julgar os vivos e os mortos.
Foi a essa vinda que se referia o evangelho do Domingo passado. Seremos julgados pelo amor que praticámos.
“Tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e acolhestes-me; nu e vestistes-me; enfermo e visitastes-me; estava na prisão e viestes até mim". Sendo estas vindas de Deus até nós tão importantes, queremos naturalmente estar atentos quando Deus nos vem visitar.
 

Mas há tantas coisas que nos interessam, outras que nos ocupam e tantas que nos preocupam, que nos esquecemos de estar vigilantes.
Daí Jesus insistir no Evangelho que lemos :
«Acautelai-vos e vigiai, O que vos digo a vós, digo-o a todos: Vigiai!»
Esta pandemia, que tem mudado tanto as nossas vidas e as nossas relações com os outros, pode tornar-se uma boa oportunidade para vivermos este Advento 2020 dum modo diferente.
 

Como?
Estamos a ficar treinadíssimos a ser vigilantes. Para nos protegermos a nós mesmos do vírus e para termos também muito cuidado em não contaminar os outros, desenvolvemos a atenção a detalhes que antes nos escapavam.
Este treino que nos torna mais vigilantes e atentos, pode dar-nos a oportunidade de melhor viver esta quadra do Advento, na qual Jesus nos pede para estarmos especialmente vigilantes às vindas de Deus até nós.
 

Como?
Intensificando o hábito de pedir ao Espírito Santo que nos ajude a discernir as visitas que Deus nos faz.
É como se tivéssemos metido uma aplicação ESPÍRITO SANTO nos smartphones, que nos alerta, não para portadores de Covirus-19 que estejam perto de nós, mas de vindas de Deus até nós.
A aplicação ESPÍRITO SANTO é gratuita e só precisa de ser carregada com Fé na Palavra de Jesus.
Só tem um inconveniente: é que começa a alertar-nos para visitas de surpresa que Deus nos vem fazer.
 

Mas são visitas que nos trazem uma alegria profunda a nós e àqueles a quem temos atenções renovadas.

 frei Eugénio, op
(29.11.2020)

 

2023-11-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo de Cristo, Rei do Universo, 26 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 25, 31-46)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:
«Quando o Filho do homem vier na sua glória
com todos os seus Anjos,
sentar-Se-á no seu trono glorioso.
Todas as nações se reunirão na sua presença
e Ele separará uns dos outros,
como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
e colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita:
‘Vinde, benditos de meu Pai; recebei como herança o reino
que vos está preparado desde a criação do mundo.
Porque tive fome e destes-Me de comer;
tive sede e destes-Me de beber;
era peregrino e Me recolhestes;
não tinha roupa e Me vestistes;
estive doente e viestes visitar-Me;
estava na prisão e fostes ver-Me’.
Então os justos Lhe dirão:
‘Senhor, quando é que Te vimos com fome  e Te demos de comer,
ou com sede e Te demos de beber?
Quando é que Te vimos peregrino e Te recolhemos,
ou sem roupa e Te vestimos?
Quando é que Te vimos doente ou na prisão e Te fomos ver?’.
E o Rei lhes responderá: ‘Em verdade vos digo: Quantas vezes o fizestes
a um dos meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes’.

 

DIÁLOGO

A festa de hoje é conhecida como a festa de «Cristo-Rei».
Ao longo dos tempos, os artistas têm produzido uma grande variedade de imagens de Cristo como Rei.
Na famosa Capela Sistina, há o super musculado Jesus de Miguel Ângelo, que levanta os abençoados de Deus e rejeita os condenados.
Os ícones ortodoxos, alguns de grande beleza, retratam um salvador mais sério do que acolhedor, e muitas representações populares apresentam Jesus coroado e resplandecente em vestes reais ou sacerdotais.
A verdade é que muitas destas imagens contrastam com o Evangelho de hoje.

Vale a pena reparar que nesta parábola nem o grupo das «ovelhas», nem o grupo dos «cabritos», haviam adivinhado os critérios que iriam determinar o seu destino.
Se se tivessem aconselhado para se preparar para o julgamento de Deus, muitos deles iriam examinar como haviam mantido a ortodoxia da doutrina e da liturgia, ou como tinham cumprido os mandatos morais que a Igreja ensinava, sobretudo os que contêm um «não farás».

Mas nada disso está presente nos critérios que Jesus apresenta nesta parábola sobre o julgamento que o Filho de Deus irá fazer no fim dos tempos.
A parábola conta-nos que o Filho do Homem, Jesus Cristo, Rei do Universo, escolheu claramente identificar-se com «os mais pequeninos”, que nos Evangelhos designam as pessoas mais desprotegidas, as menos consideradas, os mais pobres de tudo.

A imagem que Jesus apresenta de si mesmo nesta parábola, contrasta com as imagens tradicionais de Cristo-Rei investido de poder e com uma pose de majestade.
Lembremos, no entanto, que algumas representam Cristo-Rei de braços abertos numa atitude de acolhimento

Regressemos à parábola.
Há nela dois aspetos que contrastam; por um lado uma grande beleza, por nos apresentar o Rei que se identifica como os que mais precisam de ser acolhidos e apoiados; por outro tem um aspeto muito chocante, a oposição radical entre as duas categorias de pessoas, as «benditas de Deus Pai» e as «amaldiçoadas».

Pensemos um pouco:
em que grupo poderemos nós vir a ser incluídos? No dos benditos ou no dos amaldiçoados?
Na prática, todos nós, uma vez por outra, visitámos um doente, ou demos roupa para tirar o frio a alguém, ou demos alimentos a quem estava com muita fome…
Mas nós também, ocasionalmente (ou muitas vezes…), desviamos os nossos olhos (e as nossas bolsas) de pessoas angustiadas que nos pedem ajuda numa aflição, ou ficamos indiferentes face a populações a quem é negada a água, essencial para viver.

Diante desta realidade, onde as atitudes boas e más se misturam, julgo que nenhum de nós se atreve a considerar-se já com lugar no grupo dos «benditos do Pai». Por outro lado, nenhum de nós deve deixar-se dominar pelo medo de um dia merecer a condenação radical.
Se acreditamos que Deus, Pai e Juiz infinitamente justo e misericordioso, que nos conhece bem melhor do que nós próprios, que conhece o nosso interior e o que fizemos e o que deixamos de fazer, irá Ele fazer essa separação tão radical e definitiva?

Importa ter presente que na Bíblia, quando encontramos a oposição entre os bons e os maus, os justos e os pecadores, não se refere a duas categorias de pessoas, mas, sim, a duas atitudes opostas.
As atitudes opostas vivem dentro de cada um dos nós, como o trigo e o joio, na conhecida parábola de Jesus.

O objetivo da vinda de Jesus, o Filho de Deus não pode ser o de separar a humanidade em duas categorias de pessoas: os bons e os justos, de um lado, os ímpios e os pecadores, do outro!
Na verdade, essas duas categorias coexistem no nosso interior: cada um de nós tem luz e escuridão no seu coração.

O contexto desta parábola de Jesus, no Evangelho de São Mateus, pode ajudar-nos a compreendê-la melhor.
De facto, Jesus conta esta parábola antes da sua Paixão, numa ocasião em que as forças da luz enfrentavam de modo decisivo as forças das trevas.

Portanto, a intenção de Jesus ao contar esta parábola não é para nos obrigar a sermos solidários com os «mais pequeninos» apenas para fugirmos ao castigo.
Pelo contrário, Jesus quer dizer-nos que os encontros verdadeiros com os pobres alargam o coração e a visão dos doadores.
A solidariedade, as chamadas «obras de misericórdia» que a parábola nos apresenta, tornam-nos a todos mais humanos.
Assim, Jesus convida-nos a reconhecê-lo na relação que temos com os pobres que são a sua imagem.

Quando queremos seguir Jesus, nos pobres e pelos pobres com quem Ele se identifica, queremos servi-Lo neles e com eles.
De acordo com as Bem-aventuranças, isto nos fará felizes neste mundo e nos abrirá as portas para o mundo novo e eterno que Jesus veio inaugurar.

Estarmos vigilantes sobre o modo como tratamos com o nosso próximo, será o único critério que Jesus nos apresenta para amarmos a Deus, fazendo a Sua Vontade.
Felizes seremos se o descobrirmos e o praticarmos.

    frei Eugénio, op
(22.11.2020)

2023-11-20

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 33º Domingo do Tempo Comum, 19 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 25, 1-13) 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:

«Um homem, ao partir de viagem,

chamou os seus servidores e confiou-lhes os seus bens.

A um entregou cinco talentos, a outro dois e a outro um,

conforme a capacidade de cada qual; e depois partiu.

O que tinha recebido cinco talentos

fê-los render e ganhou outros cinco.

Do mesmo modo, o que recebera dois talentos ganhou outros dois.

Mas, o que recebera um só talento

foi escavar na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

Muito tempo depois, chegou o senhor daqueles servidores

e foi ajustar contas com eles.

O que recebera cinco talentos aproximou-se e apresentou outros cinco, dizendo: «Senhor, confiaste-me cinco talentos:

aqui estão outros cinco que eu ganhei».

Respondeu-lhe o senhor: «Muito bem, servidor bom e fiel.

Porque foste fiel em coisas pequenas, confiar-te-ei as grandes.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor».

Aproximou-se também o que recebera dois talentos e disse:

«Senhor, confiaste-me dois talentos: aqui estão outros dois

que eu ganhei».

Respondeu-lhe o senhor: «Muito bem, servidor bom e fiel.

Vem tomar parte na alegria do teu senhor».

Aproximou-se também o que recebera um só talento e disse:

«Senhor, eu sabia que és um homem severo,

que colhes onde não semeaste e recolhes onde nada lançaste.

Por isso, tive medo e escondi o teu talento na terra.

Aqui tens o que te pertence».

O senhor respondeu-lhe: «Servidor mau e preguiçoso,

sabias que ceifo onde não semeei e recolho onde nada lancei;

devias, portanto, depositar no banco o meu dinheiro

e eu teria, ao voltar, recebido com juro o que era meu.

Tirai-lhe então o talento e dai-o àquele que tem dez.

Porque, a todo aquele que tem,

dar-se-á mais e terá em abundância;

mas, àquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado.

Quanto ao servidor inútil, lançai-o às trevas exteriores.

Aí haverá choro e ranger de dentes».

 

 

DIÁLOGO

A parábola de Jesus começa por nos falar dum homem muito rico

que indo viajar para longe, confia grandes quantias a três dos seus servidores.

Naquela época do Império Romano, o talento era uma medida de peso de ouro, entre 35 e 60 quilos. Em valores atuais, um talento valia entre 1.800.000 euros e 3.100.000 euros.

 

Nesta parábola, é interessante reparar quantas vezes aparece a palavra confiar.

O principal passa-se à volta deste mal-entendido: a confiança dum lado e a desconfiança e o medo do outro.

Esta confiança do senhor nos seus servidores, exige que eles se decidam, por eles próprios, a tomar iniciativas e a correr riscos: perder uma parte ou mesmo muito do que lhes tinha sido confiado pelo seu senhor, durante a prolongada ausência.

 

Mas o que é que se pode criticar ao terceiro servidor?

Ele não fez nada de mal. Não matou, nem roubou, nem utilizou em proveito próprio o talento de ouro recebido. Até entregou ao seu senhor exatamente o que lhe tinha sido confiado.

Mais ainda, segundo o direito praticado e ensinado pelos rabinos, este terceiro servidor era considerado como o que melhor protegeu contra os ladrões aquela grande quantia.

 

O terceiro servidor pode é lamentar-se de ter avaliado muito erradamente como era o seu senhor. Só viu a sua severidade e por isso, com medo duma punição, preferiu nada arriscar, protegendo-os quilos de ouro o melhor possível contra os roubos.

Diante da confiança do senhor havia duas atitudes possíveis:

- reconhecer a confiança recebida e querer merecê-la, sendo criativo e correndo riscos, ou 

- não ver essa confiança, mas sim a severidade e com esta avaliação tomar a medida mais segura, que era esconder bem o que era do seu senhor.

 

Os três servidores são tratados do mesmo modo, mas “conforme a capacidade de cada qual”.

O primeiro ensinamento desta parábola é que Deus tem confiança em nós, em cada um de nós, mulheres e homens, e associa-nos ao Seu projeto para a criação, segundo as capacidades de cada um.

Deus conhece-nos, bem melhor que nós mesmos, e por isso não nos pede mais do que podemos fazer, o que traria como consequência culpabilizarmo-nos pelo que não fizemos. Deus pede-nos o que sabe que podemos e somos capazes de fazer, o que nos dá uma grande segurança para trabalharmos e colaborarmos com Ele.

 

Por vezes valorizamos muito os currículos das pessoas, isto é, o que já viveram e fizeram no passado e estão a fazer no presente. No entanto, desconhecemos completamente o que poderemos vir a ser e a fazer no futuro. O futuro pode reservar-nos grandes surpresas, mas para Deus o que fazemos de mais surpreendente, faz parte das nossas capacidades, que Ele bem conhece e com as quais conta, no que nos pede.

 

É como se Deus nos dissesse: «fica descansado, pois fizeste o que eu sabia que podias fazer!»

O terceiro servidor teve medo de ser considerado culpado, se perdesse uma parte do talento de ouro e por isso não arriscou nada e não colaborou com o que o senhor desejava dele.

 

No centro desta parábola está a imagem que temos de Deus, com a riqueza do Seu Amor, que nos é confiado por Ele, para nos empenharmos a viver uns com os outros, como verdadeiros irmãos que se querem bem e que querem o bem de todos.

Para viver assim, teremos de correr riscos e de ser criativos, mas teremos a alegria de colaborar na construção dum mundo  mais próximo daquele que Deus quer para nós a para as gerações que nos seguem.

 

Os discípulos de Jesus, em todos os tempos, têm de gerir a riqueza sem limites da Palavra de Deus que lhes é confiada.

Como na parábola, Deus confia-nos, a cada um de nós, segundo as nossas capacidades, a riqueza admirável da Sua Palavra que é portadora de Vida nova, e na qual podemos pôr toda a nossa confiança.

 

frei Eugénio, op (15.11.2020)

2023-11-11

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 32º Domingo do Tempo Comum, 12 de novembro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 25, 1-13) 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos a seguinte parábola:
«O reino dos Céus pode comparar-se a dez virgens,
que, tomando as suas lâmpadas, foram ao encontro do noivo.
Cinco eram insensatas e cinco eram prudentes.
As insensatas, ao tomarem as suas lâmpadas,
não levaram azeite consigo,
enquanto as prudentes,
com as lâmpadas, levaram azeite nas vazilhas.
Como o noivo se demorava,
começaram todas a dormitar e adormeceram.
No meio da noite ouviu-se um brado:
“Aí vem o noivo; ide ao seu encontro!”
Então, as virgens levantaram-se todas
e começaram a preparar as lâmpadas.
As insensatas disseram às prudentes:
“Dai-nos do vosso azeite,
que as nossas lâmpadas estão a apagar-se”.
Mas as prudentes responderam:
‘Talvez não chegue para nós e para vós.
Ide antes comprá-lo aos vendedores”.
Mas, enquanto foram comprá-lo, chegou o noivo:
as que estavam preparadas
entraram com ele para o banquete nupcial;
e a porta fechou-se.
Mais tarde, chegaram também as outras virgens e disseram:
“Senhor, senhor, abre-nos a porta”.
Mas ele respondeu:
“Em verdade vos digo: Não vos conheço”.
Portanto, vigiai, porque não sabeis o dia nem a hora».

DIÁLOGO

Desde crianças que nos ensinaram a ter atenção, a sermos vigilantes,
com o que pode ser perigoso para nós próprios: o que nos queima, o que nos corta e fere, o que não se deve comer, o que devemos fazer para não ficarmos doentes, …
Aprender a estarmos vigilantes com o que põe em risco a nossa integridade física, é uma aprendizagem fundamental do nosso crescimento.
O medo e o receio têm um papel muito importante nesta aprendizagem sobre a sobrevivência pessoal.

Mas nesta parábola, Jesus propõem-nos uma vigilância diferente,
não por medo e receio, mas por Amor e confiança.
Conhecer o cenário da parábola, ajuda-nos muito a entender esta vigilância à qual Jesus nos convida.
Trata-se de um casamento judaico tradicional. No último dia dos festejos, depois do pôr-do-sol, o noivo, acompanhado dos seus amigos, à luz de tochas e ao som de cânticos, em cortejo, ia até casa da noiva, que esperava o seu noivo, acompanhada das suas amigas.
Quando o cortejo do noivo chegava, a noiva saia de casa e juntava-se com as suas amigas ao cortejo do noivo e, todos juntos, dirigiam-se em ritmo de festa para casa do noivo, onde se realizava a ritual do casamento, seguido da refeição festiva.

Na parábola, ao contrário do que era a regra, o noivo atrasou-se muito. As amigas da noiva, com tão prolongada espera, acabam por adormecer todas.
Ora, ao que o texto chama «lâmpadas», são de facto tochas, com uma cavidade onde se colocavam trapos e estopa, que eram embebidos em azeite e que podiam alumiar apenas cerca de um quarto de hora. Por isso, só eram acesas quando iam ser utilizadas. E se o caminho demorava, deviam levar também vasilhas de azeite, para que as tochas fossem de novo acesas e não se apagassem.

Conta depois a parábola que, no meio da noite, inesperadamente, ouve-se um brado: “Aí vem o noivo; ide ao seu encontro!
Que entusiasmo e que grande alegria ao ouvirem este brado!
Tinha valido a pena esperarem tanto tempo!
Agora já podiam seguir com a noiva para a festa do casamento, alumiando o caminho com as tochas acesas.
Qual é a diferença entre as jovens prudentes e as insensatas?

Umas e outras iam alegremente acompanhar a noiva para a festa do casamento. Todas adormeceram de cansaço e todas se levantaram estremunhadas e pegaram nas tochas.
A diferença é que as prudentes tinham azeite para que as tochas alumiassem o caminho e as insensatas não tinham o azeite, que era essencial para que as tochas desempenhassem a sua função.
Para nós, então, qual é esse azeite que é tão essencial? É a Fé.
Para termos as tochas acesas, precisamos de ter a luz da Fé para seguirmos o caminho com Jesus, fazendo a Vontade de Deus.

Precisamos de pedir, com fé, que essa Luz nos faça descobrir as manifestações do Amor de Deus, seja para as agradecer, seja para com elas colaborar.

A presença do Senhor entre nós é algo que já temos, se acreditamos no que Jesus nos prometeu. Mas não sabemos quando nos serão dadas plenamente a misericórdia e a justiça de Deus.

O evangelista São Mateus junta vários ensinamentos de Jesus sobre a Sua vinda gloriosa como Messias e Salvador, no final dos tempos.  No início deste discurso (Mt 24, 39) Jesus é muito claro quando diz: «Sobre o dia e a hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai.»
Jesus deu-nos tudo o que precisamos para nos mantermos vigilantes na Fé durante toda a nossa vida. Para isso devemos estar prontos para receber a Luz de Deus, para seguirmos o caminho sendo fiéis ao que Deus quer de nós neste mundo que criou para nossa felicidade.

Vem, Senhor Jesus, ajuda-nos a estarmos vigilantes!

frei Eugénio, op (08.11.2020)





2023-10-29

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 30º Domingo do Tempo Comum, 29 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 22, 15-21) 

 

Naquele tempo,

os fariseus, ouvindo dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus,

reuniram-se em grupo,

e um doutor da Lei perguntou a Jesus, para O experimentar:

«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?»

Jesus respondeu:

«‘Amarás o Senhor teu Deus

com todo o teu coração, com toda a tua alma

e com todo o teu espírito’.

Este é o maior e o primeiro mandamento.

O segundo, porém, é semelhante a este:

‘Amarás o teu próximo como a ti mesmo’.

Nestes dois mandamentos se resumem

toda a Lei e os Profetas».

Palavra da salvação.

 

 

DIÁLOGO


Nos nossos diálogos dos últimos Domingos e neste também, Jesus é interpelado com perguntas preparadas pelos mais doutos e notáveis religiosos do judaísmo, que procuram apanhar Jesus em falha, para o levar à condenação como falso Messias.

 

A todas essas perguntas armadilhadas, Jesus respondeu com uma perspetiva mais ampla. Desta vez o porta-voz é um teólogo moralista que lhe faz a pergunta mais básica de todas para um judeu: " Qual é o maior mandamento da Lei?»

Ele fez a pergunta central de todos os crentes: "O que é que Deus espera da humanidade?"

A resposta de Jesus foi a que esse teólogo e os seus companheiros esperavam.

 

Quando Jesus disse: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito”, estava a dizer uma oração do Deuteronômio 6: 4-5, que todos os judeus piedosos recitam diariamente de manhã e à noite, e que esperam que seja a última prece que dirão na hora da morte.

 

É a chamada SHEMÁ: “Escuta Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todo o teu espírito”.

É o apelo de Deus que liberta e salva o povo e com quem faz uma aliança. Deus pede uma resposta de fé, com todas as forças humanas, no reconhecimento da sua bondade e grandeza únicas.

 

Em seguida Jesus, vai além da pergunta do doutor da Lei e acrescenta o segundo mandamento da Aliança, “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, mas acrescentando que este mandamento é semelhante ao primeiro.

Se é semelhante, quer dizer que faz corpo com o primeiro, de certo modo deixa de ser segundo. Os dois são inseparáveis para Deus, diz Jesus.

É como se dissesse: o grau do teu amor a Deus verifica-se pela qualidade do teu amor ao próximo.

 

"Amarás o teu próximo como a ti mesmo."

No Sermão da Montanha, que o evangelista Mateus reúne nos capítulos 5 a 7, Jesus faz um apelo ao amor ao próximo, incluindo os inimigos.

 

Ao dizer que o amor ao próximo é semelhante ao amor a Deus,

Jesus declara que eles dois amores estão intimamente ligados num modo de vida como Deus quer.

 

Jesus pede um amor em quatro dimensões: amor a Deus, amor a si mesmo, amor àqueles que estão afetivamente mais próximos de nós, e amor àqueles cujos objetivos e modos de vida são totalmente diferentes, ou mesmo opostos aos nossos.

 

Quando analisamos essas quatro dimensões de uma vida de amor, vemos que somos chamados a amar em duas direções:

Uma direção para o amor aos familiares e aos que nos são semelhantes e a outra direção para o amor aos que não são como nós.

 

Para muitas pessoas o amor a si mesmo e aos mais próximos, o amor por aqueles que pensam e agem de modo semelhante ao nosso, vem de certo modo, naturalmente. Esse amor consolida a nossa personalidade como pessoas-de-relação e dá-nos calor humano.

Mas Jesus convida-nos a ir mais longe e a aprender a amar quem pensa e age de maneira diferente e até oposta à nossa.

Jesus diz-nos que o amor a Deus e ao amor ao próximo são duas dimensões inseparáveis do mesmo Amor que Deus quer e Ele veio manifestar.

 

Santa Catarina de Sena na sua obra-prima “O Diálogo” na qual relata os diálogos de Deus com ela, exprime-o de uma forma simples que partilho convosco.

 

Deus diz-lhe:

“Quem Me ama procura ser útil ao próximo. Nem poderia ser de outra maneira, dado que o amor por Mim e pelo próximo, são uma só coisa. Tanto alguém ama o próximo, quanto Me ama, pois de Mim se origina o amor do outro.”

 

“Como nada podeis fazer de útil para Mim, deveis ser de utilidade ao homem.”

 

”Quem se apaixona por Mim, jamais cessa de trabalhar pelos outros, de modo geral ou particular, com maior ou menor empenho, segundo as disposições do beneficiado e do benfeitor.”

 

“Assim, graças ao amor que o une a Mim, o homem torna-se útil ao próximo; preocupado com a salvação alheia, ama o próximo, presta-lhe serviços em suas necessidades.”

 

In “O Diálogo” n° 2.7 (É no homem que se ama a Deus)

 

frei Eugénio (25.10.2020)

 

 

 

 




2023-10-22

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 29º Domingo do Tempo Comum, 22 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 22, 15-21) 

Naquele tempo, os fariseus reuniram-se para deliberar sobre a maneira de surpreender Jesus no que dissesse.
Enviaram-Lhe alguns dos seus discípulos, juntamente com os herodianos, e disseram-Lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas, segundo a verdade, o caminho de Deus, sem Te deixares influenciar por ninguém, pois não fazes aceção de pessoas.
Diz-nos o teu parecer: É lícito ou não pagar tributo a César?».
Jesus, conhecendo a sua malícia, respondeu: «Porque Me tentais, hipócritas?
Mostrai-Me a moeda do tributo». Eles apresentaram-Lhe um denário,
e Jesus perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?».
Eles responderam: «De César». Disse-lhes Jesus: «Então, dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus».


DIÁLOGO

Todos nós já ouvimos com variadas, e até interpretações opostas, a sentença “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.
Mas o que é que Jesus quereria dizer com esta sentença?
É o que irei partilhar convosco.

No tempo de Jesus os romanos ocupavam com as suas tropas a terra de Israel e o povo era obrigado a pagar pesados tributos.
O imperador de Roma, o César, era de facto o verdadeiro senhor do povo.

A tradição religiosa de Israel ensinava, ao contrário, que o único que devia ser considerado o Senhor do povo eleito era o Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, o Deus que tinha libertado o seu povo da escravidão do Egito.

O imposto era um sinal de dominação romana. Os fariseus rejeitavam-na, mas os partidários de Herodes aceitavam-na.

É com esta pergunta “É lícito ou não pagar tributo a César?” que os líderes religiosos do povo judeu esperavam apanhar Jesus numa armadilha.

Onde está essa armadilha?
Se Jesus respondesse “sim” seria tratado como um colaborador dos ocupantes romanos. Aceitar pagar a taxa do tributo significava reconhecer e aceitar a dominação dos romanos, estrangeiros e pagãos. Isto significava para Jesus perderia a confiança do povo.

Se Jesus dissesse "não", os partidários de Herodes poderiam acusá-lo de subversão. Seria denunciado como inimigo do imperador.

Qualquer resposta, pensavam os adversários de Jesus, iria colocá-lo numa situação desfavorável e perigosa.

O denário, moeda romana com que se pagava o imposto, tinha a inscrição “Divino Tibério César”.
Portanto, os imperadores queriam ser adorados como deuses.
De acordo com as interpretações mais rigorosas da Lei, aquela moeda trazia uma imagem de um falso deus, um ídolo, e usá-la seria como dizer que “Israel pertence a César”.

Possuir essa moeda correspondia a admitir que eles não hesitavam em colaborar com os romanos. Apesar da evidente contradição em que estavam aqueles fariseus, com as moedas nas mãos, manifestado a sua hipocrisia, Jesus não fez acusações contra eles.

Só podemos imaginar Jesus apontando para a moeda, com a aversão por qualquer tipo de ídolo, que teria um judeu fiel da sua época, perguntando: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”

Simplesmente, depois da resposta, cita-lhes um ditado conhecido de todos: “Então dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”.

Era como se dissesse: “Somos obrigados a pagar impostos a Roma, paguemo-los. Mas César é apenas César, ele não é Deus, os homens não precisam de adorá-lo. Eles não devem obedecer-lhe como alguém obedece a Deus.”

Com esta resposta, Jesus conseguiu, não só evitar de cair na armadilha de dar uma resposta de “sim” ou “não”, mas também chamar a atenção para uma estão essencial: “Existe alguma coisa na criação que não pertença a Deus?”
Chamar a Deus de “Senhor da História” quer dizer que nenhuma situação está fora do alcance de Deus.

Na verdade, Jesus vai mais além do que a questão sobre os impostos. Jesus desafiou-os a pensar sobre as imagens.
A imagem de César gravada na moeda e a imagem e semelhança com Deus que Ele nos quis criar.
Estas imagens situam-se a dois níveis completamente diferentes.

Jesus não põe em oposição o poder de Deus e o poder do homem, mas destacou a primazia absoluta de Deus, que na imagem e semelhança que gravou em nós inscreveu o amor e a liberdade.

Devemos guardar no nosso coração a imagem do nosso Deus e não a imagem de quem nos quer dominar.

Ele é o único Senhor da nossa vida que constantemente nos surpreende e vai além do que nós esperamos, oferecendo-nos novas oportunidades de trabalhar para a vinda do Seu Reino.

A confiança prioritária em Deus e a esperança Nele não nos levam a uma fuga da realidade, mas pelo contrário, levam-nos a trabalhar e a dar a Deus o que lhe pertence.

O Evangelho que lemos pode também chamar-nos a atenção que a relação entre a Igreja e o Estado nunca é simples.

Se, por um lado, a secularização enquanto separação da(s) Igreja(s) e do Estado constitui um avanço civilizacional fundamental, em ordem à não discriminação dos cidadãos e à salvaguarda da paz, por outro lado, ela não significa indiferença mútua.

Pelo contrário, a separação pode e deve conviver de modo saudável com o reconhecimento do papel público das religiões, traduzido em múltiplas formas de colaboração entre as Igrejas e o Estado.

Cabe a cada um de nós comprometer-se, em nome da nossa fé em Jesus, para melhorar a convivência de todos, para que a dignidade dos mais pobres e desfavorecidos seja reconhecida e respeitada.

A causa de Deus é, pois, a causa do Homem.

Frei Eugénio, op
(18.10.2020)
 

2023-10-14

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 28º Domingo do Tempo Comum, 15 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 
Evangelho (Mt. 22, 1-14) 

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: 

«O reino dos Céus pode comparar-se a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram vir. Mandou ainda outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: Preparei o meu banquete, os bois e os cevados foram abatidos, tudo está pronto. Vinde às bodas’.

Mas eles, sem fazerem caso, foram um para o seu campo e outro para o seu negócio; os outros apoderaram-se dos servos, trataram-nos mal e mataram-nos. O rei ficou muito indignado e enviou os seus exércitos, que acabaram com aqueles assassinos e incendiaram a cidade. Disse então aos servos: ‘O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide às encruzilhadas dos caminhos e convidai para as bodas todos os que encontrardes’. Então os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos os que encontraram, maus e bons. E a sala do banquete encheu-se de convidados.

O rei, quando entrou para ver os convidados, viu um homem que não estava vestido com o traje nupcial e disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’ Mas ele ficou calado. O rei disse então aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o às trevas exteriores; aí haverá choro e ranger de dentes’. Na verdade, muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos».

 

DIÁLOGO

A parábola, que lemos, fala-nos do Reino de Deus, comparando-o a uma festa de casamento.
A figura principal é o filho do rei, o noivo, no qual facilmente se reconhece Jesus.
Na parábola, porém, nunca se fala da noiva, mas de muitos convidados, que são desejados e esperados. São eles que vão receber à entrada da sala do banquete a túnica de festa, como presente do Rei. 

Quem são todos esses convidados? Somos nós, todos nós, porque o Senhor deseja que cada um de nós esteja com ele na «festa de casamento do filho». Deus procura-nos e convida-nos, e não se contenta com o nosso bom cumprimento das leis e dos deveres religiosos, mas quer uma verdadeira comunhão de vida connosco, uma relação feita de diálogo, confiança e perdão.

É deste amor gratuito de Deus, que nasce e renasce constantemente a vida cristã, conforme Jesus a apresenta aos seus discípulos.
Podemos interrogar-nos se, ao menos uma vez por dia, entre tantas palavras que dizemos, nos lembramos de Lhe dizer: «Senhor eu amo-Te, Senhor eu quero fazer a Tua Vontade, Obrigado, Senhor, por me convidares!» … 

Se reavivarmos a memória de que somos amados, que somos os convidados de Deus para a «festa do casamento», é-nos dada, em cada dia, a oportunidade de respondermos «sim» ao convite. Mas Jesus, na parábola, chama-nos a atenção que o convite pode ser recusado.
Muitos convidados «não fizeram caso», foram um para o seu campo, outro para o seu negócio, diz o texto. 

Uma palavra que reaparece é «seu». É a palavra-chave para entendermos o motivo das recusas.
De facto, os convidados não foram ao casamento, porque simplesmente a festa não lhes interessava, «não fizeram caso»: viviam tão centrados nos seus interesses pessoais, que nem sequer fizeram caso do convite que pedia uma resposta.

Eles se afastam-se daquela festa não por serem más pessoas, mas porque toda a atenção está dirigida para o que é seu.

Quando tudo fica dependente do «Senhor EU» – isto é, daquilo com que eu concordo, do que eu gosto, daquilo que me serve, daquilo que eu quero e a nossa vida gira tão somente à volta deste «Senhor EU» muita coisa nos passa ao lado.

Assim, o Evangelho pergunta-nos de que lado estamos: do lado do meu Eu ou do lado de Deus e do que Ele quer, para nosso bem?
Mas diante das recusas aos convites que se vão repetindo, Deus não se resigna e continua a convidar, não fecha a porta da sala do casamento, mas ainda vai incluir mais convidados.

Deus, ao mesmo tempo que sofre com os nossas recusas, persiste em oferecer o amor, mesmo a quem «não faz caso».
Só o Amor pode fazer sair desta «bolha do Senhor Eu». 

Há um último aspeto que a parábola destaca, que para nós, no nosso tempo, temos muita dificuldade em entender: a importância da roupa de cerimónia dos convidados.

É o próprio rei que, à maneira oriental, em vez de receber presentes, oferece a túnica de cerimónia, indispensável nos rituais do casamento.
Todos os convidados a recebem, pois muitos foram convidados à pressa e outros não teriam posses para comprar o traje exigido. Com efeito, não basta responder uma vez só ao convite, dizer «sim» e… chega!

Precisamos de renovar cada dia a nossa escolha por Deus, praticar a Sua vontade, tomando consciência dos seus convites e aceitando-os.
Deus convida sempre, pede a nossa participação como parceiros ativos na construção do Seu Reino.

Todos nós somos chamados a seguir os caminhos da coragem e da busca da verdade e do bem que o amor exige.

A nossa resposta, em liberdade, é que nos permite aceitar os convites.

    frei Eugénio, OP  (11.10.2020)

 


2023-10-08

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 27º Domingo do Tempo Comum, 8 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 21, 33-43)

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo:
«Ouvi outra parábola:
Havia um proprietário que plantou uma vinha,
cercou-a com uma sebe, cavou nela um lagar e levantou uma torre;
depois, arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para longe.
Quando chegou a época das colheitas,
mandou os seus servos aos vinhateiros para receber os frutos.
Os vinhateiros, porém, lançando mão dos servos,
espancaram um, mataram outro, e a outro apedrejaram-no.
Tornou ele a mandar outros servos, em maior número que os primeiros.
E eles trataram-nos do mesmo modo.
Por fim, mandou-lhes o seu próprio filho, dizendo:
‘Respeitarão o meu filho’.
Mas os vinhateiros, ao verem o filho, disseram entre si:
‘Este é o herdeiro; matemo-lo e ficaremos com a sua herança’.
E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no.
Quando vier o dono da vinha, que fará àqueles vinhateiros?»
Eles responderam:
«Mandará matar sem piedade esses malvados,
e arrendará a vinha a outros vinhateiros,  que lhe entreguem os frutos a seu tempo».
Disse-lhes Jesus: «Nunca lestes na Escritura:
‘A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular;
tudo isto veio do Senhor e é admirável aos nossos olhos’?
Por isso vos digo: Ser-vos-á tirado o reino de Deus e dado a um povo que produza os seus frutos».



DIÁLOGO

A parábola que acabámos de ler começa por descrever os gestos de amor do proprietário cheio de cuidados pela sua vinha.

Numa colina cheia de sol, cavou a terra, plantou castas selecionadas, protegeu-as com uma sebe e uma torre de vigia e construiu um lagar. Não se poupou a esforços para com a sua vinha.
Entram então em cena os vinhateiros, a quem o proprietário aluga a sua vinha, contando que chegada a vindima venham a recolher belas e saborosas uvas.

A parábola insiste em que o proprietário continua a ser o dono da vinha e somente a alugou a quem cuidasse dela.

Mas os vinhateiros, em vez de se reconhecerem como trabalhadores que colaboram, tratando o melhor possível daquela bela vinha, querem tornar-se eles próprios os donos.

Para conseguirem o seu objetivo, recorrem à violência sobre os enviados do proprietário e chegam mesmo ao assassinato do herdeiro, o filho do proprietário.

Jesus, com esta parábola quer levar os seus ouvintes, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, pessoas letradas e influentes, a reconhecerem que são eles os atores do drama que se está a passar com Ele, filho e herdeiro de Deus-Pai.

Jesus apresenta-se como um continuador dos profetas de Israel, mas dizendo que é muito mais do que eles, que é o "filho", o herdeiro, que esses dirigentes estão a rejeitar e pior ainda, estão a fazer todos os possíveis para que seja condenado, o que naquela altura significava ser julgado, torturado e crucificado.

Jesus diz-lhes: «A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se a pedra angular.» Jesus foi expulso da cidade de Jerusalém como uma pedra inútil e inadequada que os construtores não queriam.

Mas Deus-Pai fez dele "a pedra angular", a pedra que serve de remate à abóbada do novo Templo de Jerusalém, que significa que não se trata de um edifício de pedras, madeiras e mármores, mas de pessoas humanas, de todas as nações no Mundo, que se juntam ao Filho de Deus, na confiança e no amor, para construírem o Reino.

Também a nós, nos são dadas múltiplas ocasiões de trabalharmos na «vinha do Senhor». Podemos ser bons «vinhateiros» se procurarmos cuidar com responsabilidade e honestidade da «vinha» em que Ele nos pede para trabalharmos.

A «vinha do Senhor» inclui toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral.
Aceitando conscientemente os apelos que Deus nos faz e procurando pôr em prática a Sua Vontade, tornámo-nos seus colaboradores para que o seu Reino de amor, justiça e paz venha entre nós.

Seremos bons «vinhateiros», nos mais variados sectores da atividade humana, se trabalharmos para ajudar resolver as consequências da degradação ambiental na vida dos mais desprotegidos do mundo.

Se quisermos ter uns momentos de paragem, e nos pusermos à procura de colaborações que Deus nos pede, para cuidarmos da Sua «vinha» começamos a vê-las nos mais variados momentos e circunstâncias: em casa, com quem vivemos e acolhemos… , no trabalho virtual ou presencial…, a deslocarmo-nos nos transportes públicos ou a conduzir…, nas idas às compras para alimentar a família e a cozinhar…, nas ocasiões de lazer e distração…, nos momentos de oração...

Que dignidade nos é oferecida por Jesus: sermos bons «vinhateiros», colaboradores de Deus, na construção do seu Reino no meio de nós!

frei Eugénio, op (04.10.2020)

 

2023-10-01

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum, 1 de outubro, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 21, 28-32)

Naquele tempo, disse Jesus aos príncipes dos sacerdotes
e aos anciãos do povo:
«Que vos parece?
Um homem tinha dois filhos.
Foi ter com o primeiro e disse-lhe: ‘Filho, vai hoje trabalhar na vinha’.
Mas ele respondeu-lhe: ‘Não quero’.
Depois, porém, arrependeu-se e foi.
O homem dirigiu-se ao segundo filho e falou-lhe do mesmo modo.
Ele respondeu: ‘Eu vou, Senhor’.
Mas de facto não foi.
Qual dos dois fez a vontade ao pai?»
Eles responderam-Lhe: «O primeiro».
Jesus disse-lhes: «Em verdade vos digo: Os publicanos e as mulheres de má vida irão diante de vós para o reino de Deus.
João Baptista veio até vós, ensinando-vos o caminho da justiça,
e não acreditastes nele;
mas os publicanos e as mulheres de má vida acreditaram.
E vós, que bem o vistes, não vos arrependestes, acreditando nele».

 

DIÁLOGO

Caros leitores,

Jesus contou esta parábola aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, pessoas muito bem situadas na Palestina, tanto na religião como na vida pública. A pergunta que lhes fez no final era muito simples: «qual dos dois filhos fez a vontade ao pai?». Foi o que disse que ia e não foi, ou foi o que o acabou por ir? 

A questão é, pois, entre o dizer e o fazer.
Jesus contou esta parábola durante o seu ensino sobre o Reino de Deus presente no meio de nós.
Dizer que se adere ao ensino de Jesus, ou que se adere aos valores da religião cristã que nos transmitiram e aprendemos, não traz grande dificuldade, nem compromete muito.
Mas pôr em prática atitudes como as que Jesus tinha e que Ele nos propõe para entrarmos no Reino, torna-se mais exigente.
 

Será necessário passar das ideias e dos princípios, à procura concreta do que Deus quer de cada um de nós.
Como lemos, depois de ter recebido a resposta que lhe deram, Jesus fez uma comparação que iria chocar os seus ouvintes. Comparou as pessoas importantes e respeitadas com dois tipos de pessoas completamente desconsideradas: os publicanos e as mulheres de má vida.
Quem eram essas pessoas, para serem tão desprezadas?

Os publicanos eram os cobradores dos impostos ao serviço do Império Romano. Tinham práticas corruptas para enriquecer, pressionando  de todos os modos a população a pagar impostos aos ocupantes romanos. Eram desprezados e detestados pelo povo e considerados pecadores públicos pelos intérpretes da Lei de Moisés.

As mulheres de má vida eram as que praticavam a prostituição, de modo público, prática condenada pela Lei e pela sociedade.
Jesus chocou muito os seus ouvintes, como nos chocaria a nós, pois disse-lhes que esses «pecadores públicos», no Reino de Deus, passariam à frente deles. 

Como é possível que Deus possa dar prioridade no Seu Reino a pessoas com práticas tão condenadas pela moral e pela religião?
Jesus já o tinha dito com toda a clareza no final do Sermão da Montanha: «Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai». 

O próprio evangelista Mateus era publicano de profissão, assim como o bem conhecido Zaqueu, entre outros. Graças a Jesus descobriram a vontade de Deus e mudaram profundamente as suas práticas
Os Evangelhos também nos apresentam mulheres de má vida - a que ia ser condenada à morte por apedrejamento, a mulher que ungiu Jesus em Betânia  e Madalena, a pecadora arrependida, que mudaram de vida por terem sido perdoadas por Jesus.

A prioridade que elas e eles têm no Reino de Deus, deve-se ao facto de terem decidido procurar conhecer e pôr em prática a vontade de Deus, na vida concreta, em qualquer sítio onde estivessem e no momento presente, (« aqui e agora » como se dizia).
E se falharem e não conseguirem, o que irá acontecer certamente, pedem a Jesus ajuda para recomeçar.

Pelo contrário, se ficarem satisfeitos em conhecer os princípios e as regras religiosas e morais, não veem a necessidade de mudar o seu modo de viver. Ao mesmo tempo andam preocupados com os outros, que esses sim, é importante que mudem de comportamento – corruptos, imorais, egoístas, materialistas…  

Jesus contou esta parábola aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, e a outros notáveis da religião e da vida pública, porque eram eles que mais se opunham aos ensinamentos e ao modo de viver de Jesus, que o fazia em nome de Deus.
No seu amor por estas pessoas que resistiam aos seus ensinamentos, Jesus fez todo o possível por os alertar para o caminho que estavam a seguir e a ensinar aos outros, como sendo o caminho oposto à vontade de Deus.  

Desses notáveis, conhecemos dois, Paulo de Tarso e Nicodemos que, graças a Jesus, «deram uma grande volta» às prioridades das suas vidas.
Afinal podemos dizer que Jesus, em nome de Deus Pai, veio pôr a religião «de pernas para o ar». 

E, a meu ver, ainda bem!

Que me dizem os meus caros leitores?

        frei Eugénio, op

        (27.09.2020)