2023-08-25

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 21º Domingo do Tempo Comum, 27 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

Evangelho (Mt. 16, 13-20)

Naquele tempo, Jesus foi para os lados de Cesareia de Filipe e perguntou aos seus discípulos: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?».
Eles responderam: «Uns dizem que é João Batista, outros que é Elias, outros que é Jeremias ou algum dos profetas».
Jesus perguntou: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
Então, Simão Pedro tomou a palavra e disse: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo».
Jesus respondeu-lhe: «Feliz de ti, Simão, filho de Jonas, porque não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus.
Também Eu te digo: tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na Terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na Terra será desligado nos Céus».
Então, Jesus ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias. 

 

DIÁLOGO


Neste relato do Evangelho, Jesus interroga os discípulos sobre o que é que a população judaica pensava sobre quem seria o «Filho do Homem», título usado para designar o Messias prometido, o Salvador que deveria libertar para sempre o povo com quem Deus tinha feito uma Aliança. E os apóstolos dão-lhe as opiniões mais frequentes.

Mas, de facto, o que mais interessava a Jesus era o que os seus seguidores e colaboradores mais próximos iriam responder à pergunta: «E vós, quem dizeis que Eu sou?».
 

A maior parte de nós, provavelmente começaria por dizer: «penso que és…» ou «parece-me que és…» ou «tenho que pensar antes de responder…».

Não nos seria fácil responder a esta pergunta tão direta, posta pelo próprio Jesus, e que implicaria verdade e transparência: «Tu, Jesus, para mim és…».

Simão, adiantando-se aos outros discípulos, respondeu «Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo».

Simão responde a Jesus manifestando a sua convicção que é Ele o Salvador anunciado e esperado, o Cristo de Deus.

Diz-lhe também que o reconhece como a pessoa mais próxima e íntima de Deus, «Filho de Deus», que vem revelar quem Ele é, e o que Ele quer para a humanidade e para a criação.

Jesus felicita Simão pela sua resposta, e lembra-lhe que foi o próprio Deus que permitiu que ele fizesse essa descoberta de quem Ele era.

Esta descoberta é de tal forma importante que tem por efeito transformar a pessoa e a sua orientação de vida.

Na Bíblia essa transformação é simbolicamente apresentada como uma mudança de nome: Abrão para Abraão, Saulo para Paulo, entre outros.

Jesus muda o nome de Simão para Pedro e dá-lhe uma missão em conjunto com os outros onze apóstolos.

Mas esta pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» continua a ser feita ao longo dos séculos…

Que ela tenha eco em cada um de nós …

Procuremos e saibamos saborear ocasiões de oração, diálogo e meditação, em confiança e liberdade, em que refletimos sobre quem é Jesus para nós e quem gostaríamos que fosse.

O próprio Jesus nos acompanhará nesse caminho.

Jesus não precisava de nos perguntar quem Ele é para nós, porque Ele sabe o que vai no nosso íntimo. Nós é que muitas vezes não sabemos.

Mas procurando responder, podemos, de facto, aproximar-nos mais de quem Ele é. Uma vez que a resposta é importante para nós próprios, devemos ser o mais verdadeiros possível.

Jesus espera a nossa resposta.

Frei Eugénio Boléo, OP
23.08.2020 


 

2023-08-19

DIálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 20º Domingo do Tempo Comum, 20 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

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Evangelho (Mt. 15, 21-28)

Naquele tempo, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e Sidónia.
Então, uma mulher cananeia, vinda daqueles arredores, começou a gritar: «Senhor, Filho de David, tem compaixão de mim. Minha filha está cruelmente atormentada por um demónio».
Mas Jesus não lhe respondeu uma palavra. Os discípulos aproximaram-se e pediram-Lhe: «Atende-a, porque ela vem a gritar atrás de nós».
Jesus respondeu: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel».
Mas a mulher veio prostrar-se diante dele, dizendo: «Socorre-me, Senhor».
Ele respondeu: «Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos».
Mas ela insistiu: «É verdade, Senhor; mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa de seus donos».
Então, Jesus respondeu-lhe: «Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas». E, a partir daquele momento, a sua filha ficou curada. 

 

DIÁLOGO

2023-08-13

Diálgo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 19º Domingo do Tempo Comum, 13 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 


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Evangelho (Mt. 14, 22-33)

Depois de ter saciado a fome à multidão, Jesus obrigou os discípulos a subir para o barco e a esperá-lo na outra margem, enquanto Ele despedia a multidão.
Logo que a despediu, subiu a um monte, para orar a sós. Ao cair da tarde, estava ali sozinho.
O barco ia já no meio do mar, açoitado pelas ondas, pois o vento era contrário.
Na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles, caminhando sobre o mar.
Os discípulos, vendo-O a caminhar sobre o mar, assustaram-se, pensando que fosse um fantasma. E gritaram cheios de medo.
Mas logo Jesus lhes dirigiu a palavra, dizendo: «Tende confiança. Sou Eu. Não temais».
Respondeu-Lhe Pedro: «Se és Tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas».
«Vem!», disse Jesus. Então, Pedro desceu do barco e caminhou sobre as águas, para ir ter com Jesus.
Mas, sentindo a violência do vento e começando a afundar-se, gritou: «Salva-me, Senhor!».
Jesus estendeu-lhe logo a mão e segurou-o. Depois, disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?».
Logo que subiram para o barco, o vento amainou.
Então, os que estavam no barco prostraram-se diante de Jesus, e disseram-Lhe: «Tu és verdadeiramente o Filho de Deus».

 

DIÁLOGO

 

 

2023-08-06

Diálgo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 18º Domingo do Tempo Comum (Festa da Transfiguração), 6 de agosto, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 


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Evangelho (Mt. 17, 1-9)

Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então, Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos».

DIÁLOGO

 

 

 

A transfiguração pintada por Fra Angélico numa cela do Convento de São Marcos, em Florença



 

2023-07-30

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 17º Domingo do Tempo Comum, 30 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

 

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Evangelho (Mt. 13,44-52)


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: «O Reino dos Céus é semelhante a um tesouro escondido num campo. O homem que o encontrou tornou a escondê-lo e ficou tão contente que foi vender tudo quanto possuía e comprou aquele campo.
O Reino dos Céus é semelhante a um negociante que procura pérolas preciosas.
Ao encontrar uma de grande valor, foi vender tudo quanto possuía e comprou essa pérola».
O Reino dos Céus é semelhante a uma rede que, lançada ao mar, apanha toda a espécie de peixes.
Logo que se enche, puxam-na para a praia e, sentando-se, escolhem os bons para os cestos, e o que não presta deitam-no fora.
Assim será no fim do mundo: os Anjos sairão a separar os maus do meio dos justos
e a lançá-los na fornalha ardente. Aí haverá choro e ranger de dentes.
Entendestes tudo isto?». Eles responderam-Lhe: «Entendemos».
Disse-lhes então Jesus: «Por isso, todo o escriba instruído sobre o Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e coisas velhas».

DIÁLOGO


2023-07-22

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 16º Domingo do Tempo Comum, 23 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui. (ainda não disponível)

 

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EVANGELHO (Mt. 13, 24 - 43)

Naquele tempo, Jesus disse às multidões mais esta parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se a um homem que semeou boa semente no seu campo.
Enquanto todos dormiam, veio o inimigo, semeou joio no meio do trigo e foi-se embora.
Quando o trigo cresceu e começou a espigar, apareceu também o joio.
Os servos do dono da casa foram dizer-lhe: "Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem então o joio?".
Ele respondeu-lhes:"Foi um inimigo que fez isso". Disseram-lhe os servos: "Queres que vamos arrancar o joio?".
"Não!", disse ele, "não suceda que, ao arrancardes o joio, arranqueis também o trigo.
Deixai-os crescer ambos até à ceifa e, na altura da ceifa, direi aos ceifeiros: Apanhai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimar; e ao trigo, recolhei-o no meu celeiro"».
Jesus disse-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo.
Sendo a menor de todas as sementes, depois de crescer, é a maior de todas as plantas da horta e torna-se árvore, de modo que as aves do céu vêm abrigar-se nos seus ramos».
Disse-lhes outra parábola: «O Reino dos Céus pode comparar-se ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado».
Tudo isto disse Jesus em parábolas, e sem parábolas nada lhes dizia,
a fim de se cumprir o que fora anunciado pelo profeta, que disse: «Abrirei a minha boca em parábolas, proclamarei verdades ocultas desde a criação do mundo».
Jesus deixou então as multidões e foi para casa. Os discípulos aproximaram-se dele e disseram-Lhe: «Explica-nos a parábola do joio no campo».
Jesus respondeu: «Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem,
e o campo é o mundo. A boa semente são os filhos do Reino, o joio são os filhos do Maligno,
e o inimigo que o semeou é o Diabo. A ceifa é o fim do mundo, e os ceifeiros são os anjos.
Como o joio é apanhado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo:
o Filho do homem enviará os seus anjos, que tirarão do seu Reino todos os escandalosos e todos os que praticam a iniquidade,
e hão de lançá-los na fornalha ardente; aí haverá choro e ranger de dentes.
Então os justos brilharão como o sol no Reino do seu Pai. Quem tem ouvidos, oiça». 

DIÁLOGO


2023-07-15

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 15º Domingo do Tempo Comum, 16 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

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EVANGELHO (Mt. 13, 1 - 9)

Naquele dia,
Jesus saiu de casa e foi sentar-Se à beira-mar.
Reuniu-se à sua volta tão grande multidão
que teve de subir para um barco e sentar-Se,
enquanto a multidão ficava na margem.
Disse muitas coisas em parábolas, nestes termos:
«Saiu o semeador a semear.
Quando semeava,
caíram algumas sementes ao longo do caminho:
vieram as aves e comeram-nas.
Outras caíram em sítios pedregosos,
onde não havia muita terra,
e logo nasceram porque a terra era pouco profunda;
mas depois de nascer o sol, queimaram-se e secaram,
por não terem raiz.
Outras caíram entre espinhos
e os espinhos cresceram e abafaram-nas.
Outras caíram em boa terra e deram fruto:
umas, cem; outras, sessenta; outras, trinta por um.
Quem tem ouvidos, oiça».

DIÁLOGO

São Mateus organizou o seu evangelho como “um drama sobre a vinda do Reino de Deus”.
No capítulo 13, que estamos a começar a ler apresenta-nos sete parábolas sobre o Reino de Deus já presente entre nós, começando por esta “parábola do semeador”.

Jesus começa por dizer: “Saiu o semeador a semear” e logo cativa a atenção dos seus ouvintes, que conhecem bem esse gesto tão cheio de ritmo do semeador, que começa por meter a mão no saco que leva a tiracolo e em seguida, num largo gesto, lança as sementes ao ar até onde chega a sua força, para que elas se espalhem na terra.

Com esse gesto amplo, algumas sementes vão também cair nos caminhos de terra batida ou empedrados e nos sítios pedregosos ou espinhosos que ladeiam os campos.
O semeador deseja que as sementes sejam de boa qualidade e espera vir a ter uma colheita abundante.
As sementes que caem nos caminhos e que são comidas pelos pássaros, nada produzem, e o resultado nelas é o insucesso.

As que caem nos sítios pedregosos ainda crescem um pouco,
mas também não dão qualquer fruto. Outro insucesso.

E as que caem entre os espinhos e até parecem crescer bem,
mas que serão abafadas são também outro insucesso.

Mas a parábola tem “um final feliz” pois as sementes são boas e a terra também, e o semeador terá uma boa produção.

Os insucessos que entristecem, as contrariedades que desanimam, os ambientes que abafam as boas intenções,
fazem parte da sementeira.

Mas o final feliz da parábola vai fortalecer a esperança,
vai encorajar a não desistir, vai dar força para se ser persistente, pois o bom resultado será alcançado, apesar dos insucessos.

Segundo o evangelista São Mateus, Jesus conta esta parábola
e as outras seis sobre a vinda do Reino de Deus, quando a sua vida e pregação estão a encontrar as maiores oposições
e quando a sua condenação, tortura e morte na cruz,
já estão a ser planeadas.

É também a altura em que muitos discípulos O abandonam e mesmo entre os mais próximos, alguns ficam cheios de dúvidas e de desânimo.

A parábola do semeador vai dar esperança e vai reforçar a confiança no Amor de Deus e do Seu Reinado.
Por outro lado, é bom termos presente que a imagem dos terrenos onde caem as sementes se refere ao nosso íntimo, ao nosso ‘coração’ em linguagem bíblica, o centro de nós mesmos, fonte do pensamento, da vontade e dos sentimentos.
 
Jesus faz, por assim dizer, uma «radiografia espiritual» do nosso coração, que é o terreno sobre o qual a semente da Palavra cai, como disse o Papa Francisco numa homilia.

Jesus veio lançar as sementes da sua Boa Notícia da presença
do Reino de Deus no meio de nós, mas que ainda está longe
do mundo completamente renovado, que Ele promete
para o final dos tempos, em nome do Seu Pai.
É o Reino já presente, mas ainda não totalmente realizado.
 
Gostaria de chamar a atenção para uma interpretação muito comum desta parábola e que nos pode ocultar a beleza e a força desta parábola do semeador.
Nessa interpretação, em vez de olharmos para dentro de nós para vermos onde estão a cair as sementes da Palavra de Deus, considera que é fora de nós e à nossa volta que há esses terrenos improdutivos.

Olhamos para as pessoas conhecidas ou próximas e dizemos
ou pensamos que andam pelos caminhos e por isso se tornaram ateus ou completamente indiferentes ao Evangelho.
Outros, são os que estão nos terrenos pedregosos e que se desiludiram com o Catolicismo e se afastaram da prática religiosa.
Olhamos para outros que são os que os espinhos abafaram,
por se preocuparem sobretudo em seguir o que a sociedade e o modo de pensar atual valorizam, mesmo se for contra a Palavra de Deus.
E por fim, nós, somos a boa terra que produz conforme conseguimos.

Porque é que esta interpretação na qual nos comparamos com outros, nos pode afastar da intenção de Jesus?

Jesus, no seu anúncio do Reino de Deus já presente, deseja que cada um de nós descubra que os quatro terrenos estão dentro de nós
e que, segundo as situações, podemos mudar de terreno,
passar duma atitude à outra, sem nos apercebermos.
Para podermos sair dessas situações improdutivas e assim nos convertermos, devemos ter os ouvidos do ‘coração’ disponíveis para receber a Palavra de Deus, escutando-a, guardando-a, rezando-a  e procurando pô-la em prática.

A comparação com outros afasta-nos da verdadeira conversão.

Caros leitores, Jesus convida-nos hoje a olhar para dentro de nós, com a esperança de podermos colaborar com o Seu Amor para que o Seu Reino esteja mais presente entre nós.
                
frei Eugénio, dominicano

 


2023-07-08

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 14º Domingo do Tempo Comum, 9 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.



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EVANGELHO (Mt. 11, 25 - 30)

Naquele tempo, Jesus exclamou: «Eu Te bendigo, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas verdades aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos.
Sim, Pai, Eu Te bendigo, porque assim foi do teu agrado.
Tudo Me foi dado por meu Pai. Ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar.
Vinde a Mim, todos os que andais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.
Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».


DIÁLOGO

Esta página do Evangelho é um condensado de ensinamentos belíssimos.
Jesus dá graças a Deus-Pai, pois o que os mais cultos não conseguem compreender, entendem-no os que estão mais disponíveis para aprender e que aceitam mais facilmente mudar de atitude e de opinião. São aqueles que podemos considerar como ignorantes, mas que têm uma sabedoria que lhes permite entender a Boa Nova de Jesus.    

A primeira parte do texto do Evangelho de hoje apresenta-nos uma mensagem clara: Jesus contrapõe os sábios e os cultos aos humildes e aos simples.
Os discípulos deverão ser pessoas simples, humildes, capazes de aprender com Jesus e de conservar no seu íntimo o que aprenderam.  
Não se concentram nas suas capacidades pessoais,
nem se colocam acima dos que não possuem os seus conhecimentos.
O modelo é o próprio Jesus, que sempre se dirigia aos outros pondo-se ao mesmo nível de cada um, e não de cima para baixo, como quem sabe muito que se dirige a quem sabe pouco ou quase nada sobre o assunto a abordar.

É entrando numa atitude de humilde disponibilidade que a porta do nosso coração se abre.
Jesus, o Filho amado do Pai, pode levar-nos a segui-lo até ao Coração de Deus, pois "ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho e aqueles a quem o Filho o quiser revelar".

Jesus tem uma tal intimidade com Deus-Pai que tem a possibilidade de nos dizer da parte de Deus quem Ele é, e o que Ele quer, isto é, qual é a Sua Vontade.
 E é sempre na sua humanidade que Ele nos revela a sua divindade.

Esta "revelação" sobre os pequeninos não significa que devemos rejeitar a reflexão e os conhecimentos humanos.
Não! O contraste marcante que Jesus apresenta tem simplesmente o objetivo de nos mostrar onde se encontram os "verdadeiros sábios" e os "verdadeiros doutores".
São as pessoas que sabem reconhecer os seus limites diante de Deus, aqueles que se sentem muito pequenos diante do mistério da imensidade de Deus.

Conta-se que, no final da sua vida, um grande sábio e erudito, São Tomás de Aquino, que ensinou teologia e escreveu muitos livros, disse que todas as suas aulas e escritos não eram nada em comparação com o seu encontro pessoal e místico com Deus: "Tudo o que escrevi é uma palha em comparação com o que me foi revelado".

Voltemos ao texto do Evangelho.
A segunda parte merece também a nossa atenção, porque traz uma mensagem bem vinda à nossa vida, por vezes tão agitada.

Que mensagem é essa?
Jesus utiliza uma imagem bem conhecida dos seus ouvintes para lhes fazer compreender que podem sempre contar com Ele e que Ele carrega consigo os nossos “fardos”, os nossos problemas e as nossas questões.
A imagem escolhida é a de um jugo. Esta palavra é mais utilizada hoje em dia em sentido figurado.
Exprime uma autoridade que esmaga, ou problemas que pesam demasiado sobre nós.
Mas no seu sentido de objeto real, a palavra “jugo” designa um instrumento, geralmente de madeira, que une pelo pescoço dois bois para puxar um arado, por exemplo, ou uma outra carga qualquer.
Assim, os dois animais coordenam-se e ajudam-se mutuamente na sua ação.
É esta a imagem que Jesus tinha em mente quando disse:
“Tomai sobre vós o meu jugo
e aprendei de Mim,
que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para as vossas almas.
Porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve».

Assim, as nossas dores e problemas, não desaparecem das nossas vidas e do nosso mundo, mas passam a ter um peso muito diferente, se tivéssemos de os carregar sozinhos.
Assim como os dois animais se ajudam mutuamente e suportam cargas muito mais pesadas, também nós, se tivermos confiança no Amor de Deus, que está presente "no coração das nossas vidas", teremos uma coragem e uma esperança nunca imaginadas.

A primeira e mais importante obrigação é a da lei do Amor.
Deus-Pai enviou Jesus, Seu Filho, para nos revelar que Ele é um Deus de Amor.
O seu nome é AMOR.

Na comunidade ecuménica de Taizé, em França,
na liturgia há em certas celebrações um gesto cheio de significado e que nos toca profundamente
Uma grande cruz é deitada no chão apenas levantada por uma grande almofada.
Os participantes são convidados a sair dos lugares onde estão na igreja e a dirigir-se até à cruz.
Aí chegados, baixam-se, habitualmente ajoelhando-se, para poisar a cabeça na cruz e assim ficar algum tempo, durante o qual entregamos a Jesus, em confiança e na fé, todos os nossos “mais pesados fardos”: tudo o que nos aflige, que nos preocupa muito, que não conseguimos carregar por nós próprios.
Além da fé, a própria atitude física, de inclinados profundamente, apoiando a nossa cabeça na cruz, opera em nós uma forte sensação de “descarga dos fardos” em Jesus, de braços abertos na cruz.

Nesta belíssima celebração, se acreditamos no que Jesus nos prometeu, de estar disponível para carregar sobre Si todos os nossos fardos, mesmo os mais pesados, podemos pôr em prática, na fé e na confiança, o que Ele nos prometeu.

        frei Eugénio, dominicano

2023-07-01

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 13º Domingo do Tempo Comum, 2 de julho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.


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EVANGELHO (Mt. 10, 37 - 42)

«Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim,

não é digno de Mim;

e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim,

não é digno de Mim.

Quem não toma a sua cruz para Me seguir,

não é digno de Mim.

Quem encontrar a sua vida há-de perdê-la;

e quem perder a sua vida por minha causa, há-de encontrá-la.

Quem vos acolhe, a Mim acolhe;

e quem Me acolhe, acolhe Aquele que Me enviou.

Quem acolhe um profeta por ele ser profeta,

receberá a recompensa de profeta;

e quem acolhe um justo por ele ser justo,

receberá a recompensa de justo.

E se alguém der de beber,

nem que seja um copo de água fresca,

a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo,

em verdade vos digo: não perderá a sua recompensa».


DIÁLOGO

Acabámos de ler a parte final do chamado «discurso missionário»

no Evangelho de Mateus (Mt. 10, 37-42).

Esta parte do «discurso» não é dirigida aos missionários, mas àqueles que os acolhem.

 

O acolhimento feito aos missionários é muito importante, pois Jesus diz que acolhê-los é como acolher o próprio Jesus Messias («Cristo») e mais ainda: “quem Me acolhe, acolhe Aquele que Me enviou.”, isto é, Deus Pai (Mt. 10, 40).

 

Nesta tão curta passagem, a palavra «acolher» aparece seis vezes «Acolher» torna-se uma atitude-chave para quem quer ser seguidor de Jesus.

 

Acolher os missionários, não é apenas recebê-los educadamente em suas casas.

Acolher não consiste apenas em abrir as portas da casa aos missionários.

 

Um missionário não é um "vendedor", um portador de uma mensagem.

Quem os recebe, recebe o Senhor Jesus em pessoa, e até, recebendo o Filho, recebe também Deus-Pai.

 

Aqui, Jesus convida-nos a correr o risco de nos deixarmos transformar pelos outros.

 

Em primeiro lugar, por aqueles a quem Ele chama os mais pequenos:

o deficiente de quem cuidamos, o idoso que visitamos, o adolescente que se procura a si mesmo, o refugiado que chega, o ferido que foi atingido na carne, o sem-abrigo e outros socialmente mais desconsiderados.

 

O discípulo de Jesus aceita ver Jesus que o chama nesse «pequeno», nessa pessoa ferida, nessa pessoa que precisa d’Ele.

É Jesus que nos chama e que nos pede a nossa ajuda.

 

E assim, ao acolhê-los, estamos a acolher Jesus e Àquele que o enviou, como diz a passagem do Evangelho que lemos.

 

Tem sobretudo a ver com o abrir o coração à mensagem de que eles são portadores.

 

Como podemos ver, tornamo-nos dignos de Jesus não apenas ouvindo as suas palavras, a sua mensagem, mas aceitando que Ele seja o Mestre das nossas vidas, permitindo que Ele entre nelas e que as oriente.

 

Por detrás dos missionários e com eles está Jesus que os enviou.

Acolher os anunciadores não é fácil, porque o anúncio de que são portadores provoca divisões nos que os acolhem, porque o que anunciam exige que eles se deixem transformar também a eles próprios como anunciadores.

Acolher Jesus e os seus enviados é aceitar viver com um fogo dentro de nós, que a Palavra de Deus nos provoca.

 

Isto estava bem presente numa tradição que amigos meus canadianos francófonos me contaram que havia no Québec, no Canadá, até aos começos do século XX.

 

As famílias deixavam sempre junto à porta de entrada da casa, um banco que se transformava em cama para receber os pedintes que apareciam. Chamavam a esta cama improvisada o "banco do mendigo".

 

Então, no dia do julgamento, como nos relata o evangelista Mateus (Mt. 25, 34-40), Jesus Ressuscitado «separará os homens uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos, e porá as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda». 

Então dirá: «Vinde benditos de Meu Pai, porque tive fome e destes-me de comer; tive sede e destes-me de beber; era peregrino e acolhestes-me; estava nu e vestistes-me; adoeci e visitastes-me; estive na prisão e fostes ter comigo!»

«Em verdade vos digo: cada vez que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes».

É isto que desejo para cada um e todos nós.

 

        frei Eugénio, dominicano


 

2023-06-24

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum, 25 de junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.


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EVANGELHO (Mt. 10, 26 - 33)

Naquele tempo, disse Jesus aos seus apóstolos: «Não tenhais medo dos homens, pois nada há encoberto que não venha a descobrir-se, nada há oculto que não venha a conhecer-se.
O que vos digo às escuras, dizei-o à luz do dia; e o que escutais ao ouvido, proclamai-o sobre os telhados.
Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes Aquele que pode lançar na geena a alma e o corpo.
Não se vendem dois passarinhos por uma moeda? E nem um deles cairá por terra sem consentimento do vosso Pai.
Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados.
Portanto, não temais: valeis muito mais do que todos os passarinhos.
A todo aquele que se tiver declarado por Mim diante dos homens, também Eu Me declararei por ele diante do meu Pai que está nos Céus.
Mas àquele que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante do meu Pai que está nos Céus».

 

DIÁLOGO


 

 

2023-06-17

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do 11º Domingo do Tempo Comum, 18 de junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.


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EVANGELHO (Mt. 9, 36 - 38.10, 1-8)

Naquele tempo, Jesus, ao ver as multidões, encheu-Se de compaixão, porque andavam fatigadas e abatidas, como ovelhas sem pastor. Jesus disse então aos seus discípulos:
«A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos.
Pedi ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara».
Depois chamou a Si os seus doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos impuros e de curar todas as doenças e enfermidades.
São estes os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão;
Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;
Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que foi quem O entregou.
Jesus enviou estes doze, dando-lhes as seguintes instruções: «Não sigais o caminho dos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos.
«Ide primeiramente às ovelhas perdidas da casa de Israel. Pelo caminho, proclamai que está perto o Reino dos Céus».
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, sarai os leprosos, expulsai os demónios. Recebestes de graça, dai de graça.

 

DIÁLOGO

Durante três domingos, o que lemos hoje e os dois próximos, ouviremos o chamado «Discurso missionário» no Evangelho de Mateus.

Tudo começa pela compaixão de Jesus que é expressa numa palavra grega que implica um movimento visceral, maternal, de Jesus à vista das pessoas cansadas e abatidas «como ovelhas sem pastor» uma maneira muito bíblica que exprime a dispersão, o desalento,  a desilusão das pessoas.
É a mesma comoção interior que encontramos noutras circunstâncias: na cena da viúva de Naïm, na parábola do bom samaritano; na parábola do pai que tem dois filhos com atitudes opostas e que os acolhe a ambos cheio de misericórdia.
É sempre com a mesma maneira de ver os outros, enternecida e comovida, que Jesus diz aos seus discípulos: «A seara é grande,
mas os trabalhadores são poucos. Pedi ao Senhor da seara
que mande trabalhadores para a sua seara».
 
A seara a que Jesus se refere é aquela que já está no momento da colheita e não na ocasião da sementeira.
Não se trata dum tempo de espera e de expectativa, mas da realização do Reino de Deus, com a vinda do Messias.
 
É neste contexto que Jesus envia em missão os seus doze apóstolos, chamados cada um pelo seu nome.
Eles ficam fortemente ligados a Jesus, através da autoridade que lhes é dada e que é sempre de Jesus. Também ficam ligados a Jesus que os envia e pelo que eles devem anunciar: “Pelo caminho, proclamai que está perto o reino dos Céus.
Curai os enfermos, ressuscitai os mortos,
sarai os leprosos, expulsai os demónios”.
 
Jesus chama os doze, dá-lhes autoridade e envia-os.
A autoridade não é uma característica própria dos doze, ela é dada por Jesus e ela é recebida também da fonte, que é Jesus.
A autoridade destina-se a libertar as pessoas da influência dos espíritos impuros e a curá-las.
 
Expulsar os espíritos maus não é nem mais eficaz nem menos credível que as curas psicanalíticas do nosso tempo.
 
O envio é para anunciar que o Reino dos Céus já está próximo e que é preciso ir à procura das ovelhas perdidas para que o mundo fique cheio de paz e de esperança.
 
A missão não é resguardar-se no seu grupo de pertença e a partir daí, fazer propaganda religiosa.
A missão implica sair de si, mudar de situação e de atitude.
Implica ir à procura do outro que está perdido em uma qualquer margem da vida, e acolhê-lo e cuidar dele.
 
Tudo isto que se passou com os doze apóstolos, também se refere aos que, como nós, queremos ser discípulos de Jesus nos nossos dias e que gostaríamos de pôr em prática, com entusiasmo, este discurso missionário.
Que à nossa volta as pessoas possam descobrir que ninguém fica fora do Amor de Jesus de Nazaré.
 
         frei Eugénio, dominicano

2023-06-10

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do dia do Corpo de Deus, 8 de junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 


EVANGELHO (Mt. 9, 9-13)

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que Eu hei de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo».
Os judeus discutiam entre si: «Como pode Ele dar-nos a sua carne a comer?».
E Jesus disse-lhes: «Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e Eu o ressuscitarei no último dia.
A minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida.
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele.
Assim como o Pai, que vive, Me enviou e Eu vivo pelo Pai, também aquele que Me come viverá por Mim.
Este é o pão que desceu do Céu; não é como o dos vossos pais, que o comeram e morreram: quem comer deste pão viverá eternamente».
Assim falou Jesus, ao ensinar numa sinagoga, em Cafarnaum.

 

DIÁLOGO

 

A EUCARISTIA é importante. Não é uma invenção da Igreja.

Foi o próprio Jesus que disse na Última Ceia: “FAZEI ISTO EM MEMÓRIA DE MIM.” (Lc. 22,19)

 

Neste diálogo que temos hoje convosco, vamos propor-lhes algumas ajudas práticas para se viver a Eucaristia dos Domingos de modo mais significativo e enriquecedor espiritualmente.

 

A Missa deve ser preparada antes, vivida durante, continuada depois.

 

Porquê?

 

1- Porque a Palavra de Deus, sobretudo os Evangelhos, são demasiado ricos em ensinamentos sobre o modo de viver com o estilo de Jesus, que merece ser bem preparada e vivida

 

2- A Eucaristia é a ocasião mais propícia em cada semana, para apresentarmos ao Senhor  os nossos principais arrependimentos, as nossas maiores preocupações, os nossos felizes agradecimentos.

Para o fazermos a partir da nossa vida concreta é preciso termos feito uma preparação anterior.

 

Sem ela, os momentos da Missa sucedem-se sem termos tido tempo de pensar o que queremos ter presente do que vivemos durante a semana.

Habitualmente, quando vamos a uma festa familiar ou entre amigos, pensamos no que vamos levar que dê gosto a quem nos convida.

Quando vamos ter uma reunião profissional importante preparamo-nos tendo em conta quem vai estar presente e estudamos o que se irá tratar.

 

Para preparar a Missa comecemos por marcar na nossa agenda a melhor altura da semana para o fazer. É sobretudo essencial para quem é muito ocupado!

 

No começo do momento da preparação peçamos ao Espírito Santo que nos ajude. Sugerimos uma breve oração:

“Ó Espírito Santo dá-me a Tua Sabedoria e o Teu Amor para bem preparar esta Eucaristia e para que o faça com gosto. Amen”

 

O que posso preparar antes de ir à Missa:

 

1-Comecemos pela Palavra de Deus

Das leituras propostas pelo calendário litúrgico, comecemos por ler o Evangelho. Das duas ou três leituras é a mais importante.

 

Ao ler tenhamos em atenção algumas questões simples:

O que se passa e quem intervêm na passagem lida?

Encontro hoje situações semelhantes às que são  narradas?

O texto levanta-me alguma dúvida ou interrogação à minha fé?

 O texto dá-me alguma resposta a dúvidas ou interrogações que tinha?

 

2-Para o Rito Penitencial, preparo o que irei pedir perdão ao Senhor.

Penso no que durante a semana posso ter feito ou pensado de mal doutras pessoas, com maior insistência ou mesmo provocando sofrimento.

Também o que devia ter feito de bem, importante para algumas pessoas e que não fiz.

 

3-Para a Oração dos Fiéis, penso nas diversas pessoas, situações ou acontecimentos pelos quais mais quero pedir.

 

4-Para o momento de Ação de Graças, agradeço ao Senhor o que de mais especial me foi dado durante a semana?

 

O que posso viver durante a Missa:

 

Podemos estar na Eucaristia como simples espetadores do que se está a passar no altar e à nossa volta e nesse caso só estamos fisicamente presentes.

Mas também podemos estar a participar interiormente, pondo lá aspetos da nossa vida, tal como como o que preparámos.

Também devemos rezar e cantar com a assembleia e estarmos atentos ao que o celebrante tem para nos dizer.

 

Se “vivermos” assim a Eucaristia e participarmos mais nela, esses momentos de encontro com Deus e connosco próprios tornar-se-ão um verdadeiro acontecimento

 

Missa continuada depois:

 

A Eucaristia pode não terminar à saída da igreja, se levarmos

- Algum propósito pessoal para melhorarmos durante a semana;

- Alguma atitude concreta de amor ao próximo;

- Persistência na oração diária.

 

Se pusermos em prática esta maneira de fazer que aqui partilhamos convosco:

- Prepararmos antes para levar a vida para a Missa;

- Vivermos durante a Missa o que preparámos;

- Levar para a vida o que vivemos na Missa

        a Eucaristia deixará de ser uma rotina e tornar-se-á num momento importante cheio das nossas vidas concretas.

 

      frei Eugénio, dominicano

 

2023-06-03

Diálogo com o Evangelho

Diálogo com o Evangelho do Domingo da Santíssima Trindade, 4 de junho, por Frei Eugénio Boléo, no programa de rádio da RCF "Construir sur la roche". Pode ouvir aqui.

 


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EVANGELHO (Jo. 3, 16-18)

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita nele não pereça, mas tenha a vida eterna.
Porque Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele».
Quem acredita nele não é condenado, mas quem não acredita nele já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus».

 

DIÁLOGO 

Permitam-me que partilhe convosco o que aconteceu com Santo Agostinho. 

 

Conta-se que ele especulou durante muito tempo sobre o mistério da Santíssima Trindade, utilizando todos os recursos filosóficos e linguísticos que conhecia bem, pois era professor de retórica, mas sem conseguir avançar muito no assunto. 

 

Depois de muito refletir, decidiu dar um passeio na praia junto ao mar Mediterrâneo. 

 

De repente, avistou um rapaz que tinha cavado um buraco na areia da praia e que ia buscar água do mar com uma concha para a deitar no buraco que tinha feito.

 

O comportamento do rapaz intrigou Santo Agostinho, que lhe perguntou:

«Caro rapaz, que estás a fazer?»

«Quero deitar toda a água do mar no meu buraco.»"

«Mas isso não é possível", respondeu Santo Agostinho,

«O mar é imenso e o buraco que fizeste é muito pequeno.»

 

O rapaz respondeu-lhe:

"Mas eu vou conseguir deitar toda a água do mar no meu buraco

 antes que o senhor consiga compreender o mistério da Santíssima Trindade.»

 

Então o rapaz desapareceu.

 

Santo Agostinho apercebeu-se que se tratava de um anjo que tinha tomado a forma de um rapaz para o ajudar a descobrir que não lhe era possível compreender o mistério da Santíssima Trindade.

 

Embora Santo Agostinho seja reconhecido como uma das mentes mais brilhantes que a humanidade conheceu, há mistérios, ou seja, verdades divinas reveladas, que ele nunca conseguiria compreender plenamente.

 

Como é que se pode abordar o inacessível?

 

Como imaginar o inimaginável?

 

A solenidade da Santíssima Trindade levanta estas questões.

 

A Escritura ajuda-nos muito na nossa busca de Deus, não porque nos dê respostas claras, mas precisamente porque não as dá.

 

O Evangelho de hoje alarga a nossa perceção da imagem divina

 

Em primeiro lugar, embora estejamos habituados a encontrar em João 3,16: «Deus amou tanto o mundo», alguns estudiosos da Bíblia sugerem uma tradução ligeiramente diferente;

 

"Porque foi assim que Deus amou o mundo".

 

Este modo de traduzir, tem uma nuance muito subtil: não se referindo à quantidade muito grande do Amor, mas sim ao modo como Deus ama, dizendo-nos que Deus ama “entregando o Seu Filho Unigénito.”

 

Cada momento da vida de Jesus manifestou como Deus ama as pessoas neste mundo.

 

Esta festa celebra o Amor de Deus revelado em Jesus e convida-nos a deixar que o Espírito de Deus atue em nós e entre nós.

 

O Deus dos cristãos é um Deus que ama pessoas reais em tempo real.

Falar da Trindade leva-nos àquela que é a crença mais misteriosa do cristianismo.

 

Embora o Novo Testamento não desenvolva verdadeiramente um conceito trinitário de Deus, Jesus introduziu subtilmente o conceito de Trindade referindo-se à sua relação com o Pai e na sua promessa do envio do Seu Espírito.

 

Podemos também dizer que esta festa centra a nossa atenção na auto-revelação de Deus, como sendo só Amor e como vivendo profundamente envolvido com toda a humanidade.

 

Esta festa convida-nos a contemplar a profundidade do Amor de Deus e o Seu desejo de nos atrair todos à Sua Vida Divina.

 

Não podemos nomear adequadamente Deus, mas experimentamos o mistério inacessível que nos convida a nos maravilharmos e a nos aproximarmos cada vez mais d’Ele.

 

Através da Criação e da Revelação, podemos experimentar, das mais variadas maneiras, muito para lá do que podemos imaginar, como podemos participar na Vida de Deus.

 

Hoje podemos apreciar alguns vislumbres de Deus, como se fossem miniaturas, enquanto aguardamos com expectativa o dia em que "seremos semelhantes a Cristo, porque o veremos face a face" (1 João 3,2).

   

      frei Eugénio, dominicano